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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Intramuros: romance ou depoimento literário?

Intramuros: romance ou depoimento literário? 
            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)


            Creio que o Intramuros pode ser catalogado como romance, mas, pra mim, tem mais a ver com um depoimento literário, digamos assim – um despretensioso relato de como a gente, se perdendo, vai se descobrindo no esforço de escrever um livro.  
                        (Lygia Bojunga).


            A escritora Lygia Bojunga Nunes não é a mais prolífera das escritoras de livros infantojuvenis do Brasil, mas, certamente, é uma das mais premiadas. Quase todos os seus livros receberam prêmios, sendo dois internacionais: a medalha Hans Christian Andersen (1980) e Astrid Lindgren Memorial Award, 2004 (ALMA). Este último foi criado pelo governo da Suécia e confere ao ganhador a soma de cinco milhões de coroas suecas, equivalente a quinhentos mil euros. O valor monetário desse prêmio é um dos mais altos da literatura.

 Com o dinheiro advindo desse prêmio, Lygia realizou um sonho há muito acalentado – a criação da “Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga” (FCCLB) que funciona no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa e no sítio Boa Liga, em Petrópolis.    A Fundação abriga a Editora Casa Lygia Bojunga Ltda. É voltada para projetos que despertem o desejo de ler através de variadas práticas de leitura. Existe também uma preocupação com problemas ligados à ecologia. O sítio Boa Liga, um espaço da Mata Atlântica, é a outra morada da Fundação. Nesse espaço bucólico, o Livro e a Natureza caminham juntos. A FCCLJ é mantida exclusivamente com os recursos do prêmio e a venda dos livros da autora. Os projetos são desenvolvidos no “Nicho”: Santa Teresa, Rio de Janeiro e no Sítio Boa Liga: Pedra do Rio, Petrópolis, RJ. Os projetos têm finalidades literárias, culturais e ecológicas.

 “Intramuros” (Rio de Janeiro: Editora Casa Lygia Bojunga, 2016) é o livro mais recente de Lygia Bojunga. É o vigésimo terceiro livro da escritora. Ela considera que escrever é “um caminho longo e tortuoso”, talvez, por isso, de forma reiterada, expressa em seus escritos problemas ligados ao ofício de escrever. Isso ocorreu, entre outros, com “Feito à Mão”, “Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes” (texto teatral) e agora com “Intramuros”.

 O livro não está dividido em capítulos, mas há separações entre os textos que indicam cortes narrativos. Logo, nas primeiras páginas, a personagem Nicolina é apresentada pela narradora.   Dá a impressão de que será a condutora da trama, mas surgirão outras vozes.  Lygia foi artista de teatro e se utiliza de recursos cênicos para introduzir a sua personagem: “Ah! Se este espaço fosse um palco, eu não teria que ficar tão cheia de dedos pra te fazer um gesto e dizer, esta é Nicolina. E, pronto! ela entrava em cena e, num segundo, se revelava pra você. – na aparência, na expressão do rosto, no jeito de andar, de olhar, de sorrir. Mesmo que não dissesse uma só palavra, a presença dela já seria uma revelação” (p. 14). No decorrer da narrativa, Nicolina fala sobre sua infância, seu riso desmedido, suas atitudes que levavam as pessoas a pensar que era autista. De repente, um corte narrativo, a personagem desaparece.  Mas ela irá retornar em outras passagens do livro.

 Em outro momento, é a narradora, no caso a autora, que se apresenta. Nessa parte, o depoimento sobrepuja o romance.  Descreve certos locais de Londres, uma Londres pouco conhecida dos turistas: verdejante, romântica. Há trinta e quatro anos que Lygia passa parte de sua vida em Londres, outra no Rio de Janeiro. Todos os anos seu tempo é dividido – Rio/Londres E vem a descrição dos lugares que escolheu para morar com seu marido, Peter. Ela prefere livros a filmes, mas foi vendo um filme com o ator Alec Guiness que descobriu Hampstead Heath. Pegou um mapa, examinou bem o local e no outro dia foi descobrir que Hampstead Health era esse. As paisagens reveladas de vários locais londrinos levam o leitor a viajar na companhia de uma guia que conhece muito bem a cidade que escolheu para morar por alguns meses do ano.

 Vinícius, Rosário, Garibalde, Gari, Hortênsia são outras personagens que moram nesse livro cheio de diálogos. E Nicolina retorna com mais revelações sobre sua vida.  Nas últimas páginas, a autora fala sobre o seu fazer literário e explica como começou a sua paixão pelos livros. O início se deu com a leitura dos livros de Lobato. Enturmou-se com as personagens lobatianas. “Elegeu Emília como confidente e conselheira.” Tornou-se tão íntima de Lobato que escreveu uma carta chamando-o de “prezado colega”. Quando decidiu procurar outros sítios, já era leitora feita. “Daí pra querer escrever foi um pulo”.

Na adolescência, escreveu diários e mais diários; na escola, peças de teatro, representadas pelo grupo teatral que criou junto com colegas. Para ganhar algum dinheiro, escreveu para rádio, teatro e televisão. Ainda não tinha despertado para escrever um livro. Um dia, resolveu criar os primeiros moradores de uma casa chamada livro e surgiu “Os colegas”. A casa se tornou pequena e foram aparecendo outros moradores: Raquel, Angélica, Maria, Lucas, o amigo pintor, a professora Vera e muitos outros. Nicolina é a mais nova moradora. Certamente virão outros livros. Novos moradores irão enriquecer o universo literário da escritora.  Aguardemos.
 

( Publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 03 a 07 de outubro de 2013). 

Nota: Tenho andado um pouco ausente. Prometo voltar com mais assiduidade. 

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