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domingo, 10 de julho de 2011

O Presente Misterioso


O Presente Misterioso
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Música é vida interior e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.
(Artur da Távola)

O ano de 2010 me reservou encontros com muitos livros de literatura para crianças e jovens, livros que podem ser lidos com prazer pelos adultos. Foi uma agradável surpresa a leitura de “O dom” (Ed. SM), de Susie Morgenstein, ilustrado por Cheng Jiang Hong e traduzido no Brasil por Pádua Fernandes.
O livro vem acompanhado de um CD com narração da história por Caco Ciocler, ator de teatro, cinema e televisão, com formação em Arte Dramática (USP). Moacyr Scliar escreveu o posfácio e afirma que contar histórias faz parte da tradição judaica. O escritor cita a Bíblia e o Talmude como fontes de muitas histórias.
Mas isso ainda diz pouco, parafraseando o retirante Severino. Nas faixas de 1 a 12 do CD, a narração vem intercalada por excertos de peças de Louis Dunoyer. Nas outras, de 13 a 19, executam-se excertos de Bach e Paganini. Para completar o quarteto de excelência, o intérprete de violino é Joshua Epstein.
Para que público se destina este livro? Para crianças, jovens, para os contadores de histórias, para mim e para você, meu leitor especial.
Vamos deixar as informações sobre o livro e rumamos em direção à história.
Havia uma família judia que morava em um minúsculo barraco, em uma região do leste da Europa. Não guardava tesouros antigos ou objetos preciosos, assim não temiam os ladrões.
A família Oifetzmil era constituída pela mãe, pai e dois filhos. Chegou um terceiro filho e os pais se sentiram abençoados com a chegada do novo rebento. Era um bebê grande e de aparência saudável. Os pais chamaram-no Oycher, que significa “riqueza” em iídiche.
Quando completou oito dias de nascido, Oycher foi circuncidado, segundo a tradição e costume do povo judeu. Nesse mesmo dia, a família recebeu um presente inesperado – um homem desconhecido trouxe uma caixa para o menino com esta recomendação: “Ninguém abrirá esta caixa até o terceiro aniversário do menino. Nesse dia, após soprar as velinhas, quando lhe cortarem os cabelos pela primeira vez, ele tomará o presente nas próprias mãos.” (p. 12-13)
Após estas palavras, o homem desapareceu e começou o interesse dos vizinhos, amigos, familiares para descobrir o conteúdo da caixa. Surgiram as mais variadas opiniões.
Herchel, o mascate, segurou a caixa e declarou: contém dinheiro; Shayndel, a dona da padaria, tinha outra opinião – são passagens para a América; Feivel, o sapateiro, não tinha ideia alguma, mas arriscou: o conteúdo dessa caixa vai ajudar a criança a trilhar o caminho da liberdade; Beryl, o ferreiro, não concordava. Para ele, o pequeno baú continha uma arma secreta contra os “pogroms”.
Em nota de rodapé, aparece a explicação para este vocábulo: “O termo designa os ataques (agressões, estupros, roubos e assassinatos) cometidos contra os judeus com apoio das autoridades, na Rússia czarista”. (p.18)
Schia, o escrivão, examinava tanto a criança como a caixa e fez a seguinte revelação:
“Meu querido Oycherel, nessa caixa você encontrará uma linguagem universal. Não existe língua mais bela. Não precisará conhecer o alfabeto nem a acentuação.” (p.19)
Oycherel é diminutivo de Oycher.
Moische, o alfaiate, repreendeu Schia e disse:
“Uma língua não pode ser escondida numa caixa. Eu é que sei o que há aí dentro. Vou lhes dizer e verão se não estou certo, meus amigos. Boas ferramentas são o melhor presente.” (p.20)
Para o velho Moische, a caixa continha uma ferramenta. O menino teria uma profissão, o que seria um escudo contra a pobreza.
Faltava a opinião do rabino. Este profetizou: “Aí dentro está o diabo”. E completou: “O que há nessa caixa de vícios impedirá seu filho de cumprir as seiscentas e treze mitzvót.” (p. 26).
Mitzvót são os mandamentos e regras de conduta cotidiana que devem ser seguidos pelo judeu praticante.
Houve silêncio geral depois das palavras do rabino.
O dia do aniversário de Oycher se aproximava. O menino estava com dois anos e meio, não falava, só sabia repetir essas sílabas: “gaga gugu”.
Chegou o dia do 3º. aniversário de Oycher, a misteriosa caixa seria aberta. Para surpresa de todos, Oycher, que até aquela data não falava nada, quando abriu a caixa pronunciou, de forma bem clara: “violino”.
A história prossegue, mas vou terminar por aqui. Não disse tudo, mas disse o essencial.
Quem quiser saber o que aconteceu depois leia o livro, e sinta “a delícia das coisas simples.” A leitura é uma delas.

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