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sábado, 3 de janeiro de 2009

FERIAS -TEMPO DE BOAS LEITURAS





Artigo - Férias - tempo de boas leituras

Para formar cidadãos críticos e independentes, difíceis de manipular, em permanente mobilização espiritual e com imaginação sempre em brasa, nada 
como as boas leituras. (Mário Vargas Llosa. A Verdade das Mentiras).

Neide Medeiros Santos, Crítica Literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba (FNLIJ/PB)

Em 2008 foram publicados bons livros para crianças e jovens, e aqui vamos apresentar uma relação de livros que nos chegaram através da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e que poderão ser lidos pelas crianças, por jovens e por todos aqueles que gostam de boas leituras.

Cordel

Da literatura de cordel selecionamos dois livros. O primeiro é A Espanhola Inglesa (Editora Scipione, 2008), de Manoel Monteiro, baseado na obra de Miguel de Cervantes, com ilustrações de Jô Oliveira. 
Manoel Monteiro é um cordelista bem conhecido dos paraibanos. Nasceu em Bezerros, Pernambuco, mas há muitos anos mora em Campina Grande e conserva em sua casa uma folheteria que é uma verdadeira biblioteca do cordel, tudo muito bem organizado.

Muitos folhetos de Manoel Monteiro foram transformados em livros e hoje estão sendo indicados para a grade curricular de várias cidades brasileiras.

Jô Oliveira nasceu em Itamaracá (PE), atualmente vive em Brasília. Na infância também morou em Campina Grande. São, portanto, autores ligados à Paraíba e às raízes nordestinas.

Jô tem trabalhado em parceria com cordelistas, ilustrando livros com cores fortes e traços que remetem ao estilo naïf, mas é autor também de alguns livros para o público infanto-juvenil.

A Espanhola Inglesa é um trabalho de recriação do texto de Cervantes por Manoel Monteiro, ele transformou em versos de cordel a narrativa em prosa de Cervantes. A bonita e comovente história da menina Isabel, de origem espanhola, que "foi raptada por mãos de ingleses brutais", é relatada pelo cordelista com lances que vão de obstáculos e desencontros a um desfecho diferente do texto cervantino. No fecho da história, Monteiro pede desculpas a Saavedra por "ter findado desse jeito" e revela:" Eu mesmo estou satisfeito". (p.58).

Em comentário a este final, diferente do conto de Cervantes, Cláudio Henrique Salles Andrade considera muito bom o proceder de Manoel Monteiro porque leva o leitor a querer conhecer a novela do escritor espanhol.

Da Editora Rovelle, publicação de 2008, outro livro com a temática do cordel - Cordelinho, texto de Chico Salles e ilustrações de Ciro Fernandes. Chico Salles e Ciro Fernandes são paraibanos, Chico nasceu em Sousa e Ciro, em Uiraúna.

Assis Ângelo, jornalista e escritor paraibano, radicado em São Paulo, faz a apresentação deste livro e afirma que a Paraíba é a "terra mais poética e musical do Brasil". Do "sublime torrão", cantores, teatrólogos, cineastas, romancistas, poetas populares e o poeta erudito Augusto dos Anjos, entre muitos outros, conquistaram o Sudeste.

O livro de Chico Salles é todo versado em sextilhas, com versos em redondilha maior (sete sílabas), condizente com a literatura de cordel e apresenta duas histórias - "O Barato da Barata" e "O Tigre que virou doutor", mas o destaque maior reside nas xilogravuras de Ciro Fernandes - coloridas, criativas, expressivas. A riqueza da xilogravura de Ciro nos conduz a uma outra leitura. Examinando as ilustrações, podemos criar novas histórias. O xilógrafo paraibano vai muito além do texto verbal, ele não se limita a representar a história, uma bonita trama colorida leva o leitor a mergulhar no reino do imaginário e da fantasia.

Poesia

Em 2008, a boa poesia se fez presente na literatura para crianças e jovens. Houve reedições de livros já consagrados pela crítica, como "O menino poeta" (Ed. Peirópolis), de Henriqueta Lisboa, ilustrado com lindas aquarelas de Nelson Cruz e posfácio de Gabriela Mistral.

Entre as novidades, destacamos "As meninas e o poeta" (Ed. Nova Fronteira), livro organizado pelo saudoso Elias José contendo pequenos poemas que Manuel Bandeira dedicou às meninas filhas de seus amigos, figuram também alguns poemas de livro para adultos e poemas inéditos de Bandeira descobertos pelo autor de "Lua no brejo". Graça Lima foi a ilustradora responsável pelas delicadas ilustrações de menininhas e, segundo Elias José: "ela faz poesia com imagens, cores e movimentos". Leiam, tenho certeza de que irão gostar.

Mário Vale é ilustrador, arte-educador e fez uma bem sucedida incursão nos poemas em prosa de Baudelaire, o resultado foi o bonito livro " O desejo de pintar e outros poemas em prosa de Baudelaire" (Ed. Noovha América). E o leitor poderá perguntar: este livro é para crianças? Calma, leitor apressado! O livro pode ser lido por um adolescente, pelo pai que gosta de poesia e pelos professores que já leram "Flores do Mal" "Os paraísos artificiais" e "Arte romântica". Uma coisa é certa - os pequenos leitores, aqueles que ainda não conhecem a poesia de Baudelaire, ficarão encantados com as ilustrações e poderão até criar pequenos poemas com as pinturas de Mário Vale.

Reconto

Lá vem outro paraibano - Bráulio Tavares. 2008 foi um ano promissor para os autores paraibanos. Da Editora 34, nos chega o livro "A invenção do mundo pelo Deus-curumim", com ilustrações do consagrado Fernando Vilela. Vilela foi econômico nas cores e vigoroso nos traços - letras e flechas se misturam, formando um emaranhado de figuras dançarinas.

Bráulio reconta um mito indígena brasileiro que fala sobre a criação do mundo. Estrelas, folhas, grãos de areia, tudo surgiu dentro de um coco e a linguagem poética de Bráulio dá vida até às próprias letras que aparecem como personagens.

"Contos do Baobá" (Ed. Nova Fronteira) são contos adaptados e ilustrados por Maté e fala sobre tempos primordiais, da época em que o céu ficava muito perto da Terra. As mulheres utilizavam longas varas e pescavam estrelas para os filhos brincarem.

São quatro narrativas inspiradas nos contos dos griots, os contadores de histórias da África, os guardiões da cultura oral africana. Como leitura complementar, o leitor encontra informações sobre o baobá, uma palavra que em árabe significa "o fruto de muitas sementes". Em Angola, essa mesma árvore se chama "imbondeiro" e nada se perde do baobá - folhas, frutos, flores, fibras do tronco, tudo é aproveitado, é uma árvore sagrada para os africanos. No Brasil, existem vários baobás, eles são encontrados em Recife, Natal e talvez existam na Paraíba, mas tenham muito cuidado para não confundir com a árvore conhecida popularmente como barriguda, esta habita as terras paraibanas, do cariri ao sertão.

Informativo

Os 100 anos da morte de Machado de Assis foram comemorados com reedições dos contos, romances, livros de poesias, peças de teatro, crítica literária. Houve conferências e palestras na Academia Brasileira de Letras e não faltaram também os livros informativos sobre Machado. O Rio de Janeiro, do período machadiano, foi revivido por muitos escritores e os pesquisadores Hélio Guimarães e Vladimir Sacchetta escreveram "Machado de Assis. Fotógrafo do invisível: o escritor, sua vida e sua época em crônicas e imagens", uma edição da Editora Moderna.

A pesquisa não poderia estar em melhores mãos. Hélio Guimarães é professor-doutor da USP, é pesquisador da obra de Machado de Assis. Vladimir Sachetta é jornalista, produtor cultural e sócio diretor da Companhia da Memória, uma organização encarregada de divulgar a memória do país em texto, imagem e som.

O subtítulo do livro já nos dá uma indicação - o leitor vai percorrer crônicas de Machado de Assis e ter uma visão mais detalhada do Rio da época do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Cartas, crônicas, textos de crítica literária e muitas fotografias desfilam diante dos olhos do leitor atento e curioso em saber cada vez mais sobre esse "bruxo" misterioso e genial.

2008 foi também um ano marcado por datas comemorativas e foram publicados vários livros dedicados aos 100 anos da imigração japonesa no Brasil.

Nereide Schiliaro Santa Rosa já escreveu mais de cinqüenta títulos sobre arte destinados ao público infanto-juvenil. Em "Papel e tinta: Artes do Japão" (Ed. Callis), a arte-educadora se debruça sobre as artes do Japão e apresenta um amplo painel das técnicas com papel e tinta utilizadas pelos artistas japoneses. Ao todo são demonstradas dez técnicas, entre elas o sumi-ê. Este ano, durante a Feira Japonesa em João Pessoa, a escritora e artista plástica Lúcia Hiratsuka fez palestra sobre literatura infantil e uma breve demonstração da técnica do sumi-ê, uma pintura e desenho em tinta preta.

O livro "Papel e tinta: Artes do Japão" é uma verdadeira obra de arte. Professora, orientadora técnica e coordenadora pedagógica, Nereide sabe dar um toque prático e beleza a seus livros sem cair no didatismo. A leitura desse livro proporciona um passeio e uma viagem prazerosa pela arte japonesa.

Teórico

Para completar a sugestão de boas leituras, indicamos um livro para professores, pais e educadores. Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini organizaram "Monteiro Lobato, livro a livro: Obra infantil" (Ed. UNESP). Os organizadores explicam, na apresentação do livro, que pretendem abrir rumos para novas pesquisas dos livros e do autor das histórias do Sítio.

O leitor adulto encontra, neste livro, um Lobato múltiplo - o advogado, o fazendeiro, o diplomata, o empresário, o tradutor, o criador de Sitio do Picapau Amarelo, o contista, um sonhador, um visionário, mas sobretudo um escritor que se cansou de escrever para marmanjos e resolveu investir no livro infantil.

O livro foi escrito por um grande número de especialistas em Lobato e cada ensaio oferece uma nova faceta deste escritor que foi um marco na literatura infantil brasileira. Os grandes escritores da atualidade e cito, entre outros, Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Ziraldo, Bartolomeu Campos de Queirós beberam água da fonte lobatiana.

Na apresentação do livro, os organizadores afirmam:

"Como seu título sugere, Monteiro Lobato livro a livro dedica um capítulo a cada título infantil do escritor, acompanhando a cronologia de lançamento de suas primeiras edições. Abrem o livro discussões breves sobre linguagem, imagens, ilustrações e práticas editoriais do escritor". (p. 10)

É uma pesquisa sobre o criador de Emília das mais completas que conhecemos. São 484 páginas de "linguagem clara e cristalina como água de pote", concluem os organizadores.

Aí estão 10 livros para todos os gostos - cordel, reconto, poesia, informativo, teórico. O que você, caro leitor, está esperando? Lembre-se: férias é tempo de boas leituras.

2 comentários:

Maté disse...

Que boa surpresa encontrar meus "Contos do Baobá" em tão seleta companhia. Escrever e ilustrar são para mim ofícios que requerem total dedicação e uma certa solidão. Por isso é um enorme incentivo quando abro o Google e vejo que o meu trabalho conseguiu despertar a sua atenção. Também gostei de ler o artigo sobre o papel do ilustrador. Acredito que as crianças de hoje estão acostumadas a imagens de uma qualidade estética muito grande (TV digital, videogames, publicidade) mas muito padronizadas. Mais do que nunca o ilustrador tem o desafio de buscar, como bem diz Ângela Lago, o “achado poético”. Uma imagem para guardar na memória, uma chave para abrir a porta da imaginação e inventar a própria história.
Um abraço, Maté.

Maté disse...

Neide, só uma pequena retificação. "Contos do Baobá" foi publicado pela editora Noovha América.
Abraços,
Maté.