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sábado, 10 de janeiro de 2009

papel do ilustrador na literatura infantil brasileira


 O papel do ilustrador na literatura infantil brasileira

"A ilustração confere ao livro, além do seu valor estético, o apoio, a pausa e o devaneio tão importantes numa leitura criadora". (Regina Yolanda Werneck. A importância de imagem nos livros de Literatura Infantil e Juvenil)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba

O Patinho Feio, de Andersen, uma publicação da Editora Melhoramentos, (1915), é considerado o primeiro livro infantil ilustrado em cores, no Brasil. Maria Alexandre de Oliveira, no livro "A literatura para crianças e jovens no Brasil de ontem e de hoje: caminhos de ensino" (Paulinas, 2008), ressalta que, naquela publicação, com data do início do século XX, não constava o nome do ilustrador na capa, aparecia apenas o nome do autor - Andersen. A teórica da literatura infantil ainda destaca que: "No contexto tradicional, as ilustrações eram raras e pouco ou nunca coloridas; eram figurativas, redundantes, mas propiciando, já naquela época, uma comunicação não-linear, própria da linguagem imagética". (p.65/66).

Os avanços tecnológicos e o aprimoramento artístico proporcionaram um salto qualitativo na ilustração do livro infantil no Brasil. A partir da década de 70, do século XX, que coincidiu com a explosão da literatura para crianças e jovens, a ilustração tomou novos rumos e, em nossos dias (século XXI), encontramos ilustradores que procuram não só dialogar com o texto escrito, mas conferir poeticidade, simbologia e beleza artística à ilustração.

Graça Lima, ilustradora brasileira premiadíssima, em palestra proferida no Seminário "Prazer em Ler de Promoção da Leitura - Nos Caminhos da Literatura", em São Paulo (agosto de 2008), com patrocínio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Instituto C&A, foi muito feliz quando afirmou:

"A obra de um ilustrador é uma arte, porque, assim como os pintores, os escultores, os músicos ou qualquer outro tipo de artista, ele tem a mesma necessidade de fazer compreensíveis seus sonhos e, por meio de sua capacidade profissional, interpretar o mundo em que vive dando sua visão imaginativa e real à sociedade." (In: Nos Caminhos da Literatura: Peirópolis, 2008, p.41).

Em setembro de 2008, a Editora DCL publicou um livro todo dedicado à qualidade da ilustração no livro infantil. Ieda de Oliveira foi a organizadora do livro - "O que é a qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador" (DCL, 2008). No início de 2008, o professor e ilustrador Rui de Oliveira já havia publicado um livro centrado nos meandros da ilustração de livros - "Pelos jardins Boboli" (Nova Fronteira, 2008), objeto de uma de nossas resenhas aqui, no jornal O Norte, (16 de agosto de 2008, C4).

Ieda Oliveira organizou o livro "O que é a qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil", dividindo-o em duas partes. Na primeira, aparecem sete artigos de renomados ilustradores brasileiros e, na segunda, 14 depoimentos. Os artigos estão mais afeitos à historicidade da ilustração e os depoimentos centrados no modo de proceder de cada ilustrador. Vale a pena transcrever excertos de alguns depoimentos.

Ana Raquel vê a ilustração como Arte e considera difícil conceituar o que é uma boa ilustração:

"O que é uma boa ilustração?

Procurei palavras tipo lápis, pincel, tinta e papel para ilustrar este conceito. Não foi possível. Pincel ou lápis e tinta são substantivos e concretos.

Penso que ilustrar requer abstração, desafio, observação... Poesia quase sempre e uma dose bem servida de preconceito. Contra o óbvio". (p. 165).

Ana Terra observa o que é qualidade na ilustração:

"Qualidade não é ser "feio" ou "bonito", é a expressão da arte. Cada um com seu gosto. Cada um com seu estilo, mas todos com qualidade." (p.167).

André Neves analisa o papel do ilustrador da nova geração quando diz:

"... o que se deve acentuar é que nessa última geração os ilustradores estão plantando suas idéias com convicção. Não estão repetindo palavras, mas mostrando seus próprios jardins de olhar". (p.170).

Ângela Lago pediu a uma criança que ajudasse a responder a essa difícil pergunta: o que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil? E veio a resposta:

"Um desenho bom é um desenho que faz rir."

Ângela conclui com esta opinião:

"E ela está certa. É o que eu gostaria de conseguir. Um desenho que faça rir, ou sorrir, que pegue de surpresa, que se arranque um ah... Um desenho inesperado, um achado poético" (p. 173).

Márcia Széliga apela para a curiosidade do leitor:

"Ilustrar é despertar um questionamento, é instigar a curiosidade para desvendar os mistérios incrustados nas entrelinhas das palavras, na ambientação das formas e cores que acionam os sentidos do leitor, para que ele possa se sentir, em seu íntimo, um co-autor silencioso". (p.181)

Maurício Veneza estabelece uma analogia entre a ilustração e a música:

"A relação entre imagem e texto na obra literária não deve ser de vassalagem, e sim de associação. A analogia mais simples que me ocorre é com a música popular. A música de Tom Jobim, por exemplo, tem força própria e independente, assim como os versos de Vinicius de Moraes. Mas, quando se juntam, formam uma terceira coisa que difere das duas anteriores e que não existiria sem essa associação. O mesmo acontece com o livro ilustrado." (p. 185).

Thais Linhares, de forma bem descontraída, revela o que é uma boa ilustração:

"Uma ilustração boa, supimpa mesmo, é aquela que puxa pelos olhos, acorda a memória, dispara a inteligência e abre o coração. Tem múltiplas leituras. Isso mesmo, "lemos" a imagem, e é aí que questões de técnica, cultura, texto e personalidade se juntam para a festa visual'. (p.203).

Aqui estão alinhadas algumas opiniões de abalizados ilustradores que procuram dar vida e beleza às palavras através da ilustração. Não poderíamos deixar de fazer referência a um pintor/ilustrador paraibano que vem se destacando na arte de ilustrar livros - Flávio Tavares.

No livro "Zôo Imaginário" (Escrituras: 2005), do poeta Sérgio de Castro Pinto, o ilustrador conseguiu, com seu traço sutil, utilizando apenas o preto e o branco, não repetir palavras, mas mostrar, como sugere André Neves - seu próprio "jardim de olhar". Experiência semelhante ocorreu também quando Flávio ilustrou o bonito livro de poemas de Ricardo Anísio, Canção do Caos (Forma Editorial, 2008), desafiando a afirmativa do professor, teórico e ilustrador Rui de Oliveira:

"A poesia é um dos gêneros literários mais difíceis de serem ilustrados. Em alguns casos pelo seu intimismo, pela sucessão de metáforas e alegorias encadeadas, sem dúvida um dos momentos máximos de qualquer idioma. Tudo isso dificulta qualquer tipo de concreção visual". (Rui de Oliveira. Breve História da ilustração no livro infantil e juvenil. In: O que é a qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador. Org. Ieda Oliveira. DCL, 2008, p 22).

Flávio Tavares parece ignorar a dificuldade de que nos fala Rui de Oliveira e faz parceria não apenas com os poetas mais novos, mas com os antigos, observe-se a sua ligação com a poesia de Augusto dos Anjos. Se consultarmos o livro "A saga de um poeta" (Melo Filho e Pontes, Juca. Orgs. FBB, 1994), iremos encontrar vários poemas de Augusto dos Anjos ricamente ilustrados por este versátil artista e ilustrador paraibano.

Para pintar o grande painel que retrata a vida e a obra de Augusto dos Anjos que se encontra na Academia Paraibana de Letras, o pintor confessou a Luiz Augusto Crispim que leu e releu todo o EU. Foi tomado e possuído pelo espírito da obra de Augusto que ele conseguiu reproduzir o clima, a atmosfera augustiniana.



7 comentários:

Roberta disse...

Olá! O meu nome é Roberta Soares, sou professora do curso de Letras de uma faculdade particular de Campina Grande, na Paraíba. Uma aluna minha vai fazer o TCC sobre o papel da ilustração na construção de sentidos na literatura infantil. Vc me indicaria referências para eu repassar para ela? O meu e-mail: rpaiva.consultoria@gmail.com.
Obrigada pela atenção, e parabéns pela iniciativa.

Um forte abraço,
Roberta.

fabiana disse...

Olá1 Meu nome é Fabiana, estou cursando pós-graduação em Língua Portuguesa e farei um trabalho na disciplina História do Livro , sobre a importância da ilustração nos livros de literatura.Será que você teria alguma referência para indicar?
Meu email é fabiana.tomo@terra.com.br.
Agradeço a atenção
Abraços
Fabiana

dorali disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
gisela disse...

olá, sou Gisela Goreth. Entrei neste site em busca de informações sobre ilustração de literatura infanto-juvenil e me surpreendi, to encontrando informações muito boas. Faço especialização nesta área e meu TCC é sobre a ilustração da LIJ. Gostaria que me mantivessem informada sobre o assunto através de meu e-mail. estou no início das pesquisas e surpreendo-me com tantos trabalhos sobre o tema.

meu e-mail: giselagoreth@yahoo.com.br
obrigada

Xanda disse...

Olá!Meu nome é Alexandra, sou concluinte do curso de letras de uma faculdade particular de Guaíba Rio Grande do Sul. Estou fazendo meu trabalho de conclusão sobre "O livro ilustrado". Gostaria de saber se tem algum material que fale sobre a importância da ilustração nos livros infantis.
Meu e-mail:xanda11@terra.com.br

Um grande abraços,
Alexandra.

Luísa disse...

Olá. O meu nome é Luísa e estou a iniciar um projecto de investigação sobre a relação do texto com a ilustração no conto infantil numa universidade do Porto (portugal).Aqui, quase não existe bibliografia relacionada com esta temática para consultar. Será que me pode ajudar dando pistas bibliográficas ou outras? O meu mail é luisa.mpg@gmail.com
muito obrigada

Profª Elesa disse...

Olá! Parabéns pelo trabalho! Também gostaria de receber referências a respeito do tema abordado. Se puder: elesa_ks@hotmail.com.
grata!
abs
Elesa