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quinta-feira, 23 de junho de 2011

VERMELHO: a cor da amargura


VERMELHO: a cor da amargura
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária - FNLIJ/PB)

Um tomate fatiado pode concentrar muitas metáforas, memória afetiva e poesia. Em Vermelho Amargo, Bartolomeu Campos de Queirós nos transporta para os mil olhos do menino-narrador e, quando damos conta, é nossa infância que passa a coadjuvar seu olhar sensível.
(Gabriel Vilela. Capa de Vermelho Amargo)

Vermelho Amargo é o livro mais recente do escritor Bartolomeu Campos de Queirós (Ed. Cosac Naify, 2011). O lançamento ocorreu no 13º. Salão do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro, no dia 14 de junho. É o primeiro romance do escritor destinado aos adultos. Durante muitos anos, Bartolomeu publicou livros para crianças e jovens. Alguns são classificados como infantojuvenil, mas, pela profundidade filosófica, estão mais próximos do público adulto.
No programa Sem Censura (TV Cultura), no dia 12 de junho de 2011, o escritor falou sobre “Vermelho Amargo e afirmou: É um retorno à minha infância. É a história de um tomate. Não é um livro fácil”.
Aceitamos o desafio. Vamos seguir trilhas ásperas, pedregosas e caminhos tortuosos.
O livro não apresenta capítulos, está dividido por parágrafos, técnica utilizada, com muita mestria, pelo escritor.
A narrativa se inicia sob o ponto de vista de um menino-narrador:
Mesmo em maio – com manhãs secas e frias – sou tentado a mentir-me. E minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. (p. 7)
Foi, também, no mês de maio – “manhã seca e fria de maio” que a mãe partiu.
Mas é o tomate, imagem recorrente na narrativa, o “leitmotiv” do texto.
A mãe, com muito afago, cortava o tomate em cruz, lavava-o com água pura, enxugava-o com um pano de prato muito branco e dispunha-o em uma travessa. Era um trabalho feito com muito amor. No almoço, o tomate era repartido entre os filhos.
Diante dos olhos do menino, os tomates cortados em forma de cruz se “transfiguravam em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa. E barqueiros eram as sementes, vestidas em resina de limo e brilho”. (p.15)
Quando a mãe partiu, a casa se tornou um lugar provisório, uma estação de trem com “indecifrável plataforma”. Os cômodos da casa se apresentavam sombrios – “antes bem-aventurança primavera” – agora abrigavam “passageiros sem linha do horizonte”.
A mãe foi substituída por uma nova moradora, a esposa do pai, totalmente diferente, e essa diferença se torna mais evidente na maneira de cortar o tomate.
A esposa do pai retalhava o tomate em fatias muito finas. A fatia era tão transparente que era possível entrever o arroz branco do outro lado. Quando afiava a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um dos enteados.
E o tomate passou a ter novos significados – era “a raiva vestida de vermelho empunhando uma faca”. (p.17)
“As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar”. (p.10)
Vermelho Amargo é um livro que fala de perdas, de partidas, de vazio, do “obscuro filtrado pelas frestas das janelas”.
Se a linguagem é intérprete de estados interiores, o estilo convulsivo e soluçante, presente em “Vermelho Amargo”, conota, na real acepção da palavra, a verdadeira dor da existência.
Depois da leitura do livro, pode-se dizer que o vermelho é amargo quando o mundo afetivo é brutalmente fatiado. O vermelho tem sabor de fel quando não existe amor.
Bartolomeu aliviou a dor (catarse) quando conseguiu passar para o papel branco a sua própria história. A epígrafe que abre o livro é o melhor atestado do que afirmamos:
Foi preciso deixar o vermelho sobre o papel branco para bem aliviar seu amargor.
Vermelho Amargo pode ser encontrado na Livraria Esquina das Letras.

NOTAS LITERÁRIAS
Pérolas pescadas da fala de Bartolomeu Campos de Queirós, no Programa Sem Censura (TV. Cultura, no dia 12 de junho de 2011):
Sobre o avô:
Meu avô escrevia nas paredes da casa. Quando morreu, sua casa era um bordado todo.

Sobre o livro Vermelho Amargo:
Vermelho Amargo é um retorno à minha infância. É a história de um tomate. É obscuro, não é uma leitura fácil.

Memória:
Não existe memória pura. Toda memória é fantasiosa.

Seu modo de escrever:
Escrevo à mão, só depois do texto pronto passo para o computador.

A respeito dos críticos literários:
A crítica é muito importante para tornar o escritor conhecido e reconhecido.

Sobre bibliotecas:
Minas Gerais tem 865 municípios, todos têm biblioteca pública.
Observação pessoal: O exemplo de Minas Gerais deve ser seguido por todos os estados do Brasil.

Literatura:
A literatura é o único espaço que o homem tem para conversar com a fantasia.

Experiência em Paris:
Quando residiu em Paris para fazer pós-graduação, Bartolomeu morava perto de um lago. No local havia muitos peixes e gaivotas. Observando o ir e vir das gaivotas, chegou a esta conclusão:
O peixe e o pássaro não deixam rastros por onde passam.


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