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sábado, 10 de julho de 2010

Platero e Eu – uma história cheia de ternura




Platero e Eu – uma história cheia de ternura
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB

Para mi, la poesía há estado siempre intimamente fundida com toda mi existência, y no há sido poesía objetiva casi nunca.
(Juan Ramón Jiménez. Poesías Escojidas. Espasa-Calpe)

“Platero e Eu”, de Juan Ramón Jiménez, poeta espanhol, é um livro que teve a 1ª edição em 1916. Continua sendo reeditado e atraindo leitores do mundo inteiro. Este ano (2010), a editora WMF Martins Fontes, em comemoração aos 50 anos da fundação da Livraria Martins Fontes, preparou uma edição especial para este livro – uma edição bilíngue (espanhol/português), traduzida por Mônica Stahel e ilustrada pelo artista plástico Javier Zabala.
O lançamento desta primorosa edição ocorreu no Instituto Cervantes, em São Paulo, com palestra da professora María de La Concepción Piñero Valverde. Pedro Benítez Pérez, do Instituto Cervantes de São Paulo, escreveu a “Apresentação à Edição Brasileira”. O ensaísta tece pertinentes considerações sobre a obra, com destaque para a presença de alguns temas: a dor física, a dor moral, a morte, a atitude crítica diante da sociedade, a natureza, os valores dos homens, seus vícios, sua crueldade. Todas essas ideias desencadeadas pela ótica de um animal-personagem: um burrico.
Alexandre Martins Fontes, um dos filhos do Sr. Martins Fontes, no encarte que vem junto a esta primorosa edição, afirma que seu pai sempre sonhou com a possibilidade de publicar “Platero e Eu”, mas por razões diversas nunca chegou a fazê-lo. A publicação deste livro foi, portanto, uma homenagem à memória do pai.
Juan Ramón Jiménez nasceu em 1881 na cidade de Morguer, região da Andaluzia, no sul da Espanha. Por suas convicções liberais, deixou a Espanha na época do ditador Franco e refugiou-se nos Estados Unidos. Morou, também, em Porto Rico e Cuba. Em 1956 foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Faleceu dois anos depois que recebeu o Prêmio (1958).
Sua vasta produção poética foi reunida em “Poesías últimas escojidas - 1918/1958”, uma edição da Espasa-Calpe. A leitura deste livro permite um melhor conhecimento da poesia de Ramón Jiménez e reúne poemas da fase vivida na Espanha e poemas dos vinte e dois anos fora de sua terra natal.
Vamos caminhar um pouco na companhia desse poeta que considerava a poesia uma parte de sua própria vida e colocava poesia em tudo que escrevia. “Platero e Eu” é um texto em prosa, mas apresenta características de um poema. Consultemos Emil Staiger – “Conceitos Fundamentais da Poética” e chegaremos à conclusão de que o livro se enquadra perfeitamente no gênero lírico.
Vejamos alguns excertos deste livro tão rico de ensinamentos.
“Platero e Eu” vem acompanhado do subtítulo – “Elegia andaluza” e foi escrito entre 1907-1916. O vocábulo “elegia” é usado na poesia para designar uma modalidade poética de canto plangente que remete ao luto e à tristeza. Pelo subtítulo, já pressentimos a leitura que nos aguarda. Quanto à andaluza, refere-se à região espanhola do poeta – a Andaluzia.
No primeiro capítulo, o poeta Juan Ramón Jiménez descreve assim o protagonista:
“Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio por fora, que parece todo de algodão, parece não ter ossos.” (2010: p. 5)
Vejamos a imagem: “Parece todo de algodão...” Será que existe algo mais fofinho do que algodão em pluma? E a reiteração: “parece não ter ossos” confirma a maciez do pelo de Platero.
O que mais enternece o leitor é o carinho devotado a Platero e a conversa que o narrador mantém com o burrinho, parece que estamos diante de Vicente e seu cavalinho azul, peça teatral de Maria Clara Machado que apresenta o mesmo processo antropomórfico de Platero e a mesma sensibilidade poética.
Em todo o decorrer da narrativa, Platero é tratado como um ser dotado de sentimentos próprios do homem e o livro conclui de forma nostálgica – Platero morre. Compreende-se, assim, o porquê do subtítulo – “elegia andaluza”.
Para melhor entender a dimensão literária deste livro, repetimos as palavras de Pedro Benítez Pérez, do Instituto Cervantes de São Paulo:
Embora Platero y yo seja considerado com frequência um livro para crianças, na realidade é um compêndio das vivências poéticas de um adulto extremamente sensível, que não perdeu o contato com a pureza da infância e que exalta a vida acima do sofrimento, das misérias morais, das ruínas de um povoado.
(Texto publicado no jornal Contraponto. João Pessoa, 09 a 15 de julho de 2010. Caderno B-5).

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