domingo, 14 de abril de 2013

A POÉTICA DA ILUSTRAÇÃO



A POÉTICA DA ILUSTRAÇÃO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)


O mais interessante na ilustração é o enigma. Não se pode trabalhar com o explícito. A lógica e a clareza são feudos do design. A ilustração é sinuosa, não é reta. O importante é justamente criar narrativas paralelas.
(Rui de Oliveira. Traço e Prosa, p. 41). 


Três livros publicados entre 2008 e 2012 sobre ilustração fornecem informações importantes para compreender melhor o valor e o papel da ilustração nos livros infantojuvenis. São eles: “O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador” (DCL: 2008), organizado por Ieda Oliveira, “Livros ilustrados: palavras e imagens”, de Maria Nikolajeva e Carole Scott (Cosac Naify, 2011) e “Traço e Prosa” (Ed. Cosac Naify, 2012), entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu).
            Vamos começar com o livro organizado por Ieda Oliveira. – “O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador”.  Dividido em duas partes, está assim delimitado: Na primeira parte, artigos escritos por ilustradores que refletem sobre a qualidade da ilustração nos livros destinados às crianças e aos jovens; na segunda, depoimentos de ilustradores sobre o próprio fazer artístico.
            Sete ilustradores discorrem sobre aspectos teóricos ligados à ilustração e 14 trazem, em textos sucintos, uma observação bem pessoal sobre os caminhos da ilustração.  
            Nos artigos, destaca-se o texto de Rui de Oliveira, experiente ilustrador e professor de Artes no curso de Comunicação Visual da UFRJ durante trinta anos. Atualmente, aposentado da UFRJ, dedica-se à ilustração de livros.  Rui apresenta um histórico sobre a ilustração do livro infantil e juvenil. O período selecionado pelo ilustrador foi o do século XIX até a década de 1930. Os exemplos apresentados vão de autores estrangeiros aos nacionais. O autor justifica a escolha desse período pelo surgimento e a consolidação profissional dos ilustradores especializados em histórias para crianças.
            Nos depoimentos, vale a pena transcrever o que disse Maurício Veneza:
A relação entre imagem e texto na obra ilustrada não deve ser de vassalagem, e sim de associação. A analogia mais simples que me ocorre é com a música popular. A música de Tom Jobim, por exemplo, tem força própria e independência, assim como os versos de Vinicius de Moraes. Mas, quando se juntam, formam uma terceira coisa que difere das duas anteriores e que não existiria sem essa associação. O mesmo acontece com o livro ilustrado. (2008: p. 185).
“Livro ilustrado: palavras e imagens” é um marco fundamental da pesquisa sobre a teoria da ilustração e explora diversos aspectos do “picture books”, examinando diferentes estilos verbais e icônicos. Como este livro está voltado para autores estrangeiros, fizemos a opção pelos dois livros que discutem a ilustração nos livros brasileiros.
            “Traço e Prosa” é o mais recente, traz entrevistas com 12 ilustradores brasileiros e muitas ilustrações dos livros dos entrevistados. Estão presentes neste livro os seguintes ilustradores: Alcy Linhares, Ângela Lago, Eliardo França, Eva Furnari, Graça Lima, Helena Alexandrino, Mariana Massarani, Nelson Cruz, Ricardo Azevedo, Roger Mello e Rui de Oliveira.
            Para escrever este livro, os organizadores partiram de conversas em ateliês de renomados ilustradores na companhia de suas obras e utilizaram obras de referência sobre o assunto além de catálogos de exposições, como o da Feira de Bolonha e da Bienal de Bratislava.  
            Com o propósito de dar uma melhor organização às entrevistas, Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu dividiram-nas em três tipos de abordagem: histórico-sociológica, pedagógica e formalista. 
            No que se refere à linha histórico-sociológica, os trabalhos de Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro no Brasil foram de grande valia, bem como as edições da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
            Quanto à parte pedagógica, foram extraídos elementos que apontam para a compreensão do livro ilustrado dentro do processo educacional do país. Os trabalhos de Nelly Novaes Coelho reforçam a importância desta autora no panorama nacional da literatura para crianças e jovens no Brasil.
            Na rubrica formalista, vamos encontrar um leque bem variado de estudos, com destaque para a semiótica e as investigações que analisam as relações entre palavra e imagem. Os trabalhos de Rui de Oliveira, Luís Camargo, Guto Lins e Perry Nodelman foram somados às pesquisas de Maria Nikolajeva e Carole Scott e Sophie Van der Linden.
            Dentro dessa linha, indicamos os livros dos autores brasileiros: “Pelos jardins Boboli”, de Rui de Oliveira (Ed. Nova Fronteira), “Ilustração do livro infantil”, Luís Camargo (Ed. Lê) e “Livro infantil?”, de Guto Lins (Ed. Rosari).
            Esses breves comentários nos levam a concluir que a ilustração ocupa um papel preponderante nos dias atuais.  Para bem ilustrar livros para crianças é necessário se imbuir do espírito da poética da ilustração.
(Texto publicado no jornal “Contraponto”. João Pessoa, abril de 2013).

            NOTA:

            No dia 26 de março, a editora COSAC NAIFY foi a vencedora na Feira de Livros Infantis de Bolonha do Prêmio “Melhores Publicações para crianças e jovens em 2012”. O livro “Traço e Prosa”, comentado nesta coluna, é desta editora

quinta-feira, 21 de março de 2013



HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (HQ): a junção verbovisual
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)  


            As HQs, como são chamadas por seus fãs brasileiros, nasceram com a industrialização do entretenimento popular no mundo ocidental.
            (Carlos Patati e Flávio Braga. Almanaque dos Quadrinhos – 100 anos de uma mídia popular).


            As primeiras HQ surgiram no final do século XIX, nos Estados Unidos. Os quadrinhos eram publicados, inicialmente, nos suplementos dominicais dos jornais como histórias completas. No Brasil, a revista Tico-Tico, lançada em 1905, reproduzia histórias em quadrinhos que eram muito apreciadas pelas crianças. Nos anos 1930, os personagens Bolão, Reco-Reco e Azeitona, idealização de Luiz Sá, se tornaram familiares dos pequenos leitores e figuravam nas páginas da citada revista. Depois, surgiram outros autores brasileiros que criaram personagens marcantes nesse gênero – Maurício de Sousa com a turma da Mônica e Ziraldo, criador da turma do Pererê, para citar apenas dois escritores que se dedicam à publicação de HQ infantis no Brasil.
            Em nossos dias, além das inúmeras narrativas que circulam nas bancas de revistas, a adaptação dos clássicos vem ocupando expressivo espaço nas editoras. Recentemente, “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, foi adaptado pelo cartunista e artista plástico paraibano Shiko. Contos e romances de Machado de Assis também aparecem em HQ. Os educadores esperam que esse modo facilitado de ler os clássicos incite a curiosidade do leitor para a leitura integral desses textos.
            Ana Maria Machado, no livro “Como e por que ler os clássicos universais desde cedo”, afirma que o primeiro contato com um clássico poderá se realizar com a leitura de uma adaptação bem elaborada e atraente.  As HQs, quando atendem a esse requisito, são bem-vindas e a leitura enriquece o universo literário infantojuvenil. .
            Para comprovar a boa aceitação das HQs entre crianças e jovens,  a editora Companhia das Letras  inseriu, em seu catálogo, o selo “Quadrinhos na Cia” e já publicou vários clássicos nacionais e internacionais nessa modalidade.
            Um bom exemplo de livro que atrai o leitor que gosta de HQ é “Segredo de família”, (Quadrinhos na Cia, 2013), de Eric Heuvel, com tradução de Érico Assis. Este livro contou com a colaboração da Casa Anne Frank e o Museu da Resistência da Frísia.
            Eric Heuvel é holandês, vive em Amsterdam, é considerado um dos melhores cartunistas holandeses da atualidade. Formado em História, dedica-se, principalmente, aos quadrinhos educativos, trabalhou durante alguns anos na Casa Museu Anne Frank.
            ‘Segredo em família” é uma envolvente “graphic novel” que apresenta duas histórias: uma atual e outra que se refere a fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. Para dar mais verossimilhança à sua história, Eric Heuvel lembra a festa do dia 30 de abril, Dia da Rainha, uma comemoração que ocorre na Holanda. É uma festa que reúne diversos eventos – música, comes e bebes, venda e troca de mercadorias. As pessoas saem às ruas para comemorar esta data festiva com muita música ao vivo além de um variado comércio de mercadorias novas e usadas.
            Na primeira história, o personagem Jeroen vai até à casa da avó à procura de algum objeto que pudesse vender ou trocar no “mercado de pulgas” no Dia da Rainha e descobre no sótão um álbum com recortes que contém “memórias dolorosas” da vida de uma amiga da avó – a menina Esther.
            A segunda história envolve fatos vivenciados por Helena (avó de Jeroen) durante o período da ocupação nazista em Amsterdam e está relacionada com os recortes dos jornais antigos.  
            Na visita ao sótão, Jeroen vai descobrir coisas de um passado amargo que deixou muitas marcas nas famílias que vivenciaram os anos de 1939 a 1945 na Europa, período dominado pelo nazifascismo. Recortes de jornais velhos, uma estrela amarela de tecido, fotos antigas, tudo amontoado dentro da desordem do sótão.                                                                                                                                                                                                                                                                                                
            O menino procura a avó para obter explicações sobre o material encontrado, ele vive em pleno século XXI e fatos ocorridos há muitos anos são desconhecidos das crianças e dos jovens que não sabem o que foi viver durante a  Segunda Guerra Mundial. A partir deste momento, Helena van Dort, uma holandesa não judia, vai contar como surgiu a amizade com Esther, uma menina judia que veio morar com os pais em Amsterdam em 1938, início da perseguição aos judeus na Alemanha.
            E a história vai sendo contada aos poucos a Jeroen. No dia 9 de novembro de 1938, tropas nazistas saíram pelas ruas de toda Alemanha,  quebraram  lojas e queimaram sinagogas. Esta noite ficou conhecida como “Kristallnacht” ou “Noite dos Cristaís”. Os judeus que já vinham sendo discriminados passaram a ser perseguidos.  
            O pai de Esther era médico, mas por ser judeu foi proibido de clinicar na Alemanha, pediu ajuda a um colega que morava na Holanda e transferiu-se com a família para Amsterdam. Acalentava o sonho de voltar para a Alemanha quando a guerra acabasse.  Embora se mantivesse neutra, a Holanda não escapou da sanha do ditador nazista. No dia 14 de maio de 1940, o exército holandês concordou em baixar armas e rendeu-se ao poderio bélico alemão. A rainha da Holanda fugiu para a Inglaterra e foi criticada pelos holandeses. A guerra tem dessas coisas – torna os fortes fracos. Diante do perigo, a luta pela sobrevivência fala mais alto.
            Jeroen ouviu atentamente a história de Esther, a amiga de sua avó, e fez uma descoberta surpreendente no final - há um segredo de família no meio disso tudo.   Como fazer para descobrir esse segredo? Leia o livro e ficará sabendo.

domingo, 17 de março de 2013



            LIVRO -BRINQUEDO: UMA CATEGORIA EM  ASCENSÃO
            (Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB) 

           
            O livro-brinquedo é um suporte que atrai a atenção das crianças pelo seu formato diferenciado, características ornamentais e apelos sensoriais.
            (Ana Paula Paiva e Amanda Carla M. Carvalho. Livro-brinquedo, muito prazer). 

           
            Renata Junqueira de Souza e Berta Lúcia Tagliari Feba organizaram o livro “Leitura literária na escola: reflexões e propostas na perspectiva do letramento” (Ed. Mercado das Letras, 2012), incluindo  textos de especialistas na área da literatura para crianças e destaque para as criações recentes que valorizam as histórias em quadrinhos, os livros de imagens, as narrativas curtas e os livros-brinquedo.
            O 1º. capítulo é dedicado a essa crescente modalidade infantil – o livro-brinquedo. Com o título “Livro-brinquedo, muito prazer”, as professoras Ana Paula e Amanda Carla analisam aspectos pertinentes a esta nova vertente  literária que alia as palavras às cores, formas, dobraduras, movimentos, jogos, surpresas.
            As autoras afirmam que o livro-brinquedo, enquanto denominação específica, ainda é pouco conhecido. No Brasil, o termo passou a figurar nas capas de livros infantis como chamada entre os anos de 2009 e 2010. Foi por esse período que passou a integrar a categoria “livro-brinquedo” na seleção da FNLIJ. Lembramos, no entanto,  que a escritora Ísis Valéria ( anos 1980) já produzia livros de panos para crianças enquadrados nessa categoria. Se pensarmos em tempos mais antigos, vamos encontrar os álbuns ilustrados que encantavam as crianças.  Não tínhamos os recursos modernos da  ilustração, os  ricos projetos editoriais,  mas era um deleite olhar esses álbuns.  
            O livro-brinquedo é um livro “pop-up”, isto é, um livro que salta para fora do livro, que cria janelas inesperadas. Os franceses denominam de “livre jeu” a esta modalidade literária que apresenta características bem lúdicas. A novidade do projeto gráfico e a diagramação despertam o interesse sensorial das crianças e aguça sua curiosidade.
            Podemos identificar o livro-brinquedo pela presença de algumas características e destacamos: a) transgressão de padrão do livro tradicional; b) ludicidade; c) possibilidade de manuseio e montagem; d) estímulo ao jogo; e) surpresa visual.
            Em 2012, dois livros nos chamaram a atenção por reunir essas características e pelo instigante convite à interação com o leitor. São eles: “Cadê o capitão Sardinha?” (Ed. Globo) e “Kokeskis” (Ed. Salamandra).
            “Cadê o capitão Sardinha” foi escrito e ilustrado por Maté e dá oportunidade ao pequeno leitor de brincar de esconde-esconde. Maté é escritora e ilustradora francesa, radicada no Brasil e autora de vários livros que receberam o  selo Altamente Recomendável da FNLIJ.
 A história se passa em um antigo casarão que mais parece um barco. Os personagens Tita, Beto e o gato Miado se divertem procurando o vovô Sardinha pelos cômodos da casa. Onde se escondeu o vovô Sardinha? Não sabemos. Ele gosta de   lugares inusitados – dentro da geladeira?   No baú de tampa de couro? Tudo é possível.  
            No jogo de esconde-esconde, abas cobrem ilustrações que quando desveladas reservam surpresas. A criança manuseia o livro e parece que não vai encontrar o capitão Sardinha. Mais uma vez, vem a pergunta:  Onde está escondido esse velhinho peralta? Surpresas e mais surpresas aguardam o ansioso leitor.
            Além do lúdico que passeia nas páginas desse livro, o pequeno leitor se delicia, no primeiro contato, com a sugestiva capa – um turbante de pirata e um tampão preto no olho do pirata. E surge  a dúvida: será que o capitão Sardinha é um pirata?
            “Kokeskis”, que em japonês significa boneca, é um livro com formato distinto – dentro de uma boneca/caixa aparece o livro “O segredo de Mitsuko”, conto de inspiração japonesa, recontado por Brigitte Delpech e ilustrado por Corinne Demuyunck; um móbile com desenho colorido  de uma boneca japonesa para pendurar no carrinho de bebê ou em outro local escolhido pela criança; um caderno de desenhos com quatro lindas kokeshis para a criança pintar. (Os desenhos são em preto e branco); várias folhas de papel colorido para origami. Acompanhando as folhas coloridas de origami vem um livrinho contendo todas as explicações necessárias para a confecção de origamis, um trabalho artesanal de origem japonesa.      
            “O segredo de Mitsuko”, conto tradicional no Japão, traz uma bonita história de amor que envolve uma moça tecedeira de quimonos de seda para noivas e o filho de um rico vendedor de chás. Mitsuko, a jovem tecelã, apaixonou-se pelo jovem Jiro-san, mas  entre eles havia uma grande  distância social. Jiro-san era rico, filho de um pai poderoso e Mitsuko era uma pobre moça que morava com o avô, bordava  quimonos de noivas, fazia pipas para crianças e trabalhos em origami. Um dia Jiro-san adoeceu e  Mitsuko, com a ajuda do avô,  produziu sete lindas “kokeskis” e  ofereceu ao   rapaz com a finalidade de curá-lo.  Ao ver os lindos presentes, vindos daquela que tinha mãos de fada, Jiro-san recuperou a saúde. O resto da história  não precisamos recontá-la. 
            Esses dois livros se enquadram na categoria “livro-brinquedo” e possibilitam  manuseio e montagem (confecção de origamis), fogem do padrão tradicional (livro em formato de boneca) – “Kokeskis”  e propicia o jogo do esconde-esconde – “Cadê o capitão Sardinha? “

            NOTA LITERÁRIA

            EXEMPLO A SER SEGUIDO 

    Recebemos de uma leitora do blog: “nastrilhasdaliteratura.blogspot” a seguinte informação: “Sérgio Florindo é cego desde o nascimento, mas isso não o impediu de ser o leitor homenageado da Biblioteca de São Paulo. Pela segunda vez, foi leitor destaque da biblioteca, já ouviu  metade da coleção de 1.189 audiolivros, entre eles “Dom Quixote” e “O Tempo e o Vento”. Quando vai à biblioteca, levado pela filha, ele costuma dizer: vou me encontrar com meus autores proferidos: Graciliano Ramos, Miguel de Cervantes e Carlos Drummond de Andrade”. Sérgio demonstra bom gosto literário, é exemplo a ser seguido. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013



BIOGRAFIAS DE GRACILIANO RAMOS PARA CRIANÇAS E JOVENS
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB) 


            Dilúculo – “desgraçado título”, era, contudo, carregado de poesia: quer dizer aurora, crepúsculo matutino, as primeiras luzes de anúncio do dia. (Audálio Dantas. O Chão de Graciliano).


            Uma visita à Casa/Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios, nos levou a reler duas biografias de Graciliano Ramos que retratam a infância, a juventude e fatos relevantes na vida deste escritor. Audálio Dantas escreveu “A infância de Graciliano Ramos” (Ed. Callis) e Myriam Fraga “Graciliano” (Ed. Moderna). São duas pequenas biografias destinadas às crianças e jovens.
            Audálio Dantas é conterrâneo de Graciliano e nasceu em uma pequena cidade de Alagoas – Tanque D´Arca, bem próxima de Quebrangulo, berço do Mestre Graça.  É autor do bonito livro “O Chão de Graciliano” com imagens dos caminhos percorridos por Graciliano nos sertões de Pernambuco e Alagoas.
            “A infância de Graciliano Ramos” retrata os primeiros anos de vida do escritor que era o primogênito de uma família de dezesseis filhos. Quando Graciliano contava dois anos,  a família se mudou para a Fazenda Pintadinho, nas proximidades de Buíque, Pernambuco, mas uma seca braba obrigou a família a voltar para Alagoas e o pai, Sebastião Ramos de Oliveira, se estabeleceu inicialmente em Viçosa (AL) e, posteriormente, em Palmeira dos Índios (AL).
            Do período passado em Buíque, Graciliano recorda a grande dificuldade que encontrou para aprender as primeiras letras. O pai não tinha paciência para ensinar aquele menino que trocava o “t” com o “d” e batia no filho. Felizmente, a irmã mais velha, Mocinha, ajudava-o a superar essas dificuldades e apareceu a professora Dona Maria que, embora não fosse uma grande educadora, era paciente com aquele menino “dificultoso” no aprender das letras.
            Pouco a pouco, as coisas vão mudando. Em Viçosa, no Internato Alagoano, Graciliano encontrou um professor que incentivava os alunos para a leitura e para a escrita. O professor Mário Venâncio criou até um jornal “O Dilúculo” e Graciliano começou a escrever para este jornal. Quem diria... aquele menino que encontrou dificuldades na carta do ABC estava se tornando um escritor, escrevia e publicava poemas no jornal de Mário Venâncio.
            A biografia de Myriam Fraga é mais indicada para jovens, traz muitas fotografias de Graciliano e de seus familiares, objetos utilizados pelo escritor, como máquina de datilografia, a mesa de trabalho do período em que foi prefeito de Palmeira dos Índios (esta mesa se encontra na Casa/Museu Graciliano Ramos), excertos de alguns romances e fatos relevantes ligados à vida e à obra do escritor alagoano.
            O livro está dividido em 16 capítulos e conta a vida de Graciliano do seu nascimento até a morte, aos 60 anos de idade. Vamos destacar alguns aspectos sobre o homem Graciliano.  
            Graciliano ficou conhecido nos meios literários por dois relatórios enviados ao governador de Alagoas – Álvaro Paes nos anos de 1929 e 1930 e publicados no Diário Oficial do Estado.  Era prefeito de Palmeira dos Índios e procurou colocar ordem na cidade, adotando medidas que desagradaram àqueles acostumados a não obedecer à lei.  Houve descontentamento de alguns e o prefeito recebeu até cartas anônimas com ameaças de morte, mas ficou indiferente às ameaças.  Procurou melhorar as condições do município construindo escolas, postos de saúde abatedouro para o gado e reformou o prédio da prefeitura. Foi um prefeito exemplar.
            Myriam Fraga revela que foi José Américo de Almeida quem confidenciou a Schmidt que o prefeito de Palmeira dos Índios – o tal dos relatórios – tinha um romance pronto na gaveta. O editor Schmidt enviou uma carta ao escritor pedindo-lhe os originais do “romance engavetado” para publicação. Em 1933, saiu a 1ª edição do romance “Caetés” (1933) que foi ilustrado por outro paraibano – Santa Rosa.
            Quando ocupava o cargo de Diretor da Instrução Pública (1936), cargo equivalente ao de Secretário da Educação, Graciliano foi procurado pelo irmão do governador Osman Loureiro com este aviso: o governador pedia-lhe que se afastasse do cargo. Graciliano respondeu: “Eles se quiserem que me demitam”.
            O general Newton de Andrade Cavalcanti, integralista convicto, era o comandante da Sétima Região Militar e ordenou uma perseguição feroz aos comunistas em todas as capitais do Nordeste e, segundo ele, Graciliano era “um notório comunista”.
            Apesar dos conselhos dos amigos para que fugisse, Graciliano permaneceu em casa aguardando os acontecimentos e respondia aos amigos: “Não fiz nada de que possa vir a ser acusado. Por que haveria de fugir?”
            Realmente não havia nada contra Graciliano. Naquela época ainda não era filiado ao partido comunista, mesmo assim “é detido sem culpa formada, sem uma palavra escrita.”
            Graciliano foi preso no dia 3 de março de 1936 e permaneceu na prisão durante 10 meses. Novamente aparece outro paraibano na vida de Graciliano – José Lins do Rego que contratou o advogado Sobral Pinto para defendê-lo das acusações injustas. O escritor José Lins do Rego havia conhecido Graciliano quando morou em Maceió.  
          Nas palavras do neto, Rogério Ramos:  " O  livro de Myriam Fraga traça o caminho singular do homem, iluminando aspectos pouco conhecidos de sua obra. Não é pouco". 

                        VISITA CULTURAL

             No dia 12 de fevereiro, terça-feira de carnaval, viajamos à cidade de Palmeira dos Índios, com o objetivo de  conhecer a casa/museu  de  Graciliano.  O escritor morou durante alguns anos nesta casa que hoje abriga o museu  e  guarda objetos, fotografias, originais de textos, como o conto “O ladrão”, fragmentos e cartas manuscritas do autor de Vidas Secas.   Em Palmeira dos Índios, fomos recebidos pelo Diretor da Casa/Museu – João Tenório Pereira e pela Secretária de Cultura da cidade – Professora Maria Aparecida Costa que tudo nos mostrou e explicou muitos fatos relacionados com o período em que Graciliano morou na cidade.  Essa visita foi agendada pela ex-secretária de Cultura – Édila Canuto.
            A casa conserva a mesma fachada da época em que o escritor morou com a mulher Heloísa Medeiros Ramos (Dona Ló) e recebe visitas de escritores ilustres. Já passaram por lá Benjamin Moser (biógrafo de Clarice Lispector) e Alberto Manguell (autor do livro “Uma história da leitura”). O escritor alagoano Audálio Dantas tem acompanhado muitos visitantes a este local, entre eles o jornalista Joel Silveira.   
            Em Palmeira dos Índios, visitamos, também, a catedral Nossa Senhora do Amparo e a sacristia da igreja onde Graciliano escreveu 18 capítulos do livro São Bernardo. Naquela época Palmeira dos Índios ainda não era sede de bispado.
Foi um dia de reencontro com a obra do escritor.
  
  ( Texto publicado no jornal "Contraponto". Paraíba, 22 a 28 de fevereiro de 2013).