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domingo, 6 de novembro de 2016

            Macunaíma para jovens

                    
       Macunaíma é construído em uma espécie de colagem feita com mitos, folclore, histórias de origens variadas, superstições, provérbios, frases feitas, neologismos, palavras em tupi e anedotas que sintetizam o caráter de nosso povo e da nossa cultura.
(Sílvia Oberg)


Duas bonitas edições do livro “Macunaíma”, de Mário de Andrade, foram publicadas este ano (2016). “Macunaíma em quadrinhos” (Ed. Peirópolis), uma adaptação de Ângelo Abu e Dan X e “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” (Ed. FTD), texto integral, com ilustrações de Mariana Zanetti.  

“Macunaíma” foi publicado em 1928, no mesmo ano da publicação de “A bagaceira”, de José Américo de Almeida. Os dois livros se destacam no cenário da literatura brasileira pelo caráter inovador. “A bagaceira” foi obra introdutória do regionalismo nordestino do século XX.  “Macunaíma”, pela mistura de variadas referências culturais e reflexões sobre a realidade brasileira, despertou sempre a atenção dos críticos.  Em “A bagaceira”, vamos encontrar um repositório de termos regionais nordestinos; em “Macunaíma”,  há o predomínio de palavras de origem indígena (tupi).

“Macunaíma em quadrinhos” reúne dois grandes ilustradores brasileiros: Ângelo Abu e Dan X. O livro apresenta vários aspectos interessantes, um deles é o posfácio, em forma de quadrinhos. Nele, os ilustradores traçam um breve roteiro biográfico do trabalho artístico de cada um e chegam até à obra Macunaíma que já foi “engolida pelo domínio público”. 

Para Laudo Ferreira, leitor e quadrinista, o livro foi narrado e graficamente interpretado com o espírito das matas. Ressalta, ainda, as intertextualidades que os artistas utilizaram para adaptar a história/rapsódia. Neste livro, estão presentes: as pinturas das modernistas Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, o cubisno de Picasso, os planos e perspectivas de Escher, a beleza das artes incas e das carrancas do rio São Francisco, culminando com “Mário na rede”, de Lasar Segall. A inovação prossegue. Mário de Andrade criou Macunaíma “herói de nossa gente”, como “preto retinto e filho do medo da noite”. Os adaptadores criaram um Macunaíma azul.

            A capa é toda ilustrada em vermelho e preto e apresenta muitos figurantes: índios, animais, monstros e alguns brancos. Bem no centro da capa, no meio do emaranhado de desenhos, aparece Mário de Andrade. Na contracapa, um índio conduz uma bela moça. No capítulo “Maioridade”, há reprodução da mesma cena e ficamos sabendo que se trata do índio Jiquiê conduzindo pela mão uma cunhã. Capa e contracapa proporcionam uma leitura rica e variada.  O texto original de “Macunaíma” contém dezessete capítulos. O texto adaptado apenas quatorze e um epilogo.

            “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” (Ed. FTD, 2016) é o texto integral da obra-prima de Mário de Andrade, considerada uma das obras mais significativas da literatura brasileira. São dezessete capítulos, mais o epílogo. O posfácio e as notas são de Noemi Jaffe que tem formação em Letras e foi professora durante vinte e cinco anos de Literatura Brasileira em São Paulo.   A capa e as ilustrações do livro são de Mariana Zanetti, arquiteta graduada pela FAUUSP. Zanetti já trabalhou com mobiliário, teatro, cinema, depois fez a opção por ilustração de livros.  Atualmente mora em Berlim. 

            Mário de Andrade se utilizou de muitos vocábulos de origem tupi e cada capítulo traz um glossário com explicações das palavras de origem indígena. Além do posfácio com o título “Pensamenteando sobre o herói de múltiplos caracteres”, o leitor ainda encontra “Notas” com explicações sobre cada capítulo, uma breve biografia de Mário de Andrade e a “Bibliografia” com as principais obras consultadas para a elaboração das notas. E foram muitos livros consultados.

            Para Noemi Jaffe, “Macunaíma” é um dos livros mais comentados, revirados e, também, incompreendidos da história da literatura brasileira.  Esta edição, com as explicações da ilustre professora, irá torná-lo “palatável” e deixará de ser incompreendido. O leitor jovem encontrará prazer na sua leitura que procura esclarecer muita coisa que antes estava encoberta.   

            Concluímos essas considerações com uma passagem do último capítulo do livro – “Ursa maior”:

            - Macunaíma!
            O dorminhoco nem se mexia.
            - Macunaíma! ôh Macunaíma!
            - Deixa a gente dormir, aruaí... 
            - Acorda, herói! É de-dia!
            - Ah... que preguiça! ...
            - Pouca saúde e muita saúva,
            Os males do Brasil são!...


            (Aruaí é uma espécie de papagaio, maritaca). 

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