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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

José Saramago e a literatura infantojuvenil

José Saramago e a literatura infantojuvenil

            E se as histórias para crianças passassem a ser obrigatória para os adultos. Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?
             (José Saramago)

            Quando contava onze anos, José Saramago ganhou de sua mãe o livro “O mistério do moinho”, de Joseph Jefferson Farjeon, autor inglês de romances policiais. Este livro pode não ter sido o texto que o encaminhou para a literatura, mas ficou gravado na mente do menino. Anos mais tarde relatou o fato como algo importante que aconteceu  na sua vida.   

  Antes de se tornar escritor, Saramago exerceu várias profissões: serralheiro mecânico, desenhista, funcionário da saúde e da previdência. Concluiu o curso secundário e fez cursos técnicos. As dificuldades financeiras da família não permitiram que prosseguisse nos estudos mais avançados, precisava trabalhar. Como não podia comprar livros, tornou-se um assíduo frequentador da Biblioteca Pública de Lisboa. Certamente, foi nesse ambiente povoado de livros que encontrou seu verdadeiro caminho.

Saramago escreveu inúmeros romances, diários, poesia, peças de teatro, contos, crônicas, livros de viagens, memórias. e literatura infantil.  Nesse rico universo literário, despontam três livros de literatura infantil: “A maior flor do mundo” (2001), “O silêncio da água” (2011) e “O lagarto” (2016). No Brasil, os três livros foram publicados pela Editora Companhia das Letrinhas.
  
Já apresentamos em nossa coluna os dois primeiros livros, resta-nos discorrer sobre “O lagarto”. O livro reúne as palavras de José Saramago às xilogravuras do ilustrador brasileiro J. Borges. Foi distinguido com o Selo Seleção Cátedra 10 (Qualidade em LIJ), da Cátedra UNESCO de Leitura da PUC – Rio. A escolha do Selo Cátedra é feita por um grupo de pesquisadores e especialistas na área de livros infantojuvenis. A seleção compreende os 10 livros de valor literário, plástico e editorial que mais se destacaram no ano. “O lagarto” foi um dos 10 livros selecionados.
            Este conto está inserido no livro de crônicas “A bagagem do viajante”. O texto foi resgatado pelos organizadores da obra do autor e virou livro infantil. É deleite para  crianças que gostam de histórias fantasiosas e para os adultos que gostam da prosa do escritor português.

A figura do lagarto está associada ao dragão, personagem mítico que habita os contos infantis. Nessa história, ele história aparece de forma inusitada no bairro do Chiado, um dos bairros mais conhecidos da cidade de Lisboa.  Naturalmente esse fato causou grande susto entre os “transeuntes”. Era um lagarto audacioso, enfrentava as pessoas e os automóveis. O medo foi generalizado e a rua ficou deserta. “O animal não se mexeu. Agitava devagar a cauda, erguia a cabeça triangular, farejando.”

Muitas coisas estranhas aconteceram - uma mulher foi hospitalizada tamanho foi o susto que levou ao avistar o animal. Veio ambulância, polícia, bombeiros, veio até uma esquadrilha de aviões.  É nesse ponto da história que surgem as fadas. O que aconteceu depois? Coisas misteriosas que só são reveladas aos leitores curiosos.

Alguns aspectos desse conto fantástico chamam a atenção do leitor e cito a riqueza da linguagem.  No primeiro parágrafo da história, o leitor se depara com o linguajar lusitano, rico em máximas e dizeres populares. Examine-se:

“De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isto de fadas foi chão que deu uvas, já ninguém acredita, e por mais que venha jurar e trejurar, o mais certo é rirem-se de mim. [...] Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará.”

O leitor brasileiro pode não usar essa linguagem – “isto de fadas foi chão que deu uvas” e “vá o barco à água, que o remo logo se arranjará”, mas, certamente, ficará encantado com essas expressões tão características do falar lusitano.

Outro aspecto relevante nesse conto está representado pelas expressivas ilustrações de J. Borges.  A ilustração do  dragão  toma a página inteira, às vezes é todo vermelho, outras vezes é preto. A boca está sempre aberta com dentes enormes. No Festival Internacional de Óbidos  (setembro de 2016), houve exposição dessas xilogravuras e das ilustrações de J. Borges.

            Saramago gostava muito do trabalho do xilógrafo pernambucano. Certa vez, referiu-se a J. Borges dessa maneira: “Borges compreende o mundo de forma aparentemente simples e ao mesmo tempo profunda.”   

O autor de “O lagarto” era também poeta e a história termina com  versos:
Calados, muitos recordam,
Na prosa das suas casas,
O lagarto que era rosa,
Aquela rosa com asas.

Lembrete:
Quem for a Lisboa não deixe de visitar a Casa dos Bicos, Memorial José Saramago. Está situada na rua  dos Bacalhoeiros, 8. Foi inaugurada em 2012. É um espaço utilizado para reuniões, recitais, conferências, seminários, exposições. A Fundação abriga uma exposição permanente “A Semente e os frutos” que reúne livros de Saramago, manuscritos do escritor, recortes de jornais, entrevistas, vídeos. Lá está instalado o escritório de Saramago com sua escrivaninha e objetos pessoais, como óculos, máquina de escrever. Os restos mortais do escritor estão sepultados ali, sob uma oliveira trazida de sua cidade natal, o vilarejo de Azinhaga. Ao lado de todo esse rico acervo, a Casa dos Bicos é uma obra de arte, com muita história. O edifício foi construído em 1523 por Brás de Albuquerque, após uma viagem que fez a Ferrara ( Itália). Inspirada no Palácio dos Diamantes tornou-se conhecida como  A Casa dos Bicos. 



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