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domingo, 17 de julho de 2011

Professoras que marcaram vidas






Professoras que marcaram vidas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Um bom professor revela o mundo inteiro às crianças, torna-lhes possível aprender a usar suas mentes e, de muitas maneiras, prepara-as para a vida.
(Golda Meir. Minha Vida)

Esta semana trago para os leitores a história de duas professoras – uma fictícia, outra real. “A professora encantadora”, de Márcio Vassalo (Ed. Abacatte, 2010), ilustrado por Ana Terra, é um texto ficcional. “Doses de sonho”, de Eloí Bocheco, texto premiado no Concurso “Leia Comigo” (FNLIJ, 2011), é uma história real e pode ser lida no blog “Sala de Ferramentas”.
Maísa, “A professora encantadora”, era uma professora especial. Olhava para tudo com olho de “assombro e estranheza”, suas aulas eram agradáveis e surpreendentes. Quando estava dando aulas, não queria ser interrompida e colocava este aviso na porta: “Não entre, estamos suspirando”. Suspirar significava diminuir o medo no coração, dividir silêncio e multiplicar poesia no pensamento.
A professora Maísa ensinava os alunos a não ter medo de errar, a escutar, a esperar, a pensar. Ela não tinha pressa para nada e explicava que as surpresas deliciosas estavam guardadas nas coisas simples da vida.
Esta professora tinha uma maneira cativante de ensinar – ela mostrava aos alunos que estranho pode ser só o que a gente ainda não conhece; que alguém só sabe ensinar quando não consegue parar de aprender; que errar pode ser uma forma de caminhar.
A ilustradora Ana Terra, responsável pelas ilustrações do livro, apresenta uma professora bem moderna. Maísa usava bolsas multicoloridas e parecia estar sempre flutuando. Era uma professora meio maluquinha – subia em uma escada para dar certas explicações, escrevia bilhetes na porta da sala para não ser interrompida, tinha sempre um poema para dar de presente aos alunos.
Ana Schirley lecionava na Escola Juçá Barbosa Calado, na cidade de Capinzal, meio-oeste de Santa Catarina. Chegava à escola com os braços cheios de livros. Havia o livro didático de Antônio Ravanelli, mas era pouco usado, o que ela gostava mesmo era de ler poesias, crônicas e capítulos de livros. Lia em voz alta e, naquelas sessões de leitura, os alunos sentiam que as palavras tinham poder, eram arrebatadoras. A própria professora se deliciava com o que lia.
Os textos que a professora Ana Schirley trazia para a sala de aula eram datilografados em estêncil, na máquina de escrever, e impressos em mimeógrafo a álcool. Cada aluno recebia uma cópia, depois a voz apaixonada da professora invadia a sala e as palavras saíam macias como seda.
“O anjo da noite”, na visão poética de Cecília Meireles, era um dos textos preferidos pela professora. A mestra cuidava da memória literária e abria ruas sem fim na imaginação dos seus alunos.
De Cecília Meireles, apresentou “Ou isto o aquilo”, uma coletânea de poemas para crianças. Era um livro mágico. Trazia textos de outros poetas para a sala de aula. Ainda, lia o “Sermão da Sexagésima”, do padre Antônio Vieira. Fazia uma escolha criteriosa de textos para suas aulas.
A crônica “O Cajueiro”, de Rubem Braga, na leitura da professora, encantava a turma toda. Ele caía devagarinho, com muito cuidado para não machucar a casa, e estava cheio de flores. Era setembro. A carta da irmã do cronista esclarece este detalhe.
Eloí mora em uma região onde não se vê um cajueiro, mas confessa que era apaixonada por aquela árvore, sentimento afetivo despertado pelo texto de Rubem Braga que ganhava mais vida quando era lido por Ana Schirley. ( Esta crônica, lembrada por Eloí, levou-me ao passado e veio na minha memória a crônica “A corujinha da madrugada” do mesmo autor e de surpreendente beleza.)
O chão da escola era carcomido, as carteiras riscadas, as vidraças em pedaços, a sala era feia, o quadro de giz esburacado, mas tudo isso era esquecido. Os alunos ficavam seduzidos pelos rituais de leitura empregados por aquela professora dedicada e comprometida com os verdadeiros ideais da educação.
Nas palavras de Eloí Bocheco: “as aulas eram noturnas, mas dentro de nós, o sol brilhava”.
Golda Meir, no livro “Minha Vida”, revela um grande sonho que teve aos quatorze anos - gostaria de ter sido professora por considerar essa profissão a mais nobre e mais satisfatória de todas as profissões.
Maísa, a professora idealizada por Márcio Vassalo, e Ana Schirley, a professora real de Eloí Bocheco, representam o ideal almejado um dia por Golda Meir.

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