domingo, 26 de julho de 2009

Viajar é preciso Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti.



Viajar é preciso
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil / PB)

Não há melhor fragata que um livro
para levar-nos a terras distantes.
(Emily Dickinson)

A editora Record atendeu a meu pedido e me enviou um livro há muito tempo desejado – Fragatas para Terras Distantes (Record, 2004), de Marina Colasanti. Ao recebê-lo, lembrei-me de Pedro Nava quando se referiu à aquisição dos livros que povoavam suas estantes:
“A aquisição de cada um foi o resultado de longas espreitas, pesquisas, paqueras, paciências e esperas – como na conquista das amadas”. (Galo-das-trevas.1987:49).
Chegou-me à noite e nessa mesma noite adentrei-me na leitura que me conduziu a terras distantes, mergulhei nos poéticos ensaios de Marina Colasanti e saí da leitura disposta a escrever mais um artigo sobre o desejado livro.
Composto de 17 ensaios que falam sobre leitura, alguns textos foram apresentados em congressos e seminários; outros integram artigos publicados em jornais e prefácios de livros. Vamos pinçar fragmentos e tentar despertar no leitor o desejo de ler o livro na íntegra.
“O real mais que real” é o primeiro artigo, e foi apresentado no Segundo Congreso de las Américas de Lectoescritura, em San José, Costa Rica, em 1995. Vale a pena transcrever a observação de Marina Colasanti sobre o conto “A pequena sereia” de Andersen:
A história da pequena sereia criada por Andersen não é uma história qualquer. É uma doce e maravilhosa parábola da vida. E se faz tanto sucesso com as crianças do mundo inteiro, que certamente não praticam os desmontes conscientes a que nós adultos e, sobretudo nós criadores e estudiosos da literatura somos levados, é porque as parábolas, como as metáforas, pertencem à linguagem dos sonhos, do imaginário. E não necessitam de desmontes para serem apreendidas. (p. 24)
“No mundo da magia se come rosbife” foi publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 2001, e, nesse texto, Marina discorre sobre a série Harry Potter e discute dois aspectos dos livros de Rowling: o mercado e o conteúdo.
No primeiro caso, ela afirma que os livros de J. K. Rowling vêm revestidos de uma grande onda de publicidade: outdoors, cartazes, anúncios de páginas inteiras, vitrinas especiais nas livrarias para expor os livros que se transformam em verdadeiros best sellers. São palavras de Marina Colasanti:
Harry Potter representa, portanto, uma virada no mercado editorial. A partir dele, instala-se a possibilidade de livros para crianças serem trabalhados ao mesmo tempo em vários países, em grandes lançamentos agressivos e coordenados, visando a vendas estratosféricas. Exatamente como certos livros para adultos. (p. 48).
Quanto ao conteúdo, Marina discorda do crítico norte-americano Harold Bloom que não considera os livros de Rowling bem escritos, ressaltando a presença de clichês. Reconhece que tem menos autoridade do que Bloom, mas vislumbra aspectos positivos nos livros da série Harry Potter e aponta: “poucas descrições e muitos diálogos”. Afirma ainda que a linguagem oral e o ritmo acelerado tornam os livros de Rowling palatáveis. Como convém a livros de série, eles deixam a porta aberta para a próxima rodada.
“Um espelho para dentro” foi apresentado no Encuentro de Escritores Brasileños, Casa de América, Madri, 2003.
Neste texto, a escritora se utiliza da metáfora do espelho para revelar o seu próprio eu. Partindo da pergunta: “Espelho, espelho meu, que escritora serei eu?” (p. 105), Marina, como a personagem Madalena, de Graciliano Ramos, no romance “São Bernardo”, se revela pouco a pouco e nunca se revela inteiramente.
Em seguida, fala sobre sua produção literária, seus livros, sua gênese, seu gosto pelos contos de fadas. Mas... depois de muito escrever, um dia ela se interroga:
Espelho, espelho meu, voltei a perguntar há exatos dez anos, o que foi que a escrita ainda não me deu”?
E o espelho respondeu: a poesia. (p.110)
Foi a partir da reflexão de não ser poeta que ela resolveu escrever o primeiro livro de poesias – Rota de Colisão e sentiu que a poesia estava no seu rumo, pois é na poesia, mais do que em qualquer outro gênero, que podemos beijar o lado de dentro das palavras. (p.110)
Nesse encontro, Marina Colasanti encerrou suas palavras com uma poesia. Era mais uma face do espelho que se fazia representar.
O último texto do livro “Que escritora seria eu se não tivesse lido?” foi apresentado no Simpósio Internacional Transdisciplinar de Leitura no Rio de Janeiro, em 2000. Algumas revelações feitas por Marina merecem registro. Ao falar sobre sua mãe e as leituras da infância, ela faz esta afirmativa:
Minha mãe não contava, inventando o texto ao sabor da fala. Ela lia. O encantamento da narrativa me chegou através da palavra organizada em escrita, e amei as palavras tanto quanto amei as histórias. Eu li ouvindo, quando ainda não podia ler. Para despir-me da leitura, totalmente, até a isso deveria renunciar. (p.248)
Hoje, adulta, a escritora diz que ler como “triatlo”. Acorda de manhã e perde no mínimo uma hora lendo jornais. Será que ela está perdendo mesmo tempo ou está se atualizando com as noticias do Brasil e do mundo?
Em uma segunda etapa, a escritora vai para o escritório e começa a ler o material de trabalho e pelo dia afora vai lendo e escrevendo. Reconhece que como leitora/atleta não é disciplinada, perde tempo lendo coisas inúteis e o pior é que esquece a grandíssima parte do que ler.
O livro se encerra com uma pequena nota da autora que utilizamos para colocar ponto final neste artigo:
[...] quando se chama um escritor para falar da escrita, o que se espera dele não é uma visão ‘de fora’ puramente teórica, mas o relato daquele percurso interior que lhe tornou a escrita possível. http://www.megaupload.com/?d=IUOBVTT6

sábado, 18 de julho de 2009

MONTEIRO LOBATO: um escritor feminista?


MONTEIRO LOBATO: um escritor feminista?
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba)

Ser núcleo de cometa, não cauda.
(Monteiro Lobato. Carta a Godofredo Rangel).

A Menina do Narizinho Arrebitado, o primeiro livro infantil de Monteiro Lobato, foi lançado no natal de 1920 e este livro é um marco do autor no reino da literatura para crianças. Anos depois, Lobato acrescentou outras histórias e o livro surgiu mais enriquecido, com nova roupagem e o título de Reinações de Narizinho. É neste livro que vamos encontrar a primeira personagem feminina da obra lobatiana – Narizinho.
Se fizermos um levantamento na extensa galeria de personagens de Lobato, seis atuam com núcleos de cometa: Emília, Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa. Quatro personagens do sexo feminino e dois do masculino. Dessas quatro, apenas uma não pertence ao gênero humano, é a boneca Emília, mas que demonstra ser a mais viva e como ela mesma confessa: “estou começando a ser humana”.
Nelly Novaes Coelho, teórica e historiadora da literatura infantil, afirma que Emília é o alter ego de Lobato. Vera Maria Tietzmann Silva, estudiosa, também, da literatura infantil, considera que Emília é um Lobato disfarçado. Alter ego do criador ou personagem disfarçado em autor não importa, Lobato tem um carinho especial por esta bonequinha espevitada. Ela representa o seu lado irreverente, é a “Independência ou Morte!”.
Para demonstrar que Lobato foi feminista muito antes de surgir o movimento de valorização da mulher no Brasil, vamos analisar quatro personagens marcantes na obra infantil do escritor do Sítio do Picapau Amarelo.
Emília – está presente em quase todos os momentos da ficção infantil de Lobato, embora seja uma boneca é quem manda e desmanda no Sítio. No livro Emília no país da gramática, a bonequinha aparece como porta-voz do autor, condenando os exageros de gramatiquice e os tradicionalismos dos puristas. Ela rebate os argumentos dos filólogos e gramáticos dizendo que muitas regras estão ultrapassadas e que esses estudiosos não acompanharam a evolução da língua. É a personagem mais instigante de Lobato.
Em Reinações de Narizinho, é apenas uma boneca artesanal feita de pano por tia Nastácia, mas depois que toma a pílula falante do Dr. Caramujo adquire voz e forte personalidade. A boneca chega a afirmar que segue uma “evolução gental” e essa evolução é tão aprimorada que se declara “uma ex-boneca”.
Nelly Novaes Coelho, no Dicionário Crítico da Literatura Infantil/Juvenil Brasileira – 1882-1992 (1983, p.730) considera a bonequinha a personagem-chave do universo lobatiano. É a personagem mais complexa, a única que sofre transformações em sua personalidade.
O livro Memórias da Emília denota o grande apreço de Lobato por esta personagem que é boneca e gente ao mesmo tempo. Boneca, no aspecto físico, gente, na maneira arguta de pensar.
Dona Benta – é a avó/professora. Através de um processo altamente didático, como bem frisa Vera Tietzmann, em O Legado de Lobato, Dona Benta fraciona as explicações e acomodo-as à linguagem infantil. Ela cria uma nova modalidade de escola e ensina as crianças do sítio uma maneira inovadora de aprender. É a substituta natural do professor ou da professora severa, é uma educadora no sentido mais amplo. Para transmitir conhecimentos se utiliza da ficção, e conduz o leitor ao “sabor e saber” de forma bem natural.
Já se viu, também, em Dona Benta a projeção de Lobato. De modo diferente de Emília, Dona Benta representa o lado sensato, equilibrado do escritor. Os estudiosos da obra do autor do Sito do Picapau Amarelo identificam semelhanças até nos nomes Bento/Benta, mas Lobato deu a seguinte explicação: o nome desta personagem adveio da avó de um colega que se chamava Benta.
Ela foge do modelo tradicional de dona de casa do seu tempo (anos 30 e 40 do século XX). Não a vemos bordando, costurando ou cozinhando, está sempre lendo jornais ou livros, escrevendo cartas, escutando as noticias do rádio. É, ainda, Vera Tietzmann Silva quem afirma: “... ela é o esboço da nova mulher dos tempos que se sucederam os grandes movimentos feministas.” (SILVA: 2008, p.115).
Tia Nastácia é a representante da cultura popular, do saber do povo, conhece as histórias do passado, as histórias transmitidas de boca em boca. Através da figura de tia Nastácia, o escritor nos faz sentir que o saber passa pelas raízes populares, ele não vem só dos livros. Aliado a esse saber que emana do povo, Nastácia é excelente cozinheira e faz muitas coisas gostosas, entre elas o delicioso bolinho de polvilho. Se Dona Benta é a detentora da cultura erudita, Nastácia é a representante da cultura popular.
Narizinho é a personagem mais lírica de Lobato, desperta entusiasmo entre o público infantil. As inúmeras cartas enviadas a Lobato pelas crianças brasileiras elogiando o livro “Reinações de Narizinho” é o melhor atestado do valor desta pequena personagem. É a menininha dona do seu próprio nariz. Se não chega ao limite de Emília – “Eu sou a Independência ou Morte! “ circula com toda liberdade no reino do Sítio.
As figuras de Dona Benta, tia Nastácia, da boneca Emília e Narizinho deixam profundas marcas na saga do Sítio do Picapau Amarelo, elas atestam o lado feminista do seu criador. Nestas quatro personagens femininas, Lobato externou uma maneira inovadora de representar a mulher na literatura infantil.
Examinemos como procurou caracterizá-las: Dona Benta, a detentora do saber; Emília, a boneca independente e sempre pronta para desafios; tia Nastácia, a divulgadora da cultura popular e Narizinho, a menina livre das peias da escola tradicional e criadora de suas próprias brincadeiras.

Referências Bibliográficas
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário Crítico da Literatura Infantil/Juvenil Brasileira. 1882-1982. São Paulo: Quíron, 1983.
LAJOLO, Marisa e Ceccantini, João Luís. (Orgs) Monteiro Lobato Livro a Livro. São Paulo: UNESP, 2008.
SILVA, Vera Maria Tietzmann. Literatura Infantil Brasileira: um guia para professores promotores de leitura Goiânia: Cânone Editorial, 2008.

* Palestra apresentada na UBE/PB, no dia 11 de maio de 2009, no Centro Cultural Joacil de Brito Pereira, em homenagem à data de aniversário de nascimento de Lobato –

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Fernando Pessoa para adolescentes e para quem gosta de poesia




Fernando Pessoa para adolescentes e para quem gosta de poesia

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
( Fernando Pessoa. Palavras de Pórtico)

NEIDE MEDEIROS SANTOS

Amélia Pinto Pais, antropóloga portuguesa e estudiosa da obra de Fernando Pessoa, publicou pela Companhia das Letras, em 2009, Fernando Pessoa, o menino da sua mãe, com ilustrações de Mariana Newlands.
O título do livro encaminha o leitor para o poema “ O menino da sua mãe” que foi publicado, pela primeira vez, em 1926, em “Contemporânea”. O poema foi musicdo em 1936, um ano após a morte do poeta, por Fernando Lopes Graça.
De forma descontraída, a autora apresenta-nos uma narrativa aparentemente autobiográfica. Fernando Pessoa se revela pouco a pouco – fala sobre seu nascimento, sua infância passada entre Lisboa e Durban, na África do Sul, sobre a criação de seus inúmeros heterônimos.
Será que o leitor sabe quantos heterônimos Fernando Pessoa criou? Se pensou em quatro, errou. Nada disso! Foram 72. Tudo começou quando o poeta tinha seis anos. Chevalier de Pas foi o começo de uma longa história heteronímica.
Pessoa nasceu no dia 13 de junho de 1888 e recebeu, na pia batismal, o nome de Fernando Antônio em homenagem a Santo Antônio Era do signo de gêmeos. Os estudiosos de horóscopos afirmam que aqueles que nascem no signo de gêmeos ( 20 de maio a 21 de junho) têm dupla personalidade, Pessoa exagerou um pouco nessa duplicidade, não se conformou em ser apenas dois, mas muitos.
Quem pensar também que a obra de Fernando Pessoa é toda dedicada à poesia, também está enganado, Pessoa escreveu um grande livro em prosa – O Livro do Desassossego e atribuiu a um semi-heterônimo – Bernardo Soares. É um livro volumoso que só foi publicado após a morte do poeta e traz marcas de prosa poética.
Amélia Pais traz à tona o poeta engajado politicamente. Entre as décadas de 10, 20 e 30 do século XX, Fernando Pessoa escreveu muito para os jornais e revistas de Portugal e demonstrava não ser indiferente aos acontecimentos políticos e sociais. Como jornalista e articulista, externava seu posicionamento ideológico.
O livro da pesquisadora portuguesa tem um endereçamento - o público jovem, mas leitores de todas as idades irão gostar de encontrar um Pessoa descontraído, falando sobre sua própria vida pela voz de Amélia Pais. Estamos no reino da ficção e tudo é possível.
As ilustrações de Mariana Newlands são criativas e bem modernas, algumas apresentam um tom meio jocoso, irreverentes, um pouco caricaturais, talvez a ilustradora tenha procurado representar as máscaras da multiplicidade pessoana.
Aliado a tudo isso, o leitor ainda encontra muitos poemas de Fernando Pessoa e de seus heterônimos, quadrinhas populares, trechos de cartas para Ofélia e, naturalmente o poema que deu título ao livro.
Não poderíamos deixar de registrar que a camuflada voz autobiográfica de Fernando Pessoa é, também um convite à leitura. Crianças, jovens e adultos de alma sensível irão se encantar com esse livro sobre Fernando Pessoa, um poeta que sabe atrair leitores pelo inusitado de sua criação.
Para concluir, repetimos as palavras de Amélia Pinto Pais: “ aquilo que lemos e nos agrada em criança, aprenderemos a amar e entender quando adultos”.
(Publicado no jornal Contraponto, coluna B2. João Pessoa, Segunda-feira, 13 de julho de 2009)

sábado, 27 de junho de 2009

MIA COUTO E HENRIQUETA LISBOA - PRÊMIOS FNLIJ/2009




MIA COUTO E HENRIQUETA LISBOA - PRÊMIOS FNLIJ/2009

(Neide Medeiros Santos – FNLIJ/PB)

Os escritores Mia Couto e Henriqueta Lisboa conquistaram os prêmios “O Melhor de Literatura em Língua Portuguesa – Prêmio FNLIJ Henriqueta Lisboa” e “O Melhor Livro de Poesia – Prêmio FNLIJ Odylo Costa, filho” em 2009. Seguem-se as duas resenhas que fizemos para os livros premiados.
Mia Couto, escritor moçambicano, é autor de livros para o público adulto e já recebeu vários prêmios, entre eles o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra. Agora, brinda os “pequenos” com este interessante livro – O gato e o escuro (Companhia das Letrinhas, 2008), ilustrações de Marilda Castanha.
Na apresentação, o escritor afirma que o livro para crianças surgiu “à força de contar histórias para meus filhos” e que inventa histórias para que a “Terra inteira adormeça e sonhe”. Nesse ponto, seu pensamento coincide com os versos de Drummond, no poema “Canção Amiga”:” Eu preparo uma canção/ que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças”.
Mas vamos ao encontro do livro e da história do gato. Qual é o menino que não tem medo do escuro? Quase todos têm, o medo vem do desconhecido, do que não pode ser visto, assim Pintalgato, um gato-menino se identifica com todos os meninos do mundo, ele também tem medo do escuro e, no decorrer dessa breve história, toda mesclada de poesia, como bem frisa a ilustradora Marilda Castanha, o narrador vai procurando desmistificar o medo através da voz da mãe do gatinho e do encontro do Pintalgato com o próprio escuro. Frases bem curtas, ritmadas, alguns neologismos, certos regionalismos, dão um tom de criatividade ao texto de Mia Couto. Algumas vezes temos a impressão de que estamos diante de um texto de Guimarães Rosa para crianças.
Marilda Castanha se integrou na história e criou ilustrações em tons escuros, sombrios, quando o ambiente era de medo. Passado esse momento, as cores alegres voltam e reina o império dos tons amarelo e lilás.

Em 1943, Henriqueta Lisboa publicou O menino poeta, título do livro e do poema de abertura. Os anos se passaram, mas a beleza dos poemas continua encantando leitores de todas as idades. A reedição de 2008 O menino poeta: obra completa ( Peirópolis, 2008), ilustrações de Nelson Cruz, está primorosa e reúne vozes muito expressivas que formam um matizado perfeito. De um lado, temos os poemas de Henriqueta Lisboa, do outro, o prefácio de Bartolomeu Campos de Queirós, o poeta/escritor que sabe colorir as palavras com carinho e afeto, e o posfácio de Gabriela Mistral, a voz dos Andes chilenos que voou com asas de condor e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1945, motivo de orgulho para os latinos da América. Henriqueta Lisboa está muito bem acompanhada.
Cecília Meireles, no poema “Reivenção” diz que “A vida só é possível reinventada”. Parodiando Cecília, Bartolomeu começa seu texto com esta afirmativa: “A infância é possível de ser reinventada, sempre”.
Cada poema do livro foi elaborado com muito esmero, com simplicidade, mas com profundidade. Quem não se recorda dos poemas “Segredo”, “Coraçãozinho”? Tão ingênuos, tocantes, tão puros. E o poema “Consciência”? Apesar dos sete anos, a criança dá seu grito de independência – “ fazer pecado é feio... mas se eu quiser eu faço”. O poema “Os rios”, uma composição com versos dissilábicos, diminutos, mas que encerram saberes e “profundos segredos”.
As ilustrações de Nelson Cruz são bem variadas, algumas apresentam apenas detalhes, como nos poemas “Nauta” (p.68) e “Esperança” (p. 69), outras levam o leitor ao devaneio. Examinemos a ilustração do poema “Cavalinho de pau” (p.16-17). O sonho de voar pelos ares se concretiza nesta ilustração – no cavalo de pau ou no alazão, o menino corta o céu e voa sobre a cidade.
Gabriela Mistral, no seu percuciente ensaio, afirma que o português se presta, “muito mais do que as línguas famosas, à poesia infantil”, pois nosso idioma é mais leve, mas terno, comparando-o ao italiano. Recorro, mais uma vez, a Bartolomeu Campos de Queirós para externar meu embevecimento por esse belo livro – “ os mais jovens têm em mãos um livro que vai durar para sempre”.

(Neide Medeiros Santos – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB.
Publicado em Prêmio FNLIJ 2009/Produção 2008, Concursos FNLIJ 2009. Rio de Janeiro: FNLIJ, 2009, p.17 e p.27)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A LINGUAGEM DA PAIXÃO: a “Pedra de Toque” de Mário Vargas Llosa


A LINGUAGEM DA PAIXÃO: a “Pedra de Toque” de Mário Vargas Llosa

NEIDE MEDEIROS SANTOS

Piedra de Toque refleja lo que soy, lo que no soy, lo que creo, temo y detesto, mis ilusiones y mis desánimos, tanto como mis libros, aunque de manera más explícita y racional.
(Mário Vargas Llosa. Piedra de Toque) ·.

A Linguagem da Paixão (El Lenguaje de la Pasión. Punto de Lectura, 2003), de Mário Vargas Llosa, reúne artigos publicados pelo escritor peruano, em sua coluna “Piedra de Toque”, no diário El País de Madrid, entre os anos 1992 e 2000.
Os pequenos artigos de Vargas Llosa oferecem uma visão e uma análise da conturbada sociedade do fim do século, com abordagens de temas variados: problemas culturais, notas de viagens, literatura, pintura, música e acontecimentos da atualidade. São 46 textos escritos em diferentes partes do mundo e publicados, quinzenalmente, através do jornal El País.
Em 1998, Llosa ganhou o Prêmio José Ortega y Gasset, na Espanha, pelo texto – Nuevas Inquisiciones, incluído nessa coletânea. O periodista relata o escândalo em que foi envolvido o ministro inglês Ron Davies e condena a imprensa sensacionalista que se aproveita de certos casos para se intrometer na vida privada de pessoas importantes: políticos, artistas, intelectuais. Llosa trata o assunto de forma imparcial, longe do sensacionalismo de certos órgãos da imprensa.
Mas, no conjunto da coletânea, um texto nos chamou a atenção – La Señorita Somerset. O articulista conta uma história real que se assemelha a uma pura ficção e inicia com estas palavras:
A história é tão delicada e discreta como devia ser ela mesma e tão irreal como os romances que escreveu e devorou até o fim de seus dias.
Quem é a protagonista da história? Margaret Elizabeth Trask, uma inglesa nascida no inicio do século XX e que, a partir dos anos 30, escreveu e publicou histórias românticas utilizando o pseudônimo de Betty Trask. Ao morrer, Miss Trask deixou todos os seus bens, avaliados em 400.000 libras esterlinas, para a Sociedade de Autores da Grã-Bretanha. De acordo com seu testamento, esse dinheiro deveria ser atribuído como prêmio literário anual a um novelista menor de 35 anos que escrevesse uma “história romântica ou uma novela de caráter mais tradicional que experimental”.
Pouco a pouco, através da prosa fluente de Vargas Llosa, vamos conhecendo um pouco da vida dessa enigmática escritora. Margaret Elizabeth Trask passou a vida a ler e a escrever sobre o amor. Em seus 88 anos de existência, não teve nenhuma experiência amorosa. As testemunhas afirmam que morreu “solteira e virgem, de corpo e de coração”.
A família de Trask era de Frome, industriais que prosperaram com a fabricação de tecidos de seda e confecção de roupas. A senhorita Trask teve uma educação cuidadosa, puritana e estritamente caseira. Após a morte do pai, passou a se dedicar à mãe e a escrever romances, no ritmo de dois títulos por ano. A pessoa mais próxima de Miss Trask era a administradora da biblioteca de Frome. Era uma leitora insaciável e um empregado da biblioteca fazia uma viagem semanal à casa da escritora levando e recolhendo os livros que ela tomava emprestados à biblioteca.
Os vizinhos de Miss Trask acham inconcebível que tenha deixado todo o seu dinheiro para a Sociedade dos Autores da Grã-Bretanha e eles desconheciam o lado de escritora da estranha senhorita e questionam:
Por que Miss Trask não aproveitou essas 400.000 libras esterlinas para viver melhor? Por que premiar novelas românticas?
O articulista responde a essas perguntas com os seguintes argumentos: Miss Margaret teve uma vida maravilhosa, cheia de exaltação e aventuras. Sua generosidade, sacrifício e nobreza são comparáveis à vida dos santos. A existência de Margaret Elizabeth Trask foi intensa variada e mais dramática do que muitos dos seus contemporâneos.
Vargas Llosa também lança interrogações: Miss Trask foi mais feliz do que aqueles que preferem a realidade à ficção? Ele acredita que sim, e conclui que o fato de destinar toda sua fortuna aos escritores de novelas românticas é a melhor prova de que foi para o outro mundo convencida de que fez bem em substituir a verdade da vida pelas mentiras da ficção.
Dentre os inúmeros artigos dessa coletânea, este foi o que mais nos atraiu. É uma história verdadeira? Conta uma meia-verdade? Não importa. Valeu pela beleza e ternura do relato.
( Publicado no jornal O Norte) .

sábado, 13 de junho de 2009

Machado de Assis: jovens e crianças





Machado de Assis para jovens e crianças


NEIDE MEDEIROS SANTOS

Para que o prazer da leitura firme raízes e continue a ser cultivado pela vida afora, é de boa política não o atrelar, de saída, à esfera dos deveres escolares.
(José Paulo Paes. Por uma literatura de entretenimento ou o mordomo não é o único culpado).

O ano de 2008 registra o centenário da morte de Machado de Assis e foi considerado o Ano Nacional Machado de Assis. Para marcar essa data, surgiram, no mercado editorial brasileiro, vários livros para crianças e jovens que, de forma lúdica e criativa, centram-se nos personagens machadianos e na própria figura do Bruxo do Cosme Velho.
Moacyr Scliar, bibliófilo machadiano, escreveu dois livros para jovens que se caracterizam pelo lúdico e inventividade. O primeiro, Ciumento de Carteirinha (Editora Ática, 2006), finalista do prêmio Jabuti 2007, é centrado na história de Dom Casmurro.
O enredo gira em torno de quatro estudantes – duas moças e dois rapazes que se empenham na reconstrução da escola onde estudavam, destruída por um acidente. O cenário escolhido é a cidade de Itaguaí, a mesma cidade que serviu de cenário para o conto O Alienista. Os personagens Vitório, Fernanda, Júlia e Francesco (Queco) resolvem participar de um concurso literário na cidade vizinha – Santo Inácio. O tema do concurso é julgar e debater a traição de Capitu. Os vencedores ganhariam um bom dinheiro, quantia suficiente para reconstruir a escola. Com esse objetivo, o “quarteto” se articula para ganhar o prêmio, mas o ciúme entre Queco e Júlia segue os passos de Bentinho/ Capitu.
De maneira criativa e com grande destreza narrativa, Scliar recria Dom Casmurro, modernizando o enigma da traição de Capitu.
O menino e o bruxo, também de Moacyr Scliar e publicado pela Ática (2007), trata do encontro entre o menino Joaquim Maria, de 15 anos, e o escritor Machado de Assis, conhecido no bairro onde morava como o Bruxo do Cosme Velho. O encontro entre o menino Joaquim Maria, que vendia os doces feitos pela madrasta, e o escritor Machado de Assis acontece numa noite de Natal. Joaquim Maria é Machado de Assis quando jovem. Nesse romance juvenil, Scliar estabelece um jogo muito bem urdido entre passado, presente e futuro. Ele partiu do princípio de que o escritor Machado estava presente no garoto que mal freqüentou o colégio, que era pobre e vendia doces para ajudar no sustento da casa.
Tomando como base a biografia do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Scliar apresenta uma história instigante e justifica a inventividade de alguns fatos com a seguinte explicação: Podemos completar as lacunas na biografia de Machado com nossa imaginação. O autor de O Menino e o Bruxo afirma, ainda, que para escrever esse livro leu várias biografias e releu muitos livros do escritor carioca.
Mas não foram apenas os jovens que tiveram o privilégio de reviver as histórias criadas por Machado de Assis, as crianças não foram esquecidas e o leitor indaga intrigado: Machado de Assis para crianças?! Ele que é tão sério em tudo que escreve, embora goste da ironia! Mas a ironia é para os iniciados, aqueles que sabem ler nas entrelinhas. Será possível, Machado de Assis para crianças? Sim, e de modo muito interessante.
Sílvia Eleutério e Márcia Kaskus escreveram O Baú de Seu Machado (Editora Zeus, 2007), fruto de um trabalho que vêm desenvolvendo na Academia Brasileira de Letras com o título Ciclo de Leitura – Dramaturgia de Sempre. A finalidade desse projeto é apresentar autores consagrados para o público que freqüenta a ABL. Em 2003, as duas se reuniram e dramatizaram o texto infantil O Baú de Seu Machado que agora é transformado em livro pela Editora Zeus/ Lucerna.
Para fazer as ilustrações do livro foi convidado Victor Tavares que pesquisou muito sobre o Rio antigo, o Rio da época de Machado de Assis e com seu talento de ilustrador e desenhista criou cenários, casarios, ruas estreitas, lampiões, tudo à moda antiga.
Os personagens/habitantes do livro são aqueles criados por Machado de Assis. Figuram, entre outros, Quincas Borba (o cão), a cartomante Dona Bárbara Barbarrosa, Helena, o imperador D. Pedro II, Deolindo Venta-Grande e o próprio Machado de Assis. Todos são apresentados de maneira jocosa, exagerados no linguajar, nos trajes, na maneira de proceder.
A peça foi apresentada nos jardins da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, que tem servido de palco para essas apresentações, e alcançou tanto sucesso e interesse por parte do público que ficou um semestre inteiro em cartaz.
A Academia Paraibana de Letras dispõe também de um belo jardim que algumas vezes tem sido utilizado para lançamentos de livros, atividades culturais. Fica a sugestão para o presidente Juarez Farias – convidar um bom grupo teatral da Paraíba para representar uma peça para o público no jardim da APL com atores que tenham vivência no palco. O teatrólogo Tarcisio Pereira entende bem do riscado. Um dos contos do bruxo do Cosme Velho ou mesmo essa peça de Sílvia Eleutério e Márcia Kaskus poderia ser encenada como parte das homenagens da APL ao criador de Capitu. Repito: é apenas uma sugestão.
( Texto publicado no Jornal O Norte).

sábado, 6 de junho de 2009

Paulo Nunes Batista: o pescador de lembranças

Paulo Nunes Batista: o pescador de lembranças

(...)
o que sei do tempo
é que hoje tem mais ontem.
(Lúcio Lins. Passeios pelo tempo 3).

Samburá da Parahyba, livro do poeta paraibano Paulo Nunes Batista atualmente radicado em Anápolis (GO), reúne cinquenta e nove poemas e representa cinquenta e seis anos dedicados à poesia e à literatura. Sonetos e poemas mais longos passeiam pelas páginas do livro, entremeados com alguns textos em prosa.
Paulo Nunes Batista nasceu em João Pessoa, na Rua da República, e ali viveu parte de sua infância. Seu pai, Francisco das Chagas Batista, era poeta cordelista e proprietário da Livraria Popular Editora. Além de editar e publicar inúmeros folhetos de sua autoria e de poetas amigos, a livraria vendia livros usados aos estudantes pobres. Foi, portanto, nesse ambiente de livros e de poesia que o menino Paulo passou a admirar a figura do pai/poeta e a amar a literatura de cordel.
Paulo Nunes Batista é exímio na composição de ABCês. No livro Samburá da Parahyba, o poeta não selecionou nenhum ABC do seu rico repertório, sua veia poética se voltou para os poemas e sonetos que falam de um passado vivido e sonhado nas terras paraibanas. As águas mornas das praias de Tambaú, Cabo Branco, Praia da Penha e Ponta de Seixas são decantadas em versos com a mestria de um seresteiro nordestino.
O samburá é um cesto utilizado pelos pescadores para pescar peixes, mas o poeta paraibano se utiliza do samburá para pescar palavras e vai tecendo, pacientemente, um traçado de galhos (palavras) como se fosse um pescador de lembranças. A leitura de alguns poemas e citamos, entre outros, “Praia da Penha”, “Soneto em Cabo Branco”, “Tarde em João Pessoa” e Minha Terra” remete o leitor para um passado” guardado na algibeira”.
Cora Coralina, poetisa das terras de Goiás, disse em um de seus poemas:
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.
(Cora Coralina. Meu Epitáfio).

Paulo Nunes Batista, com a “melodia de seu cântico e a música de seus versos”, certamente terá o mesmo destino apregoado pela musa goiana.

Cabo Branco, 20 de janeiro de 2009.
( Texto de Apresentação do livro Samburá da Parahyba. João Pessoa: Ed. Ideia, 2009)