RODA MOINHO: histórias de amores com sabor antigo
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
nas voltas do meu coração.
(Roda Viva. Chico Buarque).
A Editora CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) lançou em 2010 um concurso de literatura infantil e juvenil para todo país. Mais de 100 trabalhos foram inscritos, “Roda moinho”, de Eloí Bocheco, ganhou o prêmio Hors Concours.
“Roda moinho” é um romance juvenil dividido em doze capítulos. A narrativa entrelaça várias histórias - a do moinho antigo da cidade de Moinhos, a de Maria Lígia e o filho Leonardo e a história da escritora Pauline. Todas essas histórias são contadas pelo personagem-narrador Leonardo, Leo para o mais íntimos.
As ações se desenrolam na cidade de Moinhos, um lugar muito tranquilo durante a semana e movimentado aos sábados e domingos. No fim de semana, vinham pessoas de diferentes locais para visitar o moinho d´água que ficava perto do rio e o moinho do vento, situado no alto do morro.
Quando Leonardo nasceu, os moinhos já não tinham serventia, as pessoas mais velhas diziam que eram assombrados, daí o motivo de atrair tantas pessoas para visitá-los.
As imagens de coisas antigas – moinhos, as casas da pequena cidade, indumentária dos personagens, paisagens, tudo foi muito bem retratado pela técnica de aquarela do artista plástico Pedro Zenival. É possível se transportar para o passado olhando as bonitas ilustrações.
Sem respeitar muito a ordem dos capítulos, vamos examinar as histórias começando pela origem dos moinhos e o que eles significavam para os moradores da cidade. As narrativas são todas contadas sob o ponto de vista do personagem-narrador, Leonardo, um menino com doze anos de idade.
Quem quiser saber a história dos moinhos, deve ouvir seu Miguel, conhecido na região como “o guardião das memórias dos moinhos”. Na voz de Miguel, as histórias ganhavam vida e despertavam interesse, ele explicava que os moinhos surgiram com a família Pereira Gomes e que eram utilizados antigamente para moer o trigo e fazer pão. A família Pereira Gomes ajudou a fundar a cidade, mas todas as pessoas dessa família foram dizimadas por uma epidemia, com exceção da filha mais nova, essa morreu de amor. A moça apaixonou-se por um mascate que vivia viajando e vendendo coisas de porta em porta, o pai proibiu o namoro, a moça ficou sem comer, não saía mais de casa, foi definhando, definhando, até morrer.
A história de Leonardo, o personagem-narrador, envolve a mãe, o pai que deixou a mulher para viver uma nova aventura amorosa e o trabalho da mãe – a confecção de docinhos para vender aos moradores e visitantes da cidade. Tudo é contado sob a ótica do menino.
A mãe relembra com saudades do tempo em que morava com o marido e dos poemas que ele gostava de ler para ela – poemas de Emily Dickinson, de Camões e de Fernando Pessoa. Às vezes a saudade era tão grande, a dor da separação batia tão forte que Maria Lígia ficava triste, calada. Nessas ocasiões, o menino sabia que a lembrança do pai povoava o pensamento da mãe. A história de Maria Lígia é também uma história de amor perdido.
Morando em uma cidade pequena, Leonardo conhecia os moradores um por um. A casa verde que ficava na mesma rua de Leonardo ficou desabitada por um certo tempo, depois foi ocupada por uma senhora simpática e muito gentil, Pauline, uma professora de Biologia aposentada e que já havia morado em muitos lugares. E por que escolheu Moinhos para morar? Agora, dedicada à literatura, resolveu viver em um lugar tranquilo onde pudesse escrever com a serenidade que a escrita exige. Leonardo e Pauline se tornaram amigos. Ela falava sobre seus livros, sobre a criação dos personagens, e o menino ouvia com muita atenção.
Por fim, temos a história da paixão de Leonardo por Natália, uma colega da escola, estudiosa e com a maneira de pensar que combinava com Leonardo. Quando o amor parecia instalado de vez no coração do menino, o pai de Natália foi transferido para Curitiba e com ele viajou toda família. Leonardo sofreu muito com a ausência de Natália. Promessas de futuros encontros, de reencontros, não conseguiram aliviar a dor da separação.
As personagens das histórias de “Roda Moinho” estão todas ligadas à literatura e à poesia, alguns de forma mais direta, como Pauline, outras com o gosto pela leitura de poemas, no caso a mãe de Leonardo e o próprio menino. No decorrer da narrativa, o leitor encontra a inserção de sonetos e de poemas lidos e repetidos pelos personagens.
O último capítulo do livro, “Os riscos do bordado” (p. 63-65) é uma reflexão sobre o fazer literário. Uma moça borda na alva percalina, no branco linho ou no puro algodão, histórias sonhadas e desenhadas. Borda e sonha, e faz “surgir da ponta de sua agulha e do fundo de seu dedal os mistérios guardados nos riscos”.(p. 63) E o tecer das linhas e do bordado se associa ao trabalho literário.
( Texto publicado no jornal “ Contraponto”, João Pessoa, março de 2012, mês dedicado à Mulher)
Tecer considerações sobre livros e autores a partir da literatura produzida para crianças e jovens no Brasil. Os textos deste espaço estão disponíveis para pesquisa; devendo-se, em caso de citação, indicar a fonte, conforme a legislação em vigor: LEI Nº 9.610
sexta-feira, 30 de março de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
A ressurreição de Carlos Lébeis

A RESSURREIÇÃO DE CARLOS LÉBEIS
A infância é a época em que imaginação e realidade se confundem.
(Laura Sandroni)
Quando falamos em literatura infantil brasileira dos anos 30 e 40 do século XX, despontam os nomes de Monteiro Lobato, Viriato Correia e alguns livros de Luís Jardim, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Estes três últimos escreveram livros para adultos e fizeram incursões no terreno da literatura infantil. Carlos Lébeis, que foi contemporâneo de Lobato, é sempre esquecido. A Cosac Naify, com a publicação de “Cafundó da Infância (2011) e “No país dos quadratins...” (2012) procurou ressuscitá-lo.
Quem foi Carlos Lébeis?
O nome completo do escritor é Carlos Magalhães Lébeis, nasceu em São Paulo em 1889 e faleceu em 1943. Nelly Novaes Coelho, no “Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira (1882-1982)” traz um pequeno verbete sobre o autor. Diz a crítica da literatura infantil:
“Faz parte da geração de 22, tendo sido considerado pelos companheiros como um “grande talento”...] Escreveu dois livros para crianças: O PAÍS DOS QUADRATINS (ilustrado por Cândido Portinari, publ em 1928) e A CHÁCARA DA RUA UM (1930). São estórias de travessuras infantis, onde o espaço real ( de natureza edênica e acolhedora) acolhe situações onde o mágico prevalece.” (p. 110).
A editora Cosac Naify conseguiu resgatar os livros de Carlos Lébeis e publicou “Cafundó da Infância” (2011), com ilustrações de Anita Malfatti e “No país dos quadratins...” (2012), ilustrado por Cândido Portinari. Ainda, em 2012, pretende publicar “A chácara da rua Um”.
“Cafundó da infância” permaneceu inédito por mais de 70 anos. Um sobrinho de Carlos Lébeis, Paulo Bomfim, teve acesso aos originais do livro e, depois de muitos anos, cumpriu a promessa que fizera um dia a Anita Malfatti - cuidar da publicação deste livro destinado às crianças. Anita não teve tempo de ver o livro publicado, mas as ilustrações da pintora aparecem na capa e nas páginas internas e dão um toque especial à história do pássaro Curió.
Cafundó da infância é um lugar distante e encantado onde tudo pode acontecer, até o impossível. Lá os passarinhos têm nome e são tratados como seres humanos. Existe um tico-tico que é conhecido como Tico-tico de Sousa, um vira chamado Maneco Vira-vira, um pintassilgo, Pintassilgo Caruso. Existe, também, um tal de João de Barros.
Curió Xavier é o personagem principal dessa história. Ele falava como gente e resolveu contar para alguém as suas memórias. Não sabemos se era para um menino ou adulto, podia ser para um poeta como Manoel de Barros, chegado na idade, mas com a alma de criança.
Caro leitor ou leitora, não se espante com as histórias desse passarinho falador. Emília, a boneca feita de pano por tia Nastácia, contou suas memórias para o Visconde de Sabugosa, que era um sabugo de milho e lembre-se de que Carlos Lébeis foi contemporâneo de Lobato.
Curió começou suas memórias com o relato do local de seu nascimento – um quintal cheio de várias espécies de árvores frutíferas: mangueiras, jaqueiras. Todos os animais viviam em perfeita harmonia. Nesse “país-paraíso”, morava um menininho miúdo e esperto, dono de um coração maior do que a “manga coração de boi”. Era um anjo sem asas, amigo de todos os animais e de todas as plantas. O nome desse menino era Esperidião Caxuxo.
Mas nem tudo continuou só bonança no Cafundó da infância. Um dia... chegaram uns meninos esquisitos, mal-encarados e perversos, meninos de barba-grande e voz grossa. Esses meninos pareciam ter parte com o demo. E sabe o que eles queriam fazer? Derrubar as árvores e matar todos os passarinhos. Será que esses meninos malvados conseguiram o que pretendiam? Somente o Curió Xavier sabe da resposta, e o leitor curioso poderá saber também.
“Cafundó da infância” é um livro de teor ecológico. A luta dos pássaros para se livrar dos meninos perversos, o desejo das árvores de serem transplantadas revelam o amor do autor pela natureza.
Os capítulos do livro correspondem às histórias contadas pelo Curió Xavier e cada história traz uma ilustração colorida de Anita Malfatti. O título dos capítulos aparece em papel de folha colorida dobrada. Ao desdobrar a folha, surge a bonita ilustração de Malfatti – desenhos delicados, cores suaves, tudo condizente com o clima paradisíaco do livro.
Paulo Bomfim, no posfácio, afirma: “Carlos Magalhães Lébeis, o inesquecível tio, está ligado pelos túneis da memória e do afeto da minha infância.”.
Não poderia concluir sem fazer referência ao vocábulo “cafundó”, hoje pouco usado. No Dicionário da Língua Portuguesa de Houaiss, cafundó, palavra de origem africana, é local de difícil acesso, situado entre montanhas e pouco habitado. Na linguagem popular, um lugar onde o cão perdeu as botas ou onde o vento faz a curva.
REVELAÇÃO
A escritora Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, foi entrevistada no programa “Leituras” (TV. Senado, 17/03/2012) e revelou o segredo do sucesso de seus livros: escrevo como quem fala, sem artificialismos, sem jargões, e devo isso a experiência com a prática jornalística e o rádio. Durante muitos anos, Ana Maria Machado foi colunista do “Jornal do Brasil”.
( Textos publicados no jornal “Contraponto”, março de 2012)
quinta-feira, 15 de março de 2012
A lua no cinema:quatro momentos distintos

A lua no cinema: quatro momentos distintos
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
(Cecília Meireles. Lua adversa. In: Vaga Música).
Eucanaã Ferraz organizou a seleção de poemas “A lua no cinema e outros poemas” ( Cia. Das Letras, 2011), livro destinado, “preferencialmente, aos jovens”. Vinte poetas integram a coletânea, sendo sete portugueses e treze brasileiros. Apenas duas poetisas – Fiama Hasse Pais Brandão e Sophia de Mello Breyner Andresen. As duas são portuguesas.
Ao todo são 68 poemas. O leitor encontra um índice como o título dos poemas, os nomes dos autores e uma breve nota sobre cada poeta. Aparecem, ainda, informações do exemplar de onde foram retirados os textos.
O título do livro remete ao poema de Paulo Leminski – “A lua no cinema” que se encontra na p. 59. Transcrevemos a primeira estrofe do poema:
“A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.” (p.59).
Os poemas estão divididos em quatro momentos distintos. No primeiro, com o subtítulo de “o verbo ser e outros verbos”, encontram-se poemas que mostram o decorrer da vida do homem: nascimento, infância, juventude, maturidade e velhice.
“não sei se isto é amor e outras dúvidas” é o subtítulo do segundo momento e compreende poemas que falam do amor, das incertezas e das dúvidas desse sentimento complexo. O terceiro momento – “na ribeira deste rio e outras paisagens” apresenta poemas voltados para a natureza. Verso de Fernando Pessoa é utilizado no subtítulo. No quarto e último momento – “não coisa e outras coisas”, os poemas selecionados reúnem seres e coisas que se misturam e se transformam, superando limites.
Vamos examinar alguns poemas da primeira parte, eles estão relacionados com as diferentes fases da vida do homem.
O primeiro é uma canção de Caetano Veloso – “Boas-vindas” (LP Circuladô, 1991). O poeta celebra o nascimento do filho e convida-o a conhecer a vida – que é gostosa, tem o sol e tem a lua, tem a poesia e tem a prosa.
O segundo poema – “A um recém-nascido”, José Paulo Paes saúda um bichinho tenro, frágil, o filho do homem. Entre uma estrofe e outra, aparece um refrão que se repete de forma variada – “é o filho do homem”, “é o filho da mulher”, “é o filho da fome,” “é o filho da fartura”, “é o filho do mundo.” Por fim, “É um filho de Deus”. Atente-se para a sutileza poética e a substituição do artigo definido (o) para o indefinido (um).
Manoel de Barros comparece com o poema “Infantil”. Aqui, o poeta explora o lado criativo da criança. Um menino conta uma história absurda à mãe e conclui:
“Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia”.
Eu não preciso fazer razão”. (p. 18)
Manoel de Barros gosta de aproximar a criança do poeta. Os dois são inventivos e não precisam dar explicações lógicas para entender as coisas.
Mário Quintana, no poema “O adolescente”, chama a atenção do jovem para a beleza da vida e alerta que essa beleza pode gerar o medo, mas um medo “fascinante e fremente de curiosidade”.
O poeta português Alexandre O´Neill, com o poema “Amigo”, refere-se à idade adulta do homem e faz uma reflexão sobre o que é um amigo e recomenda que se tenha cuidado com a palavra amigo.
E o que seria amigo?
“Amigo é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado
é a verdade partilhada, praticada.” (p. 26)
Chega-se à maturidade, à velhice. Para essa fase ingrata da vida só recorrendo a Paulo Leminski e enfrentá-la com uma doce ironia.
[quando eu tiver setenta anos]
“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar essa adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência” (p.44)
Os outros três momentos poéticos permanecem encobertos esperando o leitor.
Resta uma pergunta: Por que as poetisas brasileiras modernas não entraram na coletânea? Onde estão Roseana Murray, Marina Colasanti, Neide Archanjo, Zila Mamede? E Cecília Meireles – que é atemporal e eterna?
sábado, 3 de março de 2012
Hugo Cabret. O filme? Não, o livro

HUGO CABRET. O FILME? NÃO, O LIVRO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
As pessoas usam os computadores mais e mais, algo que apaga a mão do artista. Eu quis fazer algo com o qual fosse possível ver a mão do artista.
Brian Selznick. Nota explicativa sobre a ilustração do livro “A invenção de Hugo Cabret”)
“A invenção de Hugo Cabret” (Ed. SM), texto e ilustrações de Brian Selznick, tradução de Marcos Bagno, ganhou, em 2008, o Prêmio “Melhor Tradução para Jovem” da FNLIJ. O autor nasceu em East Brunswick, Nova Jersey (EUA), é formado em Design, Rhode Island. Marcos Bagno é tradutor, escritor e linguista. Atualmente é professor da UNB.
O livro foi adaptado para o cinema por Martin Scorsese em 3D e tem conquistado o público infantil e adulto. A reunião de texto, imagens, quadrinhos e cinema oferece uma variada experiência de leitura. É um volume de 533 páginas que mescla linguagem verbal e pictórica. As duas linguagens caminham pari-passu.
O colorido da capa contrasta com as inúmeras ilustrações internas que são todas em preto e branco. O ilustrador utilizou lápis (crayon), fez pequenos desenhos que depois foram ampliados. Ao longo do livro, o leitor observa o trabalho de “hachura”. Em desenho ou gravura, este tipo de ilustração produz efeito de sombra ou meio-tom. Os desenhos foram todos feitos com lápis HD, sombreados em preto e branco e apresenta figuras muito bem delineadas. Há páginas inteiras apenas com cenas visuais.
Vamos conhecer um pouco da história de Hugo Cabret.
Estamos em Paris nos anos 30 do século XX. O ambiente retratado é uma estação de trem. Nessa estação mora Hugo Cabret. É órfão e ficou sob os cuidados de um tio que, certo dia, desapareceu. Após o desaparecimento do tio que consertava relógios, Hugo luta sozinho pela sobrevivência. Mora na própria estação em um apartamento secreto construído para o pessoal que dirigia a estação de trem há alguns anos. Por ter apenas 12 anos, poderá ser recolhido a um abrigo de menores abandonados, por isso deve manter-se no anonimato e foge quando avista o inspetor da estação. Ir para o orfanato é a última coisa que Hugo deseja. O menino tem uma missão a cumprir que só poderá ser realizada em liberdade.
Do pai, um relojoeiro, Hugo se lembra das histórias que ele lia à noite – as incríveis aventuras de Júlio Verne e contos de fadas de Hans Christian Andersen, que eram os seus favoritos. O pai gostava, ainda, de levar o filho ao cinema e um dos últimos que viu com o pai foi “um filme com um homem pendurado nos ponteiros de um relógio gigante.” (p.17).
O filme citado se chama “O homem mosca” e foi estrelado por Harold Lloyd.
O tio consertava relógios, era encarregado de manter sempre funcionando os grandes relógios da estação de trem e com ele Hugo aprendeu esse ofício. Quando o tio desapareceu, o menino passou a cuidar dos gigantescos relógios da estação e sentiu-se responsável pelo funcionamento dos mesmos.
Além do tio desaparecido, do pai que morre em um incêndio, aparecem outros personagens que merecem ser citados: o velho Georges e a sobrinha de Georges – Isabelle.
O velho Georges, personagem importante no decorrer da narrativa, é dono de uma loja de brinquedos que fica na estação de trem. Na loja há pequenas peças que podem ter grande serventia para um estranho objeto que Hugo está montando, daí fazer pequenos furtos na loja.
Este personagem foi inspirado no cineasta francês Georges Miélès, considerado o “pai dos efeitos especiais” no cinema. Na juventude, Georges Miélès trabalhou como desenhista e mágico, depois se interessou pelo cinema, virou ator e diretor. Nasceu em 1861 e faleceu em 1938. .
Para escrever este livro, Brian Selznick foi a Paris conhecer o ambiente onde a história se desenrola, tirou muitas fotos e pesquisou sobre a vida do cineasta Georges Méliès.
Isabelle, a sobrinha e afilhada de Georges, é uma menina curiosa e inteligente, mora na casa do tio e compartilha com Hugo Cabret nas suas descobertas e invenções. Aliado a tudo isso, Isabelle carrega no pescoço uma chave que poderá ser muito útil para os trabalhos do menino.
Um desenho enigmático, um caderno de anotações, uma chave roubada e um homem mecânico (um autômato) integram o universo desta intrincada e imprevisível história.
Literatura e Cinema se entrecruzam na história de Hugo Cabret. O convite ao leitor é para ler o livro, deliciar-se com as primorosas ilustrações de Brian Selznick e, se possível, ver o filme..
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
1822: o que está por trás da História
1822: o que está por trás da História
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Uma sociedade que não estuda a história não consegue entender a si própria, porque desconhece as razões que a trouxeram até aqui.
(Laurentino Gomes. Entrevista concedida à jornalista Rita Barreto)
Em 2011, o jornalista Laurentino Gomes ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em duas categorias: “Melhor Livro-Reportagem” e “Livro do Ano de Não Ficção” com “1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado”.(Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011). Este livro foi eleito o “Melhor Ensaio de 2008” pela Academia Brasileira de Letras. Em maio de 2011, chegou às livrarias uma versão simplificada destinada ao público juvenil com ilustrações de Rita Bromberg Brugger. É sobre esta edição que iremos fazer algumas considerações.
Laurentino Gomes é paranaense de Maringá, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em administração de empresas pela USP. Trabalhou em importantes jornais e revistas do Brasil, como “O Estado de S. Paulo”, a revista “Veja” e foi diretor da editora “Abril”.
Na entrevista que concedeu à jornalista Rita Barreto, “Revista Panorama Editorial”, Ano VII, No. 62, o escritor destaca a importância da leitura em sua vida. Explica que a História sempre foi uma paixão paralela ao jornalismo e que a leitura pode proporcionar transformações na vida de uma pessoa. Os pais tinham pouco estudo, mas valorizavam muito a educação, e, em especial à leitura. Foi sempre um leitor voraz – lia tudo: gibis, bulas de remédio, jornais velhos, revistas de consultórios e, naturalmente, muitos livros.
Foi esta paixão pela leitura e História que fez do jornalista um pesquisador da História do Brasil. Os dois consagrados livros do autor – “1808” e “1822” comprovam que estamos diante de um jornalista que gosta de escrever textos sob a ótica da reportagem, como ele mesmo confessa: “em linguagem acessível para um leitor comum não habituado à historiografia acadêmica”.
Laurentino afirma que não se limita a pesquisar apenas nos livros, gosta de ir aos locais dos acontecimentos. Para escrever “1822”, foi à Bahia assistir à festa de Dois de Julho, data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador em 1823, e cantada em versos por Castro Alves no poema – “Ao dois de julho”. Foi, ainda, ao município de Campo Maior, no Piauí, local do maior confronto da Independência, a Batalha do Jenipapo, travada no dia 13 de março de 1823. Os tempos mudaram a face das cidades, mas a visita a esses locais foi importante para a reconstituição da história.
A Independência do Brasil está imortalizada no famoso quadro do paraibano Pedro Américo, nas margens do riacho Ipiranga. O desfecho do gesto do príncipe foi mais além do que conta a história oficial. O grito de “Independência ou Morte!” resultou de uma série de acontecimentos, de acasos, de sorte e de improvisação.
Para entender melhor o gesto ousado de D. Pedro I, temos que conhecer duas pessoas intrinsecamente ligadas ao príncipe – Dona Leopoldina, sua mulher, e José Bonifácio de Andrada e Silva, um homem sábio.
José Bonifácio estudou em Coimbra, era formado em direito, filosofia e matemática. Foi um aluno brilhante e ganhou uma bolsa para estudar química e mineralogia em outros países europeus. Morou muitos anos na Europa. Quando regressou ao Brasil, estava com 56 anos, e pretendia retirar-se da vida pública, mas foi convocado pelo príncipe regente e futuro imperador D. Pedro I para auxiliá-lo no governo. E passou para a história com o título de Patriarca da Independência.
O convite para ser ministro de D. Pedro I a princípio foi rejeitado por José Bonifácio, porém não resistiu aos apelos de Dona Leopoldina. Ela sabia que o marido era inexperiente, impulsivo e precisava do apoio de uma pessoa mais forte. Ao apresentar os filhos pequenos a Bonifácio, disse-lhe: “Estes dois brasileiros são vossos patrícios e eu peço que tenhais por eles um amor paternal”. (p. 110)
José Bonifácio aceitou o cargo de ministro depois que teve um conversa a sós com o monarca, uma conversa “de homem para homem”. Nunca se soube qual foi o teor dessa conversa, mas foi decisiva para Bonifácio aceitar o cargo que lhe era oferecido.
Compara-se José Bonifácio ao americano Thomas Jefferson, patriarca da Independência dos EUA. Laurentino mostra a grande diferença que existe entre os dois homens públicos. Thomas Jefferson apregoava “todos os homens nascem iguais”, mas era dono de 150 escravos. Como bom representante da aristocracia rural do estado da Virgínia, bateu-se até o fim de sua vida contra a proposta da abolição da escravatura. José Bonifácio nunca teve escravos e era um abolicionista convicto e condenava veementemente o tráfico bárbaro e carniceiro dos escravos.
Se Dona Leopoldina e José Bonifácio aparecem nesse livro como verdadeiros heróis, o escocês Thomas Alexander Cochrane desponta como o grande vilão. Alçado a almirante da Marinha de Guerra Brasileira, utilizava métodos carniceiros para vencer o inimigo, no caso os portugueses. Sabendo da vulnerabilidade dos navios, Cochrane utilizava barcos incendiários e espalhava chamas em todas as direções. Era mercenário e gozou de prestígio perante D. Pedro I durante um bom tempo. A história se encarregou de mostrar sua verdadeira face.
Aqui, neste livro, o leitor encontra fatos curiosos e surpreendentes, faz uma viagem ao passado e descobre que a independência do Brasil não foi tão tranquila como pode parecer. Maria Quitéria, a moça guerreira, travestida de soldado Medeiros, o padre carmelita Joaquim do Amor Divino Caneca, Frei Caneca, são alguns vultos da história do Brasil que merecem ser cultuados. Felizmente, os escritores e poetas já cantaram em prosa e verso os feitos gloriosos de Maria Quitéria e Frei Caneca. Joel Rufino escreveu o livro “O soldado que não era” e João Cabral de Melo Neto o “Auto do Frade”, poema para vozes que foi encenado pelas ruas do Recife.
( Publicado no jornal “ Contraponto”. João Pessoa, fevereiro de 2012)
CATÁLOGO
Já saiu no site da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil o catálogo da Feira Internacional de Livros Infantis que se realizará em Bolonha (Itália) de 19 a 22 de março de 2012. O texto, todo em inglês, apresenta breves resenhas dos melhores livros infantis e juvenis publicados no Brasil. A bonita capa é um trabalho do escritor e ilustrador pernambucano André Neves. Para nossa alegria, o livro ilustrado por Veruschka Guerra “A princesa, o pássaro e a sabedoria” consta no catálogo de Bolonha. O leitor poderá consultá-lo no portal www.fnlij.org.br. Onze críticos da FNLIJ participaram dessa seleção. Fizemos a resenha de nove livros para este catálogo com a identificação (NM e NMS).
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Uma sociedade que não estuda a história não consegue entender a si própria, porque desconhece as razões que a trouxeram até aqui.
(Laurentino Gomes. Entrevista concedida à jornalista Rita Barreto)
Em 2011, o jornalista Laurentino Gomes ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em duas categorias: “Melhor Livro-Reportagem” e “Livro do Ano de Não Ficção” com “1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado”.(Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011). Este livro foi eleito o “Melhor Ensaio de 2008” pela Academia Brasileira de Letras. Em maio de 2011, chegou às livrarias uma versão simplificada destinada ao público juvenil com ilustrações de Rita Bromberg Brugger. É sobre esta edição que iremos fazer algumas considerações.
Laurentino Gomes é paranaense de Maringá, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em administração de empresas pela USP. Trabalhou em importantes jornais e revistas do Brasil, como “O Estado de S. Paulo”, a revista “Veja” e foi diretor da editora “Abril”.
Na entrevista que concedeu à jornalista Rita Barreto, “Revista Panorama Editorial”, Ano VII, No. 62, o escritor destaca a importância da leitura em sua vida. Explica que a História sempre foi uma paixão paralela ao jornalismo e que a leitura pode proporcionar transformações na vida de uma pessoa. Os pais tinham pouco estudo, mas valorizavam muito a educação, e, em especial à leitura. Foi sempre um leitor voraz – lia tudo: gibis, bulas de remédio, jornais velhos, revistas de consultórios e, naturalmente, muitos livros.
Foi esta paixão pela leitura e História que fez do jornalista um pesquisador da História do Brasil. Os dois consagrados livros do autor – “1808” e “1822” comprovam que estamos diante de um jornalista que gosta de escrever textos sob a ótica da reportagem, como ele mesmo confessa: “em linguagem acessível para um leitor comum não habituado à historiografia acadêmica”.
Laurentino afirma que não se limita a pesquisar apenas nos livros, gosta de ir aos locais dos acontecimentos. Para escrever “1822”, foi à Bahia assistir à festa de Dois de Julho, data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador em 1823, e cantada em versos por Castro Alves no poema – “Ao dois de julho”. Foi, ainda, ao município de Campo Maior, no Piauí, local do maior confronto da Independência, a Batalha do Jenipapo, travada no dia 13 de março de 1823. Os tempos mudaram a face das cidades, mas a visita a esses locais foi importante para a reconstituição da história.
A Independência do Brasil está imortalizada no famoso quadro do paraibano Pedro Américo, nas margens do riacho Ipiranga. O desfecho do gesto do príncipe foi mais além do que conta a história oficial. O grito de “Independência ou Morte!” resultou de uma série de acontecimentos, de acasos, de sorte e de improvisação.
Para entender melhor o gesto ousado de D. Pedro I, temos que conhecer duas pessoas intrinsecamente ligadas ao príncipe – Dona Leopoldina, sua mulher, e José Bonifácio de Andrada e Silva, um homem sábio.
José Bonifácio estudou em Coimbra, era formado em direito, filosofia e matemática. Foi um aluno brilhante e ganhou uma bolsa para estudar química e mineralogia em outros países europeus. Morou muitos anos na Europa. Quando regressou ao Brasil, estava com 56 anos, e pretendia retirar-se da vida pública, mas foi convocado pelo príncipe regente e futuro imperador D. Pedro I para auxiliá-lo no governo. E passou para a história com o título de Patriarca da Independência.
O convite para ser ministro de D. Pedro I a princípio foi rejeitado por José Bonifácio, porém não resistiu aos apelos de Dona Leopoldina. Ela sabia que o marido era inexperiente, impulsivo e precisava do apoio de uma pessoa mais forte. Ao apresentar os filhos pequenos a Bonifácio, disse-lhe: “Estes dois brasileiros são vossos patrícios e eu peço que tenhais por eles um amor paternal”. (p. 110)
José Bonifácio aceitou o cargo de ministro depois que teve um conversa a sós com o monarca, uma conversa “de homem para homem”. Nunca se soube qual foi o teor dessa conversa, mas foi decisiva para Bonifácio aceitar o cargo que lhe era oferecido.
Compara-se José Bonifácio ao americano Thomas Jefferson, patriarca da Independência dos EUA. Laurentino mostra a grande diferença que existe entre os dois homens públicos. Thomas Jefferson apregoava “todos os homens nascem iguais”, mas era dono de 150 escravos. Como bom representante da aristocracia rural do estado da Virgínia, bateu-se até o fim de sua vida contra a proposta da abolição da escravatura. José Bonifácio nunca teve escravos e era um abolicionista convicto e condenava veementemente o tráfico bárbaro e carniceiro dos escravos.
Se Dona Leopoldina e José Bonifácio aparecem nesse livro como verdadeiros heróis, o escocês Thomas Alexander Cochrane desponta como o grande vilão. Alçado a almirante da Marinha de Guerra Brasileira, utilizava métodos carniceiros para vencer o inimigo, no caso os portugueses. Sabendo da vulnerabilidade dos navios, Cochrane utilizava barcos incendiários e espalhava chamas em todas as direções. Era mercenário e gozou de prestígio perante D. Pedro I durante um bom tempo. A história se encarregou de mostrar sua verdadeira face.
Aqui, neste livro, o leitor encontra fatos curiosos e surpreendentes, faz uma viagem ao passado e descobre que a independência do Brasil não foi tão tranquila como pode parecer. Maria Quitéria, a moça guerreira, travestida de soldado Medeiros, o padre carmelita Joaquim do Amor Divino Caneca, Frei Caneca, são alguns vultos da história do Brasil que merecem ser cultuados. Felizmente, os escritores e poetas já cantaram em prosa e verso os feitos gloriosos de Maria Quitéria e Frei Caneca. Joel Rufino escreveu o livro “O soldado que não era” e João Cabral de Melo Neto o “Auto do Frade”, poema para vozes que foi encenado pelas ruas do Recife.
( Publicado no jornal “ Contraponto”. João Pessoa, fevereiro de 2012)
CATÁLOGO
Já saiu no site da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil o catálogo da Feira Internacional de Livros Infantis que se realizará em Bolonha (Itália) de 19 a 22 de março de 2012. O texto, todo em inglês, apresenta breves resenhas dos melhores livros infantis e juvenis publicados no Brasil. A bonita capa é um trabalho do escritor e ilustrador pernambucano André Neves. Para nossa alegria, o livro ilustrado por Veruschka Guerra “A princesa, o pássaro e a sabedoria” consta no catálogo de Bolonha. O leitor poderá consultá-lo no portal www.fnlij.org.br. Onze críticos da FNLIJ participaram dessa seleção. Fizemos a resenha de nove livros para este catálogo com a identificação (NM e NMS).
domingo, 12 de fevereiro de 2012
O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?

O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)
Educar com qualidade é o exercício de uma competência técnica do educador aliada às suas condições pessoais subjetivas, como generosidade, sensibilidade e muito afeto.
(Elizabeth D´Angelo Serra. Depoimentos. In: O que é qualidade em literatura infantil e juvenil: com a palavra o educador)
“O que é qualidade em literatura infantil e juvenil: com a palavra o educador” é o título do livro organizado por Ieda de Oliveira (DCL, 2011). O livro contém 14 artigos de educadores e 23 depoimentos de escritores e de pessoas envolvidas com a educação no Brasil, em Portugal e na África.
Ieda de Oliveira é escritora e pesquisadora de literatura para crianças e jovens. Na linha dos teóricos, já publicou livros que abordam a qualidade da ilustração e a opinião de escritores sobre o mesmo assunto. Neste último livro, a voz é dos educadores.
O vocábulo educador é abrangente, compreende todos aqueles que se dedicam ao trabalho de contribuir para a formação das crianças e jovens – professores, escritores, pesquisadores da educação, mediadores de leitura.
A professora Nelly Novaes Coelho, uma das educadoras convidadas para integrar essa coletânea, apresentou um detalhado estudo sobre a história da educação no Brasil e o longo caminho percorrido para se chegar ao século XXI. No início da colonização, ela destaca o papel dos jesuítas – Manoel da Nóbrega – “o grande iniciador dessa tarefa civilizadora” e José de Anchieta – que “escolheu a catequese como missão de vida”. Passando pelo período colonial e do império, chega-se à era cibernética e vem este sábio conselho de quem entende de educação, de livros e de leitura: “Num mundo como o nosso, totalmente dominado pela imagem, é preciso redescobrir a letra. Daí a importância que a nova educação vem dando à literatura, arte que é, por natureza, expressão de experiências humanas/vitais; arte cuja matéria é a palavra, o verbo capaz de criar ou destruir realidades. Hoje, uma das maiores tarefas da nova educação é a de redescobrir a literatura como o grande agente civilizador.” (p.42)
Alice Áurea Penteado Martha, doutora em Letras pela UNESP/Assis e professora da Universidade Estadual de Maringá (PR), tem atuação nas áreas de estudos sobre Leitura e Literatura Infantil e Juvenil. A professora se deteve em refletir a respeito das escolhas de obras para leitura em ambiente escolar diante das inúmeras possibilidades do mercado editorial brasileiro e dá este conselho aos professores e educadores: consultem as listas do Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE), os livros agraciados com o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e os ganhadores do Prêmio Jabuti nessa mesma área.
Sabemos que há livros destinados aos jovens e às crianças que não atravessam as fronteiras regionais, não concorrem a prêmios, mas têm valor literário. É necessário, portanto, saber qual o critério que deve ser adotado. Aqui vão algumas dicas: criatividade, literariedade, linguagem simples, mas não infantilizada, boa diagramação e uma ilustração criativa e artística. De todas essas qualidades, criatividade e literariedade são as mais importantes.
Tânia Mariza Kuchenbecker Rösing é conhecida em todo Brasil pela criação e coordenação das Jornadas Literárias de Passo Fundo (RS). Tânia é doutora em Letras pela PUC/RS e publicou livros na linha de “Leitura e Formação do Leitor”.
Nas sugestões de leitura, a articulista apresenta uma série de livros que estabelece uma relação entre a literatura infantil e a música. Começando com Vinicius de Moraes – “A arca de Noé”, ela cita, entre outros: “De Paes para Filhos”, CD infantil com poemas musicados de José Paulo Paes, e “A orquestra tintim por tintim”, um livro que ensina os pequenos a distinguir os instrumentos musicais de forma muito lúdica
Maria Antonieta Cunha é doutora em Letras pela UFMG e foi professora visitante durante alguns anos da UFPB no Curso de Mestrado em Biblioteconomia. Atualmente é membro do Conselho Diretor da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e publicou vários livros na área dos didáticos e teóricos da literatura infantil.
O artigo da professora Antonieta versa sobre a poesia e traz um título instigante: “Poesia entre a sedução e o incômodo”. No seu trabalho docente e como consultora em projetos diversos de capacitação de professores ou de aquisição de livros, ela dá o testemunho do disfarçado incômodo que a poesia gera entre professores e pais.
Mas estamos diante de uma defensora da poesia para crianças e os argumentos são convincentes. Em dois momentos do seu texto, Antonieta cita o poeta Manoel de Barros e elegemos esses versos que dizem muito: “Palavra poética tem de chegar ao grau de brinquedo para ser séria” – isso só vem confirmar a ludicidade da poesia e a aproximação poesia/criança.
O artigo de Ana Margarida Ramos, professora doutorada em Literatura da Universidade de Aveiro (Portugal), é uma reflexão sobre as últimas tendências da literatura para a infância em Portugal e a constatação de que nunca se editou tanto para crianças e jovens em Portugal como nos últimos anos do século XXI.
Rosa Helena Mendonça, Vera Teixeira de Aguiar, João Luís Cecantini, Maria Teresa Gonçalves Pereira, Graça Graúna, Rui Marques Veloso, Leonor Riscado, Simone Caputo Gomes e Maria Celestina Fernandes complementam os articulistas da coletânea.
Nos depoimentos, destacamos os textos de Elizabeth D´Angelo Serra (Secretária-Geral da FNLIJ com vasta experiência na seleção de livros para crianças e jovens), Laura Sandroni (estudiosa da obra de Monteiro Lobato), Regina Zilberman (autora de excelentes livros na área da leitura).
Outros textos, outras experiências e depoimentos estão à espera do leitor.
PROJETO “JANELAS DO MUNDO”
O projeto “Janelas do Mundo” – Pintura e Poesia – apresentado pelo artista plástico Miguel Ângelo Bertollo e Neide Santos atravessou as fronteiras da Paraíba – visitou a cidade de Santa Maria (RS). A coordenadora pedagógica do Colégio Marista de Santa Maria, professora Maria Rita Bertollo, enviou-nos um rico material com o trabalho dos alunos do ensino fundamental sobre as janelinhas. Os alunos escreveram poemas, desenharam janelas, pintaram telas e fizeram uma exposição no fim do ano com o trabalho desenvolvido durante o semestre.
Maria Rita é autora do “Caderno de Alfabetização”, Colégio Marista, Santa Maria (RS), 2012. Neste caderno, organizado por Maria Rita, vem esta observação: “aqui estão contempladas as minhas crenças em alfabetização e a minha paixão de ensinar.”
Marina Colasanti, no texto “Ser mais leitora do que escritora”, revela:
“Só um professor-leitor apaixonado pode transmitir a paixão pela leitura”.
Maria Rita Bertollo é uma professora-leitora apaixonada.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: O VOO DO PÁSSARO

BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: O VOO DO PÁSSARO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Madrugada silente,
ouve-se apenas
o canto solitário de um pássaro.
Depois...
um ruflar de asas
e o voo para o infinito.
Conheci Bartolomeu Campos de Queirós na Bienal Nestlé de São Paulo nos idos de 1990. O auditório Rebouças, local das conferências, estava lotado com todas as cadeiras ocupadas, fiquei em uma sala situada ao lado do auditório em frente a um telão e, através da tela, via e ouvia aquele escritor de gestos pausados e voz melodiosa falar sobre seus primeiros contatos com o livro. Gravei esta frase poética pronunciada naquela ocasião:
O primeiro livro que li foi o papel roxo da maçã que meu pai trazia como presente de longas viagens. A gente punha o papel roxo debaixo do travesseiro, sentia o cheirinho e ficava imaginando uma terra onde brotassem macieiras.
Depois vieram outros encontros – Congresso de Leitura (COLE, UNICAMP), Salão do Livro (Rio de Janeiro), mas os melhores encontros foram com os livros desse “menino poeta”.
Em 2008, “Tempo de voo” foi vencedor do Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil. Em 2009, ganhou o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), no Concurso de Literatura InfantoJuvenil Glória Pondé. Tive a grande alegria de participar, juntamente com Elizabeth d´Ângelo Serra e Mariza de Almeida Borba (FNLIJ/Rio de Janeiro), do júri deste concurso. Sobre este livro, escrevemos comentário na coluna “Livros&Literatura”, no jornal Contraponto, 18 a 24 de dezembro de 2009, B2
Ainda, no jornal Contraponto (24/06/2011 – B6), publicamos o artigo “Vermelho: a cor da amargura” sobre o último livro de Bartolomeu Campos de Queirós – “Vermelho amargo” (Cosac Naify, 2011).
“Vermelho Amargo” é um livro que fala de perdas, de partidas, de vazio, do obscuro filtrado pelas frestas das janelas. Se a linguagem é intérprete de estados interiores, o estilo convulsivo e soluçante conota, na real acepção da palavra, a verdadeira dor da existência.
Para um melhor conhecimento do “menino poeta”, recomendamos a leitura dos seus livros, principalmente aqueles de caráter autobiográfico: Ciganos, Indez, Por parte de pai, Ler, escrever e fazer conta de cabeça e O olho de vidro do meu avô.
O escritor gostava muito de passarinhos e escreveu dois belíssimos livros com essa temática – “Para criar passarinho” e “Até passarinho passa”. A comovente história “Até passarinho passa” vem revestida de lições de vida, de reflexões filosóficas. Se encontrar um amigo é encontrar um tesouro, o que dizer se esse amigo é cauteloso, constante, fiel? Como suportar a dor da partida? De forma sutil, o narrador leva o leitor a refletir sobre a efemeridade da vida, a alegria do encontro e a tristeza da partida.
A prosa poética de Bartolomeu Campos de Queirós percorre os “labirintos da memória”, principalmente a memória da infância – lembranças da mãe que partiu muito cedo e gostava de cantar modinhas do além-mar; lembranças do pai que era indiferente à solidão do filho; da irmã que bordava com agulha fina e sabia tecer flores e espinhos presos nos ramos como um pintor de natureza morta, e lembranças do avô que tinha um olho de vidro que” visitava lugares que o olhar não alcançava”.
A ensaísta Stella de Moraes Pellegrini, no livro “Caminhos e Encruzilhadas. O percurso poético e político de Bartolomeu Campos de Queirós, da formação do leitor à formação de leitores” (Ed. RHJ, 2005), ressalta que os textos de Bartolomeu são poéticos, políticos e revelam uma profunda preocupação com a formação de leitores e a construção de uma escola leitora. A maior prova do envolvimento do escritor com a educação brasileira está na publicação do “Manifesto por um Brasil literário” (FLIP, junho de 2009).
A vida, o pensamento, a visão de mundo do escritor mineiro estão presentes nos inúmeros livros que escreveu. Com mais de 50 livros publicados, Bartolomeu Campos de Queirós expôs para os leitores sua infância dolorida (perdeu a mãe quando contava entre seis e sete anos de idade), sua “fé cansada”, seu “silêncio limpo”, sua “solidão”, para repetir palavras do poeta Carlos Pena Filho, em “Poema de Natal”.
Bem-humorado, apreciador do silêncio, Bartolomeu costumava se definir assim: “Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar”.
Em tempo: Liz Page, diretora executiva do IBBY (International Board Books for Young People), em comunicação enviada à FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), informou a manutenção do nome de Bartolomeu Campos de Queirós como candidato do Brasil para o Prêmio Hans Christian Andersen 2012. O nome do vencedor será divulgado durante a realização da Feira de Livros Infantis em Bolonha (Itália, 19 a 23 de março de 2012) e o prêmio será entregue no Congresso IBBY (Londres, 23 a 26 de agosto de 2012). Que o grande Prêmio Internacional venha, mais uma vez, para o Brasil.
( Texto publicado no jornal “ Contraponto”, em 27 de janeiro de 2012)
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