Ocorreu um erro neste gadget

domingo, 29 de janeiro de 2017

Ângela-lago: poesia e flores

Ângela – lago: poesia e flores
(Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            Não te aflijas com a pétala que voa:
            também é ser deixar de ser assim.

            Rosas verás, só de cinza franzida,
            mortas intactas pelo teu jardim.  
            (Cecília Meireles. 4º. Motivo da Rosa).


Ângela-lago é escritora e ilustradora de livros infantis. Dedica-se também à tradução de poesia, já traduziu Rainer Maria Rilke e Emily Dickinson. A convivência com a poesia desses dois grandes poetas foi muito benéfica, talvez tenha sido o estímulo que faltava para publicar “O caderno do jardineiro” (Ed. SM, 2016), seu primeiro livro de poesia. O livro traz ilustrações de flores de variados tipos: cipó-de-são-joão, sempre-viva, lírios, dente-de-leão, hortênsia, manacá. Muitas flores moram no seu jardim poético.

Há um poema que traz o mesmo título do livro, versa sobre o trabalho do jardineiro e a transformação da semente. Sente-se a passagem do tempo – preparar a terra, semear e ver brotar a flor que depois se esvai, morre. Efêmera como a própria vida. 

arar o solo a argila o colo
arejar a terra escura
nesse piso a semente se costura
e, ausente, se desenha a antiga flor
o mesmo aviso de cor
que logo se aniquila.

A primeira estrofe do poema “lírios” é uma intertextualidade de modo invertido com o texto bíblico de São Mateus (6:28). Comparemos:

lírios não fiam
nem tecem
nem Salomão no seu fulgor
despiu-se como um deles

 O texto de São Mateus em prosa tem também um tom poético:  

Reparai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Ora eu vos digo que nem Salomão, em toda sua magnitude, se vestiu jamais como um deles.

A ilustração para este poema apresenta dois lírios: um vermelho e outro branco. E diz a poeta: “um escriba escreve branco/ esquecido da caridade do franco lírio vermelho”. Quando pensamos em lírios, nos vem logo à mente o lírio branco, mas encontramos outras cores de lírios na natureza: vermelho, amarelo, lilás.

Pássaros gostam de flores e a rosa que desabrocha no crepúsculo está atenta ao trinado de um sabiá ensandecido.
Para quem canta o sabiá?

canta para o crepúsculo, mas só a rosa atenta ouviu o seu trinado. 

As rosas são como um jardim secreto, suas pétalas têm mil e uma portas e ela esconde o que está lá dentro. O poema “jardim fechado” é bem representativo do segredo da rosa:

  que segredo esconde a rosa
com suas mil e uma portas
a velar e a nos negar seu centro?
o que ela esconde lá dentro
que nosso olhar não suporta?
ai, ardil
o dessa dona ciosa
que nos enreda em beleza
sendo ela mesma sua presa

Muitos outros poemas estão à espera do leitor. São vinte e seis, com ilustrações da própria autora. As ilustrações delicadas de flores, ramos e raízes condizem com a beleza das metáforas poéticas.  Os poemas são curtos e nos dão a sensação de “incompletude e transparência”.

 Que venham outros livros de poesia dessa incansável escritora e ilustradora. O caminho foi desvendado, a terra está bem arada, há flores no jardim, resta apenas cultivá-las e transformá-las em poemas.

Livro:

ODE DE ANA MARIA. Simão Farias Almeida. João Pessoa: Ideia Editora, 2016.

Lançado no fim de 2016, em Boa Vista (Roraima), “Ode de Ana Maria” é o primeiro romance de Simão Farias Almeida.  Pela editora Ideia, Simão já publicou vários livros: “Monteiro Lobato e a problemática da nação: um projeto dialógico e negociado” (2011) “O jornalista Monteiro Lobato na nação moderna: mediações polêmicas e teses jornalísticas” (2013). Na área da ficção, infantojuvenil, “Memórias de voos rasos e gravidades: trailler ambiental” (2016).  O livro recebeu bonitas ilustrações de Jorge Trujillo e já se sentia a preocupação com o meio ambiente, daí o subtítulo “trailler ambiental”. “Ode de Ana Maria” (2016) é o primeiro romance.

A leitura dos primeiros capítulos de “Ode de Ana Maria” leva o leitor a pensar que se trata de um romance sobre problemas ligados à terra, aos operários de uma fábrica e aos índios, mas descortinamos, mais uma vez, a presença do meio ambiente. Ana Maria, a protagonista, luta pela conquista de um pedaço de terra que o patrão ambicioso e sanguinário lhe nega. No meio desse ambiente de poderosos que tudo pode, ocorre um desastre ambiental – a fábrica poluidora lança dejetos ofensivos à saúde no leito do rio. O mais interessante está reservado para o final do livro – quem conta toda a história é um pássaro papão de cauda “telética” que se esconde na voz do narrador.

Aspectos ligados ao meio ambiente aparecem com frequência nos textos de Simão Almeida. Eles estão presentes no livro teórico, quando analisou as teses polêmicas de Monteiro Lobato, no livro infantojuvenil, e agora no seu primeiro romance. Aguarda-se o lançamento deste livro em João Pessoa.


(Textos publicados no jornal “Contraponto”. Paraíba, 27 de janeiro de 2017).      

Nenhum comentário: