sexta-feira, 1 de maio de 2009

FERNANDO PESSOA e LUiZ RUFFATO





De mim já nem se lembra: “memórias de afetos estilhaçados”.


As cartas são sinais de separação – sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados.
(Fernando Pessoa. Carta a Ophélia. 23/03/1920).

NEIDE MEDEIROS SANTOS

Luiz Ruffato publicou em 2006, pela Editora Objetiva, Fernando Pessoa – Quando fui outro, uma seleção de textos de Fernando pessoa e de seus heterônimos. Textos em prosa, poemas e cartas para Ophélia aparecem de forma não acadêmica, mas revelam um trabalho cuidadoso de um pesquisador que procura apresentar as diferentes facetas de um poeta múltiplo. É um livro para ser lido e amado.
Agora, chega às nossas mãos, também de Ruffato – De mim já nem se lembra (Editora Moderna, 2007), narrativa epistolar, com posfácio de Heloísa Prieto e fotos de Lenise Pinheiro.
O livro se inicia com uma nota que traz o título Explicação necessária e, à medida que prosseguimos na leitura, vamos reconstruindo, junto com o narrador, um passado que deixou marcas e que teima em se tornar presente. Nesse primeiro momento, o ambiente tranquilo de Cataguazes e o linguajar roseano são revividos.
Os “olhos derramados da mãe”, quando encontra o filho que vem visitá-la e “pendurados em cabides de arame, desolados vestidos abraçavam-se pânicos...” visão do narrador ao escancarar o guarda-roupa da mãe, são imagens que remetem à prosa poética de Guimarães Rosa.
A morte da mãe e uma pequena caixa encontrada no quarto da falecida, contendo cartas do irmão, vitimado por um acidente automobilístico, desencadeiam o segundo momento da narrativa. A leitura dessa correspondência é o motivo condutor da narrativa epistolar.
Gaston Bachelard, no livro Poética do Espaço, quando fala sobre as gavetas, cofres e armários, afirma que existem imagens da intimidade que encerram ou dissimulam segredos. As cinquenta cartas do irmão, endereçadas à mãe, cuidadosamente guardadas em uma pequena caixa, guardam afinidades com essas imagens da intimidade.
Cartas verdadeiras ou ficcionais? Isso não tem muita importância, o melhor dessa narrativa epistolar é mergulhar no cotidiano de José Célio, ou simplesmente Célio, o irmão missivista, e reviver os anos 70: os pequenos dramas familiares, a construção do metrô de São Paulo, os preparativos da seleção brasileira na copa do mundo de 1970, as frustrações amorosas, o desejo de possuir um carro. Se a personagem é fictícia, os fatos são verdadeiros.
De mim já nem se lembra é uma história em que o narrador/missivista conta para a mãe detalhes de sua vida através de cartas: seus sonhos, suas esperanças. Passo a passo, o leitor vai se integrando na vida do jovem José Célio como se fosse um parente próximo e muito querido.
A linguagem trabalhada de Ruffato e a maneira como conta a história de “afetos estilhaçados”, como bem denominou Heloísa Prieto, leva o leitor a refletir sobre a vida interior do ser humano.
As ilustrações, em preto e branco de Lenise Pinheiro, são fotos artísticas, algumas mais se assemelham a pinturas. Retratam interiores domésticos, cenas de rua da cidade de São Paulo e todas as páginas trazem o pequeno desenho de um chapeu à moda de Fernando Pessoa. Escolha proposital? Coincidência?!
Ruffato, quando organizou a antologia de Fernando Pessoa, afirmou: “Este é um livro para apaixonados”. De mim já nem se lembra é também um livro para apaixonados. Durante muito tempo os leitores se lembrarão deste livro.


As cartas são sinais de separação – sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados.
(Fernando Pessoa. Carta a Ophélia. 23/03/1920).

Luiz Ruffato publicou em 2006, pela Editora Objetiva, Fernando Pessoa – Quando fui outro, uma seleção de textos de Fernando pessoa e de seus heterônimos. Textos em prosa, poemas e cartas para Ophélia aparecem de forma não acadêmica, mas revelam um trabalho cuidadoso de um pesquisador que procura apresentar as diferentes facetas de um poeta múltiplo. É um livro para ser lido e amado.
Agora, chega às nossas mãos, também de Ruffato – De mim já nem se lembra (Editora Moderna, 2007), narrativa epistolar, com posfácio de Heloísa Prieto e fotos de Lenise Pinheiro.
O livro se inicia com uma nota que traz o título Explicação necessária e, à medida que prosseguimos na leitura, vamos reconstruindo, junto com o narrador, um passado que deixou marcas e que teima em se tornar presente. Nesse primeiro momento, o ambiente tranquilo de Cataguazes e o linguajar roseano são revividos.
Os “olhos derramados da mãe”, quando encontra o filho que vem visitá-la e “pendurados em cabides de arame, desolados vestidos abraçavam-se pânicos...” visão do narrador ao escancarar o guarda-roupa da mãe, são imagens que remetem à prosa poética de Guimarães Rosa.
A morte da mãe e uma pequena caixa encontrada no quarto da falecida, contendo cartas do irmão, vitimado por um acidente automobilístico, desencadeiam o segundo momento da narrativa. A leitura dessa correspondência é o motivo condutor da narrativa epistolar.
Gaston Bachelard, no livro Poética do Espaço, quando fala sobre as gavetas, cofres e armários, afirma que existem imagens da intimidade que encerram ou dissimulam segredos. As cinquenta cartas do irmão, endereçadas à mãe, cuidadosamente guardadas em uma pequena caixa, guardam afinidades com essas imagens da intimidade.
Cartas verdadeiras ou ficcionais? Isso não tem muita importância, o melhor dessa narrativa epistolar é mergulhar no cotidiano de José Célio, ou simplesmente Célio, o irmão missivista, e reviver os anos 70: os pequenos dramas familiares, a construção do metrô de São Paulo, os preparativos da seleção brasileira na copa do mundo de 1970, as frustrações amorosas, o desejo de possuir um carro. Se a personagem é fictícia, os fatos são verdadeiros.
De mim já nem se lembra é uma história em que o narrador/missivista conta para a mãe detalhes de sua vida através de cartas: seus sonhos, suas esperanças. Passo a passo, o leitor vai se integrando na vida do jovem José Célio como se fosse um parente próximo e muito querido.
A linguagem trabalhada de Ruffato e a maneira como conta a história de “afetos estilhaçados”, como bem denominou Heloísa Prieto, leva o leitor a refletir sobre a vida interior do ser humano.
As ilustrações, em preto e branco de Lenise Pinheiro, são fotos artísticas, algumas mais se assemelham a pinturas. Retratam interiores domésticos, cenas de rua da cidade de São Paulo e todas as páginas trazem o pequeno desenho de um chapeu à moda de Fernando Pessoa. Escolha proposital? Coincidência?!
Ruffato, quando organizou a antologia de Fernando Pessoa, afirmou: “Este é um livro para apaixonados”. De mim já nem se lembra é também um livro para apaixonados. Durante muito tempo os leitores se lembrarão deste livro.

sábado, 25 de abril de 2009

A Ilha de Cipango na ótica de Samuel Casal





A Ilha de Cipango na ótica de Samuel Casal *

(...)
Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!
(Augusto dos Anjos. O Poeta do Hediondo).

Neide Medeiros Santos


Domínio público: literatura em quadrinhos (DCL, 2008) é um livro de múltiplas vozes e múltiplos pincéis. São vários autores (6), vários adaptadores e vários ilustradores. Os escritores selecionados para compor este livro, como o próprio nome indica, escreveram textos que já pertencem ao domínio público, são textos escritos no inicio do século XX.
Foram selecionados textos de Augusto dos Anjos (A Ilha de Cipango); Machado de Assis (A Cartomante); Medeiros de Albuquerque (O Soldado Jacob); Olavo Bilac (Sete Vidas); Alcântara Machado (Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria); Lima Barreto (O Homem que Sabia Javanês).
Cinco contos e um poema, todos apresentados em quadrinhos, todos não, o poema de Augusto dos Anjos não veio acompanhado das técnicas comuns utilizadas nas HQ, destoa um pouco dos outros. Há uma linguagem pictórica especial para o poema.
O ilustrador Rui de Oliveira, no ensaio “Breve histórico da ilustração no livro infantil e juvenil” (DCL, 2008), que se encontra no livro organizado por Ieda Oliveira - O que é a qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil reconhece a dificuldade de ilustrar poemas e afirma:
“A poesia é um dos gêneros literários mais difíceis de serem ilustrados. Em alguns casos pelo seu intimismo, pela sucessão de metáforas e alegorias encadeadas, sem dúvida um dos momentos máximos de qualquer idioma. Tudo isso dificulta qualquer tipo de concreção visual” (p. 22).
Se já é difícil ilustrar um poema, como afirma Rui de Oliveira, bem mais difícil, certamente, será fazer a adaptação para a linguagem dos quadrinhos, se esse poema é de Augusto dos Anjos a dificuldade se multiplica. Como colocar em quadrinhos “enganos, tristezas, desilusões”?
Voltamos ao pensamento de Rui de Oliveira – o intimismo lírico, a sucessão das imagens poéticas, dificulta concretizar a palavra em ilustração.
Diante desse impasse, vejamos como Samuel Casal, adaptador e ilustrador de “A Ilha de Cipango”, resolveu o problema. Percebe-se que há um jogo simétrico entre texto verbal/ilustração. Bocas escancaradas, coração traspassado, adagas em profusão e muitas cruzes dialogam com o texto com as palavras. O clima fantasmagórico predomina no verbal e nas ilustrações. As cores predominantes são o amarelo ocre, o vermelho e o negro. O branco só comparece em alguns detalhes. Parece que estamos diante do quadro “O Tamarindo”, do artista plástico Flávio Tavares, é tudo sombrio. O único momento festivo surge com o aparecimento da ilha encantada – Cipango, mas este momento é fugidio, dura apenas uma hora, logo surge o “vento da Desgraça” e cobre tudo com o “pano da mortalha”.
Nos comentários que faz sobre este poema, Samuel Casal afirma que é um “dos mais complexos e ricos de Augusto dos Anjos” e se equipara com o Poema Negro, “um dos maiores hinos à tristeza que se pôde escrever em qualquer língua.” (p.48).
A ilha de Cipango, na literatura de Marco Polo e Paulo Toscanelli, guarda semelhanças com o país de São Saruê, do poeta popular Manoel Camilo dos Santos, é uma ilha paradisíaca, um lugar de maravilhas no que se refere à temática, mas “A ilha de Cipango”, do poeta do EU, é o refúgio de amores mortos e, embora a lua cheia brilhe no céu, é uma ilha maldita que só traz tristezas ao eu - lírico.
Samuel Casal chama, ainda, a atenção do leitor para o impacto que a leitura desse poema proporciona e diz “que se deve não somente à linguagem incomum e ao vocabulário cheio de expressões científicas, mas à beleza que o poeta consegue extrair do mau gosto, como os líricos de primeira linha” e cita, entre outros poetas, “irmãos espirituais” de Augusto dos Anjos: Baudelaire, Edgar Alan Poe e Gottfried Benn.
Se compararmos as ilustrações dos contos com as ilustrações deste poema, iremos encontrar muitas diferenças. A linguagem em prosa está mais afeita aos quadrinhos, tudo flui de maneira mais fácil, a poesia requer outros olhares, o desvelar de véus, daí o tratamento especial dado por Samuel Casal ao poema “A ilha de Cipango”, de Augusto dos Anjos.
“Domínio Público – literatura em quadrinhos” foi publicado em julho de 2008 e Augusto dos Anjos figura onde bem merece – ao lado de monstros sagrados – Machado de Assis e Lima Barreto e quem diria... ao lado de Olavo Bilac.

* (Texto publicado no jornal O Norte, em 22 de novembro de 2008. Foram feitas pequenas modificações para apresentação no dia 20 de abril de 2009 – 125 anos de nascimento do Poeta do Eu e Dia do Escritor Paraibano).

domingo, 19 de abril de 2009

Nise da Silveira Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada.




NISE DA SILVEIRA
Neide Medeiros Santos
Crítica de Literatura

Uma vida não basta apenas ser vivida:
também precisa ser sonhada.
(Mário Quintana)

Nise da Silveira nasceu em Maceió em 1905, era filha única. A escolha de seu nome foi uma homenagem à musa inspiradora do poeta inconfidente Cláudio Manoel da Costa. Estudou medicina na Faculdade de Medicina da Bahia e era a única mulher na turma de 150 formandos. Terminado o curso, mudou-se para o Rio de Janeiro e fez concurso para o Hospital de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental em 1933. Por perseguições políticas foi afastada do cargo de 1936 a 1944 e ficou presa durante alguns meses, no período da ditadura de Vargas.

Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere (vol.1), relembra seu encontro com Nise da Silveira na prisão.

Certo dia foi chamado. Uma das mulheres recolhidas à sala 4 desejava falar com ele. Graciliano estranhou. Quem seria? Afinal dirigiu-se ao pátio e viu uma senhora pálida e magra de olhos fixos, arregalados. O rosto ainda era moço, mas revelava fadiga, alguns fios grisalhos misturavam-se aos cabelos negros. Apresentou-se: Nise da Silveira.

Graciliano lamentou encontrar sua conterrânea longe da profissão do hospital, dos seus queridos loucos. Perguntou pelo marido, seu velho conhecido, também médico, Mário Magalhães, ele estava em liberdade. De pijama, sem sapatos, Graciliano achou-se ridículo e o jeito doce de falar de Nise causava-lhe perturbação. Alguns anos mais tarde, Graciliano homenageou sua conterrânea ao criar a princesa Caralâmpia, no conto A terra dos meninos pelados, uma figura meiga e doce, inspirada em Nise da Silveira.

Em 1946, Nise foi reintegrada à função e fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional. A Casa das Palmeiras, centro de reabilitação psiquiátrica de esquizofrênicos, foi criada em 1952. Nesta casa, fruto de um ideal de uma mulher que acreditava que a vida não é apenas para ser vivida, mas também para ser sonhada, como bem disse o poeta Mário Quintana, a psiquiatra desenvolveu um trabalho em que os pacientes tinham a oportunidade de se expressar através da Arte - madeiras, pinturas, modelagens, colagens, argila, teatro, dança, expressão corporal. Nise hoje é lembrança, mas a Casa das Palmeiras persiste no tempo.

Além de adotar métodos para tratamento da esquizofrenia, considerados avançados para a sua época - a terapia ocupacional -, a doutora Nise condenava o eletrochoque e a lobotomia. Os recursos utilizados pela médica alagoana para tornar a vida dos esquizofrênicos mais amena estão explicados no livro O mundo das imagens.

Nise da Silveira não foi apenas uma médica que se preocupava com a saúde de seus clientes, era uma pessoa sensível e amante das artes. Estudiosa de Jung nos legou um livro que resume as principais idéias do psicanalista suiço - Jung vida e obra.

No capítulo A obra de arte e o artista, Nise da Silveira discorre sobre os dois processos diferentes de criação artística: o processo psicológico e o visionário e revela que as obras de arte, resultantes da primeira maneira são facilmente compreendidas por seus leitores. Os temas abordados são conhecidos - as paixões, os sofrimentos do homem, seus feitos, as tragédias de seu destino. Os romances de amor, o romance social, a poesia lírica, a poesia épica, comédia e tragédia pertencem ao processo psicológico. Podemos acompanhar as peripécias que se desenrolam nessas obras, mas nunca nos causam sentimentos de estranheza.

As obras de arte visionárias nos proporcionam uma profunda estranheza. O artista sente-se dominado pelo ímpeto da inspiração, a sua obra é maior do que ele. Muitos artistas têm dado depoimentos sobre o processo criador e podemos vislumbrar, nesses depoimentos, lampejos de obras visionárias.

A autora ilustra muito bem a arte visionária de Jorge de Lima. Os primeiros livros do poeta alagoano retratam temas da infância e motivos regionais, tudo bem simples e de fácil compreensão. Houve, depois, uma total transformação na poética de Jorge de Lima. Em Mira Celi e Invenção de Orfeu, o mundo do poeta é o mundo das imagens arquetípicas. Essas imagens não podem ser aprisionadas dentro do nosso mundo lógico, as palavras adquirem autonomia, tornam-se independentes, obscuras, enigmáticas.

Admiradora de Jung, Nise da Silveira afirma que as mais belas páginas que Jung escreveu sobre a alma da criança estão nos dois primeiros capítulos de sua autobiografia - Memórias, Sonhos, Reflexões.

sábado, 11 de abril de 2009

Dom Quixote: o cavaleiro do sonho




Dom Quixote: o cavaleiro do sonho
Por: NEIDE MEDEIROS SANTOS

Ana Maria Machado, no livro Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, relata seu primeiro encontro com Dom Quixote. Esse primeiro encontro não foi com o livro de Cervantes, mas com uma pequena escultura de bronze esverdeada e pesada, pousada na escrivaninha do pai, representando Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. Quixote, magrelo e tristonho, com uma lança na mão e escudo na outra, montado em um cavalo esquelético; Sancho Pança, gorducho e risonho, montado em um jumento, de braço estendido para o alto, erguia o chapéu e parecia muito contente.

Um dia, a menina curiosa e esperta, perguntou ao pai quem eram aquelas figuras, onde eles moravam. O pai explicou que eles moravam longe, na Espanha e também bem pertinho, dentro de um livro; levantou-se foi até à estante, mostrou o livro “grandalhão” e prometeu que outra hora iria contar a história que estava guardada no livro. A promessa foi cumprida e o pai foi contando, com suas próprias palavras, as aventuras e desventuras de Dom Quixote enquanto mostrava as ilustrações do livro. (1)
Na fase em que já sabia ler, ocorreu o segundo encontro com o cavaleiro da triste figura – Dom Quixote das crianças, uma adaptação de Monteiro Lobato. Lobato, através da voz de Dona Benta, resolve contar, à sua maneira, a história de Dom Quixote aos meninos do sítio do Picapau Amarelo, eliminando os torneios fraseológicos e tornando o vocabulário mais acessível às crianças.
Emília é o personagem que mais se identifica com Dom Quixote e, fascinada pelas maluquices do herói, a boneca começa a dar demonstrações de loucura: veste-se de cavaleiro andante, monta-se em Rabicó, dizendo que este é Rocinante, transforma o Visconde de Sabugosa em Sancho Pança e tenta espetar todo mundo com uma lança. Apavorado com a doidice de Emília, Pedrinho propõe colocar a boneca em uma gaiola como o padre fez com Dom Quixote que, por ser considerado louco, é levado de volta para a casa enjaulado em um carro de bois. Dona Benta, a princípio, concorda com a idéia do neto e sugere a tia Nastácia que coloque a boneca dentro da gaiola do sabiá que havia morrido, mas logo se arrepende desse método tradicional de tratarem os loucos e manda que Emília seja libertada.
No último capítulo, no finalzinho da história, Emília não aceita a idéia da morte de Dom Quixote. A respeito da opinião de Emília, a estudiosa da obra de Lobato, Marisa Lajolo (2) afirma:
Ao final do livro, Monteiro Lobato presta a maior homenagem que um leitor pode prestar a um escritor, e que se torna maior quando o leitor é um escritor. Emília nega-se a ouvir contar a morte de Dom Quixote. Como morreu, se Dom Quixote é imortal? – pergunta a boneca.
Dessa fase lobatiana, Ana Maria revela um grande apreço pelo personagem de Cervantes. Ela recorda os episódios dos moinhos de vento, os rebanhos de carneiros, Sancho Pança sendo jogado para o alto, dentro de uma manta, como se fosse uma bola de jogar, das surras que o pobre Quixote levava, mas ela lembra, sobretudo, de como torcia por aquele herói que queria consertar o mundo, ajudar os sofredores e defender os oprimidos. Dom Quixote não desanimava nunca, era símbolo da persistência, daquele que lutava até o fim. Enquanto as pessoas achavam que Dom Quixote era maluco, riam dele... , ela sentia profunda admiração pelo personagem sonhador.
Para expressar a identidade da escritora com o personagem Dom Quixote, transcrevemos este excerto:
(...) E então as pessoas achavam que Dom Quixote era maluco, riam dele...
Eu não ria. Metade de mim queria avisar ao cavaleiro: “Fique quieto no seu canto, não vá lá, não, porque não é nada disso que você está pensando...” A outra metade queria ser igual a ele. Até hoje. (3)
Certamente, na trajetória da autora de Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, houve inúmeros encontros com as diversas edições de Dom Quixote de la Mancha, mas, objetivamos, nesse primeiro momento, destacar essas leituras feitas na infância.
Um dia, a menina que gostava de ouvir a história de dom Quixote contada por seu pai e que lia Dom Quixote das crianças cresceu, tornou-se escritora e resolveu recriar a mesma história que acompanhou a sua infância para todas as crianças do Brasil. O ano de 2005 era propício, comemorava-se a o 4º centenário da publicação do livro Dom Quixote de la Mancha. Para marcar essa data, surgiram, no Brasil, muitas reedições, traduções, adaptações para o público infanto-juvenil e Ana Maria Machado escreveu O Cavaleiro do Sonho. As aventuras e desventuras de Dom Quixote de la Mancha (3), com ilustrações de Cândido Portinari. O livro recebeu o prêmio Fernando Pimentel – O Melhor livro Reconto (Hors Concours) da Fundação Nacional do livro Infantil e Juvenil (2006).
Aqui, como no texto de Lobato, há duas vozes – a voz de Ana Maria que faz a apresentação e a conclusão do livro e a voz da narradora que conta e recria o mundo sonhado por Dom Quixote. O texto começa com o tradicional Era uma vez... e continua... um homem que sonhava.
Na apresentação, Ana Maria Machado destaca três tipos de sonhadores: aqueles que sonham com uma vida melhor para os outros e para todo mundo; os que acreditam no sonho e resolvem se esforçar para que ele aconteça e, por último, aqueles que estão dispostos a arriscar a sua própria vida em benefício dos outros. É difícil encontrar pessoas sonhadoras dispostas a fazer sacrifícios pelo bem da humanidade, mas elas existem, em quantidade bem pequena, é verdade. Dom Quixote aparece como o tipo de herói mais raro – o sonhador, ele era capaz de lutar e arriscar a sua própria vida para melhorar a vida de seus semelhantes.
Quanto à narrativa, começa situando, sem maiores detalhes, o local onde se passam os fatos:
Em um lugar da Espanha, cujo nome ninguém lembra, mas ficava numa região chamada Mancha, há uns quatrocentos anos, vivia um fidalgo empobrecido. (4)
O pequeno leitor situa, geograficamente, o local onde a história se passa – Espanha, na região La Mancha. No final do parágrafo, surge o nome do fidalgo empobrecido – Dom Quixote.
Prosseguindo o relato, há destaque para um bem precioso do fidalgo – livros, ele era dono de uma biblioteca, quase toda de romances de cavalaria e para comprar livros era capaz de vender um campo ou toda colheita. Os livros eram tão importantes para Dom Quixote, ele se empolgava tanto com as leituras dos romances que os personagens que habitavam esses romances lhe pareciam seres vivos, reais.
Nesse primeiro momento da narrativa, há um aspecto que chama atenção do leitor – a valorização do livro.
Dando continuidade à narrativa, vamos encontrar alguns episódios da vida de aventuras e desventuras do Dom Quixote: ser armado cavaleiro, encontrar um escudeiro fiel e uma bela dama inspiradora de um grande amor. Tudo isso foi realizado, um pouco às avessas. O escudeiro era um lavrador, seu vizinho, chamado Sancho Pança, um camponês simplório, analfabeto e pouco inteligente; a bela dama era Aldonça Lourenço, uma robusta camponesa que morava nos arredores de uma pequena aldeia e recebeu o pomposo nome de Dulcinéia del Toboso.
Vestido com uma armadura velha que havia pertencido a seu bisavô, Dom Quixote parte montado em um pangaré, Rocinante, na companhia de Sancho Pança, este escanchado em um burrico, e juntos perseguem ladrões, malfeitores. Um era nobre, tinha lido muitos livros, o outro era lavrador, analfabeto, mas se tornaram muito amigos e criaram, na opinião da narradora, uma das maiores amizades registradas na história da literatura.
Sancho Pança gostava de citar provérbios e, para cada situação conflituosa, sempre proferia uma sentença condizente com o momento vivido. Depois de inúmeras surras e desventuras, Dom Quixote já se apresentava machucado e abatido, isso inspirou Sancho Pança a dar-lhe o cognome de O Cavaleiro da Triste Figura. O fidalgo gostou tanto da nova denominação que resolveu adotá-la como um título nobre.
Depois de passar por muitas aventuras e desventuras, Dom Quixote resolve se recolher à sua aldeia, mas ficou tão triste que adoeceu gravemente. Sentindo que ia morrer, fez um testamento, deixando sua herança para a sobrinha e para Sancho Pança.
A imortalidade de Dom Quixote, apregoada pela boneca Emília, pode ser comprovada pelas inúmeras edições que saem todos os anos do livro de Cervantes. Quixote continua vivo, vivíssimo.
O Cavaleiro do Sonho. As aventuras e desventuras de Dom Quixote de la Mancha, uma bonita adaptação para crianças, veio corroborar a perenidade desse personagem. Além de um bom projeto editorial, o livro conta com belíssimas ilustrações. A galeria de imagens da série Dom Quixote, de Cândido Portinari, que ilustram essa edição, é formada por 14 quadros com desenhos feitos com lápis de cor sobre papel, papelão, grafite e representam vários episódios vivenciados por Dom Quixote e Sancho Pança.
Destaque-se, ainda, a conclusão do livro; voltam à voz de Ana Maria Machado e a explicação porque Portinari no fim de sua vida passou a pintar com lápis de cor: Portinari utilizava a técnica da pintura a óleo e de tanto pintar adoeceu porque as tintas eram tóxicas e começou a usar lápis de cor para externar sua arte. A série Dom Quixote que ilustra esse livro foi dessa última fase do pintor, da época em que estava proibido de usar as tintas a óleo.
Mas... na vida dos seres humanos sempre surgem desafios e apareceu um convite para Portinari pintar dois grandes painéis, representando a Guerra e a Paz, no edifício da ONU, Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque e Candinho, como era carinhosamente chamado pelos mais íntimos, não resistiu à tentação e resolveu voltar a pintar com as tintas que o envenenavam.
Hoje, quem visita a sede da ONU, encontra dois grandes painéis de Portinari simbolizando, respectivamente, a Guerra e a Paz. O pintor faleceu pouco tempo depois de haver concluído os painéis, mas deixou sua marca de amor à arte e seu sonho de lutar por um mundo mais justo e mais fraterno. Como Dom Quixote, Portinari pertence a galeria mais dignificante dos sonhadores – aqueles que sonham em melhorar a vida de seu semelhante, mesmo em prejuízo de usa própria vida.
A conclusão do livro, uma louvação a Quixote e Portinari, não poderia ser mais feliz e, para celebrar a poesia que envolve O Cavaleiro do Sonho. As aventuras e desventuras de Dom Quixote de la Mancha, recorremos a outro grande sonhador, o poeta Mário Quintana:
(...) Uma vida não basta
apenas ser vivida: também
precisa ser sonhada. (5)

O livro Dom Quixote de la Mancha é considerado um dos melhores livros da literatura ocidental de todos os tempos e a recriação de Ana Maria Machado veio enriquecer o universo literário da literatura infantil brasileira.
A edição bem cuidada, a ilustração do livro com quadros de Portinari, o texto literário poético e a pequena biografia de Cervantes, inserida nas últimas páginas do livro, concorrem para que este livro se torne um referencial de consulta para professores, pais, crianças e estudiosos da obra cervantina. Convém ressaltar que é um livro que deixa marcas nos leitores de todas as idades: o amor aos livros, os sentimentos de solidariedade, a luta contra as injustiças sociais, a louvação aos artistas sonhadores, tudo isso retratado de forma lúdica e criativa.

Neide Medeiros Santos é ensaísta e crítica de literatura infantil. É representante e membro votante da FNLIJ/PB. Trabalho apresentado no 8º Salão do Livro e IV Seminário de Literatura Infantil no Museu de Arte Moderna (MAM- Rio), em agosto de 2006.

Referências Bibliográficas

1. Esse depoimento de Ana Maria Machado se encontra no livro Como e por que ler os clássicos infantis desde cedo.
Cf. MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos infantis desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 7-8.
2. LAJOLO, Marisa. Lobato e Dom Quixote: viajantes nos caminhos da leitura. Pesquisa feita na internet no dia 04/08/2006. http//lobato. globo.com/htlm/novidades.32.htlm.
3. MACHADO, Ana Maria. Op. Cit. p. 9-10
4. MACHADO, Ana Maria. O Cavaleiro do Sonho. As aventuras e desventuras de Dom Quixote de la Mancha. São Paulo: Mercuryo Jovem, 2005, p. 7
5. O fragmento do poema de Mário Quintana foi retirado do livro Lili inventa o mundo. Cf.: QUINTANA, Mário. Lili inventa o mundo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983, p. 3.

sábado, 28 de março de 2009

Pintura e Literatura: momentos criativos-Lasar Segall


Artigo - Pintura e Literatura: momentos criativos

"Pintura é arte de dar felicidade mediante as cores e formas". (Norah Borges)

Neide Medeiros Santos, Neide Medeiros Santos Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/ PB

Marisa Lajolo organizou e fez a apresentação do livro "Histórias de quadros e leitores" (Ed. Moderna, 2006). Dez escritores, incluindo a própria Lajolo, criaram histórias a partir de quadros de pintura. Alguns optaram por exercícios de criação, outros preferiram registrar fatos verdadeiros.

Cada quadro condiz com a história apresentada. Os pintores retrataram cenas familiares em que o livro aparece sempre como o centro das atenções. Há quadros que apresentam a leitura individual, mas tanto na leitura coletiva quanto na leitura individual o livro e o ato de escrever são os elementos destacados.

No universo de dez textos literários, nove telas e uma fotografia, dois textos e duas telas nos chamaram a atenção de forma particular - o texto de Marisa Lajolo e o de Moacyr Scliar.

O título do texto de Marisa Lajolo - "A pintura é a poesia muda e a poesia é a pintura que fala" - é um pensamento do grego Simonides de Keos que viveu no século V antes de Cristo e remete ao velho parentesco entre pintura e poesia, quando a literatura se representava quase exclusivamente pela poesia. O texto selecionado por Lajolo é o soneto de Machado de Assis - "Soneto circular" e o quadro - "A dama do livro", de Roberto Fontana, que pertence ao acervo da Academia Brasileira de Letras.

Os leitores do jornal "A Gazeta de Noticias", jornal de muito prestígio no Rio de Janeiro, na edição do dia 18 de abril de 1895, encontraram em suas páginas um instigante soneto com um título um pouco enigmático: "Soneto circular". O autor era um nome bem conhecido nas letras brasileiras - Machado de Assis.
A primeira estrofe do soneto nos oferece uma visão do quadro de Fontana:

A bela dama ruiva e descansada,
De olhos langues, macios e perdidos,
C´um dos dedos calçados e compridos
Marca a recente página fechada.
(...)

Quem visita hoje o acervo machadiano, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, se depara com este quadro "La donna che legge", uma pintura de Roberto Fontana, com data de 1882. O quadro pertenceu a Machado de Assis, foi presente de amigos e durante alguns anos esteve ao lado dos móveis e objetos na casa do escritor na Rua Cosme Velho. A referência ao presente do quadro por sete amigos de Machado de Assis pode ser comprovada com a leitura da 3ª estrofe do soneto:

Mas, eis da tela se despega e anda,
E diz-me: - Horácio, Heitor, Cibrião, Miranda,
C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo,
(...)

Quanto ao interesse despertado pela tela por parte de Machado de Assis, vejamos a explicação dada por Marisa Lajolo. Passeando, certo dia, pela Rua do Ouvidor, Machado se depara com o bonito quadro na vitrine de uma loja e Lajolo conjectura várias perguntas que o escritor poderia ter feito diante daquela bela figura feminina. Não vamos nos alongar repetindo os possíveis pensamentos de Machado de Assis, vejamos a opinião de Lajolo:

"Eu, por mim, gosto de fantasiar que este quadro, pendurado próximo da escrivaninha onde Machado escrevinhava suas histórias, era uma espécie de lembrete ao autor: lembrava a ele que o leitor pode sempre fechar um livro que não lhe agrada". (p.11).

Se o (a) leitor (a) tiver oportunidade de visitar o acervo de Machado de Assis, na Academia Brasileira de Letras, poderá também criar uma história para esta tela de Roberto Fontana. Fica o convite.

Para ilustrar o pungente texto "Histórias de mãe e filho", Moacyr Scliar se inspirou em um quadro de Lasar Segall que retrata a mãe do escritor, Raquel, nascida em uma região que hoje faz parte da Ucrânia. Os avós de Scliar vieram morar no Brasil e a filha Raquel acompanhou os pais em uma longa viagem que começou de barco, trem e por fim de navio, foi nessa viagem que ela viu, no convés do navio, um rapaz com um livro nas mãos, era David. Raquel havia aprendido a ler com um tio e era fascinada por leitura, conversar com David, trocar idéias sobre livros fez com que a viagem se tornasse menos cansativa.

No Brasil, os dois se encontraram alguns anos depois, namoraram e resolveram se casar. Dessa união - David/Raquel nasceu Moacyr, mas o escritor não teve o prazer de conhecer sua mãe, ela morreu durante o parto e vem uma revelação plena de beleza textual:

"Durante a gravidez a mamãe lia muito. Não para ela, lia para mim. É isso mesmo lia para mim. (...) E segundo ela dizia a papai, sabia até de quais livros eu gostava mais:
- Coloque a mão aqui na minha barriga, David. Você está sentindo o nenê se mexer? Está percebendo que ele bate palmas? É porque eu acabei de ler um conto de Machado de Assis. Nosso filho adora Machado de Assis, David". (p. 63).

Se olharmos para o quadro de Segall, vamos encontrar uma jovem senhora deitada com um livro aberto entre as mãos, repousado sobre o ventre intumescido olhando para o infinito, sonhando talvez com o filho e prevendo que ele seria um escritor. O momento é sagrado, o menino estava bem guardadinho na barriga da mãe. A primeira impressão é que o quadro retrata apenas uma pessoa, mas ali, na barriga da mãe, está escondido um menininho que hoje é um adulto que escreve livros que falam sobre os problemas dos judeus e sobre muitos outros problemas inerentes à natureza humana, todos revestidos de muita beleza e criatividade.

Moacyr Scliar cresceu sem a presença da mãe, formou-se em medicina, tornou-se escritor e admirador de Machado de Assis. Escreveu vários livros que têm como personagem central a figura do escritor da Rua Cosme Velho. "Ciumento de carteirinha", livro que conquistou o 2º. lugar no Prêmio Jabuti 2008, é uma nova versão de Dom Casmurro e um atestado da admiração que o escritor devota a Machado de Assis.

Após as leituras dos textos de Marisa Lajolo e Moacyr Scliar sentimos como é importante visitar museus, academias, centros culturais, ter pais bons leitores, pais e professores que encaminhem seus filhos e alunos para o reino mágico da literatura.

sábado, 21 de março de 2009

Guia das curiosas: um livro cheio de novidades


Artigo - Guia das curiosas: um livro cheio de novidades

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
(Cecília Meireles. Lua Adversa).

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB

Marcelo Duarte já escreveu vários livros sobre curiosidades, mas estava devendo um livro dedicado às mulheres. Para concretizar essa ideia, pediu a colaboração de Inês de Castro e brindou os leitores, de forma mais especial às leitoras, com o livro "O guia das curiosas" (Ed. Panda, 2008).

Seria impossível, dentro de um pequeno espaço de jornal, resumir as principais curiosidades sobre as mulheres brasileiras que deixaram marcas pelos caminhos, mas vamos tentar apresentar alguns aspectos ligados à literatura e lançar perguntas que despertarão no(a) leitor (a) o desejo de ler o livro dessa dupla que sabe aguçar a curiosidade.

Você sabia que o 1º livro escrito por um brasileiro nato foi de uma mulher? Sim, é pura verdade. Ela se chamava Teresa Margarida da Silva Orta e escreveu "Aventura de Diófenes", em 1752.

Quem foi Nísia Floresta? Nísia Floresta Brasileira Augusta é seu nome completo, nasceu em Papari, hoje Nísia Floresta, no vizinho estado do Rio Grande do Norte e foi uma das pioneiras na defesa dos direitos da mulher. Viajou pelo Brasil e morou em muitos países da Europa. Estava com 22 anos quando escreveu um livro que a consagrou - "Direitos das mulheres e injustiça dos homens". Deve ter sido um escândalo para a época, estávamos em 1832.

Outra brasileira que não pode ser esquecida é a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Formou-se em medicina, era a única mulher em uma turma de 156 homens. Adepta da psicanálise de Jung, deixou livros sobre as teorias de seu mestre. Foi uma revolucionária no tratamento psiquiátrico, condenando o método do eletrochoque, procurou tratar os esquizofrênicos com uma terapia ocupacional, distribuindo pincéis e tintas. Com esta atitude revelou vários artistas e criou o Museu do Inconsciente que reúne peças de arte.

E na poesia? Quem são as estrelas? Cecília Meireles (1901- 1964) é uma estrela de muito brilho. Criou a primeira biblioteca infantil do país em 1934, no Rio de Janeiro. Além de poeta era uma grande educadora, escrevia crônicas nos jornais do Rio sobre educação. Foi a primeira mulher a ter um livro premiado pela Academia Brasileira de Letras (1938). O nome do livro? "Viagem".

No romance, quais são os grandes nomes femininos? Marcelo Duarte e Inês de Castro citam: Ana Maria Machado, Clarice Lispector, Dinah Silveira de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Rachel de Queiroz. Rachel de Queiroz quebrou o tabu - foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, abriu o caminho para outras.

Duas escritoras brasileiras receberam o maior prêmio internacional de literatura infantil (Prêmio Hans Christian Andersen) - Lygia Bojunga Nunes (1982) e Ana Maria Machado (2002). Esse prêmio equivale ao Nobel de literatura para adultos.

Há uma referência no livro que merece registro - na página 530 aparece o nome de Anayde Beiriz. "Uma autora na fogueira" é o título do texto em que os autores tecem considerações sobre a jovem paraibana que ousava frequentar as rodas literárias que eram reservadas aos homens na década de 20 do século XX, escrevia poemas e condenava os preconceitos contra a mulher.

Nesse livro, são citadas feministas brasileiras. Quem são elas? Carmem da Silva, Marina Colasanti e Rose Marie Muraro. Sabemos que há muitas outras, fiquemos com estas três.

Carmem da Silva era gaúcha e se consolidou na literatura escrevendo artigos para jornais e revistas. Autora da coluna "A arte de ser mulher", revista Cláudia (1963/1985), se destacou pela maneira franca e direta de expor suas ideias. Por ironia do destino, morreu em Volta Redonda, quando dava uma palestra sobre feminismo (1985).

Marina Colasanti nasceu na Etiópia, morou até os 11 anos na Itália, depois veio para o Brasil, aqui ficou e se casou com o escritor Affonso Romano de Sant´Anna, escreveu para diversas revistas femininas. É autora de livros de poesias, crônicas, contos, textos teóricos e livros para crianças. Seu livro "A nova mulher" foi muito vendido.

Rose Marie Muraro traduziu "A mística feminina" de Betty Friedan e parece que aí despertou para o feminismo dos anos 70 do século XX. Hoje é uma feminista ardorosa, "sem papas na língua e muito polêmica por suas posições". (p. 534). Rose Marie Muraro é escritora e fundadora do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Durante 17 anos, trabalhou na Editora Vozes.

Encontramos também, na literatura brasileira, personagens femininas marcantes. Quem não se lembra de Capitu? O ano passado se comemorou os 100 anos da morte do consagrado escritor Machado de Assis e essa figurinha enigmática, "de olhos de ressaca", foi muito lembrada. E Diadorim? Personagem de Guimarães Rosa. Homem ou Mulher? Demônio ou Anjo? Dona Flor? Aquela que tinha dois maridos - um morto e outro vivo. Ah! São tantos nomes.

Saiba mais

Limitamo-nos a falar um pouquinho sobre as brasileiras que se destacaram na vida real e na ficção, mas o mundo está cheiinho de mulheres e de personagens femininas famosas. Duvida? Leia "O guia das curiosas" e veja se não temos razão. Não se esqueça: ainda estamos em março e o dia 8 foi todinho dedicado a esse ser que tem fases como a lua - é nova, quarto - crescente, cheia e quarto - minguante. Às vezes gosta de ficar escondida, outras vezes sai para a rua e daí... ninguém segura, os homens que se cuidem.

sábado, 7 de março de 2009

Rubens Matuck: um artista de muitas faces


Artigo - Rubens Matuck: um artista de muitas faces

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
(Álvaro de Campos. Passagem das Horas)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB

A vocação para as artes começou muito cedo na vida de Rubens Matuck. Oscar D´Ambrosio, crítico de arte da APCA, no livro biográfico "Contando a arte de Rubens Matuck" (Noovha América, 2005), afirma que, aos 12 anos, Rubens já mostrava tendências para o mundo artístico. Diante da inclinação do filho para as artes, o pai perguntou ao menino se ele desejava mesmo levar a sério essa atividade, o filho respondeu que sim e ouviu este conselho que guarda até hoje: "Então vai ter que fazer bem feito".

Seguindo a orientação do pai, Rubens Matuck é um artista que procura fazer bem feito trabalhos em aquarela, pintura a óleo, gravura, escultura, trabalhos em madeira e sementes e tem o reconhecimento da classe artística no Brasil e no exterior. É também um ardoroso defensor da natureza.

Formado em Arquitetura pela FAU/USP, começou a se destacar como artista ainda na faculdade com uma exposição em aquarela. Terminado o curso, realizou várias viagens de pesquisas, atualmente mantém em seu ateliê, em São Paulo, cursos de História da Arte e um canteiro de mudas de árvores de nossa flora para presentear aos amigos e àquelas pessoas que pensam em humanizar sua rua ou sua cidade plantando árvores. Profere palestras e dá aulas de Arte Ambiental em escolas de nível médio e superior.

Estudou pintura com Aldemir Martins, Flexor e Jorge Mori; gravura com Evandro Carlos Jardim e Renina Katz; escultura com Van Acker, fez também cursos de fotogravura e fotografia.

No ensaio "O olhar atento", Oscar D´Ambrosio considera Rubens Matuck um cronista de viagens e, na sua coleção de cadernos, estão registradas as viagens a locais como o Pantanal, a Amazônia. Estão presentes também, nesses cadernos, peixes, pássaros e árvores da rica fauna e flora do Brasil. É possível encontrar, ainda, nos seus "moleskines", imagens relacionadas com as fascinantes jornadas empreendidas pela China, Estados Unidos e Itália.

Oscar D´Ambrosio, no ensaio citado, chama a atenção para o interesse de Matuck pela arqueologia, as culturas do passado e o domínio do trabalho com papéis japoneses, esta última técnica utilizada como suporte na pintura e trabalhos delicados.

Aliado a tudo isso, Matuck é também ilustrador de livros infantis. Com a ilustração para o livro de Mário Quintana - "Sapato Florido", ganhou o prêmio Jabuti de Ilustração em 1993.

Em 2007, Nilson Moulin (texto) e Rubens Matuck (ilustração) publicaram, pela Editora Cortez, "Leonardo desde Vinci", que ganhou o prêmio "Melhor Livro Informativo" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Para escrever e ilustrar este livro, Moulin e Matuck fizeram três viagens à Itália em diferentes estações do ano, trilharam os caminhos de Leonardo e afirmam, em nota introdutória, que para conhecer bem Leonardo da Vinci não basta apenas ir a Florença e Milão, nem tampouco visitar museus e centros de estudos, é necessário começar pela cidade de Vinci, percorrer os "lugares de Leonardo", ler a "biografia fundadora" do toscano Giorgio Vasari sobre Leonardo da Vinci e ler muitos outros textos que falam, descrevem e interpretam os vários Leonardos.

Após estas considerações, vamos viajar pelas páginas do livro e conhecer um pouco dos artistas múltiplos: Leonardo, Moulin e Rubens. O texto de Moulin intercala aspectos biográficos da vida e da arte de Leonardo da Vinci com textos poéticos de autores consagrados. Matuck ilustra com desenhos, aquarelas, sanguíneas.

No início do livro, o leitor se depara com o belíssimo poema "Ítaca" (p.8-9) do grego Constantino Caváfys, traduzido por Jorge de Sena. A respeito do poema, Moulin comenta: Caváfys escreveu este poema "com olhos e coração voltados para a História Antiga do Egito e da Grécia, sonhando com o mosaico mediterrâneo..." (p.11).

Para ilustrar o poema de Caváfys, Matuck repetiu o texto em letra manuscrita utilizando o amarelo, laranja, vermelho, roxo e azul. Uma primeira leitura nos dá a impressão de que estamos diante de um amontoado de letras, examinando, com mais atenção, verificamos que é o mesmo poema com uma nova roupagem.

Nas páginas 26 e 27, quatro aquarelas retratam a cidade de Vinci em diferentes estações do ano. Um pequeno texto verbal fala sobre a pequena aldeia Vinci, na época de Leonardo, e o interesse que esta cidade desperta hoje aos visitantes e turistas.

Moulin recorreu a um texto de Stendhal (p.48) para descrever a cidade de Florença. Uma aquarela (p.49) apresenta a bonita cúpula da igreja de Santa Maria del Fiore, uma obra-prima de Brunelleschi.

Neste livro, encontramos aforismos, provérbios da tradição oral toscana, coletados por Leonardo e, entre os 18 provérbios elencados, pinçamos este pelo vínculo natureza/poesia:

"É muito mais difícil entender obras da natureza que o livro de um poeta". (p.58).

Leonardo tencionava organizar um livro de pintura, mas não o fez, um discípulo e amigo, o pintor Francesco Melzi, foi quem concretizou a idéia. Esse tratado se refere a conselhos de um professor a seus alunos. Destacamos, entre essas orientações, os passos que devem ser seguidos por um aspirante a pintor. Com o título "Tratado da Pintura", extraímos o primeiro princípio:

"O princípio da ciência da pintura é o ponto, o segundo é a linha, o terceiro é a superfície, o quarto é o corpo que se reveste de tal superfície..." (p. 81).

Depois da leitura do livro de "Leonardo desde Vinci", aflora o desejo de fazer o mesmo percurso de Moulin e Matuck - visitar Vinci, Florença, toda região da toscana em diferentes estações do ano, visitar os museus e as bibliotecas, sentir o deslizar do tempo e as mudanças das estações. Se não for possível realizar o sonho de uma viagem à região da toscana, contentemo-nos com a leitura do livro que permite conhecer um pouco da vida e da obra desse artista de muitas faces - Leonardo da Vinci. Rubens Matuck, pela multiplicidade de sua obra, também pode ser considerado um artista de muitas faces.

Saiba mais

Em parceria com o físico Walmir Cardoso, Rubens Matuck desenvolveu um projeto próximo ao de Fernando Pessoa. Na exposição intitulada "Viagem ao Urupin", o artista e o físico apresentaram cinco visões de um planeta, cinco artistas fictícios cada um com seu "modus operandi" e uma viagem a um locus imaginário.