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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Drummond para todos

                        DRUMMOND PARA TODOS
            (Neide Medeiros Santos - Leitora Votante FNLIJ/PB)

                        Se eu morrer, morre comigo
                        um certo modo de ver.
                        Tudo foi prêmio do tempo
                        e no tempo se converte.
                        (Carlos Drummond de Andrade. Desfile. In: A Rosa do Povo)

            Recebi da Editora Companhia Das Letras o livro “Nova Reunião: 23 livros de poesia” (2015), de Carlos Drummond de Andrade. É tanta poesia que não houve espaço para prefácio, apresentações, textos críticos, é poesia, da primeira até a última página e são mais de 900 páginas, poesia para “inundar a vida inteira”.

            Este ano completa 70 anos da publicação do livro “A Rosa do Povo”, o mais político de todos os livros de Drummond e um livro considerado marco na literatura brasileira. Nesta edição de 2015 se encontram todos os poemas que integram este livro.

            Para marcar os setenta anos da publicação do livro “A Rosa do Povo”, a TV. Senado apresentou no dia 31 de outubro o documentário “Drummond: Poeta do Vasto Mundo”, com a participação de professores, críticos literários que emitiram  opiniões sobre a poesia de Drummond. O documentário contou ainda com atores e declamadores recitando os poemas mais expressivos do poeta. Este documentário está disponível na internet. Vale a pena conferir.
  
            Em 1969, Drummond publicou “Reunião” em um único volume que reunia dez livros. Em 1983, surgiu “Nova Reunião”, com dezenove títulos, esta agora em 2015 é mais completa, são 23 livros, sendo que dezesseis com todos os poemas e sete com seleção dos melhores poemas dos últimos livros do poeta.

             Em uma nota sucinta,  os editores afirmam que na língua inglesa existe a figura do “portable”, o livro que reúne o melhor da produção de um determinado autor e consideram que “Nova Reunião: 23 livros de poesia” é o Drummond portátil para “leitores brasileiros de todas as idades”.

            Mas o que destacar nessa coletânea de 23 livros de Drummond?

            Em primeiro lugar, louvar a iniciativa de editora Companhia Das Letras por trazer uma antologia quase completa da poesia drummondiana; ressaltar que este livro traz uma contribuição valiosa para compreender as várias fases da poesia de Drummond, afinal foram mais de cinquenta anos escrevendo e divulgando poesia; proporcionar aos alunos de nível médio e universitário um melhor conhecimento da poesia do poeta mineiro. Como a coletânea reúne muitos livros, o leitor pode acompanhar a trajetória do poeta desde os anos 1930 até 1986.  

            A leitura integral dos poemas permite detectar vários eus do poeta e citamos: o lírico, o político, o dramático, o metafísico, o sensual, o irônico. Vamos destacar, com citação de excertos dos poemas, a manifestação de algumas dessas modalidades poéticas.

            “A casa do tempo perdido” se encontra em um dos últimos livros publicados por Drummond – “Farewell” e a leitura desse poema nos transporta ao Centro Histórico de João Pessoa com muitas casas abandonadas.

            Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
            Bati segunda vez e outra mais e mais outra.
            Resposta nenhuma.
 A casa do tempo perdido está coberta de hera
            pela metade; a outra metade são cinzas.
            (...)
             “Caso do vestido”, inserido em “A Rosa do Povo”, é um texto cheio de diálogos entre uma mãe e as filhas, prestando-se muito bem para a representação, mas há vários outros poemas de Drummond que parecem que foram feitos para o teatro. “Morte do leiteiro” é outro bom exemplo de texto dramático.

            Na área da literatura infantil, é possível pinçar vários poeminhas curtos que serão bem aceitos pelas crianças. No livro “Boi Tempo”, citamos, entre outros, “Cantiguinha”, “Orion”, “Concerto”, “Visita à casa de Tatá”.

 “O Elefante” integra os poemas de “A rosa do povo”, não foi escrito para crianças, abrange discussões bem profundas com relação aos problemas de incertezas de um mundo conturbado por guerras (foi publicado em 1945) e foi apresentado como poema infantil, uma publicação da Record e contou com belas ilustrações de Regina Vater.  Não houve adaptação do texto, ele está integral e as crianças podem não alcançar o significado do poema, mas sentem a beleza dos versos. As crianças gostam de histórias de animais e o elefante é apresentado de modo tão espontâneo, cheio de “doçura”, que elas se sentem cativadas pelo poema.


Tenho como livro de estimação “Poesia completa e prosa”, de Carlos Drummond de Andrade, uma edição da Aguilar de 1973, adquirido em um sebo, mas com aspecto de novo.  É livro antigo com cheiro de antiguidade, agora arranjou um companheiro que foi muito bem-vindo.

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