sábado, 22 de agosto de 2009

MISSÃO DO EDUCADOR: contagiar leitores



MISSÃO DO EDUCADOR: contagiar leitores
(Neide Medeiros Santos – crítica literária da FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com

Contagiar leitores é um gesto de amor.
(Vera Lúcia Dias de Oliveira. Projeto Contagiar – UFCG).

A revista Panorama Editorial é uma publicação da Câmara Brasileira do Livro e “Brasil que lê” (agência de notícias). O número 47, março/abril de 2009, foi todo dedicado à leitura para crianças, jovens e pessoas da terceira idade. Dentre os vários projetos apresentados, houve um que nos chamou a atenção - o Projeto Contagiar. Com o título “Boa Idéia”, o foco do artigo é a educadora Vera Lúcia Dias de Oliveira que desenvolve atividades de estímulo à leitura em uma creche da Universidade Federal de Campina Grande (PB).
Vera Lúcia considera que um professor contagiado pelo universo literário contagia seus alunos para o resto da vida e apresenta algumas dicas para encantar o leitor mirim e encaminhá-lo para a leitura.
Aqui vão algumas dicas:
- Colocar o pequeno leitor dentro das histórias que estão sendo lidas;
- conversar com os personagens dos contos de fadas através de um telefone simulado, encenações teatrais e de outros artifícios disponíveis na escola;
- utilizar música, poesia, cordéis, jogos, pinturas e arte popular em sala de aula.
E vai um lembrete: o rico universo nordestino se presta muito bem para a recitação de cordéis, apresentação de quadros de pintura naïfs, cerâmicas de artistas populares, músicas de autores nordestinos.
Existe, ainda, o “Kit Contagiar” que consiste em uma caixa decorada contendo livros, gibis, cordéis, CDs, DVDs. A caixa é entregue aos cuidados de um aluno que se encarrega de emprestar aos amigos e vizinhos. A cada quinze dias, a equipe comparece ao local onde o kit foi deixado e faz uma sabatina das leituras contidas nos livros da caixa. A conversa gira em torno dos escritores, poetas, ilustradores. O kit é renovado como novos livros. Três meses depois é organizada uma roda de leitura com sarau poético e contação de histórias.
O projeto se iniciou na creche da UFCG e se desdobrou com a ida ao bairro da Liberdade, em Campina Grande. Faz parte do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), reconhecido pelo governo federal como Ponto de Leitura.
O objetivo de disseminar a leitura abrange não só as crianças. Os jovens e os adultos também se envolvem. A criança, responsável pelo “Kit Contagiar”, conduz toda a família – pai, mãe, irmãos para o mundo da leitura. Até os vizinhos e os amigos participam do universo literário.
Vera Lúcia “garante que o desenvolvimento pedagógico e os meios utilizados para uma aprendizagem significativa são pontos de partida para formar crianças competentes, leitoras, contadoras de histórias, escritoras, poetisas, artistas, pintores, escultores”.
Que bom seria se projetos como os da professora Vera Lúcia fossem multiplicados por toda a Paraíba!.
A lição da educadora foi passada, fiquemos, agora, com Manuel Bandeira que, embora seja conhecido nacionalmente como poeta, foi professor e educador. Bandeira reconhecia que era difícil transformar um não leitor em leitor, ainda mais depois de adulto, e deixou esta receita:
Se não quisermos que os adultos e os velhos sejam não leitores, temos de incentivar os jovens a lerem desde cedo, para que eles continuem este hábito ao longo da vida, até a terceira idade, a quarta, a quinta.
( Jornal Contraponto. 24 a 30 de agosto de 2009. Caderno B2).

sábado, 15 de agosto de 2009

José Mindlin e o baú de memórias da infância

















José Mindlin e o baú de memórias da infância
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com

O grande teste do livro infantil é interessar aos adultos.
(José Mindlin. Transcrito do texto de Daniel Piza. “O menino travesso que amava livros”. O Estado de São Paulo. Sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008, Caderno 2).

José Mindlin sempre gostou muito de ler. Colecionar livros antigos foi a grande paixão de sua vida. Sobre essa saudável mania, o bibliófilo escreveu Uma Vida entre Livros, mas sentiu que estava faltando um texto que falasse sobre a sua infância. Reinações de José Mindlin por ele mesmo (Ed. Ática, 2008) veio suprir a lacuna.
Para entender o porquê da decisão de Mindlin de escrever um livro para crianças recorremos, mais uma vez, ao artigo de Daniel Piza, publicado no jornal O Estado de São Paulo:
O bibliófilo decidiu escrever um livro infantil depois que viu sua neta Ana, de 9 anos, lendo alguns autores brasileiros recentes. [...] E ao contrário do que se poderia esperar, não fez um texto sobre suas lembranças de leitor, uma versão para crianças de suas memórias Uma Vida entre Livros. Escreveu sobre as travessuras – as “reinações” - que cometeu ou testemunhou quando criança.
A capa do livro apresenta o retrato de um menino de olhar maroto e riso contido. O menino está vestido de marinheiro (tipo de roupa muito utilizado pelas crianças nas primeiras décadas do século XX). Devia ter cerca de oito anos de idade.
A artista plástica Luise Weiss, responsável pelas ilustrações, desenhou flores multicoloridas para complementar a paisagem do retrato que está na capa. A técnica da sobreposição (retratos, pinturas, desenhos) está presente em quase todas as páginas. A responsabilidade do projeto gráfico e da diagramação ficou a cargo da filha caçula do escritor, Diana Mindlin.
Só para despertar o desejo de saber um pouco mais sobre as travessuras do menino Mindlin segue o relato de algumas malandragens. Não vamos contar tudo, deixamos o resto para os leitores que, certamente, irão procurar o livro de Mindlin nas livrarias.
Vejam que a sagacidade do bibliófilo vem de longe.
Certa vez, na aula de Geografia, o professor pediu, em uma prova, que os alunos fizessem uma lista com o nome de dez cidades do Egito. Mindlin só sabia duas, não teve dúvidas – inventou nome para mais oito. Resultado: tirou dez na prova e ficou orgulhoso da malandragem. Em casa, contou a façanha ao pai, este lhe disse que devia pedir desculpas ao professor e contar que havia inventado aqueles nomes inexistentes. Ordem de pai não podia ser descumprida e, envergonhado, pediu desculpas ao professor. O melhor da história – o professor manteve o dez.
De outra vez, Mindlin estava de férias em Guarujá com os primos, e o pai havia sido operado em São Paulo. O menino escreveu uma carta para a família com estes dizeres: “espero que todos estejam bem, menos papai.” A família estranhou a maneira de se referir ao pai e o pequeno deu a seguinte explicação: papai não podia estar bem, ele tinha sido operado na véspera.
Esse Mindlin! A carinha malandra que está na capa do livro e se repete em outras páginas e já diz tudo – só pode ser parente do menino maluquinho.
Vale a pena transcrever o recado de José Mindlin que se encontra nas últimas páginas:
[...] gostaria de contar uma coisa que fiz em 1927, e que eu acharia ótimo que vocês também fizessem, mesmo que seja mais tarde: comecei a ir aos sebos de São Paulo para comprar livros! Foi assim que comecei a formar a biblioteca aqui de casa. Acho possível, vendo meus bisnetos de 5 anos, que vocês já tenham começado a formar a biblioteca de vocês – seria ótimo! Mas se ainda não começaram, pensem em fazer isso, porque ler e juntar livros é uma das coisas mais gostosas da vida! Dá vontade, como me deu, de também escrever livros, como este que escrevi para vocês. (2008: p.43)
E aqui vai o nosso recado: Conselho de quem entende de livros não merece ser desprezado.
O título deste artigo foi inspirado em texto crítico de Antonio Candido que se encontra no verso da capa de Reinações de José Mindlin por ele mesmo.

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com




sábado, 8 de agosto de 2009

Amor no tempo de madureza- ricardo azevedo







Livros & Leituras
Amor no tempo de madureza
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
(Carlos Drummond de Andrade. “Campo de Flores”).

Ricardo Azevedo é escritor, ilustrador e pesquisador de literatura popular. É bacharel em Comunicação Visual pela Faculdade de Artes da Fundação Álvares Penteado (FAAP) e doutor em Teoria Literária pela USP. Já escreveu mais de cem livros. Ganhou várias vezes o prêmio Jabuti e o APCA. Seus livros foram publicados em Portugal, México, França, Holanda e Alemanha. Em 2008, pela Editora Moderna, publicou Cultura da Terra, Papagaio come milho, periquito leva a fama! Vou-me embora desta terra, é mentira eu não vou não! Todos esses livros ligados à cultura popular.
Há um livro de Ricardo de Azevedo que fez muito sucesso entre a criançada nos anos 80 - Araújo ama Ophelia. Este livro reapareceu em 2006, revisto e ampliado, agora destinado a um público mais experiente. Veio com nova roupagem, até o título é outro – Chega de saudade (Ed. Moderna).
Na primeira versão, o motivo condutor da história era a derrubada de uma árvore em uma praça de São Paulo para dar lugar a um grande edifício. Dois velhinhos, Araújo e Ophélia, antigos colegas de escola e ex-namorados, protestam contra a atitude da construtora e tomam uma decisão – sobem na árvore e impedem que os empregados da construtora a derrubem. A história é curtinha e termina sem sabermos o destino dos personagens que se reencontram na maturidade da vida.
Ricardo Azevedo sentiu que a história precisava ter continuidade e resolveu reescrevê-la, acrescentando pormenores, misturando vozes, intercalando cartas. O livro se tornou mais volumoso e cheio de detalhes.
Na nova versão, ficamos sabendo que Ophélia era professora, viúva, aposentada. Seu único filho, André, morava com a mulher e três filhos na casa da professora. Araújo era solteiro, músico, aposentado e morava sozinho.
Ophélia tinha quase oitenta anos quando reencontrou Araújo e passava por uma crise pessoal, sentia-se velha, doente e inútil. Longe da cátedra, via o mundo desmoronar-se. Araújo havia tocado flauta e saxofone na Orquestra do Estado de São Paulo. Depois que deixou a orquestra, “reunia-se toda quarta-feira e sexta com os amigos músicos e varava a noite tocando e bebendo cerveja”. (p.39). Estava satisfeito e, ao contrário de Ophélia, achava a vida de aposentado uma delícia. Era quase da idade de Ophélia, ia completar 78 anos.
A partir desse reencontro, Ophélia mudou seu sistema de vida, arrumava-se para visitar o amigo, não se queixava mais de doenças, encontrava-se regularmente com o ex-namorado. Aceitando o convite de Araújo, resolveu partir para uma grande viagem e realizar um desejo acalentado há muitos anos – conhecer o Brasil. Essa decisão foi considerada insensata pelo filho, mas recebeu o apoio da nora e dos netos.
Durante um ano de viagens muita coisa aconteceu – conheceram a Floresta Amazônica, assistiram a um Quarup, subiram o rio São Francisco,visitaram o Pantanal, viram o carnaval e o maracatu de Olinda e o São João da Paraíba. Em uma das cartas endereçada ao filho, à nora e aos netos, Ophélia comunica que se casou com Araújo. Casaram-se na Igreja de Nossa Senhora das Graças, em uma pequena cidade de Goiás – Monte Alegre.
A história do amor de madureza traz uma surpresa no capítulo 18. Se o leitor for músico, poderá tocar o chorinho “Monte Alegre”, uma composição de Araújo para Maria Ophélia Fagundes. A partitura musical se encontra nas páginas 111 e 112.
Ricardo Azevedo afirmou, certa vez, que “ler é como viajar para outro universo sem sair de casa”. Ele tem razão. A leitura permite viagens imaginárias, descortina horizontes e ajuda a “compreender melhor sua própria vida, as outras pessoas e as coisas do mundo”.
Chega de saudade é uma viagem por ruas e praças de São Paulo, por paisagens brasileiras inesquecíveis. Aliado a tudo isso, possibilita o desvelamento do íntimo de seus personagens por meio da voz do narrador, leitura das cartas de Ophélia para o filho, a nora e os netos.
( Jornal Contraponto, Coluna Livros &Leituras, 10 de agosto de 2009, B2)

domingo, 2 de agosto de 2009

Vozes Roubadas: Vozes Veladas


Livros e Leituras
Vozes Roubadas: Vozes Veladas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Vozes veladas. Veludosas vozes
Volúpias dos violões, vozes veladas
Vagam nos velhos vórtices, velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
(Violões que choram. Cruz e Souza).

Melanie Challenger, poeta e prosadora inglesa, e Zlata Filipovic´, com bacharelado em ciências humanas e mestrado em saúde pública, natural da Bósnia, resgataram e transformaram em livro – Vozes roubadas: diários de guerra (Cia. Das Letras, 2008), diários de crianças e jovens escritos entre os períodos que vão da Primeira Guerra Mundial (1914/1918) até os últimos conflitos mundiais – Guerra dos Bálcãs (1991-1995), Guerra do Iraque (2003...).
Melanie Challenger recebeu, em 2005, da Sociedade de Autores, o Prêmio Eric Gregory de poesia. É a criadora da Fundação Mostar e trabalha em organizações como a Casa Anne Frank, UNICEF e em projetos que se utilizam da música e da literatura para promover a consciência moral entre os jovens.
Zlata Filipovic’ tornou-se mundialmente conhecida com o Diário de Zlata, um relato de uma adolescente na devastada cidade de Saravejo (1992/1993). Já trabalhou na casa Anne Frank, ONU e UNICEF e atuou três vezes como jurada do Prêmio de Literatura para Crianças e Jovens em nome da tolerância da UNESCO.
A história de Vozes roubadas: diários de guerra começou com o convite de Melanie Challenger a Zlata Filipovic’ para organizarem um livro que reunisse uma série de relatos de guerra, testemunhos de crianças e jovens sobre os horrores e as atrocidades de um tempo sem horizontes. Estabelecido o pacto, as duas organizadoras selecionaram os diários. São textos pungentes, corajosos e oferecem um “mosaico” dos conflitos que abalaram o século XX (duas guerras mundiais) e o início do século XXI.
Antecedendo cada relato, o leitor encontra um texto esclarecedor sobre o momento político da época e os fatos que motivaram a guerra. Cada diário vem com um posfácio que indica o destino de cada um dos redatores, alguns sobreviveram, outros não resistiram e morreram. Nas últimas páginas, um glossário contém explicações sobre vocábulos utilizados pelos autores dos diários e outras explicações necessárias para melhor entendimento dos textos.
Na leitura que fizemos dos diários, o de Stanley Hayumi nos chamou a atenção pela poeticidade da linguagem e a esperança no futuro promissor. Hayumi nasceu em 1925, na região da Califórnia e, por ser descendente de japoneses, foi levado de sua casa para o campo de detenção de Heart Montain, em 1942. No dia 14 de maio de 1943, há esse registro no diário de Hayumi:
Hoje completa um ano que cheguei ao campo. Pelo resto da minha vida lembrarei o dia em fui detido. Lembrarei de ter ficado na esquina de Garvey com Atlantic junto a mil outros – então vieram os ônibus e nos levaram ao campo. Lembrarei do nó que me subiu à garganta enquanto o ônibus descia a rua, e de quando algumas das pessoas na calçada e os mexicanos nos prados acenaram para nós. (p.185)
(...)
Lembrarei da viagem de trem, das noites sem dormir, dos desertos, das montanhas, da linda paisagem. (p.185)
A fé no governo americano faz o jovem, de apenas dezessete anos, escrever:
[...] não terei ressentimentos quanto ao governo por causa da detenção – embora ainda ache que isso não esteja certo. (p.185)
Alguns desenhos de Hayumi que aparecem no livro demonstram que o jovem tinha talento para a Arte, isso pode ser comprovado com essas observações:
E também me decidi quanto a uma coisa – vou investir no campo das artes e da literatura. E serei o maior artista do mundo [...].
No dia 24 de março, ele registra um poema revelador do que se passava em seu íntimo, parece que estamos diante de um poema de Frei Tito na prisão. Segue-se um fragmento do poema:
Violões havaianos tocando
Uqueleles ressoando
Quentes noites de verão
Grilos
O ranger de porta de tela
[...]
O ultimo texto escrito por Hayumi está datado de 20 de agosto de 1944 e nele o jovem revela uma grande alegria por ter sido convocado para o serviço militar. Iria para a guerra lutar ao lado das tropas aliadas na Itália. E o resto? O posfácio explica tudo:
Stanley deixou Heart Montain em junho de 1944 para se juntar ao exército dos Estados Unidos. Jamais perdeu a fé na América e permaneceu desafiadoramente patriótico até o fim. Ele escreveu a última anotação em seu diário enquanto aguardava sua primeira missão no alojamento americano. Foi morto durante combate no norte da Itália, em 23 de abril de 1945, enquanto tentava ajudar um companheiro. Ele tinha dezenove anos de idade. (p. 190).
O livro de Melanie Challenger e Zlata Filipovic’ deixa no leitor o sentimento de inutilidade das guerras e o lamento pelas vozes roubadas (veladas), silenciadas antes do tempo.
( Jornal Contraponto. Coluna Livros &Leituras, 2 de agosto de 2009, B2)


domingo, 26 de julho de 2009

Viajar é preciso Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti.



Viajar é preciso
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil / PB)

Não há melhor fragata que um livro
para levar-nos a terras distantes.
(Emily Dickinson)

A editora Record atendeu a meu pedido e me enviou um livro há muito tempo desejado – Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti. Ao recebê-lo, lembrei-me de Pedro Nava quando se referiu à aquisição dos livros que povoavam suas estantes:
“A aquisição de cada um foi o resultado de longas espreitas, pesquisas, paqueras, paciências e esperas – como na conquista das amadas”. (Galo-das-trevas.1987:49).
Chegou-me à noite e nessa mesma noite adentrei-me na leitura que me conduziu a terras distantes, mergulhei nos poéticos ensaios de Marina Colasanti e saí da leitura disposta a escrever mais um artigo sobre o desejado livro.
Composto de 17 ensaios que falam sobre leitura, alguns textos foram apresentados em congressos e seminários; outros integram artigos publicados em jornais e prefácios de livros. Vamos pinçar fragmentos e tentar despertar no leitor o desejo de ler o livro na íntegra.
“O real mais que real” é o primeiro artigo, e foi apresentado no Segundo Congreso de las Américas de Lectoescritura, em San José, Costa Rica, em 1995. Vale a pena transcrever a observação de Marina Colasanti sobre o conto “A pequena sereia” de Andersen:
A história da pequena sereia criada por Andersen não é uma história qualquer. É uma doce e maravilhosa parábola da vida. E se faz tanto sucesso com as crianças do mundo inteiro, que certamente não praticam os desmontes conscientes a que nós adultos e, sobretudo nós criadores e estudiosos da literatura somos levados, é porque as parábolas, como as metáforas, pertencem à linguagem dos sonhos, do imaginário. E não necessitam de desmontes para serem apreendidas. (p. 24)
“No mundo da magia se come rosbife” foi publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 2001, e, nesse texto, Marina discorre sobre a série Harry Potter e discute dois aspectos dos livros de Rowling: o mercado e o conteúdo.
No primeiro caso, ela afirma que os livros de J. K. Rowling vêm revestidos de uma grande onda de publicidade: outdoors, cartazes, anúncios de páginas inteiras, vitrinas especiais nas livrarias para expor os livros que se transformam em verdadeiros best sellers. São palavras de Marina Colasanti:
Harry Potter representa, portanto, uma virada no mercado editorial. A partir dele, instala-se a possibilidade de livros para crianças serem trabalhados ao mesmo tempo em vários países, em grandes lançamentos agressivos e coordenados, visando a vendas estratosféricas. Exatamente como certos livros para adultos. (p. 48).
Quanto ao conteúdo, Marina discorda do crítico norte-americano Harold Bloom que não considera os livros de Rowling bem escritos, ressaltando a presença de clichês. Reconhece que tem menos autoridade do que Bloom, mas vislumbra aspectos positivos nos livros da série Harry Potter e aponta: “poucas descrições e muitos diálogos”. Afirma ainda que a linguagem oral e o ritmo acelerado tornam os livros de Rowling palatáveis. Como convém a livros de série, eles deixam a porta aberta para a próxima rodada.
“Um espelho para dentro” foi apresentado no Encuentro de Escritores Brasileños, Casa de América, Madri, 2003.
Neste texto, a escritora se utiliza da metáfora do espelho para revelar o seu próprio eu. Partindo da pergunta: “Espelho, espelho meu, que escritora serei eu?” (p. 105), Marina, como a personagem Madalena, de Graciliano Ramos, no romance “São Bernardo”, se revela pouco a pouco e nunca se revela inteiramente.
Em seguida, fala sobre sua produção literária, seus livros, sua gênese, seu gosto pelos contos de fadas. Mas... depois de muito escrever, um dia ela se interroga:
Espelho, espelho meu, voltei a perguntar há exatos dez anos, o que foi que a escrita ainda não me deu”?
E o espelho respondeu: a poesia. (p.110)
Foi a partir da reflexão de não ser poeta que ela resolveu escrever o primeiro livro de poesias – Rota de Colisão e sentiu que a poesia estava no seu rumo, pois é na poesia, mais do que em qualquer outro gênero, que podemos beijar o lado de dentro das palavras. (p.110)
Nesse encontro, Marina Colasanti encerrou suas palavras com uma poesia. Era mais uma face do espelho que se fazia representar.
O último texto do livro “Que escritora seria eu se não tivesse lido?” foi apresentado no Simpósio Internacional Transdisciplinar de Leitura no Rio de Janeiro, em 2000. Algumas revelações feitas por Marina merecem registro. Ao falar sobre sua mãe e as leituras da infância, ela faz esta afirmativa:
Minha mãe não contava, inventando o texto ao sabor da fala. Ela lia. O encantamento da narrativa me chegou através da palavra organizada em escrita, e amei as palavras tanto quanto amei as histórias. Eu li ouvindo, quando ainda não podia ler. Para despir-me da leitura, totalmente, até a isso deveria renunciar. (p.248)
Hoje, adulta, a escritora diz que ler como “triatlo”. Acorda de manhã e perde no mínimo uma hora lendo jornais. Será que ela está perdendo mesmo tempo ou está se atualizando com as noticias do Brasil e do mundo?
Em uma segunda etapa, a escritora vai para o escritório e começa a ler o material de trabalho e pelo dia afora vai lendo e escrevendo. Reconhece que como leitora/atleta não é disciplinada, perde tempo lendo coisas inúteis e o pior é que esquece a grandíssima parte do que ler.
O livro se encerra com uma pequena nota da autora que utilizamos para colocar ponto final neste artigo:
[...] quando se chama um escritor para falar da escrita, o que se espera dele não é uma visão ‘de fora’ puramente teórica, mas o relato daquele percurso interior que lhe tornou a escrita possível. http://www.megaupload.com/?d=IUOBVTT6

sábado, 18 de julho de 2009

MONTEIRO LOBATO: um escritor feminista?


MONTEIRO LOBATO: um escritor feminista?
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba)

Ser núcleo de cometa, não cauda.
(Monteiro Lobato. Carta a Godofredo Rangel).

A Menina do Narizinho Arrebitado, o primeiro livro infantil de Monteiro Lobato, foi lançado no natal de 1920 e este livro é um marco do autor no reino da literatura para crianças. Anos depois, Lobato acrescentou outras histórias e o livro surgiu mais enriquecido, com nova roupagem e o título de Reinações de Narizinho. É neste livro que vamos encontrar a primeira personagem feminina da obra lobatiana – Narizinho.
Se fizermos um levantamento na extensa galeria de personagens de Lobato, seis atuam com núcleos de cometa: Emília, Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa. Quatro personagens do sexo feminino e dois do masculino. Dessas quatro, apenas uma não pertence ao gênero humano, é a boneca Emília, mas que demonstra ser a mais viva e como ela mesma confessa: “estou começando a ser humana”.
Nelly Novaes Coelho, teórica e historiadora da literatura infantil, afirma que Emília é o alter ego de Lobato. Vera Maria Tietzmann Silva, estudiosa, também, da literatura infantil, considera que Emília é um Lobato disfarçado. Alter ego do criador ou personagem disfarçado em autor não importa, Lobato tem um carinho especial por esta bonequinha espevitada. Ela representa o seu lado irreverente, é a “Independência ou Morte!”.
Para demonstrar que Lobato foi feminista muito antes de surgir o movimento de valorização da mulher no Brasil, vamos analisar quatro personagens marcantes na obra infantil do escritor do Sítio do Picapau Amarelo.
Emília – está presente em quase todos os momentos da ficção infantil de Lobato, embora seja uma boneca é quem manda e desmanda no Sítio. No livro Emília no país da gramática, a bonequinha aparece como porta-voz do autor, condenando os exageros de gramatiquice e os tradicionalismos dos puristas. Ela rebate os argumentos dos filólogos e gramáticos dizendo que muitas regras estão ultrapassadas e que esses estudiosos não acompanharam a evolução da língua. É a personagem mais instigante de Lobato.
Em Reinações de Narizinho, é apenas uma boneca artesanal feita de pano por tia Nastácia, mas depois que toma a pílula falante do Dr. Caramujo adquire voz e forte personalidade. A boneca chega a afirmar que segue uma “evolução gental” e essa evolução é tão aprimorada que se declara “uma ex-boneca”.
Nelly Novaes Coelho, no Dicionário Crítico da Literatura Infantil/Juvenil Brasileira – 1882-1992 (1983, p.730) considera a bonequinha a personagem-chave do universo lobatiano. É a personagem mais complexa, a única que sofre transformações em sua personalidade.
O livro Memórias da Emília denota o grande apreço de Lobato por esta personagem que é boneca e gente ao mesmo tempo. Boneca, no aspecto físico, gente, na maneira arguta de pensar.
Dona Benta – é a avó/professora. Através de um processo altamente didático, como bem frisa Vera Tietzmann, em O Legado de Lobato, Dona Benta fraciona as explicações e acomodo-as à linguagem infantil. Ela cria uma nova modalidade de escola e ensina as crianças do sítio uma maneira inovadora de aprender. É a substituta natural do professor ou da professora severa, é uma educadora no sentido mais amplo. Para transmitir conhecimentos se utiliza da ficção, e conduz o leitor ao “sabor e saber” de forma bem natural.
Já se viu, também, em Dona Benta a projeção de Lobato. De modo diferente de Emília, Dona Benta representa o lado sensato, equilibrado do escritor. Os estudiosos da obra do autor do Sito do Picapau Amarelo identificam semelhanças até nos nomes Bento/Benta, mas Lobato deu a seguinte explicação: o nome desta personagem adveio da avó de um colega que se chamava Benta.
Ela foge do modelo tradicional de dona de casa do seu tempo (anos 30 e 40 do século XX). Não a vemos bordando, costurando ou cozinhando, está sempre lendo jornais ou livros, escrevendo cartas, escutando as noticias do rádio. É, ainda, Vera Tietzmann Silva quem afirma: “... ela é o esboço da nova mulher dos tempos que se sucederam os grandes movimentos feministas.” (SILVA: 2008, p.115).
Tia Nastácia é a representante da cultura popular, do saber do povo, conhece as histórias do passado, as histórias transmitidas de boca em boca. Através da figura de tia Nastácia, o escritor nos faz sentir que o saber passa pelas raízes populares, ele não vem só dos livros. Aliado a esse saber que emana do povo, Nastácia é excelente cozinheira e faz muitas coisas gostosas, entre elas o delicioso bolinho de polvilho. Se Dona Benta é a detentora da cultura erudita, Nastácia é a representante da cultura popular.
Narizinho é a personagem mais lírica de Lobato, desperta entusiasmo entre o público infantil. As inúmeras cartas enviadas a Lobato pelas crianças brasileiras elogiando o livro “Reinações de Narizinho” é o melhor atestado do valor desta pequena personagem. É a menininha dona do seu próprio nariz. Se não chega ao limite de Emília – “Eu sou a Independência ou Morte! “ circula com toda liberdade no reino do Sítio.
As figuras de Dona Benta, tia Nastácia, da boneca Emília e Narizinho deixam profundas marcas na saga do Sítio do Picapau Amarelo, elas atestam o lado feminista do seu criador. Nestas quatro personagens femininas, Lobato externou uma maneira inovadora de representar a mulher na literatura infantil.
Examinemos como procurou caracterizá-las: Dona Benta, a detentora do saber; Emília, a boneca independente e sempre pronta para desafios; tia Nastácia, a divulgadora da cultura popular e Narizinho, a menina livre das peias da escola tradicional e criadora de suas próprias brincadeiras.

Referências Bibliográficas
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário Crítico da Literatura Infantil/Juvenil Brasileira. 1882-1982. São Paulo: Quíron, 1983.
LAJOLO, Marisa e Ceccantini, João Luís. (Orgs) Monteiro Lobato Livro a Livro. São Paulo: UNESP, 2008.
SILVA, Vera Maria Tietzmann. Literatura Infantil Brasileira: um guia para professores promotores de leitura Goiânia: Cânone Editorial, 2008.

* Palestra apresentada na UBE/PB, no dia 11 de maio de 2009, no Centro Cultural Joacil de Brito Pereira, em homenagem à data de aniversário de nascimento de Lobato –

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Fernando Pessoa para adolescentes e para quem gosta de poesia




Fernando Pessoa para adolescentes e para quem gosta de poesia

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
( Fernando Pessoa. Palavras de Pórtico)

NEIDE MEDEIROS SANTOS

Amélia Pinto Pais, antropóloga portuguesa e estudiosa da obra de Fernando Pessoa, publicou pela Companhia das Letras, em 2009, Fernando Pessoa, o menino da sua mãe, com ilustrações de Mariana Newlands.
O título do livro encaminha o leitor para o poema “ O menino da sua mãe” que foi publicado, pela primeira vez, em 1926, em “Contemporânea”. O poema foi musicdo em 1936, um ano após a morte do poeta, por Fernando Lopes Graça.
De forma descontraída, a autora apresenta-nos uma narrativa aparentemente autobiográfica. Fernando Pessoa se revela pouco a pouco – fala sobre seu nascimento, sua infância passada entre Lisboa e Durban, na África do Sul, sobre a criação de seus inúmeros heterônimos.
Será que o leitor sabe quantos heterônimos Fernando Pessoa criou? Se pensou em quatro, errou. Nada disso! Foram 72. Tudo começou quando o poeta tinha seis anos. Chevalier de Pas foi o começo de uma longa história heteronímica.
Pessoa nasceu no dia 13 de junho de 1888 e recebeu, na pia batismal, o nome de Fernando Antônio em homenagem a Santo Antônio Era do signo de gêmeos. Os estudiosos de horóscopos afirmam que aqueles que nascem no signo de gêmeos ( 20 de maio a 21 de junho) têm dupla personalidade, Pessoa exagerou um pouco nessa duplicidade, não se conformou em ser apenas dois, mas muitos.
Quem pensar também que a obra de Fernando Pessoa é toda dedicada à poesia, também está enganado, Pessoa escreveu um grande livro em prosa – O Livro do Desassossego e atribuiu a um semi-heterônimo – Bernardo Soares. É um livro volumoso que só foi publicado após a morte do poeta e traz marcas de prosa poética.
Amélia Pais traz à tona o poeta engajado politicamente. Entre as décadas de 10, 20 e 30 do século XX, Fernando Pessoa escreveu muito para os jornais e revistas de Portugal e demonstrava não ser indiferente aos acontecimentos políticos e sociais. Como jornalista e articulista, externava seu posicionamento ideológico.
O livro da pesquisadora portuguesa tem um endereçamento - o público jovem, mas leitores de todas as idades irão gostar de encontrar um Pessoa descontraído, falando sobre sua própria vida pela voz de Amélia Pais. Estamos no reino da ficção e tudo é possível.
As ilustrações de Mariana Newlands são criativas e bem modernas, algumas apresentam um tom meio jocoso, irreverentes, um pouco caricaturais, talvez a ilustradora tenha procurado representar as máscaras da multiplicidade pessoana.
Aliado a tudo isso, o leitor ainda encontra muitos poemas de Fernando Pessoa e de seus heterônimos, quadrinhas populares, trechos de cartas para Ofélia e, naturalmente o poema que deu título ao livro.
Não poderíamos deixar de registrar que a camuflada voz autobiográfica de Fernando Pessoa é, também um convite à leitura. Crianças, jovens e adultos de alma sensível irão se encantar com esse livro sobre Fernando Pessoa, um poeta que sabe atrair leitores pelo inusitado de sua criação.
Para concluir, repetimos as palavras de Amélia Pinto Pais: “ aquilo que lemos e nos agrada em criança, aprenderemos a amar e entender quando adultos”.
(Publicado no jornal Contraponto, coluna B2. João Pessoa, Segunda-feira, 13 de julho de 2009)