segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

LEITURAS NATALINAS (2)





LEITURAS NATALINAS (2)
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ-PB)

FELIZ de quem, quando o ano termina,
possui um doce e acolhedor abrigo:
a companheira, o filho, a avó tão rara
ou mesmo o amigo
com quem possa se reunir em Cristo.
(Jorge de Lima. Natal)

Neste Natal, além dos tradicionais cartões natalinos, dos e-mails com votos de Boas Festas, envie livros para os amigos. Poderá ser um livro com o título “Cartão Postal”. Gostou da ideia? Saiba que existe um bonito livro escrito por Luiz Raul Machado, ilustrado por André Neves que traz este título, uma publicação da DCL (2010).
A história desse livro gira em torno de um menino que era dono de um cartão postal que ficava sobre sua mesa, mas não era um cartão postal comum, dentro dele havia um lago e no lago morava uma fada. De tanto olhar o cartão o menino terminou morando dentro do cartão. O menino e a fada se tornaram grandes amigos, conversavam muito, conversas que só menino e fada são capazes de entender.
Às vezes, o menino estava triste e contava para a fada a razão de sua tristeza, outras vezes estava alegre falava sobre as pequenas alegrias. E o menino contava histórias à fada – a história do soldadinho de chumbo e outras histórias que a fada sabia de cor e salteado. A fada também contava história de peixes, de pedras e plantas e, se o menino já sabia, fazia de conta que era novidade. Menino e fada se entendiam muito bem.
O ilustrador André Neves deu um mergulho na história e como gosta muito de água usou e abusou do azul, afinal a fada da história morava em um lago.
“Cartão Postal” remete a outras leituras – no último capítulo, aparece uma citação de um trecho do livro “Pinóquio”, uma tradução de Monteiro Lobato, e um poema do livro” Cabeças”, de Eudoro Augusto.
A leitura é simbólica e cheia de sugestões e permite que o adulto mergulhe no lago e viva as mesmas aventuras do menino e da fada.
E qual seria o quinto livro recomendado? Escolhemos um livro que fala sobre livros – “Sábado na livraria”, de Sylvie Neeman, ilustrações Olivier Tallec (Cosac Naify, 2010). No Brasil, o livro foi traduzido por Cássia Silveira. O título original em francês é “Mercredi à la librairie”.
A história versa sobre o encontro entre uma menina e um velho. Os dois sempre se encontram na livraria, mas leem livros bem distintos A menina gosta de ler quadrinhos, o velho lê um livro bem volumoso, às vezes os olhos lacrimejam e vem a desculpa: “Olhos envelhecidos lacrimejam mais facilmente”.
Enquanto a menina lê bem rápido, o velhinho lê mais devagar. Ele gosta de histórias de guerra. Todo sábado é a mesma rotina – os dois visitam a livraria, trocam algumas palavras e sentam para ler suas leituras prediletas.
A publicação desse livro em português proporcionou, no Brasil, vários depoimentos de donos de livrarias, professores, críticos de arte.
Yacy Mattos, da Livraria Malasartes, no Rio de Janeiro, escreveu um texto discorrendo sobre o livro de Sylvie Neeman e relatou suas experiências como leitora e as atividades que desenvolve na livraria que dirige há cerca de 30 anos.
Verônica Stigger, crítica de arte e professora universitária, lembra que o livro ativou uma série de recordações, passando por sua infância até as visitas aos sebos de Porto Alegre, na idade adulta.
Os dois livros que citamos esta semana são destinados às crianças, mas certamente os adultos poderão ler com prazer, pois falam de coisas que tocam a sensibilidade do leitor.
É possível fazer compras de livros pela internet, pedir livros por reembolso postal, mas nada é comparável à sensação de ir à livraria, examinar o livro, tocá-lo, senti-lo, comprar e levar para casa o “objeto sagrado”, como chamava Jean-Paul Sartre.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

leituras natalinas (1)


LEITURAS PARA O NATAL 2010 (1)
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária FNLIJ-PB)

- Sino, claro sino,
tocas para quem?
- Para o Deus menino
que de longe vem.
(Carlos Pena Filho. Poema de Natal)

João Luís Ceccantini escreveu um longo artigo que foi publicado no jornal “Notícias – FNLIJ, setembro de 2010” sobre a literatura infantil contemporânea –” Vigor e diversidades: a literatura infantil e juvenil no Brasil em 2008”. Neste texto, além da referência ao livro de Ignácio de Loyola Brandão – “O menino que vendia palavras” (Ed. Objetiva), ganhador do Jabuti 2008, na categoria de Livro do Ano (Ficção), o ensaísta apresenta comentários a respeito de livros destinados ao público infanto-juvenil.
A seleção feita pelo crítico literário e professor da UNESP, abrange livros publicados em 2008 e que ganharam prêmios no Brasil e no exterior. A nossa seleção para leituras no Natal de 2010 é bem mais modesta. A lista compreende alguns livros que consideramos relevantes e que foram publicados em 2010.
Destacamos, entre as aquisições mais recentes, os seguintes livros: Crítica, Teoria e Literatura Infantil (Ed. Cosac Naify) de Peter Hunt; Contos de fadas de Perrault, Grimm, Andersen & outros (Ed. Zahar), com apresentação de Ana Maria Machado; Neruda para jovens. Antologia Poética bilíngüe (Ed. José Olympio). Os livros selecionados se destinam, de acordo com a ordem de citação, aos educadores, compreendendo: professores e pais; à criança e ao jovem.
Crítica, Teoria e Literatura Infantil foi escrito pelo ensaísta britânico Peter Hunt. No Brasil, a tradução ficou a cargo de Cid Kpinel; o prefácio é de Seymor Chatman e a orelha é de João Luís Ceccantini.
Peter Hunt é considerado um dos melhores críticos de literatura infantil do mundo ocidental. Seus livros tratam de aspectos ligados à literatura infantil, como operacionalizá-la e como levar o livro infantil até á criança. Dividido em 12 capítulos, o ensaísta trata, entre outros aspectos, da situação da literatura infantil no contexto literário, da relação texto/leitor, política, ideologia e literatura infantil, do livro ilustrado e da literatura infantil diante das novas mídias.
Contos de Fadas de Perrault, Grimm, Andersen & outros reúne 20 contos de fadas, de princesas, de bruxas e histórias de encantamentos. Na apresentação, com o título “Um eterno encantamento”, Ana Maria Machado lembra que a maioria dos leitores teve seu primeiro contato com os contos de fadas antes de saber ler e chama essas histórias de “baú de tesouros”.
Esta edição apresenta ilustrações de artistas antigos e consagrados como Gustavo Doré, Walter Crane, Bertall. Alguns contos vêm acompanhados da moral da história, uma paratextualidade sempre presente nas fábulas de La Fontaine. Antes dos contos, o leitor encontra uma breve biografia dos autores.
Com a exigência do idioma espanhol no ensino médio brasileiro a partir de 2010, encontramos alguns livros destinados ao jovem em edição bilíngüe português/espanhol. Neruda para jovens é um livro que poderá ser muito útil ao professor nas aulas de espanhol. Esta antologia poética contém poemas que abrange toda a produção poética do escritor chileno. Os poemas mais longos, como “Canto Geral” e “Diplomatas” aparecem em fragmentos.
No Brasil, os poetas Ferreira Gullar e Thiago de Mello muito contribuíram para a divulgação da poesia de Neruda. A respeito de Neruda, Ferreira Gullar assim se expressou: “... graças à sua magia vocabular, consegue tocar um número muito grande de pessoas que ao longo dos anos constituíram o seu público espalhado pelo mundo inteiro.”
Para as leituras natalinas, citamos três livros que interessam ao professor ou teórico da literatura, às crianças e ao jovem. Os Contos de Fadas podem ser lidos pelas crianças ou pelos adultos, alguns desses textos estão presentes nas histórias contadas por Totonha (José Lins do Rego) e por Tia Nastácia (Monteiro Lobato).
Tenham todos um Natal com boas leituras. O cardápio está variado – leituras teóricas, contos de fadas e poesia.

sábado, 18 de dezembro de 2010

ERA UMA VEZ UMA ÁRVORE-Bartolomeu Campos de Queiros






ERA UMA VEZ UMA ÁRVORE
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ-PB)
Tenho uma árvore que me espia pela janela, e decidi que ela é minha, mesmo sabendo que ela dá sombras para todos aqueles que passam pela rua.
( Bartolomeu Campos de Queirós. A Árvore)

Ser dono de uma árvore que serve também de morada para os passarinhos e pequenos insetos é a temática do livro de Bartolomeu Campos de Queirós, “A Árvore”, ilustrado por Mário Cafiero , uma publicação da Editora Paulinas (2010).
Cada animalzinho é examinado e descrito com muita poeticidade por esse escritor que busca na infância – que vive em sua memória – os assuntos para os seus livros. Vamos visitar a árvore e conhecer os personagens dessa história.
Os passarinhos pousam e repousam nos galhos. Às vezes cantam, outras vezes “ficam calados para bem escutar o mar”. (p.7). Os ninhos são costurados com as agulhas dos bicos e os ovos são escondidos em espumas do mar.
As borboletas evocam saudades. Se as borboletas não chegam, instala-se um estado de saudade e “saudade só é saudade de coisas boas” (p.8)
As cigarras cantam a mesma canção todo dia e se camuflam entre as cores das folhas. “Elas têm asas de papel celofane, mais transparentes do que as palavras”. (p.10)
Os grilos não cantam, eles gritam e gritam “tão alto que até violino guarda inveja.” (p.11)
Engana-se quem pensa que as lagartas só servem para roer as folhas, elas têm vocação para rendeira.
As formigas já nascem com vontade de comer açúcar. “Se a árvore tem alguma resina ou flor doce, as formigas ficam mais resignadas”. (p. 15)
As abelhas são interesseiras. Elas sabem o local que as folhas escondem o mel e acariciam com suas delicadas perninhas o pólen, extraindo o açúcar que está escondido.
Da janela da sala, o dono da árvore navega em frágeis barcos sem bússola ou vela.
Ele desconfia que a árvore guarde esperanças escondidas, ela o faz pensar . Sentado no sofá, deita o olhar sobre a árvore e aprende muitas lições, é a professora verde que todo dia ensina que a liberdade “permite até viver em um mesmo lugar, a vida inteira, contemplando uma árvore crescendo para o céu”. (p. 32)
Mário Cafiero já ilustrou vários livros de Bartolomeu Campos de Queirós e afirma que cada livro do escritor mineiro lhe traz sempre uma surpresa. Surpresa que se manifesta com a beleza de suas palavras e a seriedade que ele dispensa à literatura brasileira.
Bartolomeu percorre as mesmas águas de Cecília Meireles, são irmãos das coisas fugidias. O poeta vê sempre, com um novo olhar, um rio de águas mansas que passa pelas pequenas cidades mineiras, fica enternecido diante de um passarinho que pousa na varanda de sua casa e agora é dono de uma árvore que está plantada na sua rua. Reinventa os fatos e escreve textos poéticos como “A Árvore”.
ERA UMA VEZ UMA CASA
1984 – nascia a casa. Era uma casa toda branca com janelas e portas azuis, contornadas por frisos amarelos – uma típica casa portuguesa.
Os anos se passaram. Foram feitas pequenas reformas – portão novo com controle remoto, muro mais alto, porém o interior da casa permanecia o mesmo. Lá estavam, também, as mesmas janelas azuis com detalhes amarelos, as varandas com flores nas janelas, um jardim bem cuidado.
2010. A casa foi vendida a uma construtora que só gosta de casas verticais. Vão derrubar a casa de janelas azuis. Diante da morte da casa, resta-nos o consolo desses versos:
Vão derrubar a casa
mas as janelas azuis ficarão
“intactas, suspensas no ar”.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Encontros com o cordel








Encontros com o cordel
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ-PB)

Leandro Gomes de Barros transfigura a linguagem popular e a oralidade. Sua poesia é expressão individual e coletiva. É tessitura singular de sons, ritmos, cores, visões imagens, palavras, frases – na criação e na recriação.
( Vera Lúcia de Luna e Silva. A Tessitura poético-gramatical de um autor popular: Leandro Gomes de Barros)

Minhas primeiras lembranças do cordel estão associadas à figura de Chicuta, uma contadora de histórias, natural do Engenho Baixa Verde (PB). Eu era criança e ouvia embevecida as histórias de “A Princesa da Pedra Fina”, “Juvenal e o dragão” e não sabia que elas pertenciam à literatura de cordel. Muitos anos mais tarde descobri que essas histórias eram do cordelista paraibano Leandro Gomes de Barros.
Leandro Gomes de Barros nasceu nos meados do século XIX (1865), na Fazenda Melancia, município de Pombal (PB) e cedo revelou pendores para a poesia. Escreveu cerca de 600 folhetos que tiveram inúmeras edições. Cancão de Fogo é seu personagem mais marcante.
A produção literária do vate paraibano despertou a atenção dos estudiosos da poesia popular, de professores e pesquisadores. A tese de doutorado da professora Vera Luna (UFPB) versou sobre a poesia de Leandro. Carlos Drummond de Andrade, em crônica publicada em jornal, afirmou que considerava “ Leandro Gomes de Barros o rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”. Existe uma vasta bibliografia a respeito desse poeta.
Se durante a minha vida acadêmica estava sempre em contato com a literatura popular através de trabalhos realizados no Programa de Pesquisas em Literatura Popular (PPLP-UFPB), atualmente esse encontro ocorre por meio da literatura infantil. Nessa mesma coluna, já escrevemos sobre livros de Manoel Monteiro,( Pinóquio), Arievaldo Viana ( João de Calais), Chico Sales ( Cordelinho), Ferreira Gullar ( Romances de cordel), todos vinculados à literatura de cordel. Voltamos, mais uma vez, a bater na mesma tecla, mas não é uma música de uma nota só, desta vez recebemos um presente triplo – três histórias de Leandro Gomes de Barros recriadas por Rosinha.
Os livros chegaram pelo correio em uma bonita caix a de papel reciclado contendo os seguintes textos: ‘ A história de Juvenal e o Dragão”, “A história da Princesa do Reino da Pedra Fina” e “A história da Garça Encantada”, com o título: “ Coleção Palavra Rimada com Imagem” (Ed. Projeto, 2010). Todas essas histórias estão associadas a minha infância e foram recontadas e ilustradas por Rosinha. Na parte da ilustração, técnica da xilogravura, Rosinha contou com a ajuda valiosa dos xilógrafos pernambucanos – Meca Moreno e Davi Teixeira. Rosinha Campos também é pernambucana, arquiteta de formação, e hoje se dedica a escrever e ilustrar livros para crianças.
Na orelha dos livros, encontramos esta explicação:
“ A Coleção Palavra Rimada com Imagem reconta três romances do nosso mais importante poeta popular , Leandro Gomes de Barros. Foi um trabalho desafiador garimpar e escolher, dentro da sua vasta obra, histórias que se aproximassem do conto maravilhoso e transformá-las em textos tão curtos e com poucas imagens. (...) o livreto com o formato original e com versão integral da história vem encartado para que seja lido, antes ou depois do reconto.” ( Rosinha)
A história de Juvenal e o dragão recontada por Rosinha é cheia de aventuras e envolve princesas, cavaleiros e dragões. Num reino distante, vivia um terrível dragão que ameaçava destruir tudo se não recebesse cada ano a oferta de uma bela moça. Um dia chegou a vez da filha do rei. Para contornar essa terrível situação, aparece o herói Juvenal que vai dar solução ao caso. Surge um vilão, o cocheiro do rei, que tenta ficar com a princesa, mas será desmascarado.
A princesa do reino da Pedra Fina fala sobre o encontro de José com as moças do reino da Pedra Fina. Nesta história, novamente aparece um vilão, barbeiro do rei, que atuava também como conselheiro, e sugere ao rei desafios que deveriam ser superados por José para conseguir a mão da filha caçula do rei. Como sempre ocorre nas histórias maravilhosas, com muita luta, José sai vencedor.
A garça encantada trata de um feitiço contra uma princesa que foi transformada em garça. Esse feitiço é quebrado quando um caçador retira um espinho de laranjeira da cabeça da ave que retorna a sua condição de princesa. Para não voltar à condição de garça, a princesa pede ao caçador que não conte a ninguém esse segredo. Até que um dia Gelmires, este é o nome do caçador, conta a história a um amigo e a princesa desaparece. Vem a luta para encontrá-la, os obstáculos que o caçador terá de enfrentar. Feitiçeiro e feiticeira irão ajudar o caçador a reencontrar a princesa amada.
Esta coleção contém a história recriada por Rosinha com ilustrações em xilogravuras, um folheto com a história integral contada por Leandro Gomes de Barros e informações sobre o cordel, a xilogravura e uma breve biografia de Leandro Gomes de Barros.

Recebi um bonito presente de Natal da editora Projeto e a leitura dos textos me proporcionou mais um encontro com o cordel.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os menores e os maiores livros de Rachel de Queiroz








Os menores e os maiores livros de Rachel de Queiroz
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente eles caem do céu.
(Rachel de Queiroz)

Talvez o leitor estranhe o título do artigo. Muitas pessoas costumam se referir à literatura infantil como uma literatura menor. Queremos romper esta mentalidade acanhada. A literatura infantil, embora destinada àqueles de pouca idade, não significa que seja uma literatura menor, de pouco valor literário. “O menino mágico”, “Cafute & Pena de Prata” e “Andira” foram escritos com a mesma preocupação literária que norteou Rachel de Queiroz para escrever “O Quinze”, “Dôra Doralina”, “Memorial de Maria Moura” e outros livros consagrados, não deixando de mencionar as saborosas crônicas que escrevia para a última página da revista “O Cruzeiro”. São, portanto, livros do mesmo quilate dos livros para adultos.
Nosso passeio vai passar pelas ruas dos três livros infantis que a escritora cearense deixou de presente para as crianças e para os pais que não perderam o gosto da infância. Cada livro foi inspirado em algum fato ou experiência da escritora. Maria Luiza de Queiroz, irmã da escritora, afirma que eram os livros infantis que Rachel mais gostava de escrever. Foram livros escritos na fase da maturidade, livros escritos para os netos.
“O menino mágico” foi o primeiro para crianças. Para escrever este livro, Rachel submeteu a história à apreciação do sobrinho Daniel, menino de sete para oito anos. Os palpites do sobrinho ajudaram na urdidura da trama.
Daniel, o protagonista, era um menino diferente, ele sabia fazer mágicas. Não era ligado a futebol como o irmão, gostava de aventuras, de viajar por toda parte – Teresópolis, São Paulo e até o Ceará, de avião, naturalmente. Todas essas viagens eram inventadas pelo menino mágico e ele contava tudo direitinho como se fossem verdadeiras. Mas aparece na história um primo que era um “gênio”, um verdadeiro Einstein na Matemática, o primo Jorge. Fica difícil a competição – Daniel, o mágico ou Jorge, o matemático? Quem será o vencedor? Para solucionar o problema, surgiu a seguinte proposta: Daniel ficaria com a mágica e Jorge com a inteligência, os dois juntos podiam ganhar a vida e correr o mundo, e foi o que fizeram. Desapareceram. Onde os dois fujões se esconderam? Só a polícia poderá descobri-los.
Este livro traz bonitas ilustrações de Laurabeatriz que entrou no clima da fantasia e pintou e bordou junto com os dois meninos.
“Cafute & Pena-de-Prata” é uma história inspirada nos pintinhos da fazenda e trata de um tema recorrente na literatura – a luta pela sobrevivência e as desigualdades sociais. Cafute era pinto-de-pobre, vivia debaixo das asas da mãe; Pena-de-Prata era pinto-de-rico, não sabia nem quem era sua mãe. O primeiro nasceu no meio do mato; o segundo nasceu em chocadeira elétrica. Mas,quando crescessem, iriam ter o mesmo destino – seriam mortos e servidos para almoço dos patrões. Para fugir da triste sina, resolveram se unir e saíram pelo mundo afora como os músicos de Bremen e vivem mil e uma aventuras.
Para retratar os perigos e as ameaças sofridas pelos pintinhos, a ilustradora Maria Eugênia desenhou galos bem grandes, com bicos ferozes que tomam toda a página. Quando se trata de encontros amigáveis, tudo é delicado, olhares cheios de ternura.
“Indira” nasceu de um equívoco. Uma amiga de Rachel de Queiroz, Dolores, veio passar uns dias na fazenda “Não me deixes” e de noite ouviu uns gritinhos estranhos. De manhã cedo, falou para Rachel:
“- Ah, Rachel, que coisa mais linda – acordei com o canto das andorinhas no beiral do alpendre”.
Rachel ficou calada, ela bem sabia do que se tratava, não falou nada para não tirar o encanto da ilusão da amiga. Na realidade os gritinhos eram de morcegos, animais muito comuns nos tetos das casas de fazenda.
Foi, assim, que surgiu a história de uma andorinha que vive em perfeita harmonia com os morcegos, adquire até os hábitos comuns aos morcegos, assume-se “andorinha/morcego”.
Até que um dia, cansada de fingir ser morcego, descobre que os morcegos são bem diferentes das andorinhas e resolve partir com suas irmãs verdadeiras.
Rachel afirmou que criava suas histórias inspiradas em fatos reais. Os três contos infantis mesclam fantasia com realidade. A escritora partiu de alguma coisa concreta, deu asas à imaginação e surgiram três encantadoras histórias que foram reeditadas em 2010 para homenagear o centenário de nascimento de Rachel de Queiroz. Louvada iniciativa da editora Caramelo!

janelas do mundo




terça-feira, 16 de novembro de 2010

João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos




João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária – FNLIJ/PB)

Cantam nautas choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
(Augusto dos Anjos. Barcarola)

A história de João de Calais pertence ao ciclo de cordel denominado “morto agradecido”. Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”, juntamente com “Donzela Teodora”, “Imperatriz Porcina”, “Roberto do Diabo” e “Princesa Megalona”.
A origem de João de Calais é francesa. Atribui-se à Madeleine Angélique Poisson a autoria da história. Casando-se com um espanhol, a escritora passou a ser conhecida como Madame de Gómez. No Brasil, a história de João de Calais foi divulgada por Câmara Cascudo ( prosa) e pelos cordelistas (poesia).
Na década de 1990, a editora Scipione publicou oito contos tradicionais de literatura popular, reescritos e ilustrados por Ricardo Azevedo e Ciça Fittipladi. “João de Calais” integra essa coleção.
Em 2010, a editora FTD lançou “História do navegador João de Calais e de sua amada Constança”, versão de Arievaldo Viana. Os textos da Scipione eram em prosa, a nova edição da FTD alia o cordel ( sextilhas) à literatura de quadrinhos.
Arievaldo Viana, conhecido cordelista cearense, criou o texto verbal e Jô Oliveira fez as ilustrações. Nos dados biográficos do cordelista e do ilustrador, aparecem essas informações: Arievaldo Viana nasceu em uma fazenda do Ceará nas proximidades de Quixeramobim e sua diversão de criança era ouvir a avó Alzira ler os folhetos de cordel. Jô Oliveira nasceu em Pernambuco, mas passou parte de sua infância em Campina Grande, Paraíba. Nos idos de 1950, envolveu-se com quadrinhos e cordel e esse gosto, adquirido na infância, perdura até hoje.
Depois dessas informações, caminhemos em direção ao livro de Arievaldo Viana e Jô Oliveira.
Para escrever a história de João de Calais, Arievaldo partiu do texto em prosa apresentado por Câmara Cascudo e procurou uma maneira fácil de ser compreendido por leitores de “qualquer idade... dos oito aos 80 anos” ( o cordel). Quando criança, teve contato com a versão de Severino Borges da Silva, uma edição da Luzeiro do Norte, folheteria de João José da Silva.
A história quadrinizada se inicia com invocação às musas e o poeta pede a proteção divina para falar sobre João de Calais. Embora o texto original tenha vindo da França, o cordelista prefere a pronúncia portuguesa – Calais e não Calé.
Dirigindo-se aos leitores, afirma que vai falar do amor de Constança e das batalhas de João. Dois motivos quase universais aparecem na história – “o morto agradecido” e a “esposa resgatada”.
No universo dos personagens, destacam-se: João de Calais, Constança e a prima Isabel, o pai de João de Calais, o rei de Palermo, pai de Constança, e o sobrinho do rei – Florimundo, “um jovem mau e egoísta/ sujeito péssimo e imundo” e um morto insepulto.
É uma história marcada por aventuras marítimas, pirataria, traições e ciúmes.
O traço vigoroso de Jô Oliveira captou os momentos de tensão e os personagens revelam aflição no olhar, medo diante das adversidades e assombro perante fatos estranhos. As cores fortes, com predomínio do amarelo e vermelho, condizem com o sol tropical do Nordeste.
Este folheto tem despertado a atenção dos estudiosos da literatura de cordel. A professora Neuma Fechine Borges, na década de 1970, analisou-o à luz da semiótica na sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba. O trabalho da professora Neuma Fechine foi apresentado em diversas cidades brasileiras, em Portugal e na França ( Universidade de Poitiers).
Neuma Fechine não teve a oportunidade de conhecer a versão de Arievaldo Viana, partiu antes do tempo, mas, certamente, iria gostar de saber que o folheto de Severino Borges foi revisitado por um cordelista jovem que imprimiu uma nova feição à velha história de João de Calais.