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domingo, 31 de julho de 2011

O essencial de Kafka para jovens


O essencial de Kafka para jovens
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Tudo que não é literatura me aborrece.
(Franz Kafka)

“Essencial Franz Kafka”, seleção, introdução e tradução de Modesto Carone (Penguin Companhia, 2011) é um livro que introduz o leitor jovem no mundo enigmático e fantasmagórico de Kafka. Contos, parábolas, aforismos e a novela “Metamorfose” integram este instigante livro. Cada texto vem antecedido de um breve comentário do tradutor que é profundo conhecedor da obra de Kafka. Dos 13 contos selecionados, dois nos chamaram a atenção - “O cavaleiro do balde” e “Na galeria”.
“O cavaleiro do balde” foi escrito no inverno de 1916. Nessa época, Kafka morava em Praga, na Rua dos Alquimistas, mas o conto só foi publicado em 1921 em um suplemento de Natal, jornal Prager Press, no dia 25 de dezembro. O texto pode ser lido como conto de fadas à maneira kafkiana ou um conto de Natal.
O protagonista é um homem anônimo que está sem carvão. O frio é intenso, mesmo assim ele arrisca sair de casa e vai até a uma carvoaria para pedir um pouco de carvão. Está sem dinheiro e caminha pelas ruas duras de gelo conduzindo um balde. Diante da porta de uma carvoaria, ele pára e pede:
“- Por favor, carvoeiro, me dê um pouco de carvão. Meu balde já está tão vazio que posso cavalgar nele. Seja bom. Assim que puder eu pago.” (p.130)
O carvoeiro diz que não está ouvindo bem e pede ajuda da mulher para atender a um freguês antigo. Ele o reconhece pela fala e sente-se tocado por aquela voz aflita. A mulher finge não ouvir a súplica do homem e grava bem estas palavras: “pago tudo, mas não agora, não agora”.
As duas palavras “não agora”, parecem um som de sino e se misturam de forma perturbadora ao toque do anoitecer da igreja vizinha. Sabendo que não ia haver pagamento, a mulher desamarra o avental e enxota o pobre homem. Diante da recusa do pedido, o cavaleiro diz em tom de solilóquio:
“Meu balde tem todas as vantagens de um bom animal de corrida, mas não resistência; ele é leve demais; um avental de mulher tira-lhe as pernas do chão.” (p.131)
E o conto termina de forma poética e nostálgica, com destaque para o pensamento do protagonista:
“E com isso ascendo às regiões das montanhas geladas e me perco para nunca mais”. (p.131)
Quem visita a cidade de Praga encontra, em uma das principais praças do centro, uma estátua de bronze com um cavaleiro cavalgando um balde, homenagem ao famoso conto de Kafka.
“Na galeria” é outro texto que merece um olhar mais atento. O conto foi escrito depois que Kafka visitou uma exposição de quadros de Picasso numa galeria de Praga na companhia do amigo Gustav Janouch. Janouch comentou com Kafka que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas. Kafka não concordou com a opinião do amigo e deu esta interpretação: “Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”. E complementa: “A arte é um espelho que adianta como um relógio”.
Modesto Carone escreveu um longo ensaio sobre este minúsculo conto que foi publicado em “Novos Estudos CEBRAP”, 2008, com o título de “Na galeria, ou o realismo de Franz Kafka”.
Para Carone, Kafka estava “sugerindo que Picasso refletia algo que um dia se tornaria lugar-comum da percepção – não as formas, mas as deformidades”. (p.155)
Na percuciente análise deste conto, formado apenas por dois parágrafos, Carone discute aspectos do emprego verbal. No primeiro parágrafo, há predomínio do subjuntivo que em alemão, tanto quanto em português, designa a irrealidade, um estado de dúvida. No segundo parágrafo, a abundância de verbos no modo indicativo indica o espaço afirmativo da realidade.
Ainda é Carone quem assevera: “Tanto o primeiro parágrafo como o segundo têm o mesmo cenário e no fundo narram o mesmo acontecimento, embora as perspectivas sejam diferentes e a atmosfera dos dois não seja a mesma.” (p.157)
Os aforismos que se encontram neste livro foram reunidos a partir das conversas de Kafka com o poeta Gustav Janouch, autor do livro “Conversando com Kafka”, das anotações dos diários, escritos de 1909 a 1923-1924 e do período em que o pensador de Praga morou com a irmã Otla, em uma propriedade de Zürau.
Carone considera que este tipo de escrita testemunha a preocupação do escritor com a vida e a morte. Os aforismos também coincidem com o gosto de Kafka pela narrativa breve (contos, novelas, parábolas). 109 aforismos foram reunidos neste livro.
Apresentamos apenas uma parte mínima do rico universo kafkiano, o resto fica para o desvelamento dos leitores. Concluímos estas breves observações com este aforismo de Kafka:
“O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está situada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser trilhada”. (p. 189)

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