sexta-feira, 27 de maio de 2011

LIVROS QUE VIERAM DE LONGE

















LIVROS QUE VIERAM DE LONGE
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Diariamente, a poesia me propõe hipóteses de vida, abre janelas para minha autoconsciência e me oferece planos poéticos de existência. E então escrevo.
(Dilan Camargo).

Moacir Scliar, escritor gaúcho, escreveu vários livros para jovens. Um dos seus livros traz o título “O irmão que veio de longe”. “Livros que vieram de longe” nos chegaram da terra de Scliar, Rio Grande do Sul, presenteados por outro gaúcho. São livros de poesias de Dilan Camargo, e menino que não gosta de poesia vai gostar, sim, desses livrinhos. São quatro livros: “O embrulho de Getúlio”. Scipione, 2004; “Brincriar”. Projeto, 2007; “Bamboletras”. Projeto, 2009 e o mais recente “Poeplano” . Projeto, 2010.
Dilan Camargo é natural de Itaqui e passou a infância e a juventude em Uruguaiana, fronteira com a Argentina. Atualmente, mora em Porto Alegre. Quando criança, freqüentava a biblioteca pública da cidade e lia muita poesia. Brincando, ele diz que lia “poesia por metro”. Será verdade? Difícil acreditar nessa história, mas se todo poeta é fingidor, Dilan Camargo é um fingidor.
O primeiro poema do livro “O embrulho de Getúlio” é cheio de interrogações:
O que está escondido
dentro do embrulho?
Será que borbulha?
Será uma agulha?
Surpresa. Não vou dizer o que contém o embrulho. Se o leitor tiver a curiosidade de ler o poema todinho vai descobrir. Será que vai ficar decepcionado? Não sei. Melhor conferir.
“Brincriar”, como o próprio nome sugere, é cheio de poemas brincalhões. O último poema “Sete maravilhas” não fala sobre as sete maravilhas do mundo, mas das sete maravilhas da vida de criança. Vou repetir alguns versos deste poema, os outros vocês imaginem, melhor, ainda, leiam o livro.
Primeira maravilha
mãe, pai,
filho, filha.

A segunda vou pular. Botem a imaginação para funcionar.
Lá vem a terceira:
Terceira maravilha
ler, escrever
além da cartilha.
E a quarta, a quinta, sexta e sétima? Estão bem explicadinhas no livro.
“Bamboletras” foi ilustrado por Guazelli, um cartunista que gosta de brincar com os sentidos ocultos nos versos e cria histórias paralelas. Isso torna a leitura dos poemas mais divertida. As ilustrações aparecem todas como se fossem quadrinhos.
Dom Queixote
Ele mesmo não se atura
quando olha no espelho
a sua triste figura
não quer ver nem por conselho.
Para ilustrar este poema, Guazelli apresentou um “Queixote” com queixo bem grande e pontudo, não “um cavaleiro de triste figura”, como o verdadeiro Dom Quixote, mas um cavaleiro de feia figura. E o que deseja Dom Queixote?
Não quer atacar moinhos
nem ser herói de epopeia
só quer achar nos caminhos
sua doce Dulcineia.
Chegamos ao último livro desse mágico das palavras – “Poeplano”. O poeta se traveste de Zé Limeira, conhecido “poeta do absurdo”, e cria versos estapafúrdios. Não acreditam? Vejamos:
Poeplano
Num poeplano
me chamo fulano
já fui freudiano
até kafkiano
sou mais franciscano
não há engano.
Faço mil planos:
voar de aeroplano
ser amigo de Beltrano
usar o tutano
passar de ano
tocar piano
virar drumoniano.
Pode ser insano
o meu poeplano
mas é bem humano.
Depois da leitura desses poeminhas brincalhões, Davi vai aprender a gostar de poesia. Não é Davi?

sábado, 21 de maio de 2011

CONTOS DA NATUREZA DE PAÍSES DISTANTES-Dawn Casey


CONTOS DA NATUREZA DE PAÍSES DISTANTES
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Ouvir histórias antigas e agir de acordo com seus conselhos nos ajuda a seguir adiante, comprometendo-nos a zelar pelo amanhã.
(Dawn Casey. Contos da Natureza)

Dawn Casey é escritora e professora primária na cidade de East Sussex, Inglaterra. Gosta muito de histórias tradicionais e acredita que o folclore pode ajudar a responder perguntas sobre questões da humanidade. Neste livro, “Contos da natureza” (WMF Martins Fontes: 2010), ela reuniu contos de sete países diferentes, recontou-os e deu-lhes nova roupagem.
Austrália, Nigéria, Sudoeste dos Estados Unidos, Bali, Cazaquistão, Índia, País de Gales foram os países escolhidos para representar, através de contos, o amor à natureza, à Terra. Cada texto vem precedido de informações sobre o país que dá origem ao conto.
O primeiro conto “A Mãe Sol” vem da Austrália, um relato que remete ao mito da criação. É uma lenda dos aborígenes australianos. O sol aparece como criador do mundo, dos animais e do próprio homem. Depois que a tarefa foi concluída, a Mãe Sol sobe para o céu e deixa este recado: “Cuidem da criação. Por seus antepassados, zelem pela Terra. Por seus filhos e pelos filhos de seus filhos, zelem pela Terra”. (p.15)
Da Nigéria, um conto do povo edo “Por que o céu é tão longe”. Este conto fala sobre o vício da gula e do desperdício. Osata é uma mulher que nunca ficava satisfeita com o que comia, sempre queria mais e mais, desperdiçava comida. Um dia toda comida acabou e para resolver o problema Osata prometeu a Terra: “Nunca mais pegarei mais do que o necessário. Nunca, nunca mais.” (p.28)
Uma das lendas mais bonitas veio do Sudoeste dos Estados Unidos. É de origem indígena, do povo comanche. A personagem principal é uma menina que recebeu o nome de “Ela que Está Só”. A pequena era órfã de pai e mãe e a única coisa que possuía era uma bonequinha feita por seu pai de couro de antílope. Na terra que a menina morava, houve uma grande seca, as plantas murcharam, os rios secaram, não havia caça para matar a fome dos homens. Os índios rezavam ao Grande Espírito pedindo chuvas para amenizar a situação devastadora da seca. A solução encontrada pelo Ancião, espécie de sacerdote, foi fazer uma grande fogueira para homenagear o Grande Espírito. Cada pessoa deveria jogar no fogo seu bem mais precioso. Ninguém teve coragem de se desfazer dos seus bens, somente “Ela que Está Só”, que tinha apenas a bonequinha presenteada por seu pai, foi capaz de fazer esse sacrifício.
Realizada a cerimônia e queimada a bonequinha, voltou a chover sobre a terra, os campos floresceram, as colinas e os vales ficaram cobertos de flores azuis e brilhantes.
Depois desse fato, “Ela que Está Só” recebeu um novo nome dado pelo Ancião, passou a se chamar “Ela que Amou seu Povo” e a partir daquele dia, “sempre que surge a lua da primavera, o Grande Espírito se lembra da oferenda da menininha e enche de flores as colinas e os vales da região. São flores azuis e brilhantes, como borboletas.” (p. 40)
O conto de Bali é uma conversa entre os animais da floresta. Eles querem saber qual o papel de cada animal, todos participam - do mais poderoso, o tigre, até o menorzinho – o vagalume. Nessa história, o tigre funciona como o professor que ensina e dá lições aos alunos.
Do Cazaquistão, a história de um “Jardim Mágico” que surgiu da generosidade de dois velhos amigos e do sonho de um jovem.
O conto indiano tem origem nas tribos Bishnoi e baseia-se em uma história verdadeira. Os fatos narrados ocorreram em 1730 em uma aldeia conhecida por Khejarli. A história se prende à defesa das florestas.
Mulheres e crianças, compreendendo esposas e filhas, avós, lutam contra madeireiros para que não derrubem as árvores da região onde moram. Diante da insensibilidade do chefe dos madeireiros, as mulheres argumentam:
“Senhor, essas árvores são nossa vida. Suas raízes firmam o solo. Elas impedem os deslizamentos de terra na estação das monções. Sem elas, nossos campos e nossas casas seriam levados pelas águas.” (p.75)
Mas o chefe não cede aos argumentos das mulheres. Amrita, uma menina, usa um artifício capaz de solucionar o problema. Leiam o conto para saber qual foi o artifício utilizado por Amrita.
O último conto é do País de Gales – “Água malcheirosa” – e fala sobre o lixo que um casal depositava toda noite em um local que ia dar na casa de um duende. Diante da reclamação do duende, o casal procura uma solução e a mulher tem uma ideia salvadora.
É interessante observar nesses contos que as soluções para todos os problemas partem sempre de uma mulher ou uma menina. É a predominância do feminino, até o Sol é apresentado como Mãe Sol.
Este livro é uma leitura recomendada para todos aqueles que se preocupam com o desmatamento desordenado, com o futuro do nosso planeta, com a poluição ambiental. Quem sabe essa leitura não levará as pessoas a pensar de modo mais sensato! Este pequeno livro pode não mudar o mundo, mas ajuda a repensar a questão da sobrevivência do planeta Terra.
Anne Wilson fez as ilustrações em estilo naïf, todas relacionadas com os países de origem dos contos e com as histórias apresentadas. Os contos são bonitos, alguns cheios de ternura e as ilustrações ajudam a compreender melhor a cultura de cada país.
Explicação: Os comentários desta coluna são frutos de leituras de livros recebidos via Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Leio-os, seleciono os melhores e apresento-os para os leitores. Depois de lidos, os livros cumprem uma nova missão – são distribuídos para bibliotecas de escolas públicas através do projeto “Mandala de Livros”. Este projeto está sob a nossa coordenação.

sábado, 14 de maio de 2011

MURURU NO AMAZONAS: um divisor de águas


MURURU NO AMAZONAS: um divisor de águas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa
de servir de caminho
para a esperança.
(Thiago de Mello. Como um rio)

Flávia Lins e Silva escreveu uma série de livros com relatos de viagens que tem como protagonista Pilar. Integram livros dessa série: “Diário de Pilar na Grécia”, “Cadernos de viagens de Pilar”, “A folia de Pilar na Bahia”. Flávia adora viajar e visitou lugares que considera fascinantes: Grécia, Machu Pichu e Amazonas.
A respeito da região amazônica, afirma: “É o lugar mais maravilhoso que já conheci. Parece que o mundo está em pleno nascimento, com tudo se acabando de se formar, no exato momento em que descobrimos”. Flávia fez uma viagem pelo rio Amazonas e navegou pelo tranquilo rio Negro, passando pelas Anavilhanas indo até Apuaú.
Certamente foi esse encontro de encantamento que deu origem a seu último livro – “Mururu no Amazonas” (Ed. Manati, 2010), indicado para o público juvenil e selecionado para o catálogo White Ravens da biblioteca infantojuvenil de Munique (2011).
Se, antes, Pilar era a protagonista dos livros indicados para o público infantil, em “Mururu no Amazonas”, um romance juvenil, vamos encontrar uma menina-moça, que assim se apresenta:
“Sou como meu nome: Andorinha. Vou de rio em rio e, quando o mundo esquenta, me arremesso de barriga na água. Na escola, me reinventaram e virei Dorinha. Desde então, carrego essa divisão em mim: sou Dorinha por fora e Andorinha por dentro”. (p.13-14)
A mãe conta que a menina aprendeu a remar antes mesmo de andar. Andar de barco é o que a menina mais gosta. Quando o rio sobe, ela não precisa se pendurar nos galhos para colher frutas, estica a mão e puxa. A árvore carregada de frutos fica bem na altura do barco. É, também, de barco que a menina vai para a escola. Remando sobre o mato alagado, ela gosta de inventar caminhos.
Só esteve no rio Negro uma vez, ainda era miúda, e guarda boas recordações desse dia – nadou nas águas calmas da cor de café, café ralo que se finge de transparente. A observação que segue traz marcas poéticas: “Quem entra uma vez no Negro não se cura nunca: passa o resto dos dias feito eu, afogada em saudade. (p. 16-17)
A sábia frase de Heráclito: “Ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio” encontra ressonância na observação de Andorinha: “Já percebi uma coisa: não tem rio sempre igual. Nem a vida é sempre a mesma. A água vai transformando o mundo com o tempo, ditando a vida dos bichos e a vida da gente. (p. 20-21)
Uma das distrações de Andorinha é inventar nomes. Remo poderia ser chamado de “ralamão.” A mão arde muito depois de remar. A formiga poderia se chamar “forminimiga”, pois estraga as plantações de mandioca. E já que tem nome inventado para tudo, ela resolve criar um nome para seu casquinho (barco), ele vai se chamar “mururu”. Ela não sabe o que quer dizer, nome inventado não precisa ser explicado.
Um dia a menina resolveu partir rio acima e encontrou um caboclo, o menino Guapiú, mas este lhe pede que o chame apenas de Piú. Os dois partem, cruzam as águas compridas do rio, procuram passagem de volta para as Anavilhanas (anavilhanas são ilhas que se formam no leito do rio) e de repente entram em um grande espelho. Paisagem deslumbrante é descrita com exclamações: “É o rio vestido de árvore! Tudo se mira na água: até o céu! Vaidoso, o céu passeia pelo rio, agora todo enfeitado de nuvens. A floresta também se admira, banhando-se no espelho da água.” (p. 41)
Andorinha e Piú estão sozinhos naquele mundaréu de água, escondidos de tudo e de todos. Talvez este seja o momento mais lírico do livro:
“Deitado comigo, Piú se faz homem, cada vez mais homem, e eu já não sou quem era: sou mulher inaugurada”. (p.55)
Juntos, muito unidos, o casal contempla o despertar da natureza. Um tracajá fêmea (tartaruga) desovando, o jambeiro se vestindo de púrpura, as tartaruginhas nascendo e correndo para o rio.
Não vamos contar o resto da história. Há ainda muita coisa bonita para descobrir, muitas águas para percorrer, muitos dias de chuva e de sol.
Em nota inserida na última página do livro, vem esta observação que vale a pena ser registrada:
“Este livro, Mururu no Amazonas, certamente é um divisor de águas na carreira da autora. Nele, Flávia deixa fluir o melhor de si, e o resultado é tão belo em sua nudez, tão justo em sua descabida medida, que o livro passa a ser uma obra ímpar, que inaugura a maturidade da escritora”.
Se Fernando Pessoa louvou o mar português, Lúcio Lins, o Cabo Branco, Flávia Lins e Silva escolheu o rio Amazonas.

domingo, 8 de maio de 2011

Leonardo da Vinci: um artista múltiplo


Leonardo da Vinci: um artista múltiplo
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
(Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos. Tabacaria)

Leonardo da Vinci (1452-1519) foi um artista múltiplo. Pintor, arquiteto, botânico, engenheiro, cientista, geólogo, matemático, escritor. Era um grande observador da natureza e do mundo. O artista tinha um caderno de rascunhos e registrava tudo o que via: estudos, desenhos e escrevia textos. “Leonardo da Vinci: fábulas, alegorias e adivinhações” (SM, 2010), adaptação livre com ilustrações de Edith Derdyk, é a reunião desse trabalho pouco conhecido do público.
A fábula, no sentido tradicional, é uma narrativa curta, protagonizada por animais irracionais que encerra uma moral implícita ou explícita. As fábulas escritas por Leonardo da Vinci condizem com a sua maneira de ver o mundo. Animais, minerais e objetos agem como seres humanos. Nas alegorias, o escritor utiliza figuras mitológicas e cria situações “bem-humoradas e inusitadas”. As adivinhações foram denominadas profecias e são pequenos textos com fórmulas enigmáticas e vêm carregadas de um tom visionário e fantástico.
Dezoito textos integram esse livro, sendo seis fábulas, seis alegorias e seis adivinhações.
Fábulas – “A pedra solitária no meio do caminho” relata o desejo de mudança de uma pedra – ela vivia no meio de flores, em um ambiente muito aprazível, mas tinha o desejo de viver junto com outras pedras. O desejo foi satisfeito, veio a desilusão e a prova de que nem sempre as mudanças são boas.
Em “A tinta negra e o papel branco”, o papel reclama da tinta negra por ter maculado a sua brancura com sinais, manchas e garranchos. O papel capitula diante da explicação convincente da tinta negra:
“É justamente por causa dessas palavras escritas com tinta negra que você não será jogado fora ao vento, não será queimado no fogo como alimento da fogueira de são João, não será usado para embrulhar objetos em vão ou simplesmente ir direto para o lixão!!!” (p.27)
Alegorias - Nas alegorias, os protagonistas são animais. Da Vinci criou até animais inexistentes. Alguém conhece um “cerasta”? Ele está bem vivo nesta alegoria. Vamos apresentá-lo. O cerasta é um animal estranho – tem quatro chifres pequenos que se movem no topo da cabeça. Esses chifres são utilizados de modo camuflado para conseguir pegar os pássaros. O animal estranho se enterra debaixo da terra, deixando apenas do lado de fora os quatro chifres. Os pássaros, na sua inocência, pensam que se trata de vermes ou minhocas e quando tentam comer os chifres são engaiolados e devorados com calma e sem nenhum esforço pelo cerasta.
O basilisco é outro animal nunca visto. Embora seja pequeno é capaz de queimar grandes prados, paralisar serpentes, quebrar árvores. Seu poder de destruição é incalculável. Ele deixa sua marca por onde passa. E a alegoria termina com esta observação: “O basilisco é um bicho que dá medo só de pensar nele, até porque ninguém, até hoje, viu um basilisco de verdade.” (p.38)
Adivinhas - “Dos olhos, do raio do sol e do pensamento” é a última adivinha do livro. O texto se inicia com a pergunta: “O que teriam em comum os olhos, o raio do Sol e o pensamento?” (p.57) No primeiro momento, a discussão gira em torno das possibilidades –”Se o Sol aparece do lado do Oriente e rapidamente espalha seus raios para o Ocidente... Se os olhos, quando se abrem, alcançam o Sol num milésimo de milésimo de segundo... Se a mente atravessa num só pensamento todas as terras... E vem a indagação: O que será que os olhos, o raio do Sol e o pensamento teriam em comum?
No segundo momento, ainda resta a dúvida: “Será que ele tem em comum a contagem do tempo em sua velocidade máxima: micromilésimo de milésimo de segundo?” (p.57). Seguem-se as afirmativas: O os olhos precisam de luz para ver... O Sol precisa de olhos para que as coisas que ele ilumina sejam vistas... e o pensamento precisa da luz de um olhar para pensar...
Tudo parece resolvido, mas as reticências e a interrogação da última frase comprovam que a dúvida ainda persiste:
‘ O que será que os olhos, o raio de Sol e o pensamento teriam em comum?”(p.57)
As fábulas, alegorias e adivinhações de Da Vinci foram baseadas em anotações do artista. O inusitado desses textos demonstra que estamos diante de um inventor que sabe, também, lidar com as palavras.
Edith Derdyk, a ilustradora e adaptadora do texto, é artista plástica e escritora. Já recebeu diversos prêmios, entre eles: The Rockfeller Foundation (Itália), The Banff Center (Canadá). No Brasil, APCA e Porto Seguro Fotografia (Revelação).


Para comemorar o dia do Artista Plástico, selecionamos este pequeno poema de Mário Quintana:
Os quadros são janelas abertas para o outro mundo deste mundo.

sábado, 30 de abril de 2011

No reino de papel


No reino do papel
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)
 
​O que é, o que é?
​Esse papel tão pequeno,
​além de adulto e criança,
​consegue guardar paisagem
​e sempre vira lembrança.
​(Ricardo Azevedo. Última adivinha)
 
Vivemos em um mundo cercado de papel por todos os lados. São livros, jornais, cadernos, revistas, retratos, cartões-postais, diplomas, certificados, contas bancárias e telefônicas que nos chegam através do correio, guardanapos de papel e muitas outras coisas mais. Os e-books já circulam com desenvoltura, mas ainda vamos conviver por muitos e muitos anos com montanhas de papel. “Não contem com o fim do livro”, entrevista de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, concedida ao jornalista Jean-Philippe de Tonnac, comprova o que afirmamos.
“Livro de papel”, de Ricardo Azevedo, republicado pela Editora do Brasil (2010) é uma mescla de poesia e música. O livro vem acompanhado de CD. Alguns poemas foram musicados por Renato Lemos com a participação do autor que, além de escritor e ilustrador, é músico amador, toca piano e violão.  ​
A capa de “Livro de papel” chama a atenção do leitor – um prédio em forma de livro e na janela do 2º. andar aparece um menininho olhando a vida.  
Para escrever os poemas, Ricardo Azevedo escolheu diferentes modalidades poéticas – quadrinhas, trava-línguas, redondilhas, adivinhações. No mundo livre de poluição que procura substituir as sacolas de plástico, “Saco de papel” é um poema bem oportuno:
Tem muitas utilidades,
devia ganhar troféu,
essa ideia engenhosa
que é o saco de papel. (p.56)
O que vemos na ilustração do poema “Saco de papel”? Um saco de cabeça para baixo esconde o rosto de uma menina. Vislumbramos os olhos através de dois furinhos no papel, o traço da boca e o cabelo.  
O vocábulo papel assume um valor polissêmico que pode ser comprovado neste poema:
Ninguém quer levar a fama,
nem rasgado nem pintado,
é sempre um grande embaraço
fazer papel de palhaço.​ (destacamos)
(Outros papéis, p. 35)
O poema citado ganhou um arranjo musical de “rock de garagem”. Um som de bateria, um violão elétrico e um baixo reforçam o ambiente “pop bem humorado”.
As adivinhas (são quatro ao todo) aparecem como elementos de ligação entre as músicas do CD. Houve a intenção proposital de repetição dos dois componentes – a melodia e o ritmo.
Ricardo Azevedo utiliza a ilustração não para reproduzir o que está explícito no texto verbal, mas para complementar, completar e expandir. É um ilustrador criativo.
Como bom músico, não poderia faltar um poema com este título – “Partitura”:
Ela flutua no ar,
ela vive no compasso,
ela passa e não se vê,
é flor que nasce no espaço.
(p. 48)
São 39 poemas que brincam com as palavras. Os textos são enriquecidos pelas jocosas ilustrações desse menino/poeta/peralta.
O leitor deve estar curioso para saber a resposta da “Última adivinha” que aparece como epígrafe. Impossível, o livro está fechado, só consultando-o, e isso vou deixar para um menino curioso que gosta de ler e de poesia.

domingo, 24 de abril de 2011

A presença do cotidiano e da memória nas crônicas de Ignácio de Loyola Brandão


A presença do cotidiano e da memória nas crônicas de Ignácio de Loyola Brandão
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

A memória é a cidade localizada na intimidade do cronista. E nós, leitores, somos os transeuntes privilegiados desse mundo fabuloso.
(Regina Zilberman. Apresentação do livro “Ignácio de Loyola Brandão – Crônicas para ler na escola”)

A editora Objetiva publicou, em 2010, três livros de crônicas de escritores brasileiros destinados aos leitores jovens. Com o título “Crônicas para ler na escola”, foram selecionados textos de Ruy Castro, João Ubaldo Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão. Pela leveza dos textos e o tom memorialista, nossa escolha recaiu no livro de Ignácio de Loyola Brandão.
A professora e crítica literária Regina Zilberman escreveu a apresentação do livro e agrupou as crônicas em “Cenas do cotidiano” e “Memória”. Depois de destacar a prosa variada, a perspectiva crítica e consciente do autor diante dos problemas do Brasil, a ensaísta afirma:
“Não é diferente o que se passa em suas crônicas. Nas que estão aqui reunidas, deparamo-nos também com as contradições e problemas do mundo moderno, em especial da sociedade brasileira, que o escritor procura entender e representar”. (p.10)
Quanto ao aspecto memorialístico, Zilberman destaca: “A travessia da memória é, ao contrário do percurso pela cidade, extremamente pessoal”. (p.13)
“Marteladas na cabeça” integra o conjunto de “Cenas do cotidiano”. Nesta crônica, ficamos sabendo como se processa o ato de escrever do escritor. Quando sai para a rua, leva um bloquinho e anota frases ouvidas nos passeios pela cidade, registra os grafites encontrados nos muros. Além disso, possui inúmeros cadernos com anotações dos diálogos de filmes, nomes de pessoas para serem usados em futuros personagens, notícias de jornal. Esses cadernos são uma espécie de diário do escritor.
Para Ignácio de Loyola Brandão, esses cadernos parecem inesgotáveis, “ali está o Brasil, a gente, a fala, e eu no meio”. (p.70)
As crônicas ligadas à memória relembram a infância passada em Araraquara, cidade natal do cronista. “O poder e a glória de paralisar o Brasil” remete aos anos 40 do século XX, durante o período da semana santa. A cidade ficava completamente diferente. A partir do Domingo de Ramos começavam as celebrações. As imagens da igreja eram cobertas com pano roxo. Na quinta-feira santa, não se ligava radio, os carros não buzinavam não se podia brincar, cantar, os sinos da igreja calavam-se. Na sexta-feira santa, era luto total.
No sábado vinha a Aleluia. Cristo iria ressuscitar. Missa da Aleluia. Ao som da campainha, caía o pano negro que cobria o altar-mor. Acendiam-se as luzes da igreja e soltavam-se pombos brancos que ficavam voando pela nave. O sacristão repicava os sinos e todas as locomotivas da EFA (Estrada de Ferro de Araraquara) apitavam. “Mas nada disso aconteceria se eu não tocasse campainha. Era aquele toque que acionava tudo. Sem ele, o luto prosseguiria, não haveria Aleluia. Cristo não ressuscitaria.” (p. 103)
O pequeno coroinha sentia-se dono do mundo, naquela hora era a pessoa mais importante da cidade. O cronista termina o texto lamentando que a semana santa não tenha mais a dramaticidade e a atmosfera de tragédia de antigamente.
Ainda, nos textos memorialísticos, “Os pratos da ferrovia” remontam à infância e às viagens nos trens da Estrada de Ferro Araraquara. Uma visita à feirinha de antiguidades da Praça Benedito Calixto (São Paulo) foi o ponto de partida para rememorar o passado. Estavam expostos para venda os pratos do vagão-restaurante da Estrada de Ferro. O pai do escritor trabalhou na empresa ferroviária e, na visão do futuro escritor, Araraquara possuía a mais espantosa estação de toda a sua infância.
Ler essas crônicas de Ignácio de Loyola Brandão nos transporta para Araraquara da década de 90 do século XX. Conhecemos a estação de trem que perdeu muito do antigo brilho. Atualmente, o trem faz o curto percurso entre Araraquara e São Carlos, apenas 40 quilômetros separam as duas cidades.
Para concluir essas observações, usamos palavras do próprio Ignácio de Loyola Brandão:
“A vida era simples, os prazeres também. Acabamos complicando muito, exigindo demais e nos distanciamos de verdades que se encontram nos pequenos gestos e situações.” (p. 107)



sexta-feira, 15 de abril de 2011

Leitura para um dia de chuva-Eça de Queiroz



Leitura para um dia de chuva
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Foi para ti
que desfolhei a chuva.
(Mia Couto. Para ti)

Eça de Queiroz foi um escritor muito lido nos fins do século XIX e nos primeiros anos do século XX em Portugal e no Brasil. Graciliano Ramos era um assíduo leitor das páginas queirozianas, leu “Os Maias” dezessete vezes e sabia trechos decorados do grande romance.
Antonio Candido escreveu inúmeros ensaios sobre os livros do romancista português e participou com um breve comentário no verso da capa de “Um dia de chuva”, conto de Eça de Queiroz, publicado pela Cosac Naify, editado em 2011, com ilustrações de Guazzelli. É leitura indicado para jovens, mas será bem recebida pelos adultos.
Vejamos o que nos diz o crítico paulista a respeito desse conto:
“O enredo é simples, tecido tchekhovianamente com quase nada, fino e leve como teia de aranha. [...] Narrativa de atmosfera, cujo princípio estrutural é a surda competição entre a chuva que fecha o mundo e a imagem solar da moça que rompe as brumas.”
“Um dia de chuva” é uma publicação póstuma. O texto só veio a ser conhecido em 1929 porque Eça de Queiroz Filho resolveu editá-lo. Foi incluído em “Cartas Inéditas de Fradique Mendes” e em “Mais Páginas Esquecidas”. No Brasil, apareceu na obra completa de Eça de Queiroz da Nova Aguilar.
A história se passa durante uma “chuva agreste e ventosa”, no “meado já quente de abril”. Vamos ao encontro do texto.
José Ernesto é um homem rico, solteiro, mora em Lisboa e quer adquirir uma quinta para reunir os amigos e desfrutar dos prazeres de um local cheio de grandes árvores, de pássaros e de regatos. Quando estudava em Coimbra, D. Patrício, seu “companheiro de casa”, falava sempre no solar de S. Braz, herança da família, um lugar aprazível com avenidas de carvalho, cascatas, roseiras e um mirante que dava vista para o rio. O estudante ouvia a descrição do amigo e pensava: “Que diabo, quando for rico, hei de ter o meu S. Braz!”. (p.6).
A hora havia chegado. Herdara a fortuna do tio Bento e, ao folhear a publicação “Novidades”, leu a noticia da venda de uma quinta em Paço-de-Loures, situada na região norte de Portugal. O dono era um fidalgo de Província, D. Gaspar Alcoforado. Escreveu para o proprietário e este lhe propôs uma visita ao local e que procurasse se comunicar com o padre Ribeiro, encarregado de mostrar a propriedade.
Em meados de abril, José Ernesto viajou. Ficou acertado que o padre iria esperá-lo na estação de trem e de lá seguiriam para o Paço-de-Loures. Tudo aconteceu de acordo com o combinado, mas veio uma chuva torrencial que não permitiu ao futuro comprador conhecer a quinta na sua totalidade. As gentilezas do caseiro Braz, a deliciosa comida servida durante seus dias de permanência, as grandes salas, tudo indicava uma inclinação para a compra da quinta.
Durante os dias que ficou em Paço-de-Loures, José Ernesto ouviu muitas conversas do padre Ribeiro sobre a família Alcoforado. Dom Gaspar Alcoforado possuía três filhas, sendo que a mais nova, D. Joana, era linda, loura, parecia “um sol”. Além de todos os atributos físicos, era “grande cavaleira”. A descrição da moça foi rica em minúcias, agora José Ernesto tinha dois desejos: comprar a quinta e conhecer a moça bonita e loura.
A casa e a chuva funcionam como motivos condutores da narrativa. A chuva impede sair da casa para conhecer a quinta. Só resta ao futuro comprador aproveitar as delícias da boa culinária, ouvir o incessante barulho da água caindo do céu e as conversas do padre Ribeiro.
O resto da história é para ser lida em dia de chuva junto com as águas de abril.
Eloar Guazzelli, artista plástico, fez as ilustrações deste conto. Utilizou apenas duas cores – marron e azul. Os detalhes da arquitetura portuguesa e os azulejos estão presentes nas 15 ilustrações que emolduram o livro.
Beatriz Berrini, estudiosa de Eça de Queiroz e professora de literatura portuguesa da PUC/SP, colocou notas no corpo do texto, esclarecendo algumas trocas de nomes de personagens e dos lugares. As interrogações indicam trechos que foram perdidos. Lembramos que Eça de Queiroz não fez a revisão final do conto, é uma edição póstuma.