domingo, 27 de novembro de 2011

GONÇALVES DIAS: “um poeta mestiço como sua pátria”.




GONÇALVES DIAS: “um poeta mestiço como sua pátria”.
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
(Gonçalves Dias. Canção do Tamoio. Canto I)
Álvaro Cardoso Gomes é o organizador da coleção “Meu amigo escritor” (Ed. FTD). Esta coleção objetiva aproximar os jovens dos grandes escritores da Literatura Brasileira e Portuguesa. Dentro desta proposta, encontramos o livro “O poeta do exílio” (FTD, 2011), de Marisa Lajolo.
Marisa Lajolo é professora de Teoria da Literatura e se dedica a pesquisar e escrever livros sobre leitura e literatura infantil. É estudiosa da obra de Monteiro Lobato e já publicou vários livros sobre o criador do sítio do Picapau Amarelo. Em 2008, o livro “Monteiro Lobato livro a livro”, organizado em parceria com João Luís Ceccantini, ganhou o Prêmio Jabuti.
Lajolo é, portanto, uma crítica literária que sabe lidar muito bem com a literatura destinada às crianças e aos jovens.
Na apresentação do livro “O poeta do exílio”, a autora explica que Gonçalves Dias esteve sempre presente em sua vida. Seu pai era admirador do poeta maranhense e sabia de cor e declamava com muito gosto “I - Juca Pirama” e outros poemas do autor. Marisa e os irmãos pequenos cresceram ouvindo o pai recitar esses poemas.
O convite para escrever um livro sobre o poeta que habitou a casa de sua infância foi aceito com entusiasmo. Ela não hesitou e começou a tarefa de ler e reler os livros do poeta, as biografias escritas sobre o vate, a encher os livros de “papeizinhos amarelos marcando páginas”. E surgiram as dúvidas: contar a vida do poeta do nascimento até a morte ou começar da morte e chegar ao nascimento? A autora encontrou na música o “link” da história – uma banda, um festival escolar de música, um casal de jovens apaixonados e assim surgiu o livro.
Toda história tem um começo e esta se inicia com a inscrição de uma música no II Festival Vozes de Classe, um festival estudantil dos alunos da Escola Luís Gama. Júlia era compositora da banda SIM, NÃO & TALVEZ e compôs uma música inspirada num poema de Gonçalves Dias. A música foi finalista do concurso.
A ideia de escolher Gonçalves Dias para compor a música da banda foi do colega Pedro e foi, também, de Pedro, a ideia de criar um blog. Nesse blog, que recebeu a denominação de BlogDoDias, eles colocaram tudo que encontraram sobre o poeta - poemas, cartas familiares, artigos de jornais antigos, documentos pesquisados nos Anais da Biblioteca Nacional.
O blog deixou a turma entusiasmada. Todos acompanhavam o que Júlia e Pedro escreviam, ninguém sabia o que era realmente verdade e o que era ficção. Nas pesquisas feitas, descobriram que Gonçalves Dias trabalhou para o governo e fez muitas viagens pelo Brasil, apresentando relatórios dessas viagens. Mesmo sendo um bom poeta, não podia viver só de poesia.
A história da vida de Gonçalves Dias não segue uma linearidade. Os dois primeiros capítulos falam sobre o naufrágio que levou o poeta à morte e o terceiro discorre sobre a sua origem e seu nascimento. Gonçalves Dias era filho de um português com uma brasileira “cafuza, mulata”.
Durante o desenvolvimento da história, o leitor encontra a interferência da narradora. Com notas em destaque com campo na cor verde e o título de “Meio de campo”, aparecem chamamentos ao leitor e perguntas que exigem um posicionamento diante de certos fatos e acontecimentos.
Vejamos um exemplo de “Meio de campo”. No terceiro capítulo – “Um poeta mestiço como sua pátria” (p.74-115), vem esta nota:
“E você, leitor? Olhe à sua volta: negros, mulatos, loiros, morenos, índios, ruivos... de quantas cores é nosso país, sua escola, sua família, nossa vida?” (p. 81)
Nas ruas de Caxias, cheias de negros e índios acorrentados, o menino Tonico presenciava os maus tratos infligidos aos negros e aos índios e isso o motivou a ter horror à escravidão dos africanos e à violência contra o indígena. Essas lições da infância foram depois transformadas em belíssimos poemas que exaltam essas duas raças.
Coube ao professor Joel a indicação para a leitura do texto em prosa de Gonçalves Dias – “Meditação”, uma longa composição em prosa inspirada em questões de “igualdade, de justiça e de liberdade”. O texto vem envolvido em um tom profético e nele o poeta exprime revolta pelas desigualdades sociais e condena veementemente o cativeiro.
Mas o livro não fala só de poesia, a vida amorosa do poeta é contada com detalhes. Gonçalves Dias foi infeliz no amor. Apaixonou-se por Ana Amélia e a família da moça, principalmente a mãe, se opôs a essa união. Desiludido, o poeta procurou os braços acolhedores de Olímpia Coriolano da Costa e casaram-se no Rio de Janeiro, mas Olímpia não tinha os encantos nem os olhos negros, negros de Ana Amélia decantados no poema “Seus olhos”. Segue a última estrofe desse poema:
“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são:
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão”.
“O poeta do exílio” é uma biografia romanceada, um romance juvenil, uma nova maneira de conhecer a vida e a obra poética de Gonçalves Dias.

domingo, 20 de novembro de 2011

Em busca do tempo perdido


Em busca do tempo perdido
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar.
(Edu Lobo. O Trenzinho do Caipira)

“A morena da estação”, livro de Ignácio de Loyola Brandão, publicado pela Editora Moderna (2010), é uma narrativa multifacetada. Pequenos contos, crônicas, curiosidades, lendas. Fatos reais e ficcionais convivem fraternalmente.
Ignácio de Loyola Brandão nasceu em 1936, em Araraquara. É filho de ferroviários e andou muito de trem na infância e adolescência. Costuma dizer que cresceu entre vagões e locomotivas.
No prefácio, o autor afirma: “Quando terminei este livro, escrito com afeto, percebi que acabou sendo uma espécie de memória da infância e adolescência”.
O livro está dividido em duas partes – 1ª. “Ontem”, 2ª. “Hoje e amanhã, talvez o futuro” e apresenta 42 pequenos capítulos que podem ser lidos de forma independente.
Fotografias antigas (1915, 1933), charges, cartões postais ilustram as páginas do livro e encaminham o leitor para o tempo em que o trem era o meio de transporte mais utilizado no interior do Brasil. As imagens recriam um ambiente e uma maneira de viver que pertencem ao passado.
Os contos e as crônicas nos levam ao reencontro com o tempo perdido. Em diversas partes do livro, há referências ao tempo “proustiano”.
A crônica “O delicioso Filé à Arcesp” (p.45) integra a parte dos textos de “Ontem” e vem a explicação sobre o nome deste filé.
Os caixeiros-viajantes percorriam o estado ou o país vendendo produtos e andavam sempre de trem. Usavam terno e gravata e, a maioria, chapéu. Carregavam uma pasta de couro na qual levavam um bloco para os pedidos e catálogos dos produtos que vendiam, almoçavam ou jantavam no trem, por isso preferiam composições que tivessem carro-restaurante. Para agradá-los, um cozinheiro decidiu fazer um prato substancioso e acessível, surgiu, assim, o filé à Arcesp. (A sigla Arcesp significa Associação dos Representantes Comerciais do Estado de São Paulo).
A receita do filé se encontra na p. 48. Não fiz, não provei, mas me pareceu delicioso.
Havia “O Trem barateiro” (p. 92). Este trem mereceu uma mini crônica. Partia de Araraquara e seguia para Presidente Vargas. E o preço? Era mesmo barato? Não. O nome “trem barateiro” se devia ao ataque das baratas voadoras, elas atacavam os passageiros e assustavam as mulheres.
O capítulo “O fascínio do trem nas telas” (p. 112-121) rememora os grandes filmes em que o trem desempenhava um papel preponderante. São citados, entre outros, “Dr. Jivago”, seguindo-se “Desviando caminhos” (Canadian Pacific, 1949), “Pacto Sinistro” ( Strangers on a train, 1951), “Conspiração do silêncio” ( Bad Day at Balck Rock, 1955). Nas páginas 116 e 117, o leitor encontra os cartazes desses filmes. Nessa relação, não poderia faltar “ Expresso do Oriente” com direito a postal de divulgação. Um capítulo que interessa aos cinéfilos paraibanos.
“A morena da estação” (p.124) é um conto cheio de mistérios. Quem seria a moça morena que deixou Alcino apaixonado? Ela usava um perfume inesquecível e entregou ao rapaz uma mala de couro vermelho. Desceu do trem, subiu e deixou Alcino com a mala. O conto começa e termina de forma misteriosa. Nada é desvendado.
O penúltimo texto da 1ª parte – “O trem dos torcedores” (p.138) fala sobre as partidas de futebol dos anos 60, na cidade natal do escritor – Araraquara. Nessa época, a “Ferroviária” pertencia à divisão especial e enfrentava os grandes clubes – São Paulo, Corinthians, Santos, Palmeiras. Durante muitos anos, o trem despejava os torcedores dentro do estádio da Fonte Luminosa. Era o único estádio de São Paulo que colocava os torcedores dentro do campo. Um orgulho para os araraquarenses.
A 2ª parte do livro – “Hoje, amanhã, talvez o futuro” é composta por histórias mais reais e contemporâneas. O narrador não está à procura do tempo perdido. São histórias de trens velozes, de metrôs, do espantoso trem com 330 vagões (e isso é no Brasil, caro leitor, na Estrada de Ferro Carajás).
O livro de Ignácio de Loyola Brandão me transportou a um passado mais recente, a uma exposição de pintura que tive oportunidade de ver em Bruxelas no ano de 1997. No Museu de Belas Artes de Bruxelas, no dia 11 de maio de 1997, vi a exposição do pintor belga Paul Delvaux – 100 telas todas retratando trens. Tenho ainda hoje, no álbum das recordações de viagens, o bilhete do Museu e um cartão postal de um quadro do pintor.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

“VERDE QUE TE QUERO VERDE”


“VERDE QUE TE QUERO VERDE”
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O verde está em todas as coisas, em tudo ele transparece. Inclusive na água mais negra. Na água barrenta, dourada de sol – e esverdeada. Transparece até no céu azul profundamente verde.
(Thiago de Mello. Amazonas: água, pássaros, seres e milagres)

Lalau e Laurabeatriz são grandes amigos e gostam de escrever livros para crianças. Lalau é paulista, poeta e publicitário. Laurabeatriz é carioca, artista plástica e ilustradora. Os dois já escreveram muitos livros juntos, todos voltados para a defesa da flora e da fauna do Brasil.
“Árvores do Brasil: cada poema no seu galho” (Ed. Peirópolis, 2011) é mais um livro da dupla de amigos da natureza. Ao todo, são 15 poemas, 15 árvores louvadas e 15 animais. Para as árvores – poemas; para os animais – descrições objetivas.
Algumas das árvores citadas no livro são bem conhecidas no Nordeste, como pau-brasil, juazeiro, mulungu, ipê-roxo, aqui denominado pau-d´arco roxo, jenipapo e ipê-do-cerrado, que corresponde ao nosso pau d´arco amarelo. Esta última árvore citada enfeita o Parque Solon de Lucena (Lagoa) e a Avenida Getúlio Vargas, em João Pessoa. O jornalista e cronista Carlos Pereira é admirador do pau d´arco amarelo, e já escreveu inúmeras crônicas sobre a beleza do colorido dessa árvore.
As árvores (através de poemas) e os animais (explicações técnicas) estão reunidos em 15 duplas: 1) Pau-brasil (jaguatirica); 2) araucária (gralha azul); 3) jequitibá (quati); 4) ipê-do-cerrado (soldadinho); 5) buriti (maracanã-do-buriti); 6) jatobá-do-cerrado (anta); 7) juazeiro (veado-catingueiro); 8) mulungu (sofrê); 9) umbuzeiro (periquito-da-caatinga); 10) ipê-roxo (caburé); 11) jenipapo (surucuá-de-barriga-vermelha); 12) pau-formiga (tamanduá-mirim); 13) castanheira-do-pará (cutia); 14) piquiá (paca); 15) mogno (uacari, macaco-da-noite, macaco-aranha).
Lendo as informações sobre estas árvores que aparecem após os poemas, o leitor aprende muito.
O “pau-brasil” ou “ibirapitanga”, era o nome utilizado pelos índios, é de origem tupi-guarani e significa “madeira vermelha”. É necessário ter muito carinho com esta árvore, ela se encontra na lista do IBAMA de espécies ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável.
O jequitibá é o símbolo da fraternidade nacional, é a maior árvore da mata atlântica, mede de 35 a 45 metros de altura. Por seu alto porte, os índios chamavam de “gigante da floresta”.
A fruta do juazeiro é rica em vitamina C, sobrevive aos tempos de seca e está sempre verde. O fruto é conhecido como juá. No livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, no meio da caatinga árida, somente os juazeiros despontam na planície avermelhada como duas manchas verdes.
O umbuzeiro foi chamado por Euclides de Cunha como “árvore sagrada do sertão”. Sua raiz conserva água e produz uma batata que, em período de seca, é utilizada como alimento.
O jenipapo tem muitas utilidades. A polpa do fruto serve para fazer licor, refresco, vinho, refrigerantes e doces. Os mais velhos se lembram muito bem do licor de jenipapo servido pelo prefeito Odorico Paraguaçu no seriado “O bem-amado”. O nome dessa árvore é de origem indígena e significa “fruto que serve para pintar”. Os índios utilizavam a tintura de jenipapo para pintar o corpo.
A castanheira-do-pará está entre as maiores árvores da Amazônia, chega a atingir 50 metros e pode viver mais de 500 anos. A madeira é de excelente qualidade, mas o corte desta árvore está proibido por lei no Brasil.
O mogno serve, entre outras coisas, para fabricar instrumentos musicais. A madeira tem um aspecto castanho-avermelhado e é muito bonita. Atenção rabequistas, violinistas e violeiros, o corte do mogno está proibido no Brasil.
Este livro apresenta outras peculiaridades – informações importantes para quem gosta do “verde que te quero verde”.
- 2011 foi declarado o Ano Internacional da Floresta pelas Nações Unidas para estimular a reflexão e a ação humana em prol da conservação e gestão de todos os tipos de floresta do planeta.
- Livro verde é o livro impresso em papel certificado pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal. “Árvores do Brasil: cada poema em seu galho” é um livro verde.
- Livro que traz o selo FSC (Forest Stewardship Council) Conselho de Manejo Florestal indica que o livro foi produzido com madeira legal e não acarretou a destruição de florestas primárias, como a Amazônia. Na penúltima página de “Arvores do Brasil...” (p.51), encontra-se um selo bem delicado com a marca FSC.
Falei pouco sobre os poemas, quis despertar a curiosidade dos leitores. Começamos com uma epígrafe do poeta Thiago de Mello e para encerrar estes versos de Lalau que se encontra no último poema. É dedicado ao mogno:
“Que entre mogno e homem
Jamais exista duelo
E que esta sublime amizade
Receba bênçãos e versos
De Thiago de Mello.”

sábado, 15 de outubro de 2011

O LENHADOR no Museu da Língua Portuguesa


O LENHADOR no Museu da Língua Portuguesa
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Catullo não morreu: luarizou-se...
(Mário Quintana. Um Epitáfio para Catullo da Paixão Cearense)
Francisco Marques (Chico dos Bonecos) “poeta, contista e desenrolador de brincadeiras” lançou, no dia 8 de outubro, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, o livro” O Lenhador” (Editora Peirópolis, 2011), com ilustrações de Manu Maltez.
O autor do poema, Catullo da Paixão Cearense, nasceu no dia 8 de outubro de 1863, em São Luís do Maranhão. Aos dez anos, foi morar no sertão do Ceará e aos dezessete se mudou com os pais para o Rio de Janeiro, ali se fixando definitivamente. O sobrenome Paixão Cearense não adveio de ter morado no Ceará, é uma herança paterna, seu pai se chamava Amâncio José Paixão Cearense. Inicialmente, Catullo sentiu-se atraído pela música, começou tocando flauta, mas logo se voltou para o violão que se tornou um amigo inseparável. Seus poemas são muito musicais e se prestam para leitura em voz alta, como fez Francisco Marques no Museu da Língua Portuguesa.
“O lenhador” é considerado um texto ecológico, integra o primeiro livro publicado por Catullo – “Meu Sertão”. A respeito desse poema, Mário de Andrade assim se expressou: “O poema é digno do espantoso inventor de metáforas e com uma temática espantosamente contemporânea para um poema de 1918”.
Muito anos depois, Manoel de Barros que muito entende da natureza, das árvores e dos passarinhos, saudou o poeta com estas palavras:
“Oi Catullo! Sabemos pouco ou quase nada sobre o coração das árvores. Eu, de minha parte, só penso em desver este mundo tão malvado com a natureza. Mas para desver este mundo precisei inventar outro”.
Catullo, como Manoel de Barros, inventou outro mundo. No poema “O Lenhador,” a oralidade e o tom teatral são elementos marcantes – é como se o coração do narrador estivesse sangrando de dor diante do machado insensato. Catullo é, também, autor da canção “Luar do sertão”, considerado “o hino nacional do coração brasileiro”.
Há duas versões do poema “O lenhador”. A primeira traz a data de 1918 e foi escrita em linguagem matuta, a segunda é de 1921, a linguagem é mais erudita. Preferimos a versão de 1918, é espontânea e a linguagem mais saborosa.
Um registro da primeira estrofe dos poemas comprova o que afirmamos:
Um lenhado derribava
as árvre, sem precisão,
e sempre a vó li dizia:
“ Meu fio: tem dó das árvre,
que as árvre tem coração!”(1918)
.....................................................
Um lenhador derribava,
à toa, sem precisão,
tudo quanto ele encontrava
que fosse vegetação.

A sua pobre avozinha,
toda a noite e todo o dia,
(mas sempre falando em vão...)
sem se cansar lhe dizia:

“Meu filho.. Tem compaixão!
Respeita a imagem das árvores,
porque elas têm coração.” (1921)

O neto parecia indiferente aos conselhos da avó, desmatava, queimava as árvores, nada escapava do machado do lenhador: ipês cheiinhos de flores eram derrubados, nem uma velha laranjeira que tinha fornecido as flores para o casamento da avó foi poupada, ficou toda desgalhada. E a avozinha sempre repetindo: “Meu fio: tem dó das árvre,/ que as árvre tem coração!”
Um dia, quando “o tinhoso” derrubava um grande ipê, viu o sangue jorrando do tronco, assombrou-se e fugiu correndo. Foi perseguindo por todas aquelas árvores que tinha derrubado. O poema “O Lenhador” merece ser lido, decorado por inteiro e declamado para a família, para os amigos, “para a irmãzinha natureza...”
Não poderia deixar de fazer referências às belas ilustrações de Manu Maltez. A economia das cores – apenas o cinza e o vermelho – denuncia, respectivamente, a morte das árvores e as feridas abertas pelo machado impiedoso do lenhador.
Alberto Manguel, no livro “Diário de Lecturas”, afirma que há livros que lemos com reverência, com respeito, livros que ficam gravados na nossa memória. “O lenhador” é um desses livros.
Quer saber mais sobre este livro, sobre a vida de Catullo, sobre o que disseram os biógrafos? Leia-o.

Suas mais famosas composições são Luar do Sertão (em parceria com João Pernambuco), de 1908, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e Flor amorosa, composta juntamente com Joaquim Calado em 1867. Também é o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da ´modinha´.




terça-feira, 4 de outubro de 2011

SER ÍNDIO: UMA ATITUDE DE CORAGEM E SUPERAÇÃO


SER ÍNDIO: UMA ATITUDE DE CORAGEM E SUPERAÇÃO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Ao escrever, dou conta da minha ancestralidade,
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo.
(Graça Graúna)

O escritor Daniel Munduruku esteve em João Pessoa e participou do II Seminário de Leitura na Rede (15 e 16 de setembro de 2011), realizado no auditório da Federação das Indústrias (SESI). De forma descontraída, o professor/filósofo dialogou com professores e mediadores de leitura e explicou o que ser índio no Brasil atual.
Filho da nação Munduruku, natural de Belém do Pará, Daniel Monteiro Costa adotou o sobrenome de Munduruku em homenagem a seu povo. Na conversa com o público, relatou que quando era criança tinha vergonha de ser índio. Na escola, os colegas diziam que índio era habitante da selva, da mata, e que se parecia com os animais. O menino ouvia essas histórias, sofria, e não podia negar sua origem – tinha cara de índio, cabelo de índio e pele de índio, chegou a desejar não ter nascido índio.
Mas, sempre existe um mas nas histórias, quer sejam reais, quer sejam fictícias, apareceu o avô que procurou mostrar ao menino Daniel a beleza e a riqueza dos povos indígenas e o que esse povos representavam para a sociedade brasileira. Hoje reconhece que o avô tinha razão. Quando deixou a aldeia e foi estudar e morar em São Paulo assumiu o compromisso de divulgar o modo de ser e de fazer dos índios brasileiros. E vem cumprindo muito bem a promessa.
Os inúmeros livros que já publicou sobre a cultura, os mitos, as histórias indígenas, as palestras que tem proferido em seminários, congressos, encontros de literatura infantil, feiras de livros, tudo atesta o trabalho de um escritor verdadeiramente comprometido com seu povo.
O livro “Coisas de Índio”, versão infantil e adulto (Ed. Callis), oferece um amplo panorama sobre as comunidades indígenas do Brasil. Com este título –” Coisas de índio “-, o escritor procurou minimizar o valor negativo da expressão e trazer o rico universo indígena para conhecimento das crianças e dos adultos.
Em 2011, Daniel Munduruku publicou “Coisas de onça” (Ed. Mercuryo Jovem), com ilustrações de Ciça Fittipaldi.
O escritor é graduado em Filosofia e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Escreveu mais de 40 livros para crianças e jovens, conquistou vários prêmios no Brasil e no exterior. Mora em Lorena, interior de São Paulo, e desenvolve um trabalho com escritores indígenas com o objetivo de difundir a literatura produzida por esses povos.
Ciça Fittipaldi é artista plástica, formada em Arquitetura e Urbanismo e dedicou-se à Antropologia. É professora de Artes da Universidade Federal de Goiás. Seu compromisso com a literatura indígena adveio de uma rica experiência que teve nos anos 1990 quando viveu entre os índios Nhambiquara. A coleção Morena (Ed. Melhoramentos), textos e ilustrações de Ciça Fittipaldi, é um conjunto de livros que aborda os mitos mais representativos dos índios.
“Coisas de onça” reúne três histórias de onça contadas pelo velho pajé Bijau e pela velha Kulahã. Nas aldeias, é costume os velhos contarem histórias para os mais novos, eles são considerados os “guardiões da memória”.
“A onça e o coelho esperto” é uma variante de “O Bicho Folharal”, conto recolhido por Gustavo Barroso e registrado por Câmara Cascudo em “Contos Tradicionais do Brasil”. No conto de Gustavo Barroso, o espertinho da história é a onça que engana a raposa. No conto indígena, o coelho consegue enganar a onça, mas o artifício usado pelos animais (onça e coelho) é quase o mesmo, lambuza-se de mel de abelhas e conseguem ludibriar o inimigo.
Kulahã contou a história de “A onça e a raposa”. Esta é a mesma versão de “O Bicho Folharal”, até os animais protagonistas são os mesmos – a onça e a raposa.
O terceiro conto “A onça e o veado” conta como esses dois animais construíram uma casa. O veado limpa o terreno para construir sua casa. No outro dia, quando volta para dar continuidade ao trabalho, encontra forquilhas e paus amarrando a casa e assim sucessivamente. Todo dia alguém colocava mais alguma coisa e o veado atribuiu o fato a Tupã. Só quando terminou a construção, o veado descobriu que tinha sido a onça que o havia ajudado e o jeito foi conviver com este animal que não merecia muita confiança, mas chegou um momento que o medo dominou e não foi mais possível a convivência. Resultado: abandonaram a casa.
Para escrever estas histórias, Daniel Munduruku fez pesquisas nos “Contos Populares” de Sílvio Romero, nas “Lendas de árvores e de plantas” de Altimar Pimentel e em outros livros que contam histórias da literatura oral e popular.
“Bem poucas palavras” é o texto introdutório do livro e Daniel Munduruku termina suas palavras com este pedido que transcrevemos:
“Aqui fica registrado meu pedido a todos os leitores que, ao tomar contato com este texto, elevem seu pensamento ao Criador, agradecendo pela sabedoria que estes antepassados deixaram escrita na memória da gente brasileira”.
Os livros “Coisas de índio”, nas duas versões – criança e adulto, podem ser encontrados na livraria Esquina das Letras.

Moçambique: um país tão longe e tão perto


Moçambique: um país tão longe e tão perto
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico.
(Mia Couto. Poema Mestiço)

Moçambique fica na costa oriental da África Austral, do outro lado do continente africano, e integra o grupo de países de língua portuguesa. Conseguiu a independência política de Portugal em 1975 depois de muitas lutas, tornando-se uma república multipartidária. É sobre este país, sua gente, suas histórias, que o escritor Júlio Emílio Braz escreveu “Moçambique” (Ed. Moderna, 2011).
O livro se compõe de textos adaptados e recontados por Antônio César Gomes Sobreira, pesquisados nos seus cadernos de viagens e diários. Gomes Sobreira nasceu em Portugal, em 13 de abril de 1915. Saiu de Portugal com um ano de idade, acompanhou os pais e permaneceu por quatro anos na colônia portuguesa de Moçambique. O pai era engenheiro e foi trabalhar naquele país. Com apenas dois meses de permanência em Cazula, uma aldeia do alto Zambeze, a mãe faleceu de causa desconhecida. Quatro anos depois, o pai resolveu enviar o filho para Portugal para a casa de um tio materno, aí foi criado e educado. Estudou na Universidade de Coimbra e se tornou um proeminente escritor e lingüista, só retornou a Moçambique depois de adulto. Faleceu em 14 de agosto de 2007, na cidade de Nampula.
Na apresentação do livro, Júlio Emílio Braz explica que o interesse pela África começou quando lançou os olhos para aquele continente à procura de suas próprias origens. No processo de auto-descobrimento, se voltou para os países que apresentam identidades étnicas e culturais com o Brasil, como Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola, Timor Leste, este último em plena Ásia, e Moçambique.
Vamos começar nossa viagem pelas histórias e contos moçambicanos, utilizando-se dos escritos do escritor, professor, folclorista e lingüista Antônio César Gomes Sobreira. Foram compiladas dezessete histórias. Nas Notas Finais do livro, o leitor encontra a biografia de Antônio César Gomes Sobreira, Bibliografia, O que é Moçambique? Dados sobre o autor e a obra.
A maioria dos contos é apresentada em prosa, mas encontramos um poema – “O filho desobediente” e uma peça teatral infantil, adaptada de um conto chuabo – “O coelho e a festa dos animais com chifres”.
O poema foi coletado num hospital de Nhamatanda durante a guerra civil, em meados de 1981, e publicado no livro “Gorongosa – Poemas para crianças inteligentes, de Antônio Sobreira, Livros da Nação. Sofala. Moçambique, 1994.” É um poema narrativo e conta a história de uma mulher que não tinha filhos. Aí a mulher teve uma ideia – resolveu criar um menino com pedaços de madeira e barro. Depois que terminou o trabalho, pediu-lhe que não brincasse longe de casa. A criança cresceu e começou a se aventurar e sair para mais distante. Veio a chuva e começou a dissolver o menino. A mãe ainda conseguiu salvá-lo nas primeiras vezes e reconstituí-lo, mas como as fugas aconteciam com freqüência um dia não foi possível refazer o filho querido que se desmanchou para sempre.
“O coelho e a festa dos animais com chifres” é uma peça adaptada de um conto chuabo. Em nota de rodapé, vem esta explicação: “Povo chuabo – concentra-se no centro sul da província de Zambezia, Moçambique, até a fronteira com o Maluí. O nome Chuabo significa “povo forte”, pois esse grupo ocupa as imediações do que foram os principais fortes portugueses no período da colonização.” (p.61)
A peça teatral envolve uma festa na floresta na qual só podia participar animais com chifres. O coelho resolve participar da festa e arranja uns chifres colocando-os na local das orelhas. A coelha, sua mulher, insiste para que não use esse artifício, pois poderia ser descoberto. Mas o coelho é insistente e não atende ao pedido. Vai à festa, bebe, dança e brinca com todos, mas no fim é desmascarado pelos animais chifrudos e recebe uma boa sova. Essa peça/conto apresenta afinidades com o texto popular “A festa no céu”, muito difundido no Brasil.
Os outros contos têm como protagonistas macacos mentirosos, amigos desleais, um gato corajoso e uma moça que nunca fala. Cada conto vem de uma região diferente de Moçambique. As notas de rodapé indicam o título do livro do professor Gomes Sobreira de onde foram retiradas as histórias.
O livro é dedicado à irmã Maria Jacinta de Souza, freira de uma congregação religiosa com sede em Maputo. Ela prestou uma inestimável ajuda a Júlio Emílio Braz na produção deste livro.
O escritor brasileiro costuma se apresentar nos colégios e contar histórias para as crianças. Em uma das visitas que fez a São Paulo, esteve em um colégio de freiras e soube que a congregação possuía um colégio na cidade de Maputo. As conversas com as freiras levaram-no a entrar em contato com a irmã Maria Jacinta de Souza, diretora do colégio de Maputo, que lhe enviou um rico material com lendas e mitos naturais de Moçambique.
Durante as explicações dadas pelo autor, encontramos inúmeras referências ao poeta Fernando Pessoa. Nas palavras que encerram o livro, aparece esta pergunta: “Cada um tem o Alberto Caeiro que merece ou pode ter, não é mesmo?” (p. 144)
Antônio César Gomes Sobreira e irmã Maria Jacinta – será que eles existiram mesmo? Somente quando terminei de ler o livro fiquei sabendo o que era real e o que era fantasia. Para desvendar o mistério, é necessário a leitura do livro.

domingo, 25 de setembro de 2011

Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável


Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O livro é uma extensão da memória e da imaginação.
(Jorge Luis Borges)

A Biblioteca Nacional, também chamada de Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, está localizada na Avenida Rio Branco, 219, Praça da Cinelândia. No dia 29 de outubro de 2010, completou 200 anos de existência. A história dessa biblioteca foi contada por Luciana Sandroni no livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” (Ed. Manati, 2011), que recebeu ilustrações de Eduardo Albini.
Luciana Sandroni já escreveu vários livros para crianças. “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” integra a série de livros de muito sucesso, destacando-se” Ludi vai à praia”, “Ludi na TV” e” Ludi na revolta da vacina”. Por este último livro, a autora recebeu o prêmio Carioquinha da Prefeitura do Rio de Janeiro e o prêmio O Melhor para Criança da FNLIJ. Com “Minhas memórias de Lobato”, conquistou o prêmio Jabuti.
O leitor deve estar curioso para saber como surgiu a Biblioteca Nacional. A história é longa, requer pesquisas, mas com o auxílio de Luciana Sandroni tudo se torna mais fácil. A história vai começar...
D. João I, rei de Portugal, e fundador da dinastia de Avis, foi o idealizador da primeira biblioteca ou “livraria” de Lisboa, denominação dada antigamente às bibliotecas em Portugal. Esse monarca era amante de obras raras e adquiriu muitos livros para o acervo da biblioteca. Em 1755, ocorreu em Lisboa um terremoto que destruiu grande parte dos livros da biblioteca. Alguns anos mais tarde, D. José I, outro rei de Portugal, procurou refazê-la adquirindo novas aquisições de obras raras.
Quando Napoleão Bonaparte invadiu Portugal, a família real se transferiu para o Brasil e, no sufoco da fuga, os livros da biblioteca que estavam encaixotados para embarque ficaram esquecidos no porto, somente dois anos depois chegaram ao Brasil.
A Biblioteca Nacional foi criada em 1810 por D. João VI e funcionou, inicialmente, no prédio da Ordem Terceira do Carmo, que ficava nas proximidades do Paço Municipal. Antes de se instalar definitivamente no prédio da Avenida Rio Branco (1910), a biblioteca passou por outros lugares. Chegou a hora de acompanhar a família Manso e visitar a atual Biblioteca Nacional.
A família Manso, criação da escritora Luciana Sandroni, é constituída pelo casal Marcos e Sandra, pelos filhos Ludi, Rafa e Chico, além de Margarida, auxiliar dos trabalhos domésticos, carinhosamente chamada de Marga.
Sábado foi o dia escolhido para visitar a Biblioteca Nacional. Enquanto tomavam café, Dona Sandra começou a falar sobre as relíquias guardadas na Biblioteca, todos ouviam com atenção, estavam curiosos. Os meninos já imaginavam que naquele prédio antigo devia habitar fantasmas e pensavam em aventuras com esses seres cheios de mistérios.
A visita tem início com a descrição da biblioteca – um prédio em estilo eclético, que é uma mistura de vários estilos da arquitetura – clássico, medieval, barroco. O guia da visita foi o senhor Botelho, “um senhor gordinho, de gravata borboleta, que parecia saído de um filme da década de 1940”. (p.37)
Depois da descrição do prédio, o que mais chamou a atenção dos visitantes foi o salão enorme, todo de mármore e cheio de colunas, uns lustres muito bonitos e uma escadaria coberta por tapete vermelho. É um prédio de quatro andares e no teto se avista um vitral todo colorido, vindo da França. A biblioteca parece um verdadeiro palácio.
No acervo da biblioteca, além de muitos e muitos livros há outras preciosidades que a família Manso vai descobrindo aos pouquinhos. Na Sala dos Periódicos, há várias estantes e aparelhos de microfilme. Lá se encontram jornais antigos e contemporâneos. São 9 mil jornais de todos os estados do Brasil. Eles estão microfilmados e alguns digitalizados. É possível ler o exemplar número 1 do “Jornal do Brasil” e também o número 1 do” Diário de Pernambuco” que traz a data de 1825, o jornal mais antigo da América Latina.
Na Sala de Iconografia, estão os livros que possuem mais imagem do que texto. Nesta sala se encontram, ainda, desenhos, caricaturas e gravuras de artistas famosos, como Debret e Rugendas. Há, também, fotos de Marc Ferrez e de muitos fotógrafos que registraram imagens do Brasil de um tempo passado.
Na sala 4, chamada Sala dos Manuscritos e Cartografia, há manuscritos importantíssimos, como o projeto da Lei Áurea, o processo criminal de Tiradentes, as cartas de D. Pedro I para a Marquesa de Santos e os preciosos manuscritos de Machado de Assis e Euclides da Cunha, além da partitura original de “O Guarani”, de Carlos Gomes. Todas essas preciosidades não podem ser manuseadas, só é possível conhecê-las na internet.
A visita é marcada pela presença de fantasmas de escritores, apagar de luzes, barulhos estranhos, muita coisa fruto das artimanhas da pequena Ludi que gosta de armar confusões.
A Biblioteca Nacional é uma das maiores do mundo. Se os argentinos se orgulham de Buenos Aires ter um elevado número de livrarias, os brasileiros se jactam, para usar um termo caro ao escritor Jorge Luis Borges, de ter a maior e melhor biblioteca da América Latina.
Para saber mais sobre a Biblioteca Nacional, indicamos a leitura do livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional”. É um livro divertido e muito informativo.