segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Presença da Natureza nos livros infantis

A Presença da Natureza nos livros infantis

 (Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

 Deus pôs almas nos cedros... nos junquilhos... Esta árvore, meu pai, possui minha alma! (Augusto dos Anjos. A Árvore da Serra).


 A presença da natureza e o encaminhamento para uma consciência ecológica se evidenciam em alguns livros que receberam o Prêmio FNLIJ/2012. Destacamos “O Lenhador”, de Catulo da Paixão Cearense, na categoria Poesia. “Na floresta do bicho-preguiça” recebeu o Prêmio de Livro-brinquedo. Na linha dos informativos, o prêmio ficou para “Dinos do Brasil” e a categoria de Reconto coube a “O Livro dos Pássaros Mágicos”. “O Lenhador”, poema ecológico de Catulo da Paixão Cearense, já foi comentado em nossa coluna. Falaremos um pouco sobre os outros três livros premiados. O livro “Na floresta do bicho-preguiça” foi escrito por Sophie Strady e as ilustrações são de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud. A tradução é de Cássia Silveira e o livro traz selo da Cosac Naify. Na quarta capa do livro, Ana Maria de Niemeyer Cesarino faz algumas afirmações muito válidas. Nos últimos anos, treze milhões de hectares de florestas foram destruídos e essa destruição ameaça a sobrevivência de inúmeras espécies, entre elas o bicho-preguiça do Brasil. A preguiça é um animal que se disfarça entre as folhas das árvores, é silenciosa e toda sua vida acontece no meio das árvores. Destruída a mata, ela perde seu habitat natural. Para os índios Apurinã, um povo indígena da Amazônia, a preguiça é um animal ancestral. Este livro cheio de dobraduras, e de um pequeno texto verbal é um chamado para que as pessoas se conscientizem da gravidade da destruição das nossas matas. Os ilustradores utilizaram poucas cores, com predomínio, naturalmente, da cor verde. Difícil é descobrir onde o bicho-preguiça se esconde. “Dinos do Brasil” recebeu o prêmio na categoria dos Informativos. Luiz E. Anelli, professor e pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), é o autor do texto verbal; Felipe Alves Elias, biólogo e mestre em geologia, foi o responsável pelas ilustrações. O livro foi editado pela Peirópolis, uma editora que revela preocupação com o meio ambiente. Todos os dinossauros de nomes bem estranhos que constam nesse livro já habitaram o Brasil há muitos e muitos anos. Com uma linguagem bem acessível (só as espécies dos dinossauros têm nomes difíceis), escritor e ilustrador viajam pelo Brasil e apresentam para os leitores as regiões que foram habitadas por esses animais pré-históricos. Havia dinossauros na região gaúcha, no cariri do Nordeste, na Amazônia, no Mato-Grosso, em Minas Gerais e em São Paulo. Com nota de pé de página, vem o significado do nome do dinossauro, onde ele foi encontrado , quando, idade e comprimento. Para cada espécie vem sempre a explicação correspondente. Várias aves estão representadas neste bonito livro de Heloisa Prieto “O Livro dos Pássaros Mágicos” (Ed. FTD), que contou com as ilustrações de Laurabeatriz, uma ilustradora apaixonada pela flora e fauna do Brasil. Esta antologia compreende textos de diferentes culturas e presta uma homenagem às aves, algumas reais, outras imaginárias. Elas habitam no nosso planeta ou povoam o imaginário de muitos povos. Na apresentação do livro, Heloísa Prieto afirma que desde pequena aprendeu a amar os pássaros e “estimar uma ave é, antes de mais nada, permitir-lhe a liberdade.” A autora considera que o canto de um pássaro é uma espécie de presente que se aceita da natureza. O único preço do homem é cuidar para que este espaço reservado aos pássaros seja preservado. No universo de dezesseis contos de origens diversas, há apenas um poema – “Íbis, ave do Egito”, de Fernando Pessoa. Dois contos integram a coleção de contos sufi – “O rouxinol e a rosa” e “O Falcão”. Conto sufi é um conto de origem árabe. O sufismo se desenvolveu no Islã e os sufistas acreditam na existência de um só Deus. Dois contos de origem brasileira integram a coletânea – “O Pica-pau”, uma lenda da região do Pará que atribui poderes sobrenaturais a essa ave. O pica-pau é um pássaro guardião da raiz da liberdade, ele conserva essa raiz nos seus ninhos, é inimigo das portas fechadas e é capaz de destrancar tudo. O outro conto é de origem indígena – “Txunô, a Andorinha”, é uma história que circula entre os indígenas Caxinuá, fala da amizade do menino Bako com uma andorinha e o valor da liberdade. Não sabemos o que mais atrai neste livro – se os contos recontados por Heloísa Prieto ou as bonitas ilustrações de pássaros de Laurabeatriz. A leitura alegra o espírito e as ilustrações encantam o olhar.

 NOTAS LITERÁRIAS Segue a relação dos livros premiados pela FNLIJ/2012, com o nome dos autores e das editoras. Acrescentamos que na área de livros para crianças e jovens, o trabalho de seleção da FNLIJ tem o reconhecimento de toda crítica brasileira. 1. CRIANÇA. O Alvo. Texto de Ilan Brenman. Il. Renato Moriconi. Ed. Ática 2. JOVEM. A morena da estação. Ignácio de Loyola Brandão. Ed. Moderna. (Este livro traz fotografias de antigos trens, de passageiros e de velhas estações ferroviárias). 3. IMAGEM. A Chegada. Shaun Tan. Ed. SM (Todas as ilustrações deste livro são em preto e branco, grafite, à maneira de Hugo Cabret). 4. POESIA. O Lenhador. Catulo da Paixão Cearense. Org. Francisco Marques (Chico dos Bonecos). Ed. Peirópolis. 5. RECONTO. O Livro dos Pássaros Mágicos. Texto de Heloisa Prieto. Il. Laurabeatriz. Ed. FTD 6. INFORMATIVO. Dinos do Brasil. Luiz E. Anelli. Il. Felipe Alves Elias. Ed. Peirópolis. 7. LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA. Poetas portugueses de hoje e de ontem, do século XII ao XXI para os mais novos. Seleção de Maria de Lourdes Varanda, Maria Manuela Santos e Miguel Sousa Tavares. Il. Felipa Canhestro. Ed. Martins fontes, selo Martins. 8. TEÓRICO. Livro Ilustrado: palavras e imagens. Maria Nikolajeva e Carole Scott. Trad. Cid Knipel. Ed. Cosac Naify. 9. TEATRO. A Roda que gira a Roda. Flávia Savary. Imagens Rosinha. Ed. Dimensão. 10. TRAD.. ADAPT. CRIANÇA. Uma noite muito estrelada. Texto e Il. De Jimmy Liao. Trad. Lin Jun e Cong. Ed. SM. Obs: Nesta mesma categoria, recebeu prêmio o livro Fonchito e a lua, de Mário Vargas Llosa, com ilustrações de Marta Chicote Juiz. Ed. Objetiva. 11. LIVRO- BRINQUEDO. Na floresta do bicho-preguiça. Texto de Sophie Srady . Il. De Anouck Boisrobert e Louis Rigaud. Trad. Cássia Silveira. Ed. Cosac Naify. 12. TRAD. ADAPT. JOVEM. Branca como o leite, vermelha como o sangue. Alessandro D ´Avenia. Trad. Joana Angélica d ´Ávila Melo. Ed. Bertrand Brasil. 13. TRAD. ADAPT. RECONTO. Fábulas de Esopo. Beverley Naidoo. Trad. Isa Mesquita. Ed. SM 14. TRAD. ADAPT. INFORMATIVO. O menino que mordeu Picasso. Antony Penrose. Trad. José Rubens Siqueira. Ed. Cosac Naify.

domingo, 15 de abril de 2012

ABC de Rachel de Queiroz

ABC DE RACHEL DE QUEIROZ

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

[...] sempre tive a convicção íntima de que, na vida artística ou literária, a única coisa que importa é o que você escreve [...]
(Rachel de Queiroz. Tantos Anos, p. 233).

O ABC é uma modalidade poética da literatura de cordel que se compõe de estrofes que se iniciam pelas letras do alfabeto, de A a Z. Geralmente celebram feitos gloriosos ou homenageiam personagens relevantes. Paulo Nunes Batista, poeta paraibano, radicado em Goiás, é exímio na arte do ABC. José Alves Sobrinho, no “Glossário da Poesia Popular”, assim define o ABC: “Regra de poesia mnemônica, muito usada pelos poetas populares. Usavam-se regras para facilitar a aprendizagem, pois, cada estrofe começava por uma letra do alfabeto, de A e Z, até o til era utilizado como letra.”
“ABC de Rachel de Queiroz” (Ed. José Olympio, 2012), de Lilian Fontes, apresenta um resumo da vida e da carreira literária da escritora cearense. É um texto em prosa que se utiliza da denominação da poesia popular – ABC – para homenagear a escritora nordestina Rachel de Queiroz que gostava de cantoria, dos cantadores e da poesia popular. Este livro é a porta de entrada para o leitor iniciante conhecer melhor a obra da romancista e escritora.
Vamos seguir a trilha do A, B e C, deixaremos as outras letras para uma leitura posterior.
A – Academia Brasileira de Letras.
Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Depois de tentativas frustradas de Júlia Lopes de Almeida, de Amélia Beviláqua e Dinah Silveira de Queiroz, coube a Rachel o privilégio de vestir o fardão da Academia. Posteriormente, Dinah conseguiu entrar para a ABL.
Rachel concorreu com um forte opositor – Pontes de Miranda, jurista consagrado no Brasil com vários livros publicados na área do Direito. Foram 23 votos a favor de Rachel e 15 atribuídos ao seu oponente. Alguns acadêmicos votaram abertamente na escritora cearense: José Cândido de Carvalho, Francisco de Assis Barbosa, Herberto Sales, Mauro Mota, Miguel Reale, Austregésilo de Athayde e Lyra Tavares.
A festa de posse ocorreu no dia 4 de novembro de 1977 e foi uma festa muito popular. Artistas, jornalistas e escritores de diversos estados do Brasil compareceram à posse da escritora. A escola de samba da Portela fez questão de estar presente para prestar homenagem à primeira mulher a ocupar uma cadeira na Casa de Machado de Assis.
Rachel de Queiroz abriu as portas da ABL para a entrada de novas acadêmicas. Três anos depois, em 1980, seria a vez de Dinah Silveira de Queiroz. Em 1985, entrou Lygia Fagundes Telles. Em 1989, foi Nélida Piñon que, em 1996, foi eleita a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Em 2001, Zélia Gattai ocupou a cadeira deixada por seu marido Jorge Amado. Em 2003, seria a vez de Ana Maria Machado, atual presidente da ABL, que tem uma vasta obra dedicada ao público infantojuvenil.
B – Brasil.
Rachel de Queiroz nasceu em 1910, período que o Brasil passava por grandes transformações políticas. Deposto o presidente do estado do Ceará, Antônio Pinto Nogueira Accioly, que há mais de vinte anos se mantinha no poder, assumiu o coronel Franco Rabelo que invadiu a cidade de Juazeiro para destituir o governo paralelo do Padre Cícero Romão. A população reagiu, as pessoas da cidade foram à luta e a tropa do coronel Franco saiu derrotada. A família da escritora apoiava o Padre Cícero e Rachel cresceu ouvindo as histórias de resistência política do povo do Ceará, a luta do Padre Cícero, e tornou-se admiradora dessa figura lendária do Nordeste.
A seca que assolava o Ceará obrigou a família a mudar-se para o Rio de Janeiro (1917) posteriormente, no mesmo ano, ocorreu nova transferência, dessa vez para Belém do Pará. O pai, Dr. Daniel Queiroz, havia recebido o convite para ser juiz em Belém. A capital do Pará vivia um momento de efervescência cultural, mas a família sentia falta de suas raízes. Em 1919, Dr. Daniel voltou para Fortaleza. Foi em Fortaleza que Rachel de Queiroz iniciou seus primeiros estudos. Nessa época a menina já tinha uma visão do Sudeste (Rio de Janeiro) e do Norte do Brasil (Belém).
C- Ceará
Quando voltou a morar no Ceará, Rachel contava nove anos e o resto da sua infância passou entre Fortaleza e a fazenda do Junco, vivendo entre a cidade e o sertão. Junco, trecho do município de Quixadá, seria o verdadeiro “lugar” da futura escritora, seu grande “berço”.
A fazenda do Junco era tipicamente nordestina, havia matas de caatingas, campos de capim-panasco, riachos e um açude. Rachel gostava de tomar banho no açude que, aos olhos da criança, parecia um verdadeiro mar. Leitora de Júlio Verne e das “Vinte mil léguas submarinas”, imaginava-se o próprio capitão Nemo. No livro autobiográfico, “Tantos Anos”, ela confessa: “O açude do Junco me alimentou a imaginação durante toda a adolescência”. (p. 98)
Esses são os três primeiros capítulos do livro “ABC de Rachel de Queiroz”, mas há muitos outros guardados neste livro esperando que o leitor venha desvendá-los.
NOTA LITERÁRIA

14º. SALÃO FNLIJ DO LIVRO
O 14º. Salão do FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens começa no dia 18 de abril, Dia Nacional do Livro Infantil. Esta data marca o aniversário de nascimento de Monteiro Lobato, patrono da literatura infantil e juvenil no Brasil.
O Salão do Livro acontece anualmente no Rio de Janeiro, sede da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. O local do 14º. Salão do Livro é no Centro de Convenções SulAmerica. Este ano 78 editoras de literatura infantil e juvenil participam do evento, superando o número do ano passado.

( Texto publicado no jornal "Contraponto". João Pessoa, abril de 2012)

domingo, 8 de abril de 2012

Música para Todos

MÚSICA PARA TODOS
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

A música é a arte mais direta, entra pelo ouvido e vai ao coração... É a língua universal da humanidade.
(Astor Piazzolla. Músico e compositor argentino).

Uma viagem pelo tempo através da música e dos compositores é a proposta de Monika e Hans Günther Heumann no livro “Uma história da música para crianças” (Ed. Martins Martins Fontes, 2011). A apresentação do livro é do maestro brasileiro Isaac Karabtchevsky. A tradução ficou a cargo de Tereza Maria Souza de Castro e as ilustrações são de Andreas Schümann.
Isaac Karabtchevsky regeu durante muitos anos e Orquestra Sinfônica Brasileira (Rio de Janeiro), atualmente é o regente da Orquestra de Heliópolis na periferia de São Paulo e diz com muito orgulho: “vivencio com alegria o quanto a música é revolucionária na formação de crianças e jovens”.
Para despertar mais interesse no leitor jovem, Monika e Hans Günther criaram duas personagens entusiasmadas por música – a menina Clara e seu irmão Frederico. As duas crianças vão passar as férias na casa dos avós e muito aprendem sobre música, sobre a vida dos compositores. As informações vão desde a Idade da Pedra até os tempos modernos. São bem interessantes os diálogos entre os avós e os netos.
Vamos iniciar nossa viagem com alguns fatos interessantes a respeito da origem da música e sobre os instrumentos musicais antigos.
A origem da música é atribuída ao ritmo de muitas atividades como bater os pés, bater com paus ou pedras e a imitação dos sons dos animais, principalmente os sons dos pássaros. Dentre os instrumentos musicais mais antigos, destacam-se os apitos de falange, feitos de patas de renas, as flautas com até cinco orifícios, os chifres de animais e conchas. Mais tarde surgiram os tambores (4 mil anos a.C.).
Na segunda viagem no tempo, vamos conhecer um pouco das civilizações antigas (por volta de 3 mil a.C.). Os instrumentos encontrados nas escavações, textos de registros antigos, o trabalho dos arqueólogos e a Bíblia demonstram quais eram os instrumentos dessas civilizações. Na Mesopotâmia, havia lira, harpa e alaúde, flauta, charamela dupla, trombeta e instrumentos de percussão (claves ou bastões sonoros, chocalhos e tambores). A chamarela é um instrumento de sopro oriundo da Arábia, assemelha-se a uma flauta. As músicas eram tocadas nos ritos religiosos, em torneios, nas danças, para acompanhar refeições e festas, nas ações militares e no trabalho.
Na hierarquia de uma sociedade, os músicos vinham logo depois dos reis. A música era considerada um bem valioso. Em caso de guerra, os músicos eram poupados, mas levados como “saque” para enriquecer a cultura musical do conquistador.
As civilizações do Egito, China, índia, Grécia e Império Romano cultuavam a música.
Na Idade Média, por volta de 600 -1400, vamos encontrar a música sacra, os menestréis e muitos instrumentos musicais, entre eles o órgão. A rabeca e a viola de roda surgiram nesse período.
O Renascimento abrange um período que vai mais ou menos de 1400 a 1600. A música sacra e a profana conviviam pacificamente. No centro da música sacra, estava a missa e o moteto. Moteto é um gênero musical polifônico. A música profana utilizava a língua de cada país. Na França, eram as chansons, na Itália, as canções italianas. No século XVI, com Martinho Lutero, surgiu a música evangélica. Encontram-se importantes compositores renascentistas, entre eles Giovanni Pierluigi da Palestrina e Orlando di Lasso.
Chegamos ao Barroco e foi nesse período (1600-1750) que surgiu a ópera. O primeiro compositor de óperas foi Claudio Monteverdi. Em 1607, ele escreveu a primeira verdadeira ópera –“L´Orfeo” e o primeiro teatro de ópera foi inaugurado em Veneza. Uma das casas de óperas mais famosas do mundo fica em Milão, é o Teatro alla Scala. Não poderia esquecer que Johann Sebastian Bach, um dos maiores compositores da história da música, é do período Barroco. Ainda há de se destacar o nome de Georg Friedrich Haendel, autor de “O Messias”.
A quinta viagem no tempo passa pelo Pré-Classicismo e Classicismo (1720- 1820). Nessa época, vamos encontrar grandes músicos e grandes compositores. É a fase do império de Mozart e Beethoven.
A música romântica tem grandes representantes: Schubert, Schumann, Franz Listz e Chopin. Nos grandes salões, as valsas de Strauss pontuavam. Na Rússia, Tchaikovsky compôs lindas melodias e músicas para balé. Quem não se recorda de “O lago dos cisnes”? “O quebra-nozes?” São músicas inesquecíveis.
A música impressionista começou no início do século XX – 1900. Debussy, Manuel de Falla e Maurice Ravel são bons representantes deste período.
Chegamos ao fim da nossa viagem musical, era da Música Nova com uma variedade muito grande de instrumentos e de gêneros musicais. É a era do jazz, do rock, da música pop. Lembramos o nome de Astor Piazzolla. Ele incorporou ao tango um pouco de jazz e de música clássica.
Chamamos a atenção do leitor para alguns aspectos relevantes neste livro. Há seções que merecem um exame cuidadoso e citamos: “Vale a pena saber”, “Jogo da música” (com questões sobre o assunto apresentado) e “Um pouco de humor.” (fatos pitorescos da vida dos compositores).
Lembram-se do nome dos meninos que foram citados no início deste texto? Clara e Frederico. Clara pode ser associada à Clara Schumann, famosa pianista que foi casada com Robert Schumann; Frederico nos leva a Frédéric Chopin, importante compositor e pianista do período romântico.
Neste mês que se inicia – ABRIL - mês dedicado ao livro, fica o convite para a leitura deste interessante e instrutivo livro.

NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

A VEZ DAS ESCRITORAS SUL-AMERICANAS

O Prêmio Hans Christian Andersen 2012 (IBBY) foi divulgado na Feira internacional do Livro Infantil e Juvenil em Bolonha, no dia 19 de março. A vencedora foi a escritora argentina Maria Teresa Andruetto. Na área da ilustração, o vencedor foi Peter Sis, ilustrador tcheco. O ilustrador brasileiro Roger Mello ficou entre os cinco finalistas.
A escritora chilena Isabel Allende ganhou o Prêmio Andersen de Literatura. Este prêmio foi criado por uma fundação privada em colaboração com a Prefeitura de Odense, cidade de nascimento de Andersen. A entrega do prêmio será no dia 30 de setembro de 2012.

ABRIL- MÊS DO LIVRO

Dia 02 de abril – Dia Internacional do Livro Infantil – nascimento de Hans Christian Andersen.
Dia 18 de abril – Dia Nacional do Livro Infantil no Brasil – nascimento de Monteiro Lobato
Dia 20 de abril – Dia do Escritor Paraibano – nascimento de Augusto dos Anjos
Dia 23 de abril - Dia Mundial do Livro.
( Publicado no jornal "Contraponto", abril de 2012)

sexta-feira, 30 de março de 2012

RODA MOINHO: histórias de amores com sabor antigo

RODA MOINHO: histórias de amores com sabor antigo
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
nas voltas do meu coração.
(Roda Viva. Chico Buarque).


A Editora CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) lançou em 2010 um concurso de literatura infantil e juvenil para todo país. Mais de 100 trabalhos foram inscritos, “Roda moinho”, de Eloí Bocheco, ganhou o prêmio Hors Concours.
“Roda moinho” é um romance juvenil dividido em doze capítulos. A narrativa entrelaça várias histórias - a do moinho antigo da cidade de Moinhos, a de Maria Lígia e o filho Leonardo e a história da escritora Pauline. Todas essas histórias são contadas pelo personagem-narrador Leonardo, Leo para o mais íntimos.
As ações se desenrolam na cidade de Moinhos, um lugar muito tranquilo durante a semana e movimentado aos sábados e domingos. No fim de semana, vinham pessoas de diferentes locais para visitar o moinho d´água que ficava perto do rio e o moinho do vento, situado no alto do morro.
Quando Leonardo nasceu, os moinhos já não tinham serventia, as pessoas mais velhas diziam que eram assombrados, daí o motivo de atrair tantas pessoas para visitá-los.
As imagens de coisas antigas – moinhos, as casas da pequena cidade, indumentária dos personagens, paisagens, tudo foi muito bem retratado pela técnica de aquarela do artista plástico Pedro Zenival. É possível se transportar para o passado olhando as bonitas ilustrações.
Sem respeitar muito a ordem dos capítulos, vamos examinar as histórias começando pela origem dos moinhos e o que eles significavam para os moradores da cidade. As narrativas são todas contadas sob o ponto de vista do personagem-narrador, Leonardo, um menino com doze anos de idade.
Quem quiser saber a história dos moinhos, deve ouvir seu Miguel, conhecido na região como “o guardião das memórias dos moinhos”. Na voz de Miguel, as histórias ganhavam vida e despertavam interesse, ele explicava que os moinhos surgiram com a família Pereira Gomes e que eram utilizados antigamente para moer o trigo e fazer pão. A família Pereira Gomes ajudou a fundar a cidade, mas todas as pessoas dessa família foram dizimadas por uma epidemia, com exceção da filha mais nova, essa morreu de amor. A moça apaixonou-se por um mascate que vivia viajando e vendendo coisas de porta em porta, o pai proibiu o namoro, a moça ficou sem comer, não saía mais de casa, foi definhando, definhando, até morrer.
A história de Leonardo, o personagem-narrador, envolve a mãe, o pai que deixou a mulher para viver uma nova aventura amorosa e o trabalho da mãe – a confecção de docinhos para vender aos moradores e visitantes da cidade. Tudo é contado sob a ótica do menino.
A mãe relembra com saudades do tempo em que morava com o marido e dos poemas que ele gostava de ler para ela – poemas de Emily Dickinson, de Camões e de Fernando Pessoa. Às vezes a saudade era tão grande, a dor da separação batia tão forte que Maria Lígia ficava triste, calada. Nessas ocasiões, o menino sabia que a lembrança do pai povoava o pensamento da mãe. A história de Maria Lígia é também uma história de amor perdido.
Morando em uma cidade pequena, Leonardo conhecia os moradores um por um. A casa verde que ficava na mesma rua de Leonardo ficou desabitada por um certo tempo, depois foi ocupada por uma senhora simpática e muito gentil, Pauline, uma professora de Biologia aposentada e que já havia morado em muitos lugares. E por que escolheu Moinhos para morar? Agora, dedicada à literatura, resolveu viver em um lugar tranquilo onde pudesse escrever com a serenidade que a escrita exige. Leonardo e Pauline se tornaram amigos. Ela falava sobre seus livros, sobre a criação dos personagens, e o menino ouvia com muita atenção.
Por fim, temos a história da paixão de Leonardo por Natália, uma colega da escola, estudiosa e com a maneira de pensar que combinava com Leonardo. Quando o amor parecia instalado de vez no coração do menino, o pai de Natália foi transferido para Curitiba e com ele viajou toda família. Leonardo sofreu muito com a ausência de Natália. Promessas de futuros encontros, de reencontros, não conseguiram aliviar a dor da separação.
As personagens das histórias de “Roda Moinho” estão todas ligadas à literatura e à poesia, alguns de forma mais direta, como Pauline, outras com o gosto pela leitura de poemas, no caso a mãe de Leonardo e o próprio menino. No decorrer da narrativa, o leitor encontra a inserção de sonetos e de poemas lidos e repetidos pelos personagens.
O último capítulo do livro, “Os riscos do bordado” (p. 63-65) é uma reflexão sobre o fazer literário. Uma moça borda na alva percalina, no branco linho ou no puro algodão, histórias sonhadas e desenhadas. Borda e sonha, e faz “surgir da ponta de sua agulha e do fundo de seu dedal os mistérios guardados nos riscos”.(p. 63) E o tecer das linhas e do bordado se associa ao trabalho literário.
( Texto publicado no jornal “ Contraponto”, João Pessoa, março de 2012, mês dedicado à Mulher)

segunda-feira, 26 de março de 2012

A ressurreição de Carlos Lébeis


A RESSURREIÇÃO DE CARLOS LÉBEIS

A infância é a época em que imaginação e realidade se confundem.
(Laura Sandroni)

Quando falamos em literatura infantil brasileira dos anos 30 e 40 do século XX, despontam os nomes de Monteiro Lobato, Viriato Correia e alguns livros de Luís Jardim, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Estes três últimos escreveram livros para adultos e fizeram incursões no terreno da literatura infantil. Carlos Lébeis, que foi contemporâneo de Lobato, é sempre esquecido. A Cosac Naify, com a publicação de “Cafundó da Infância (2011) e “No país dos quadratins...” (2012) procurou ressuscitá-lo.
Quem foi Carlos Lébeis?
O nome completo do escritor é Carlos Magalhães Lébeis, nasceu em São Paulo em 1889 e faleceu em 1943. Nelly Novaes Coelho, no “Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira (1882-1982)” traz um pequeno verbete sobre o autor. Diz a crítica da literatura infantil:
“Faz parte da geração de 22, tendo sido considerado pelos companheiros como um “grande talento”...] Escreveu dois livros para crianças: O PAÍS DOS QUADRATINS (ilustrado por Cândido Portinari, publ em 1928) e A CHÁCARA DA RUA UM (1930). São estórias de travessuras infantis, onde o espaço real ( de natureza edênica e acolhedora) acolhe situações onde o mágico prevalece.” (p. 110).
A editora Cosac Naify conseguiu resgatar os livros de Carlos Lébeis e publicou “Cafundó da Infância” (2011), com ilustrações de Anita Malfatti e “No país dos quadratins...” (2012), ilustrado por Cândido Portinari. Ainda, em 2012, pretende publicar “A chácara da rua Um”.
“Cafundó da infância” permaneceu inédito por mais de 70 anos. Um sobrinho de Carlos Lébeis, Paulo Bomfim, teve acesso aos originais do livro e, depois de muitos anos, cumpriu a promessa que fizera um dia a Anita Malfatti - cuidar da publicação deste livro destinado às crianças. Anita não teve tempo de ver o livro publicado, mas as ilustrações da pintora aparecem na capa e nas páginas internas e dão um toque especial à história do pássaro Curió.
Cafundó da infância é um lugar distante e encantado onde tudo pode acontecer, até o impossível. Lá os passarinhos têm nome e são tratados como seres humanos. Existe um tico-tico que é conhecido como Tico-tico de Sousa, um vira chamado Maneco Vira-vira, um pintassilgo, Pintassilgo Caruso. Existe, também, um tal de João de Barros.
Curió Xavier é o personagem principal dessa história. Ele falava como gente e resolveu contar para alguém as suas memórias. Não sabemos se era para um menino ou adulto, podia ser para um poeta como Manoel de Barros, chegado na idade, mas com a alma de criança.
Caro leitor ou leitora, não se espante com as histórias desse passarinho falador. Emília, a boneca feita de pano por tia Nastácia, contou suas memórias para o Visconde de Sabugosa, que era um sabugo de milho e lembre-se de que Carlos Lébeis foi contemporâneo de Lobato.
Curió começou suas memórias com o relato do local de seu nascimento – um quintal cheio de várias espécies de árvores frutíferas: mangueiras, jaqueiras. Todos os animais viviam em perfeita harmonia. Nesse “país-paraíso”, morava um menininho miúdo e esperto, dono de um coração maior do que a “manga coração de boi”. Era um anjo sem asas, amigo de todos os animais e de todas as plantas. O nome desse menino era Esperidião Caxuxo.
Mas nem tudo continuou só bonança no Cafundó da infância. Um dia... chegaram uns meninos esquisitos, mal-encarados e perversos, meninos de barba-grande e voz grossa. Esses meninos pareciam ter parte com o demo. E sabe o que eles queriam fazer? Derrubar as árvores e matar todos os passarinhos. Será que esses meninos malvados conseguiram o que pretendiam? Somente o Curió Xavier sabe da resposta, e o leitor curioso poderá saber também.
“Cafundó da infância” é um livro de teor ecológico. A luta dos pássaros para se livrar dos meninos perversos, o desejo das árvores de serem transplantadas revelam o amor do autor pela natureza.
Os capítulos do livro correspondem às histórias contadas pelo Curió Xavier e cada história traz uma ilustração colorida de Anita Malfatti. O título dos capítulos aparece em papel de folha colorida dobrada. Ao desdobrar a folha, surge a bonita ilustração de Malfatti – desenhos delicados, cores suaves, tudo condizente com o clima paradisíaco do livro.
Paulo Bomfim, no posfácio, afirma: “Carlos Magalhães Lébeis, o inesquecível tio, está ligado pelos túneis da memória e do afeto da minha infância.”.
Não poderia concluir sem fazer referência ao vocábulo “cafundó”, hoje pouco usado. No Dicionário da Língua Portuguesa de Houaiss, cafundó, palavra de origem africana, é local de difícil acesso, situado entre montanhas e pouco habitado. Na linguagem popular, um lugar onde o cão perdeu as botas ou onde o vento faz a curva.

REVELAÇÃO

A escritora Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, foi entrevistada no programa “Leituras” (TV. Senado, 17/03/2012) e revelou o segredo do sucesso de seus livros: escrevo como quem fala, sem artificialismos, sem jargões, e devo isso a experiência com a prática jornalística e o rádio. Durante muitos anos, Ana Maria Machado foi colunista do “Jornal do Brasil”.
( Textos publicados no jornal “Contraponto”, março de 2012)

quinta-feira, 15 de março de 2012

A lua no cinema:quatro momentos distintos


A lua no cinema: quatro momentos distintos
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)


Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
(Cecília Meireles. Lua adversa. In: Vaga Música).

Eucanaã Ferraz organizou a seleção de poemas “A lua no cinema e outros poemas” ( Cia. Das Letras, 2011), livro destinado, “preferencialmente, aos jovens”. Vinte poetas integram a coletânea, sendo sete portugueses e treze brasileiros. Apenas duas poetisas – Fiama Hasse Pais Brandão e Sophia de Mello Breyner Andresen. As duas são portuguesas.
Ao todo são 68 poemas. O leitor encontra um índice como o título dos poemas, os nomes dos autores e uma breve nota sobre cada poeta. Aparecem, ainda, informações do exemplar de onde foram retirados os textos.
O título do livro remete ao poema de Paulo Leminski – “A lua no cinema” que se encontra na p. 59. Transcrevemos a primeira estrofe do poema:

“A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.” (p.59).

Os poemas estão divididos em quatro momentos distintos. No primeiro, com o subtítulo de “o verbo ser e outros verbos”, encontram-se poemas que mostram o decorrer da vida do homem: nascimento, infância, juventude, maturidade e velhice.
“não sei se isto é amor e outras dúvidas” é o subtítulo do segundo momento e compreende poemas que falam do amor, das incertezas e das dúvidas desse sentimento complexo. O terceiro momento – “na ribeira deste rio e outras paisagens” apresenta poemas voltados para a natureza. Verso de Fernando Pessoa é utilizado no subtítulo. No quarto e último momento – “não coisa e outras coisas”, os poemas selecionados reúnem seres e coisas que se misturam e se transformam, superando limites.
Vamos examinar alguns poemas da primeira parte, eles estão relacionados com as diferentes fases da vida do homem.
O primeiro é uma canção de Caetano Veloso – “Boas-vindas” (LP Circuladô, 1991). O poeta celebra o nascimento do filho e convida-o a conhecer a vida – que é gostosa, tem o sol e tem a lua, tem a poesia e tem a prosa.
O segundo poema – “A um recém-nascido”, José Paulo Paes saúda um bichinho tenro, frágil, o filho do homem. Entre uma estrofe e outra, aparece um refrão que se repete de forma variada – “é o filho do homem”, “é o filho da mulher”, “é o filho da fome,” “é o filho da fartura”, “é o filho do mundo.” Por fim, “É um filho de Deus”. Atente-se para a sutileza poética e a substituição do artigo definido (o) para o indefinido (um).
Manoel de Barros comparece com o poema “Infantil”. Aqui, o poeta explora o lado criativo da criança. Um menino conta uma história absurda à mãe e conclui:

“Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia”.
Eu não preciso fazer razão”. (p. 18)

Manoel de Barros gosta de aproximar a criança do poeta. Os dois são inventivos e não precisam dar explicações lógicas para entender as coisas.
Mário Quintana, no poema “O adolescente”, chama a atenção do jovem para a beleza da vida e alerta que essa beleza pode gerar o medo, mas um medo “fascinante e fremente de curiosidade”.
O poeta português Alexandre O´Neill, com o poema “Amigo”, refere-se à idade adulta do homem e faz uma reflexão sobre o que é um amigo e recomenda que se tenha cuidado com a palavra amigo.
E o que seria amigo?

“Amigo é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado
é a verdade partilhada, praticada.” (p. 26)

Chega-se à maturidade, à velhice. Para essa fase ingrata da vida só recorrendo a Paulo Leminski e enfrentá-la com uma doce ironia.

[quando eu tiver setenta anos]
“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar essa adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência” (p.44)

Os outros três momentos poéticos permanecem encobertos esperando o leitor.
Resta uma pergunta: Por que as poetisas brasileiras modernas não entraram na coletânea? Onde estão Roseana Murray, Marina Colasanti, Neide Archanjo, Zila Mamede? E Cecília Meireles – que é atemporal e eterna?

sábado, 3 de março de 2012

Hugo Cabret. O filme? Não, o livro


HUGO CABRET. O FILME? NÃO, O LIVRO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

As pessoas usam os computadores mais e mais, algo que apaga a mão do artista. Eu quis fazer algo com o qual fosse possível ver a mão do artista.
Brian Selznick. Nota explicativa sobre a ilustração do livro “A invenção de Hugo Cabret”)

“A invenção de Hugo Cabret” (Ed. SM), texto e ilustrações de Brian Selznick, tradução de Marcos Bagno, ganhou, em 2008, o Prêmio “Melhor Tradução para Jovem” da FNLIJ. O autor nasceu em East Brunswick, Nova Jersey (EUA), é formado em Design, Rhode Island. Marcos Bagno é tradutor, escritor e linguista. Atualmente é professor da UNB.
O livro foi adaptado para o cinema por Martin Scorsese em 3D e tem conquistado o público infantil e adulto. A reunião de texto, imagens, quadrinhos e cinema oferece uma variada experiência de leitura. É um volume de 533 páginas que mescla linguagem verbal e pictórica. As duas linguagens caminham pari-passu.
O colorido da capa contrasta com as inúmeras ilustrações internas que são todas em preto e branco. O ilustrador utilizou lápis (crayon), fez pequenos desenhos que depois foram ampliados. Ao longo do livro, o leitor observa o trabalho de “hachura”. Em desenho ou gravura, este tipo de ilustração produz efeito de sombra ou meio-tom. Os desenhos foram todos feitos com lápis HD, sombreados em preto e branco e apresenta figuras muito bem delineadas. Há páginas inteiras apenas com cenas visuais.
Vamos conhecer um pouco da história de Hugo Cabret.
Estamos em Paris nos anos 30 do século XX. O ambiente retratado é uma estação de trem. Nessa estação mora Hugo Cabret. É órfão e ficou sob os cuidados de um tio que, certo dia, desapareceu. Após o desaparecimento do tio que consertava relógios, Hugo luta sozinho pela sobrevivência. Mora na própria estação em um apartamento secreto construído para o pessoal que dirigia a estação de trem há alguns anos. Por ter apenas 12 anos, poderá ser recolhido a um abrigo de menores abandonados, por isso deve manter-se no anonimato e foge quando avista o inspetor da estação. Ir para o orfanato é a última coisa que Hugo deseja. O menino tem uma missão a cumprir que só poderá ser realizada em liberdade.

Do pai, um relojoeiro, Hugo se lembra das histórias que ele lia à noite – as incríveis aventuras de Júlio Verne e contos de fadas de Hans Christian Andersen, que eram os seus favoritos. O pai gostava, ainda, de levar o filho ao cinema e um dos últimos que viu com o pai foi “um filme com um homem pendurado nos ponteiros de um relógio gigante.” (p.17).
O filme citado se chama “O homem mosca” e foi estrelado por Harold Lloyd.
O tio consertava relógios, era encarregado de manter sempre funcionando os grandes relógios da estação de trem e com ele Hugo aprendeu esse ofício. Quando o tio desapareceu, o menino passou a cuidar dos gigantescos relógios da estação e sentiu-se responsável pelo funcionamento dos mesmos.
Além do tio desaparecido, do pai que morre em um incêndio, aparecem outros personagens que merecem ser citados: o velho Georges e a sobrinha de Georges – Isabelle.
O velho Georges, personagem importante no decorrer da narrativa, é dono de uma loja de brinquedos que fica na estação de trem. Na loja há pequenas peças que podem ter grande serventia para um estranho objeto que Hugo está montando, daí fazer pequenos furtos na loja.
Este personagem foi inspirado no cineasta francês Georges Miélès, considerado o “pai dos efeitos especiais” no cinema. Na juventude, Georges Miélès trabalhou como desenhista e mágico, depois se interessou pelo cinema, virou ator e diretor. Nasceu em 1861 e faleceu em 1938. .
Para escrever este livro, Brian Selznick foi a Paris conhecer o ambiente onde a história se desenrola, tirou muitas fotos e pesquisou sobre a vida do cineasta Georges Méliès.
Isabelle, a sobrinha e afilhada de Georges, é uma menina curiosa e inteligente, mora na casa do tio e compartilha com Hugo Cabret nas suas descobertas e invenções. Aliado a tudo isso, Isabelle carrega no pescoço uma chave que poderá ser muito útil para os trabalhos do menino.
Um desenho enigmático, um caderno de anotações, uma chave roubada e um homem mecânico (um autômato) integram o universo desta intrincada e imprevisível história.
Literatura e Cinema se entrecruzam na história de Hugo Cabret. O convite ao leitor é para ler o livro, deliciar-se com as primorosas ilustrações de Brian Selznick e, se possível, ver o filme..