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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Edgar Allan Poe: uma mente brilhante




Edgar Allan Poe: uma mente brilhante
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais

É só isto, e nada mais.”
(O corvo, primeira estrofe. Tradução Fernando Pessoa)

Jordi Sierra i Farra é catalão, nasceu em Barcelona, na Espanha. Amante da música foi, inicialmente, crítico musical. A partir de 1980, resolveu dedicar-se à literatura para jovens e já publicou cerca de 260 títulos. Em 2004, criou a Fundación Jordi Sierra i Fabra, na Espanha, e a Fundación Taller de Letras Jordi Sierra i Fabra para América Latina, na Colômbia. As duas fundações desenvolvem trabalhos sociais destinados aos jovens na área de promoção da leitura.
Jordi Sierra i Fabra vem publicando biografias romanceadas de grandes autores da literatura mundial. O livro Kafka e a boneca viajante (Ed. Martins Fontes, 2008) foi muito bem recebido pela crítica e ganhou o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil em 2007, concedido pelo Ministério de Cultura da Espanha. No Brasil, o livro foi traduzido por Rubia Prates Goldini e conseguiu o prêmio FNLIJ, 2009, como a Melhor Tradução para Jovem. Um comentário sobre este livro se encontra em “Livros à espera do leitor” (2009: 55-58).
Agora, o escritor catalão volta à temática da biografia romanceada e presenteia os leitores com o livro Poe: a vida brilhante e sombria de um gênio. José Rubens Siqueira foi responsável pela tradução e as ilustrações ficaram a cargo de Alberto Vásquez. O selo é da editora Ática, 2011.
Dividido em 10 capítulos, o leitor acompanha a trajetória de Poe, da infância aos últimos dias de sua vida, uma vida marcada por mortes prematuras de familiares, decepções amorosas e privações financeiras.
Edgar Allan Poe perdeu sua mãe quando contava apenas três anos. A mãe era uma artista de teatro e morreu aos 24 anos de tuberculose. O pai havia abandonado a família e Edgar, que era o segundo filho, foi adotado pelo casal John e Frances Allan. Com a adoção, o menino ganhou o nome de Edgar Allan Poe.
O menino Edgar, parafraseando a Bíblia, crescia em graça e sabedoria. Nas festas de aniversário, recitava A balada do último menestrel, obra do escritor Walter Scott. Era um poema muito popular na época. Todos olhavam encantados para aquela criança que revelava, desde muito cedo, pendores para a arte literária.
Quando estava com seis anos, a família dos pais adotivos viajou para a Escócia, terra do Sr. John Allan, e o menino acompanhou o casal. Durante os cinco anos de permanência na Escócia e em Londres, passou por três escolas e começou a escrever poemas. Como os negócios iam mal, John Allan resolveu voltar para os Estados Unidos.
Fixando-se em Richmond, Poe foi estudar na escola particular de Joseph Clarke, um professor irlandês irritadiço, mas amante do latim, língua utilizada em suas aulas. E foi a este professor que John Allan mostrou os primeiros poemas escritos pelo filho adotivo com o objetivo de saber se os poemas tinham algum valor e se podiam ser publicados. O professor desaconselhou a publicação dos poemas, alegando que o jovem poeta tinha apenas 11 anos, faltava-lhe amadurecimento literário.
Aos 14 anos, Poe apaixonou-se por Jane Stanard, uma senhora casada, 16 anos mais velha do que o futuro escritor. Foi um amor platônico que durou pouco. Jane Stanard gostava de conversar com o adolescente. Escutar a voz daquela mulher encantadora era algo fascinante. Conversavam sobre arte e literatura. Poe revelou certa vez:
“- Quero ser poeta, minha senhora”. (p.24)
Mas a vida de Edgar Allan Poe parecia marcada pelo fantasma da morte. Jane Stanard foi acometida de um tumor cerebral e, de repente, em apenas um ano, “Todas aquelas tardes de confissões, todos aqueles momentos mágicos, todos aqueles minutos, horas, dias...” (p.24) desapareceram para nunca mais. No túmulo de Jane Stanard, estava escrito na lápide: “Amada com devoção por seu esposo e filhos”. (p. 25) No silêncio, amargurado, triste com a partida da mulher amada, o jovem poeta repetiu baixinho: “E por Edgar Allan Poe”. (p.25)
O tempo tudo cura e Poe estava novamente apaixonado. A moça era uma vizinha, Elmira Royster, 15 anos, um ano mais velha do que Poe. Nova separação, desta vez por causa dos estudos. O pai resolveu colocar o filho para estudar em Charlottesville. Pouco tempo depois, morreu a mãe adotiva e Edgar estava novamente órfão. Órfão do carinho e das atenções de Frances Allan. Quando veio passar as férias em casa, outro golpe. Seu pai sentenciou:
“- Você não volta para a universidade”. (p. 28)
A partir desta data, começou a luta para conseguir emprego. Trabalha em jornais e revistas dos Estados Unidos, mas o que ganha é insuficiente para pensar em casamento. Mesmo assim, casa-se com a prima Sissy, esse fato não diminuiu as dificuldades financeiras. Em 1838, não era mais um desconhecido, era autor de alguns dos melhores contos publicados pela imprensa americana e um crítico muito ousado, mas nada parecia dar certo para aquele escritor inovador, iniciador de uma batalha contra o conservadorismo na literatura. A doença e morte da mulher, suas brigas constantes com os editores de jornais e revistas, tornou-o depressivo.
Edgar Allan Poe é considerado um mestre do conto, pai das narrativas psicológicas e de terror, precursor da literatura policial e da ficção científica, renovador do romance gótico e pioneiro da literatura americana. Sua influência se estende a escritores como Kafka, Borges, Lovecraft e Ray Bradbury. Foi uma mente brilhante.
Poe: a vida brilhante e sombria de um gênio traz ilustrações em preto e branco de corvos de tamanhos variados. Alguns tomam a página inteira, outros são minúsculos. Corpos de homens com cabeças de corvos promovem um encontro com o famoso poema de Edgar Allan Poe – The Raven.
O livro apresenta trechos do poema “O Corvo” (tradução de Fernando Pessoa), e trechos dos seguintes contos e poemas: “Manuscrito encontrado numa garrafa”, “A queda da casa de Usher”, “A máscara da Morte Escarlate”, “Ligeia”, “O coração denunciador”, “Os fatos no caso de monsieur Valdemar”
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