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domingo, 17 de agosto de 2008


Pelos jardins Boboli - um canto de louvor à ilustração
"Arte não se compara: equipara-se". (Artur da Távola. Do livro: Liberdade de Ser).
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB
Rui de Oliveira foi o ilustrador indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para representar o Brasil e concorrer ao Prêmio de Ilustração IBBY 2008. O vencedor foi o italiano Roberto Innocenti que estará recebendo o Prêmio Hans Christian Andersen 2008 durante a cerimônia de abertura do Congresso IBBY em Copenhague, no domingo, 7 de setembro de 2008.
Rui de Oliveira não foi o vencedor, mas publicou um belíssimo livro que é um canto de louvor à ilustração - Pelos jardins Boboli: reflexões para ilustrar livros para crianças e jovens. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2008, 171p.
A escritora Ana Maria Machado fez a apresentação do livro e atesta que esta publicação dá partida a um processo de discussão e pensamento enriquecedor para autores e ilustradores de livros infantis. Laura Sandroni, crítica de literatura infantil, afirma que "Rui de Oliveira é um mestre da ilustração, com a capacidade técnica e a sensibilidade criadora necessárias para transitar com desenvoltura pelo universo da literatura e das artes plásticas e gráficas.".
A respeito do livro, a crítica carioca, assim se expressa:
"... um livro essencial para todos aqueles que desejam conhecer a história da arte de ilustrar".
Válida também é a opinião de Ciça Fittipaldi que conhece bem os meandros da ilustração:
"O amplo repertório de Rui de Oliveira, que abarca textos verbais e visuais das mais diferentes épocas e culturas, o consagra como um grande leitor e infatigável estudioso da arte".
Após essas considerações iniciais sobre o autor e seu trabalho com a ilustração, vamos navegar pelas páginas do livro e desvendar alguns mistérios escondidos.
Os jardins Boboli estão situados na parte posterior do Palácio Pitti, em Florença, caracterizam-se pela grande beleza e caminhar por esses jardins, na opinião de Rui de Oliveira, se torna uma recreação para o espírito.
"Pelos jardins Boboli" está dividido em cinco partes. Cada parte apresenta subdivisões que tratam, de forma específica, sobre problemas ligados à ilustração.
Na primeira parte do livro, Aspectos gerais da imagem, Aspectos conceituais e Aspectos constitutivos (p. 29-71), Rui de Oliveira chama a atenção do leitor para a distinção entre ilustração e pintura.
A ilustração possui sua própria história. O ilustrador utiliza, em seu trabalho, o mesmo instrumental técnico e até o mesmo suporte do pintor - aquarela, acrílica, guache, tela. Esses aspectos configuracionais se assemelham a uma pintura, mas existem diferenças fundamentais entre a ilustração e a pintura.
A ilustração sempre narra uma história, está vinculada à temporalidade dos fatos. A pintura pode ser narrativa ou não. A ilustração é sempre figurativa, a pintura é variável nesse aspecto.
A pintura e a ilustração possuem diferentes maneiras de fruição no que tange às qualidades e propostas estéticas. Embora a pintura seja reproduzida em livros de arte, a sua apreciação integral se verifica por meio da contemplação da obra original em museus ou galerias. Diferente da pintura, a ilustração é reproduzida em livros de forma múltipla.
Na segunda parte, vem a explicação sobre os jardins Boboli e Rui de Oliveira, além de excelente ilustrador, se revela poeta quando procura justificar o título do livro. Confirmemos:
"Para compreender melhor a ilustração de livros para crianças e jovens, temos que retomar metaforicamente a nossa caminhada do início pelos jardins Boboli - uma experiência seqüencial que iniciou e dá nome a estes estudos. É preciso que nos encantemos com os seus chafarizes, grutas, ninfas e fonte de Netuno, ou com a gruta de Buontalenti, onde nossa caminhada se encerrará." (p.78).
Parece que estamos diante de um texto de Bachelard descrevendo a bela região da Champagne, povoada de rios e várzeas.
A terceira parte é dedicada à leitura estrutural de uma ilustração. A quarta e quinta partes falam, respectivamente, sobre "Teofania e ilustração", Análise dos valores formais na ilustração: o tom, O silêncio das imagens e Como vejo a arte de ilustrar."
No texto que produziu para concorrer ao Prêmio de Ilustração 2008, Hans Christian Andersen, que aparece como uma espécie de prólogo do livro, Rui de Oliveira faz afirmações muito sábias, e destacamos algumas:
"Penso que o ato de criação de imagens se origina não diretamente na palavra, mas no entre palavras". (p.149).
"O texto é a origem de tudo. É impossível ilustrar sem gostar de literatura. É impossível ilustrar sem gostar de ler." (p. 149).
Por fim, ele diz:
"O que pretendo, diante de um texto para ilustrar, não é ser mais que o escritor, é apenas não ser uma extensão dele em forma de imagens. (p.153).
O livro não termina com as Referências Bibliográficas, Referências de Imagens Citadas e o Índice Remissivo, culmina com um texto sintético que analisa o processo criativo e original desse livro.
Ana Sofia Mariz, designer, é responsável pelos esclarecimentos que fecham o livro de Rui de Oliveira.
Arno é a família tipográfica que serviu como unidade mínima de design do livro, é a letra do corpo de texto e Arno é o nome do rio que banha a cidade de Florença, onde se localizam os Jardins Boboli.
A página dupla como unidade do fólio, o uso do parágrafo francês, com recuo inverso ao tradicional, a presença das versais romanas nas capitulares, os florões para indicação de parágrafos, as explicações colocadas ao lado do texto que formam uma leitura paralela, todas essas minúcias demonstram o cuidado na execução desse livro.
Para coroar o repertório visual do livro, a editora Nova Fronteira e os organizadores do livro tiveram acesso "aos preciosos cadernos e moleskines" de Rui de Oliveira. Esses cadernos e moleskines são, na sua grande maioria, desenhos de viagens do artista, idéias, contemplações, pensamentos e sonhos transformados em desenhos.
Quem não é pintor ou entendido em artes plásticas poderá estranhar o termo "moleskines". O que são moleskines?
Moleskines são cadernos de desenho utilizados pelos artistas para anotações, diários, rascunhos e desenhos.
No texto "Desenhar por desenhar", Rui de Oliveira explica que o hábito de usar moleskines remonta a seu tempo de estudante, tanto no Brasil, no caso da Escola de Belas-Artes, (USP), como durante os 6 anos que estudou na Hungria, no Instituto Superior de Artes Industriais.
São palavras de Rui:
"Os moleskines são verdadeiros diários em forma de imagens, cartas visuais endereçadas a mim mesmo".
O livro aparece ricamente ilustrado da cor sanguínea, que corresponde ao lápis de mesmo nome usado por Rui. Ana Sofia Mariz lembra que os artistas da renascença utilizaram esse material em seus trabalhos artísticos. A cor sanguínea também lembra os telhados florentinos.
Abrimos um parêntesis para lembrar que o pintor paraibano Hermano José utilizou também, com muita mestria, em seus desenhos, a cor sanguínea.
É impossível destacar todos os aspectos da arte da ilustração tão bem analisados por Rui de Oliveira. É livro para ser lido, admirado, divulgado e guardado com muito carinho. É uma verdadeira obra de arte.
Afirmamos que o ilustrador tem alma de poeta e citamos suas palavras de encantamento diante dos jardins Boboli. Se Bachelard é um filósofo/poeta, Rui de Oliveira é um ilustrador/poeta.
O leitor duvida? Leia este bonito texto:
"Vemos aquilo que sonhamos e queremos ver, pouco importa o que estamos vendo". (In: Desenhar por desenhar).
Na Nota do Editor, Daniele Cajueiro afirma que este livro é um estudo inédito e sem precursor representativo em nosso país e que possibilita a divulgação dessas reflexões para uma imensa gama de leitores - estudantes, professores, especialistas, editores, pais, etc.
Até Daniele Cajueiro foi vítima do vírus da poeticidade do livro quando diz:
"Rui de Oliveira cuidou destes jardins como hábil jardineiro, respeitando a delicadeza e a força de cada flor". (p.11)

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