sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

É tempo de almanaque

É TEMPO DE ALMANAQUE
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

O Tempo inventou o almanaque... E choviam almanaques, muitos deles entremeados e adornados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas.
(Machado de Assis. In: Almanaque Machado de Assis, de Luiz Antonio Aguiar)

O almanaque é um livreto muito antigo e já circulava, no Brasil, na época de Machado de Assis. Apresentava assuntos variados, curiosidades, contos, poemas, matéria humorística e recreativa. O bruxo do Cosme Velho era um leitor assíduo dos almanaques.
Os almanaques do “Capivarol” e do “Biotônico Fontoura” eram distribuídos nas farmácias e lidos por crianças e adultos nos anos 30, 40 e 50 do século XX. O “Almanaque do Tico-Tico” era vendido nas bancas de revistas e jornais.
Raimundo Magalhães Jr., na biografia que escreveu sobre a vida de Augusto dos Anjos – “Poesia e Vida de Augusto dos Anjos” (Civilização Brasileira/MEC/INL, 1977), relata que Augusto dos Anjos era leitor de almanaques e o gosto pelas charadas, logogrifos, enigmas pitorescos e adivinhações, certamente, adveio dessas leituras.
No livro “Confesso que li” (Ideia, 2012), o poeta José Leite Guerra e o jornalista William Costa relembram, entre as leituras da infância, o “Almanaque do Tico-Tico” (José Leite) e o “Almanaque Fontoura” (William). José Leite ganhou de um tio, como presente de Natal, o “Almanaque do Tico-Tico”. William Costa trazia para casa o “Almanaque Fontoura” que pegava no balcão da farmácia. À noite, lia para seu Chico, um vizinho que não sabia ler, as histórias do Almanaque. Sério e compenetrado, sentia-se orgulhoso porque já era um menino leitor.
Os almanaques não morreram, sofreram modificações e hoje estão vestidos de nova roupagem. Em 2011, a Editora Ática publicou “Almanaque Ática - Recreio” (Ed. Ática, 2011), reunindo textos literários publicados na revista Recreio e outras matérias divertidas. Joel Rufino dos Santos e Ana Maria Machado, escritores atuantes dessa revista, comparecem neste novo almanaque com as histórias apresentadas nos anos de 70/80 do século XX. Foram introduzidos textos de escritores mais modernos, como Ângela Carneiro e Rosana Rios. O livro foi ilustrado por várias mãos.
“Almanaque Ática - Recreio” está dividido em dez capítulos temáticos: Escola, Natureza, Fantasia, Brasil, Saúde, Folclore, Família, Esportes, Arte e Férias. Cada capítulo está subdividido em várias seções, mas, em todos os capítulos, dois assuntos estão sempre presentes – Literatura e Criatividade.
No primeiro capítulo – Escola aparece os seguintes itens: Literatura, Humor, Profissão, Teste, Convivência, Atitude, Criatividade. Uma amostragem de cada seção do primeiro capítulo nos dá uma visão do conteúdo do livro.
Literatura – o texto escolhido é de Fernanda Lopes de Almeida, “A Professora de Horizontologia”, um excerto do livro” A Fada que tinha ideias” que foi muito lido nos anos 1980 nas escolas por alunos e professores. A protagonista da história era uma professora, a fadinha Clara Luz, que utilizava métodos bem modernos de ensino. Este livro teve inúmeras reedições.
Humor – a parte de humor compreende piadas, anedotas que devem ser memorizadas para as crianças se divertirem com os colegas.
Profissão – a profissão destacada é do bibliotecário. E quem é o bibliotecário? “É aquele que ajuda a escolher livros legais e outras fontes bacanas de conhecimento para que a biblioteca fique sempre atualizada”. (p. 15).
Teste – são apresentados enigmas de Matemática com problemas para a criança resolver. As respostas podem ser conferidas no final da página e o leitor soma 1 ponto para cada resposta certa.
Convivência – este item procura ensinar a boa convivência na escola entre colegas e professores. Evitar as brincadeiras de mau gosto, procurar gravar o nome dos colegas, ser cordial com todos. São regras de bem viver.
Atitude – está relacionado com o anterior. Orienta a não colocar apelidos maldosos nos colegas, pior se esse apelido for por alguma deficiência física. É um assunto que requer muita cautela.
Criatividade – nesta última parte, a criança é convidada a fazer pequenos trabalhos manuais, como marcadores de livros, criar uma pasta exclusiva, um trabalho com papel recortado em estilo mosaico, semelhante aos trabalhos feitos com pedaços de cerâmica, cacos de vidro. Aqui, a hora e a vez é da imaginação.
Os leitores dos antigos almanaques, certamente, irão encontrar muitas afinidades entre o “Almanaque da Revista Recreio” e os almanaques do tempo perdido.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ana Maria Machado: retalhos de uma vida


Ana Maria Machado: retalhos de uma vida
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O maior prêmio para o escritor é o leitor, que está longe e com quem você pode dialogar.
(Ana Maria Machado. Teia de Autores)

No dia 15 de dezembro, a escritora Ana Maria Machado assumiu a presidência da Academia Brasileira de Letras. É a segunda mulher que ocupa o relevante cargo na ABL. A primeira foi Nélida Piñon (1996/1997).
A trajetória literária e artística de Ana Maria Machado é rica e diversificada. Dedicou-se, inicialmente, à pintura, foi aluna de Aluísio Carvão durante três anos no ateliê do Museu de Arte Moderna no Rio. Acalentou o sonho de ser artista plástica, mas a escolha do curso de Letras mudou o seu destino, dedicou-se à literatura e virou escritora.
Em 1970, perseguida pelo regime militar, refugiou-se na França e começou a enviar textos para uma nova revista que surgia no Brasil destinada ao público infantil – a revista Recreio. Com Ruth Rocha e Joel Rufino dos Santos, companheiros literários da revista, publicaram muitas histórias que fizeram sucesso.
Em Paris, foi aluna de Roland Barthes e defendeu tese de doutorado sobre o nome dos personagens de Guimarães Rosa. “O recado do nome” é o título da tese que foi transformada em livro. Em Londres, trabalhou como correspondente da BBC.
Quando voltou ao Brasil, dedicou-se à atividade jornalística. De 1973 a 1980 chefiou o sistema de radiojornalismo na Rádio Jornal do Brasil e escrevia uma coluna literária para o “Jornal do Brasil”. Ainda havia “nuvens de fumaça no ar” e nem tudo podia ser publicado. A respeito desse período, Ana Maria assim se expressa: “Aprendi que a censura cresce no anonimato, como toda forma de covardia.” (Silenciosa algazarra. 2011: 207)
“Bisa Bia, Bisa Bel”, publicado em 1982, ganhou vários prêmios e se tornou um clássico da literatura infantil brasileira. A trama se desenvolve em três tempos distintos: passado, presente e futuro. A protagonista da história tem muitas faces – é bisavó no tempo passado; é a menina Isabel no tempo presente, é a neta no tempo futuro.
Na área do ensaio, escreveu, entre outros, os livros: “Texturas: sobre leituras e escritos (Nova Fronteira); “Contracorrente: conversas sobre leitura e política” (Ed. Ática); “Como e por que ler os Clássicos Universais desde cedo”. (Objetiva); “Ilhas no tempo: algumas leituras”. (Nova Fronteira). Em 2011, publicou “Silenciosa algazarra” (Companhia Das Letras). Este último livro foi analisado em nossa coluna.
Em 2001, centenário de nascimento de José Lins do Rego, Ana Maria esteve em João Pessoa acompanhada das filhas do escritor paraibano e do xilógrafo Ciro Fernandes para fazer o lançamento do livro “O menino que virou escritor”, uma história romanceada da vida de José Lins do Rego.
A escritora foi, também, dona de livraria e durante dezoito anos dirigiu a Livraria Malasartes, no Rio de Janeiro, voltada para o público infantil e juvenil. No livro “Contracorrente. Conversas sobre leitura e política.” (Ática: 1999), ela conta um fato que merece ser relembrado.
Num dia quente de dezembro, quando se dirigia por um corredor do centro comercial onde funcionava a livraria, ouviu alguém chamando insistentemente pelo seu nome. Estava carregada de compras de Natal, e distinguiu o garçon José que trabalhava no restaurante do andar térreo. Ao alcançá-la, ele disse:
“- Desculpe, Ana, mas eu estava há dias esperando você passar, porque queria lhe agradecer.” (1999:p.132)
A escritora, no primeiro momento, não entendeu o porquê do agradecimento, mas logo o rapaz tratou de esclarecer:
“É que eu li o livro de eco e agora eu sei”. (p. 133)
Como na livraria existia uma coleção – “O livro do som”, “O livro da luz”... para crianças, ela pensou que se tratava de um desses livros, mas ele explicou que se referia ao livro de Umberto Eco – “O nome da rosa”. E veio a complementação. Depois de assistir ao filme “O nome da rosa”, comprei o livro na livraria Malasartes.
Ana Maria tratou de alimentar o gosto pela leitura do rapaz recém-chegado ao “tesouro” e presenteou-o com dois livros irresistíveis. “O barão das árvores”, de Ítalo Calvino e “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez.
Autora de mais de cem livros para o público infantil e juvenil, ganhadora do Prêmio Hans Christian Andersen (Nobel da literatura infantil), tradutora, romancista, conferencista internacional, professora, jornalista, ensaísta, professora visitante da Universidade de Berkeley, esta é a nova presidente da Academia Brasileira de Letras- uma escritora múltipla.
MENSAGEM NATALINA:

Que o (a) leitor (a)
“encontre a cada dia
esta fina alegria

de reinventar o mundo
tornando-o mais profundo.”
(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Crônicas ambientais: um mundo cheio de cores, cheiros e sons





Crônicas ambientais: um mundo cheio de cores, cheiros e sons
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Impregne um pouco a sua alma
do verde que está no ar.
(Jomar Morais Souto. Itinerário Lírico da Cidade de João Pessoa)

Quem passa pela Avenida Beira-Rio em João Pessoa-PB observa que os paus d´arco róseos estão todos floridos. Isso nos transporta para um tempo em que a cidade era coberta de verde e de flores. As residências tinham jardins floridos, com cheiros de jasmins e cantos de passarinhos. Os tempos mudaram ... hoje apenas os paus d´arco da Beira Rio, da Lagoa e da Mata do Buraquinho teimam em oferecer, na época natalina, um colorido róseo e amarelo. As casas foram substituídas por edifícios, são construções sem alma e sem passarinhos.
Essas divagações surgiram após a leitura do livro de Luiz Eduardo Cheida – “Bichos, plantas e seus parentes – crônicas ambientais”, da Editora Aymará, com prefácio de Marina Silva.
No prefácio do livro, Marina relembra sua infância e adolescência no Seringal Bagaço que ficava a 70 km da capital do Acre. Vivia em um mundo cercado por uma imensa floresta. O barulho das abelhas mangangás na copa das castanheiras é uma das suas primeiras memórias e sobre este mundo da infância afirma: “Era um mundo cheio de cores, de cheiros e de sons”.
As crônicas ambientais do médico e escritor Luiz Eduardo Cheida levam o leitor a mergulhar no passado e traz de volta o paraíso perdido por Marina. São 40 crônicas de assuntos variados: há uma alga que se emociona, um cachorro que joga baralho, uma árvore que filosofa, uma abelha que aprende e o homem que dialoga com todos eles, afinal homens, bichos e plantas são todos parentes.
O conto/crônica “As Pombas” é o relato de uma invasão de pomba-amargosa em uma região do Paraná. Elas estavam acabando com o milharal de seu Fulgêncio e dona Constantina. Depois de várias reuniões e discussões, os sitiantes chegaram a uma conclusão – para acabar com as pombas só trazendo o gavião de volta. Consultado, o gavião impôs uma condição: “Plantem árvores. Ninho em poste de telefone eu não faço.” (p.24)
O desejo do gavião foi satisfeito e como diz Guimarães Rosa: “Pôs-se a fábula em ata”.
A pergunta inocente de uma criança de quatro anos na crônica “Sociedade de risco” (p.99) pode suscitar inúmeras reflexões.
“ – ÁRVORE, QUANDO MORRE, também vai para o céu?” (p. 99)
“Bye bye bee” (p. 137) revela a preocupação do cronista com o desaparecimento das abelhas e a extinção de muitas espécies. Revistas especializadas afirmam que, nos últimos dois anos, 37% das colmeias desapareceram nos Estados Unidos. No Brasil, também houve perdas, o mesmo acontecendo na Austrália, na China e no Canadá.
E qual foi o motivo para o desaparecimento das abelhas? Querem saber? O motivo é muito simples – faltam flores na natureza, estão destruindo as matas. Os herbicidas, fungicidas e inseticidas também matam as abelhas.
Atualíssima é a crônica “Cadê meu zap”?(p.145). Trata do problema dos agrotóxicos nas verduras e frutas. Nesta crônica, involuntariamente, o pimentão é o vilão. Em uma escala de zero a cem, o pimentão fica com 64, 36% de agrotóxico, seguindo do morango, cenoura, alface, tomate.
Crônicas que falam sobre a destruição das matas, que lamentam a ausência das flores, nos transportam para uma gravura do pintor paraibano Hermano José – “Cabo Branco até quando...”
O pintor Hermano José é amante da natureza e defensor ferrenho da preservação da barreira do Cabo Branco. Nos anos de 1970, ele já alertava para o perigo da destruição das nossas matas e os cuidados com a barreira do Cabo Branco.
A respeito da gravura “Cabo Branco até quando...”, a professora e crítica de arte Terezinha Fialho assim se expressou:
“A gravura de Hermano José, uma sanguínea, é belíssima [...] O quadro é um grito, uma denúncia de amante profundamente ferido. Defendo a tese de que bastaria este quadro para provar, se necessário fosse, o amor-devotamento de Hermano José pelas falésias, pelo mar.”
O texto de Terezinha Fialho – “Hermano José, as falésias e o mar” se encontra no livro” Hermano José”. FMC: Textoarte. João Pessoa, 2004.
Começamos com uma epígrafe do poeta Jomar Morais Souto, um hino de louvor ao verde da cidade de João Pessoa, apresentamos fragmentos das crônicas ambientais de Luiz Eduardo Cheida e concluímos com a denúncia do quadro de Hermano José.

sábado, 10 de dezembro de 2011

AUGUSTO DOS ANJOS REVISITADO





AUGUSTO DOS ANJOS REVISITADO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária –FNLIJ/PB)

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!
(Augusto dos Anjos. O Poeta do Hediondo)

Dois bons livros para jovens publicados em 2011 se voltam para a poesia e, de forma mais específica, para a poesia de Augusto dos Anjos. Da editora Noovha América, recebemos “13 Contos de Medos e Arrepios com Poemas de Augusto dos Anjos”, de Almir Correia, ilustrado por Alexandre Jubran. A editora Ática nos enviou “Poesia faz pensar”, da série “Para gostar de ler”, coletânea de poemas que contou com a organização de Carlos Felipe Moisés.
O livro de Almir Correia se compõe de 13 contos. As tramas do conto interagem com 13 poemas de Augusto dos Anjos. As ilustrações de Alexandre Jubran são todas em preto e branco e criam uma atmosfera soturna. Alguns títulos já deixam transparecer o ambiente fantasmagórico do livro – “A bota do cemitério”, “O caixão fantástico”, “A noiva suicida”, “O carrinho de bebê macabro”.
“O caixão fantástico” é título do conto e do poema de Augusto dos Anjos. O conto relata a morte de um homem muito rico que foi enterrado em um caixão de ouro. Raul, o protagonista do conto, observa o interesse que o precioso objeto desperta em várias pessoas – elas vão ao cemitério na calda da noite para roubar o caixão de ouro, mas o caixão era amaldiçoado, morreram todos que tentaram roubá-lo.
O poema de Augusto dos Anjos “O caixão fantástico” é menos tenebroso. No “Caixão fantástico”, talvez repousem musas ou o próprio Pai do poeta.
Se a poesia “além de levar a sentir também faz pensar,” como afirma Carlos Felipe Moisés, o livro organizado pelo crítico literário atende aos dois sentidos: reúne poemas que se caracterizam pelo alto grau de sensibilidade e outros que oferecem ferramentas de indagação com o objetivo de compreender o mundo.
“Poesia faz pensar” está dividido em cinco tópicos: “É tudo quanto sinto um desconcerto”; “Um contentamento descontente”; “Errei todo o discurso de meus anos”; “Continuamente vemos novidades”; “Se lá no assento etéreo onde subiste”. O organizador da coletânea atribuiu títulos aos tópicos partindo sempre de versos de poetas consagrados: Camões, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa.
Cada grupo temático vem constituído de três partes: uma reflexão sobre o fazer poético, reunião de poemas de autores de épocas diversas e um comentário sobre os poemas que integram cada grupo.
Na terceira parte que traz o título - “Errei todo o discurso dos meus anos”, o crítico assim se expressa: “O ponto de partida da reflexão que conduz a esses e outros temas correlatos pode ser assinalado em sua expressão mais singela na tríplice interrogação de Augusto dos Anjos: Quem sou? Para onde vou? Qual a minha origem?” (p.50)
Na apresentação deste tópico, Carlos Felipe Moisés assevera que essas perguntas traduzem uma dúvida universal de todos os tempos – os poetas estão à procura da verdade, mas é necessário que esta resista ao assédio da dúvida e à lucidez do espírito crítico.
Mas quem são os poetas que estão reunidos nesse tópico que parte da tríplice interrogação augustiniana? Por ordem de apresentação: Camões, Bocage, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Alberto Caeiro, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto.
O poema selecionado de Augusto dos Anjos é “Poema Negro” (p.50). O texto não aparece integral, apenas as três primeiras estrofes, mas são suficientes para constatar num “misto de revolta e perplexidade” que a passagem dos séculos assombra o poeta do EU.
Do heterônimo Alberto Caeiro, o crítico chama a atenção do leitor para o aparente jogo de palavras: “O que nós vemos das cousas são as cousas./ Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?”. E vem a lição do mestre Caeiro: chegou a hora de desnudar a alma e começar a “desaprender”.
Os dois livros apresentados são publicados um ano antes do centenário da publicação do EU. A Academia de Letras e Artes do Nordeste, sob a presidência da professora Maria do Socorro Aragão, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPB, está organizando um congresso para o próximo ano em comemoração ao centenário da publicação do EU. Certamente, aqui, na Paraíba, terra de Augusto dos Anjos, serão publicados muitos livros sobre o poeta mais lido do Brasil.


A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!


Augusto dos Anjos

domingo, 27 de novembro de 2011

GONÇALVES DIAS: “um poeta mestiço como sua pátria”.




GONÇALVES DIAS: “um poeta mestiço como sua pátria”.
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
(Gonçalves Dias. Canção do Tamoio. Canto I)
Álvaro Cardoso Gomes é o organizador da coleção “Meu amigo escritor” (Ed. FTD). Esta coleção objetiva aproximar os jovens dos grandes escritores da Literatura Brasileira e Portuguesa. Dentro desta proposta, encontramos o livro “O poeta do exílio” (FTD, 2011), de Marisa Lajolo.
Marisa Lajolo é professora de Teoria da Literatura e se dedica a pesquisar e escrever livros sobre leitura e literatura infantil. É estudiosa da obra de Monteiro Lobato e já publicou vários livros sobre o criador do sítio do Picapau Amarelo. Em 2008, o livro “Monteiro Lobato livro a livro”, organizado em parceria com João Luís Ceccantini, ganhou o Prêmio Jabuti.
Lajolo é, portanto, uma crítica literária que sabe lidar muito bem com a literatura destinada às crianças e aos jovens.
Na apresentação do livro “O poeta do exílio”, a autora explica que Gonçalves Dias esteve sempre presente em sua vida. Seu pai era admirador do poeta maranhense e sabia de cor e declamava com muito gosto “I - Juca Pirama” e outros poemas do autor. Marisa e os irmãos pequenos cresceram ouvindo o pai recitar esses poemas.
O convite para escrever um livro sobre o poeta que habitou a casa de sua infância foi aceito com entusiasmo. Ela não hesitou e começou a tarefa de ler e reler os livros do poeta, as biografias escritas sobre o vate, a encher os livros de “papeizinhos amarelos marcando páginas”. E surgiram as dúvidas: contar a vida do poeta do nascimento até a morte ou começar da morte e chegar ao nascimento? A autora encontrou na música o “link” da história – uma banda, um festival escolar de música, um casal de jovens apaixonados e assim surgiu o livro.
Toda história tem um começo e esta se inicia com a inscrição de uma música no II Festival Vozes de Classe, um festival estudantil dos alunos da Escola Luís Gama. Júlia era compositora da banda SIM, NÃO & TALVEZ e compôs uma música inspirada num poema de Gonçalves Dias. A música foi finalista do concurso.
A ideia de escolher Gonçalves Dias para compor a música da banda foi do colega Pedro e foi, também, de Pedro, a ideia de criar um blog. Nesse blog, que recebeu a denominação de BlogDoDias, eles colocaram tudo que encontraram sobre o poeta - poemas, cartas familiares, artigos de jornais antigos, documentos pesquisados nos Anais da Biblioteca Nacional.
O blog deixou a turma entusiasmada. Todos acompanhavam o que Júlia e Pedro escreviam, ninguém sabia o que era realmente verdade e o que era ficção. Nas pesquisas feitas, descobriram que Gonçalves Dias trabalhou para o governo e fez muitas viagens pelo Brasil, apresentando relatórios dessas viagens. Mesmo sendo um bom poeta, não podia viver só de poesia.
A história da vida de Gonçalves Dias não segue uma linearidade. Os dois primeiros capítulos falam sobre o naufrágio que levou o poeta à morte e o terceiro discorre sobre a sua origem e seu nascimento. Gonçalves Dias era filho de um português com uma brasileira “cafuza, mulata”.
Durante o desenvolvimento da história, o leitor encontra a interferência da narradora. Com notas em destaque com campo na cor verde e o título de “Meio de campo”, aparecem chamamentos ao leitor e perguntas que exigem um posicionamento diante de certos fatos e acontecimentos.
Vejamos um exemplo de “Meio de campo”. No terceiro capítulo – “Um poeta mestiço como sua pátria” (p.74-115), vem esta nota:
“E você, leitor? Olhe à sua volta: negros, mulatos, loiros, morenos, índios, ruivos... de quantas cores é nosso país, sua escola, sua família, nossa vida?” (p. 81)
Nas ruas de Caxias, cheias de negros e índios acorrentados, o menino Tonico presenciava os maus tratos infligidos aos negros e aos índios e isso o motivou a ter horror à escravidão dos africanos e à violência contra o indígena. Essas lições da infância foram depois transformadas em belíssimos poemas que exaltam essas duas raças.
Coube ao professor Joel a indicação para a leitura do texto em prosa de Gonçalves Dias – “Meditação”, uma longa composição em prosa inspirada em questões de “igualdade, de justiça e de liberdade”. O texto vem envolvido em um tom profético e nele o poeta exprime revolta pelas desigualdades sociais e condena veementemente o cativeiro.
Mas o livro não fala só de poesia, a vida amorosa do poeta é contada com detalhes. Gonçalves Dias foi infeliz no amor. Apaixonou-se por Ana Amélia e a família da moça, principalmente a mãe, se opôs a essa união. Desiludido, o poeta procurou os braços acolhedores de Olímpia Coriolano da Costa e casaram-se no Rio de Janeiro, mas Olímpia não tinha os encantos nem os olhos negros, negros de Ana Amélia decantados no poema “Seus olhos”. Segue a última estrofe desse poema:
“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são:
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão”.
“O poeta do exílio” é uma biografia romanceada, um romance juvenil, uma nova maneira de conhecer a vida e a obra poética de Gonçalves Dias.

domingo, 20 de novembro de 2011

Em busca do tempo perdido


Em busca do tempo perdido
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar.
(Edu Lobo. O Trenzinho do Caipira)

“A morena da estação”, livro de Ignácio de Loyola Brandão, publicado pela Editora Moderna (2010), é uma narrativa multifacetada. Pequenos contos, crônicas, curiosidades, lendas. Fatos reais e ficcionais convivem fraternalmente.
Ignácio de Loyola Brandão nasceu em 1936, em Araraquara. É filho de ferroviários e andou muito de trem na infância e adolescência. Costuma dizer que cresceu entre vagões e locomotivas.
No prefácio, o autor afirma: “Quando terminei este livro, escrito com afeto, percebi que acabou sendo uma espécie de memória da infância e adolescência”.
O livro está dividido em duas partes – 1ª. “Ontem”, 2ª. “Hoje e amanhã, talvez o futuro” e apresenta 42 pequenos capítulos que podem ser lidos de forma independente.
Fotografias antigas (1915, 1933), charges, cartões postais ilustram as páginas do livro e encaminham o leitor para o tempo em que o trem era o meio de transporte mais utilizado no interior do Brasil. As imagens recriam um ambiente e uma maneira de viver que pertencem ao passado.
Os contos e as crônicas nos levam ao reencontro com o tempo perdido. Em diversas partes do livro, há referências ao tempo “proustiano”.
A crônica “O delicioso Filé à Arcesp” (p.45) integra a parte dos textos de “Ontem” e vem a explicação sobre o nome deste filé.
Os caixeiros-viajantes percorriam o estado ou o país vendendo produtos e andavam sempre de trem. Usavam terno e gravata e, a maioria, chapéu. Carregavam uma pasta de couro na qual levavam um bloco para os pedidos e catálogos dos produtos que vendiam, almoçavam ou jantavam no trem, por isso preferiam composições que tivessem carro-restaurante. Para agradá-los, um cozinheiro decidiu fazer um prato substancioso e acessível, surgiu, assim, o filé à Arcesp. (A sigla Arcesp significa Associação dos Representantes Comerciais do Estado de São Paulo).
A receita do filé se encontra na p. 48. Não fiz, não provei, mas me pareceu delicioso.
Havia “O Trem barateiro” (p. 92). Este trem mereceu uma mini crônica. Partia de Araraquara e seguia para Presidente Vargas. E o preço? Era mesmo barato? Não. O nome “trem barateiro” se devia ao ataque das baratas voadoras, elas atacavam os passageiros e assustavam as mulheres.
O capítulo “O fascínio do trem nas telas” (p. 112-121) rememora os grandes filmes em que o trem desempenhava um papel preponderante. São citados, entre outros, “Dr. Jivago”, seguindo-se “Desviando caminhos” (Canadian Pacific, 1949), “Pacto Sinistro” ( Strangers on a train, 1951), “Conspiração do silêncio” ( Bad Day at Balck Rock, 1955). Nas páginas 116 e 117, o leitor encontra os cartazes desses filmes. Nessa relação, não poderia faltar “ Expresso do Oriente” com direito a postal de divulgação. Um capítulo que interessa aos cinéfilos paraibanos.
“A morena da estação” (p.124) é um conto cheio de mistérios. Quem seria a moça morena que deixou Alcino apaixonado? Ela usava um perfume inesquecível e entregou ao rapaz uma mala de couro vermelho. Desceu do trem, subiu e deixou Alcino com a mala. O conto começa e termina de forma misteriosa. Nada é desvendado.
O penúltimo texto da 1ª parte – “O trem dos torcedores” (p.138) fala sobre as partidas de futebol dos anos 60, na cidade natal do escritor – Araraquara. Nessa época, a “Ferroviária” pertencia à divisão especial e enfrentava os grandes clubes – São Paulo, Corinthians, Santos, Palmeiras. Durante muitos anos, o trem despejava os torcedores dentro do estádio da Fonte Luminosa. Era o único estádio de São Paulo que colocava os torcedores dentro do campo. Um orgulho para os araraquarenses.
A 2ª parte do livro – “Hoje, amanhã, talvez o futuro” é composta por histórias mais reais e contemporâneas. O narrador não está à procura do tempo perdido. São histórias de trens velozes, de metrôs, do espantoso trem com 330 vagões (e isso é no Brasil, caro leitor, na Estrada de Ferro Carajás).
O livro de Ignácio de Loyola Brandão me transportou a um passado mais recente, a uma exposição de pintura que tive oportunidade de ver em Bruxelas no ano de 1997. No Museu de Belas Artes de Bruxelas, no dia 11 de maio de 1997, vi a exposição do pintor belga Paul Delvaux – 100 telas todas retratando trens. Tenho ainda hoje, no álbum das recordações de viagens, o bilhete do Museu e um cartão postal de um quadro do pintor.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

“VERDE QUE TE QUERO VERDE”


“VERDE QUE TE QUERO VERDE”
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O verde está em todas as coisas, em tudo ele transparece. Inclusive na água mais negra. Na água barrenta, dourada de sol – e esverdeada. Transparece até no céu azul profundamente verde.
(Thiago de Mello. Amazonas: água, pássaros, seres e milagres)

Lalau e Laurabeatriz são grandes amigos e gostam de escrever livros para crianças. Lalau é paulista, poeta e publicitário. Laurabeatriz é carioca, artista plástica e ilustradora. Os dois já escreveram muitos livros juntos, todos voltados para a defesa da flora e da fauna do Brasil.
“Árvores do Brasil: cada poema no seu galho” (Ed. Peirópolis, 2011) é mais um livro da dupla de amigos da natureza. Ao todo, são 15 poemas, 15 árvores louvadas e 15 animais. Para as árvores – poemas; para os animais – descrições objetivas.
Algumas das árvores citadas no livro são bem conhecidas no Nordeste, como pau-brasil, juazeiro, mulungu, ipê-roxo, aqui denominado pau-d´arco roxo, jenipapo e ipê-do-cerrado, que corresponde ao nosso pau d´arco amarelo. Esta última árvore citada enfeita o Parque Solon de Lucena (Lagoa) e a Avenida Getúlio Vargas, em João Pessoa. O jornalista e cronista Carlos Pereira é admirador do pau d´arco amarelo, e já escreveu inúmeras crônicas sobre a beleza do colorido dessa árvore.
As árvores (através de poemas) e os animais (explicações técnicas) estão reunidos em 15 duplas: 1) Pau-brasil (jaguatirica); 2) araucária (gralha azul); 3) jequitibá (quati); 4) ipê-do-cerrado (soldadinho); 5) buriti (maracanã-do-buriti); 6) jatobá-do-cerrado (anta); 7) juazeiro (veado-catingueiro); 8) mulungu (sofrê); 9) umbuzeiro (periquito-da-caatinga); 10) ipê-roxo (caburé); 11) jenipapo (surucuá-de-barriga-vermelha); 12) pau-formiga (tamanduá-mirim); 13) castanheira-do-pará (cutia); 14) piquiá (paca); 15) mogno (uacari, macaco-da-noite, macaco-aranha).
Lendo as informações sobre estas árvores que aparecem após os poemas, o leitor aprende muito.
O “pau-brasil” ou “ibirapitanga”, era o nome utilizado pelos índios, é de origem tupi-guarani e significa “madeira vermelha”. É necessário ter muito carinho com esta árvore, ela se encontra na lista do IBAMA de espécies ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável.
O jequitibá é o símbolo da fraternidade nacional, é a maior árvore da mata atlântica, mede de 35 a 45 metros de altura. Por seu alto porte, os índios chamavam de “gigante da floresta”.
A fruta do juazeiro é rica em vitamina C, sobrevive aos tempos de seca e está sempre verde. O fruto é conhecido como juá. No livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, no meio da caatinga árida, somente os juazeiros despontam na planície avermelhada como duas manchas verdes.
O umbuzeiro foi chamado por Euclides de Cunha como “árvore sagrada do sertão”. Sua raiz conserva água e produz uma batata que, em período de seca, é utilizada como alimento.
O jenipapo tem muitas utilidades. A polpa do fruto serve para fazer licor, refresco, vinho, refrigerantes e doces. Os mais velhos se lembram muito bem do licor de jenipapo servido pelo prefeito Odorico Paraguaçu no seriado “O bem-amado”. O nome dessa árvore é de origem indígena e significa “fruto que serve para pintar”. Os índios utilizavam a tintura de jenipapo para pintar o corpo.
A castanheira-do-pará está entre as maiores árvores da Amazônia, chega a atingir 50 metros e pode viver mais de 500 anos. A madeira é de excelente qualidade, mas o corte desta árvore está proibido por lei no Brasil.
O mogno serve, entre outras coisas, para fabricar instrumentos musicais. A madeira tem um aspecto castanho-avermelhado e é muito bonita. Atenção rabequistas, violinistas e violeiros, o corte do mogno está proibido no Brasil.
Este livro apresenta outras peculiaridades – informações importantes para quem gosta do “verde que te quero verde”.
- 2011 foi declarado o Ano Internacional da Floresta pelas Nações Unidas para estimular a reflexão e a ação humana em prol da conservação e gestão de todos os tipos de floresta do planeta.
- Livro verde é o livro impresso em papel certificado pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal. “Árvores do Brasil: cada poema em seu galho” é um livro verde.
- Livro que traz o selo FSC (Forest Stewardship Council) Conselho de Manejo Florestal indica que o livro foi produzido com madeira legal e não acarretou a destruição de florestas primárias, como a Amazônia. Na penúltima página de “Arvores do Brasil...” (p.51), encontra-se um selo bem delicado com a marca FSC.
Falei pouco sobre os poemas, quis despertar a curiosidade dos leitores. Começamos com uma epígrafe do poeta Thiago de Mello e para encerrar estes versos de Lalau que se encontra no último poema. É dedicado ao mogno:
“Que entre mogno e homem
Jamais exista duelo
E que esta sublime amizade
Receba bênçãos e versos
De Thiago de Mello.”