sábado, 20 de outubro de 2012

ERA UMA VEZ UM MENINO FELIZ



ERA UMA VEZ UM MENINO FELIZ
(Neide Medeiros Santos – Critica literária –FNLIJ-PB) 





O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro. O Brasil não tem problemas, só soluções adiadas.
            (Luís da Câmara Cascudo) 


Luís da Câmara Cascudo é figura conhecida dos folcloristas e dos estudiosos da cultura popular, mas estava faltando um livro sobre este grande pesquisador destinado às crianças. Em boa hora a editora Cortez publica “Cascudinho: o menino feliz” (2012), texto de Diógenes da Cunha Lima e Cristine T. da Cunha Lima Rosado, ilustrado por Marco Antônio Godoy.
Diógenes da Cunha Lima foi aluno de Câmara Cascudo e escreveu a biografia: “Câmara Cascudo: um brasileiro feliz” que já se encontra na 3ª edição. É autor de vários livros para o público infantil.
Câmara Cascudo nasceu em Natal (RN) e teve o privilégio de ser batizado pelo padre João Maria, considerado um padre santo, e embalado pela poetisa Auta de Sousa.
Seu primeiro banho foi com água morna em bacia de ágata, temperada com vinho do Porto. Dentro da bacia, colocaram uma moeda (patacão). O vinho era para que se tornasse  um homem forte e a moeda era para não faltar dinheiro no bolso durante a vida. Anos mais tarde, o folclorista escreveu sobre as superstições. Coisas do destino.
O pai de Câmara Cascudo se chamava Francisco Cascudo e a mãe Anna Maria da Câmara Cascudo. Quem consultar o livro “Contos Tradicionais do Brasil” irá encontrar muitos contos recolhidos pelo folclorista que foram contados por Francisco Cascudo (o pai) e por Anna Maria Cascudo (a mãe).
Foi conversando no alpendre da casa de Câmara Cascudo que Diógenes recolheu muitas informações sobre a vida do “infante e adolescente”. A respeito de Donana, como era chamada a mãe do folclorista, registramos: “Sua mãe, Anna Maria da Câmara Cascudo, conhecida como Donana, era figura importante na cidade. Para se ter uma ideia do quanto a população a respeitava, o filme no Royal Cinema só começava quando anunciavam a sua chegada”. ( 2012: p. 7)   
  Filho único, os pais tinham cuidado exagerado com o menino. Certa vez lhe deram o presente de uma gaiola de periquito, mas sem o periquito, isso para não correr o risco de ser bicado. Alguns anos depois, o menino criou uma coruja e teve dois cachorros de estimação – Gibi e Linguiça. Não lhe faltou a companhia de um cavalo, Cossaco foi seu cavalo de estimação – “um cavalo castanho, aristocrata e elegante”.
A leitura entrou na sua vida com a revista “Tico-tico”. Divertia-se com os personagens Gibi, Juquinha e Jagunço. “Já adulto, deliciou-se ao saber que a revista criou o Reco-reco, Bolão e Azeitona, personagens nacionais.” (2012: p. 12).
O interesse pelas histórias contadas pelo povo se intensificou com o que ouviu de pescadores. dos vaqueiros e dos cantadores de feira. As parlendas e os trava-línguas faziam parte de suas brincadeiras infantis.
Um dia o menino cresceu, estudou, e resolveu cursar medicina na Bahia, desistiu da carreira quando cursava o 4º. ano de medicina e resolveu ingressar na Faculdade de Direito do Recife, onde se formou em 1928. Depois de formado, dedicou-se ao jornalismo, ao magistério e às pesquisas etnográficas e folclóricas.  Revelou, também, interesse pelos mitos brasileiros e o livro “Geografia dos Mitos Brasileiros” é o resultado de pesquisa do imenso “fabulário” do Brasil.
Luís da Câmara Cascudo casou com Dhalia, teve dois filhos: Anna Maria e Fernando e escreveu muitos livros ligados ao folclore, à literatura oral e popular. Sua produção literária é vasta e diversificada. Dhalia também colaborou nas pesquisas sobre a recolha dos contos populares.
Como ex-aluno de Câmara Cascudo e frequentador assíduo da casa do folclorista, Diógenes da Cunha Lima ouviu muitos relatos da vida desse norte-rio-grandense que honra as letras brasileiras com seu vasto conhecimento e sabedoria. E assim o poeta e biógrafo resolveu contar a história da vida de Câmara Cascudo para crianças.
Para encerrar, acrescentamos palavras de Câmara Cascudo válidas para as gerações de todas as idades:
“O valor do conto não é apenas emocional e delicioso, uma viagem de retorno ao país da infância. [...] O conto popular revela informação histórica, sociológica, jurídica, social. É um documento vivo, denunciando costumes, ideias, mentalidades, decisões, julgamentos.” (Prefácio do livro “Contos Tradicionais do Brasil).
Vamos contar para nossas crianças a história de Câmara Cascudo e ler esses contos cheios de imaginação.  É preciso que elas saibam quem foi esse escritor amante da literatura, das tradições e  dos costumes do povo brasileiro. 

Dia das Crianças e do Professor ( 12 e 15 de outubro) 

O dia 12 de outubro é dedicado ás crianças e o dia 15 ao professor.   Para relembrar essas datas, recorremos às palavras da escritora Ana Maria Machado e do grande educador Bartolomeu Campos de Queirós.  

Fui atrevida, atrevidíssima, todas as vezes que me recusei a deixar que a literatura infantil fosse confundida com livrinhos para crianças e enquadrada no cercado das obras bem comportadas, cheias de liçõezinhas e apelos diminutivos ao mercado. Pelo contrário, procurei sempre dar aos textos infantojuvenis um tratamento estético, de ambiguidade, valorização da linguagem, significados múltiplos. Igualzinho a qualquer literatura. E me coloquei dessa forma, atrevidamente, no mundo literário.
(Ana Maria Machado. Palavras proferidas por ocasião das comemorações dos 35 anos da Fundação Nacional do Livro infantil e Juvenil. Boletim da FNLIJ, julho de 2003).

Se o professor é leitor- possui o hábito da leitura -, lê para seus alunos, se encanta diante das histórias, das poesias, dos contos fantásticos, também os alunos vão desejar ser leitores. Se o professor comenta suas leituras, mobiliza os alunos para estar com os livros, esse prazer se cristaliza já na infância. E, uma vez despertado, ele não nos abandona jamais. Nada custa ao professor ler um poema no início da aula, dizendo que descobriu, gostou e quer ler para eles. Se as crianças já sabem escrever, nada impede ao professor de fazer um ditado do poema, ou quem sabe imprimir e distribuir entre os meninos. Nenhuma pedagogia proibiu tal atitude. Quando leitor, o professor pode recomendar a leitura de uma determinada obra. Ele vai motivar os alunos, relatando sua emoção diante da leitura, vai expressar sua interpretação, aprofundando os alunos, para intensificar a leitura. Ler também se aprende.
(Bartolomeu Campos de Queirós. Ler é deixar o coração no varal).
 
 ( Texto publicado no Jornal Contraponto, Paraíba, 19 de outubro de 2012)



quinta-feira, 11 de outubro de 2012


PETER PAN na visão de Flávia Lins e Silva e de Adriana Silene Vieira
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            As crianças sabem de tanta coisa hoje em dia que logo deixam de acreditar nas fadas. E toda vez que uma criança diz: Eu não acredito em fadas, uma fada cai morta em algum lugar.
            (James M. Barrie. Peter Pan).

            Editado pela Zahar (2012), o clássico universal infantil “Peter Pan” surge em nova versão incluindo apresentação de Flávia Lins e Silva, tradução de Júlia Romeu, notas de Thiago Luís e ilustrações originais de F.D. Bedford.
            Flávia Lins e Silva deu este título a sua apresentação – “Uma viagem com Peter Pan pelas páginas, pelo tempo” (2012:7-29). Realmente a leitura desse texto leva o leitor a viajar com Peter Pan e com os outros personagens desta história através do tempo.
            A primeira edição do livro foi publicada em 1902 e trazia o título “The Little White Bird”. O livro foi adaptado para o teatro como “Peter Pan, or The Boy Who Wouldn´t Grow”, estreando em Londres em dezembro de 1904.
            O autor do livro – James Barrie – nasceu em Kirremuir, na Escócia em 1860. Na infância, a morte do irmão David em um acidente de patins marcou para sempre o pequeno Jamie (James). A respeito desse fato, Flávia Lins e Silva faz este comentário: “De certa forma, David ficou na imaginação de James como um menino que nunca chegou a crescer”.
            Flávia Lins e Silva prepara bem o leitor para viajar pelas páginas do livro e vai traçando caminhos – apresenta a Sra. Darling como a mãe perfeita; Peter Pan representa a idealização da eterna infância, ele não quer crescer; a menina Wendy é mais real, ela pensa em crescer, casar, ter filhos; o capitão Gancho, um dos vilões mais famosos de todos os tempos, não é um pirata típico – ele tem um rosto bonito, cachos negros e olhos azuis. Foge do estereótipo dos vilões que aparecem nas histórias para crianças.
            Há um fato interessante neste livro ressaltado pela apresentadora – Peter Pan não quer crescer para não ficar patético como os personagens masculinos adultos da história que são todos “ridicularizados, desvalorizados, diminuídos”. Vejamos: o capitão Gancho tem medo de sangue, é medroso; Jorge Darling se preocupa com o que os vizinhos pensam dele, é um homem bobo e inseguro. Esses exemplos de homens fracos e não merecedores da admiração do menino, justifica o desejo de Peter Pan. Ser grande, bobo e medroso é melhor ficar sempre criança. Mas, dentro da história, existe um lugar, um espaço para a fantasia – a Terra do Nunca, uma ilha imaginária, um lugar fictício onde tudo é possível acontecer, até as crianças ficarem eternamente crianças.
            Como foi que esta história chegou ao Brasil? Se o leitor se transportar para os anos 30 do século XX, já pode imaginar quem foi o autor da proeza – “Monteiro Lobato, o formador de leitores”. Lobato recontou à sua maneira, como sempre fazia quando traduzia ou adaptava os clássicos para as crianças e adolescentes. A professora Adriana Silene Vieira conta um pouco da história desse livro.
 “Peter Pan, história do menino que não queria crescer, contada por Dona Benta”, teve a primeira edição em 1930 pela Companhia Editora Nacional, depois se seguiram outras edições. Este livro adaptado por Lobato tem muitas coisas para contar.  “Uma delas é que fazia parte dos livros proibidos pelo Deops (Delegacia de Ordem Política e Social), órgão criado pelo Estado Novo, com a finalidade de controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder em 1941” (2008:172).    
            Qual o motivo para a perseguição ao livro? O procurador Dr. Clóvis Kruel de Morais afirmava que o texto era perigoso e “alimentava nos espíritos infantis, injustificavelmente, um sentimento errôneo quanto ao governo do país e incutia às crianças brasileiras a nossa inferioridade desde o ambiente em que são colocadas até os mimos que lhes dão”. (2008: 172)
            No Estado de São Paulo, os exemplares de Peter Pan, adaptado por Lobato, foram apreendidos e destruídos. Seguindo a orientação de Kruel, os policiais saíram procurando os locais onde o livro poderia ser encontrado e localizam quatorze volumes em Santos, dois em Araçatuba, Paraguaçu e Lorena, quatro em Rio Preto e 142 em São Paulo. Destino desses livros? Certamente, viraram cinzas.
            A respeito das adaptações de Monteiro Lobato, o escritor Marcos Rey afirma que Lobato tinha contato com o que havia de mais atual no mundo. A adaptação de “Peter Pan” foi mais uma ousadia desse escritor que viveu e sonhou muito além do seu tempo.
            Nilce Sant´Ana Martins considera que, nesta obra, Lobato deu voz às personagens e que elas aparecem mais do que o narrador. Esse comentário de Martins se coaduna com a opinião de Lobato em carta a Godofredo Rangel – “tecer elogios à escrita sob a forma de diálogos” (2008: 173).  
            E os leitores poderão perguntar: e a história de “Peter Pan” foi esquecida? Calma leitores, não sejamos apressados, na próxima semana ela fará companhia a vocês Nesse primeiro momento, quis apresentar a visão de duas estudiosas da literatura infantil brasileira – uma escritora – Flávia Lins e Silva e uma professora de Literatura – Adriana Silene Vieira.     

domingo, 23 de setembro de 2012



Monteiro Lobato: formador de leitores
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB) 


            Lobato escrevia porque lia e porque queria ensinar a ler. Lobato foi, nessa ordem, leitor, escritor e formador de leitores.
            (Socorro Acioli. Aula de leitura com Monteiro Lobato).


            “Aula de leitura com Monteiro Lobato” (Biruta, 2012) é a versão revisada e editada da dissertação de mestrado de Socorro Acioli, defendida na Universidade Federal do Ceará – “De Emília à Dona Quixotinha: uma aula de leitura com Monteiro Lobato”.  O prefácio é da lobatóloga Marisa Lajolo que considera importante este trabalho porque ressalta uma das vertentes mais promissoras dos estudos literários – a inclusão da leitura entre seus objetos.  
            O livro está dividido em quatro capítulos assim delimitados: “Personagens leitores”, “Monteiro Lobato: uma vida para leitura”, “A leitura no sitio do Pica-pau Amarelo” e “Emília, leitora de Dom Quixote: um caso de leitura-ação”.  
            Monteiro Lobato foi jornalista, crítico, cronista, escritor de livros infantis, romancista, editor e teve forte atuação no mercado editorial brasileiro. Socorro Acioli ressalta o papel inovador de Lobato como editor - criou estratégias eficientes de propaganda e de divulgação dos livros, deu oportunidade a novos escritores e ilustradores, aumentou a rede de vendas de livros no país.
            Nesses comentários ao livro de Socorro Acioli, vamos apresentar, inicialmente, um Lobato leitor, seguindo-se o escritor e, por último, o formador de leitores.  
            Lobato leitor – Na infância, o escritor teve contato com a biblioteca do avô, o Visconde de Tremembé, e foi nesse ambiente mágico que Lobato despertou para a leitura. Em carta a Godofredo Rangel (Barca de Gleyre, vol.1, p.51), Lobato, assim, se expressa:
            “A biblioteca do meu avô era ótima, tremendamente histórica e científica. Merecia uma redoma. [...] Cada vez que naquele tempo me pilhava na biblioteca de meu avô, abria um daqueles volumes e me deslumbrava.”
            Sobre as práticas de leitura, o escritor guardou, entre as lembranças da infância, os momentos em que reunia as irmãs e os filhos dos empregados da fazenda de sua família e passava horas a fio lendo para eles. Este episódio contado por Lobato me conduziu até João Cabral de Melo Neto. No poema narrativo “Descoberta da literatura”, o poeta fala sobre os folhetos de feira que lia para os trabalhadores do engenho de sua família, local onde sempre passava as férias escolares.
             Lobato relembra que leu, na infância, os livros de Júlio Verne e “Robinson Crusoé”, este último foi um presente que recebeu de Natal e foi “lido e relido com um deleite inenarrável”.
            Lobato escritor – O primeiro artigo de Lobato foi publicado em 1896, no jornal O Guarani, organizado pelos alunos do Colégio Paulista em Taubaté, contava 14 anos de idade. O artigo trazia o título “Rabiscando” e era uma crítica ao livro “Enciclopédia do riso e da galhofa”. Trazia a assinatura de Josbem, um dos pseudônimos utilizados pelo escritor.
            Em 1903, aluno do curso de Direito no Largo São Francisco, em São Paulo, fundou o jornal “O Minarete” e publicou vários textos neste jornal. Em 1904, vamos encontrá-lo como colunista do “Jornal de Taubaté”, escrevendo, depois, para muitos outros jornais de São Paulo.
            Em 1920, Lobato lançou seu primeiro livro infantil – A menina do narizinho arrebitado. Este livro foi o início de uma longa séria de livros para crianças. Mas Lobato escreveu também para adultos – contos, crônicas, artigos críticos e romances.  
            É na literatura infantil que encontramos o Lobato maior, o escritor querido das crianças e ele reconhece que este era o caminho da salvação quando diz em carta a Godofredo Rangel: “Estou condenado a ser o Andersen dessa terra – talvez da América latina, pois contratei 26 livros infantis com um editor de Buenos Aires”. (Esta carta traz a data de 28 de março de 1943).
            Lobato formador de leitores – Socorro Acioli estabelece comparações entre o educador Edgar Morin e Monteiro Lobato, os dois têm uma visão de mundo semelhante. Tanto para Morin como para Lobato o importante é “formar cidadãos capazes de enfrentar os problemas de seu tempo”. No livro “O poço do Visconde”, o Visconde de Sabugosa estuda geologia para descobrir o petróleo; “Nos Serões de Dona Benta” e em “História das Invenções’, a investigação científica e a pesquisa são estimuladas.
            Vários livros de Lobato dedicados às crianças são analisados pela ensaísta cearense que procura demonstrar a preocupação de Lobato com a formação do leitor.
            Aliado a tudo isso, há destaque para os aspectos técnicos sobre livros, leitura e escrita por meio de esclarecimentos feitos por Dona Benta – explicando o que é prefácio, a diferença entre gente e personagem.
            O último capítulo do livro é dedicado à Emília como leitora de Dom Quixote e a paixão da bonequinha por esse personagem marcante da literatura universal.
            Para o crítico Antonio Candido, “a literatura infantil é talvez a mais difícil de todos os gêneros literários (...) gênero ambíguo, em que o escritor é obrigado a ter duas idades e pensar em dois planos”.
            Monteiro Lobato conseguiu vencer essa barreira – portou-se como um escritor de duas idades - às vezes é um adulto/professor, outras vezes é uma criança que sonha e brinca como criança.

            NOTA LITERÁRIA

            AINDA LOBATO

 A obra literária de Monteiro Lobato tem sido objeto de inúmeras discussões, isso desde o tempo da ditadura Vargas. Recentemente, técnicos do MEC questionam: Lobato foi racista? “Caçadas de Pedrinho” deve ser banido dos bancos escolares ou acrescido de algumas informações? No meio dessa polêmica improdutiva, os  escritores  – Socorro Acioli e Simão Almeida  - publicam livros que valorizam a leitura na obra lobatiana (Acioli) e o papel do jornalista Lobato (Almeida) nos meios culturais brasileiros nas primeiras décadas do século XX. Lobato continua despertando interesse.  




terça-feira, 11 de setembro de 2012



ABC de José Lins do Rego
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB) 

As leis que regem a linguagem, quando se cristalizam e fecham em intransigências radicais, aniquilam a expressão e desmantelam o ritmo.
(José Lins do Rego. Discurso de posse na ABL, 1957).


A editora José Olympio, hoje pertencente ao grupo Record, tem uma história digna de registro no cenário das letras brasileiras. O livreiro e editor José Olympio foi o responsável pela edição e divulgação de muitos escritores nordestinos. Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Luís Jardim, nos anos 30 e 40 do século XX, integram o quadro de escritores da casa.   Gilberto Freyre dizia que José Olympio reunia em torno de si três dimensões – humana, cultural e editorial. Os anos se passaram, o livreiro/editor já não pertence ao mundo dos vivos, a editora sofreu revezes, mas o nome permanece bem vivo.
Atualmente, a editora José Olympio pertence ao grupo da Record.  Com o objetivo de divulgação escolar, os grandes escritores da antiga casa são apresentados de forma bem didática nos livros que trazem o título de ABC. Já tivemos o “ABC de Rachel de Queiroz”, “ABC de José Cândido de Carvalho”, aparece agora “ABC de José Lins do Rego” (Rio de Janeiro: José Olympio, 2012), texto de Bernardo Borges Buarque de Hollanda. O professor Damião Ramos Cavalcanti, conterrâneo de José Lins do Rego, foi o primeiro a dar a notícia sobre este livro que recebemos recentemente e passamos a tecer algumas considerações.
O ABC é um poema típico da literatura de cordel nordestina, composto de estrofes que se iniciam sucessivamente pelas letras do alfabeto, de A a Z. “ABC de José Lins do Rego” apresenta um resumo da vida e da obra do escritor paraibano com discussões de alguns temas pertinentes à obra deste escritor. Nas palavras de Bernardo Borges Buarque de Hollanda, é “uma porta de entrada para ajudar o leitor iniciante”.   
Bernardo Borges Buarque de Hollanda fez pós-doutorado em Paris, no ano de 2009, na Maison des Sciences de l´Homme e na Bibliothèque Nationalle de France e redigiu parte deste livro em Paris, a outra parte foi feita no Brasil e contou com a valiosa colaboração das filhas de José Lins do Rego e do poeta Thiago de Melo, amigo fraternal de Zé Lins.
Como ocorre com esta modalidade da poesia popular – ABC, vamos encontrar os verbetes agrupados de acordo com as letras do alfabeto, assim destacamos: A – Açúcar: E – Escola do Recife, F- Fogo Morto, G – Gilberto Freyre, J – José Olympio, M – Memória e Imaginação, Estes são alguns exemplos deste rico e vasto material sobre o escritor do “ciclo da cana-de-açúcar”. É sobre os verbetes citados que deitamos nosso olhar.
A – Açúcar. Para este verbete, o ensaísta Bernardo Buarque de Hollanda discorre sobre a origem do escritor José Lins do Rego, sua vivência no Engenho Corredor, a família, a ascensão e queda dos engenhos da várzea do rio Paraíba.  
E – Escola de Recife. A cidade de Recife é retratada, neste livro, a partir do ano 1916, época em que José Lins do Rego foi estudar naquela cidade a fim de concluir o ensino médio e se preparar para cursar a Faculdade de Direito. Bernardo Buarque de Hollanda traça um panorama histórico/político do período que compreende os anos da 1ª. Grande Guerra Mundial (1914/1918).
  F- Fogo Morto. Este romance é considerado pela crítica como a sua obra-prima. “O cenário de decomposição impregnaria boa parte das lembranças de José Lins, associando em sua memória a ruína das antigas unidades de produção de açúcar”. ( 2012,p.65). “Fogo Morto” representa a desfiguração de toda uma paisagem social do Nordeste.
G – Gilberto Freyre. A amizade de José Lins com Gilberto Freyre começou em 1923, no Café Continental, em Recife. Este local era ponto de encontro entre os políticos, jornalistas, escritores. Nas palavras do escritor paraibano, a amizade com o sociólogo pernambucano modificou inteiramente sua vida: “Para mim, teve começo naquela tarde de nosso encontro a minha existência literária. E a minha aprendizagem com o mestre da minha idade se iniciava sem que eu sentisse as lições.” (2012, p.79. Extraído do livro Gordos e Magros).
J – José Olympio. Mais do que um editor, José Olympio foi o responsável pela publicação de livros de autores nordestinos, entre eles José Lins do Rego. E vem uma informação interessante no que se refere à denominação “ciclo da cana-de-açúcar”. O nome de ciclo para os romances canavieiros  de José Lins foi uma sugestão da mulher de José Olympio, Vera Pacheco Jordão Pereira, uma estratégia que induzia para compra conjunta dos livros.   
M – Memória e Imaginação. Por sugestão de Gilberto Freyre, José Lins se tornou leitor de Marcel Proust. O escritor francês se apropriou da memória de maneira inovadora e descreveu suas recordações nos sete romances de teor memorialista – “Em busca do tempo perdido”. O livro “Menino de Engenho” e os outros romances canavieiros de Zé Lins apresentam várias características proustianas.
 É a sugestão que deixamos para os leitores neste inicio de setembro. Vamos reler os livros de Zé Lins, tendo como companhia o “ABC de José Lins do Rego”. 

NOTA LITERÁRIA 


JOACIL DE BRITTO PEREIRA (IN MEMORIAM)


 Joacil de Britto Pereira foi um escritor prolífero e transitou, com mestria, por vários gêneros literários: ensaio, romance, teatro, biografia, poesia. Um dos seus últimos textos foi escrito para a coletânea “Confesso que li” (João Pessoa: Ideia, 2012). Com o título “Memórias de infante e de adolescente”, pinçamos alguns momentos deste bem elaborado texto de cunho memorialista: 
Da primeira vez que falei em público, tinha pouco mais de cinco anos. E o fiz para declamar, em festa da Igreja Presbiteriana, uma poesia infantil. Ainda hoje a tenho de cor. [...] Um sucesso essa minha primeira falação. Declamei tudo direitinho, bem explicadinho, sem acanhamento e com a gesticulação adequada. Minha mãe me ensinara a poesia e comigo ensaiou para que pudesse recitá-la. Ela tinha dotes artísticos. (2012, p. 107-108).
Já adolescente, lembro-me muito bem que recebi uma missão de recitar, na noite de certo dia, em uma festa na Igreja Presbiteriana, o poema Caridade e Justiça, de Guerra Junqueiro. O pastor Josibias Fialho Marinho, pelas 08h00, me incumbiu de declamar aquele poema. Passei o dia ensaiando com minha mãe para recitar a versalhada de 22 estrofes, daquele vate lusitano. E à noite, dei conta do recado.” (2012, p. 108).
[...] também enveredei pela arte cênica, fui um dos fundadores do teatro de estudantes da Paraíba e encenei com o elenco a peça “Se o Anacleto Soubesse...”  de cujo elenco participei, interpretando o principal papel masculino.
Da adolescência à velhice sempre respirei literatura, mesmo enfermo leio e redijo todos os dias. (2012, p. 112).