sábado, 28 de julho de 2012

As viagens de Thomas Kyd


As viagens de Thomas Kyd
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

             A arte de viajar é uma arte de admirar, uma arte de amar. É ir em peregrinação, participando intensamente de coisas, de fatos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre.
            (Cecília Meireles. Crônicas de viagem).

            Sheila Hue, escritora brasileira, é coordenadora do Núcleo de Manuscritos e Autógrafos do Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro) e autora do livro “O livro negro de Thomas Kyd” (FTD, 2011). Este livro recebeu o Prêmio “Autor Revelação”, em 2012 (FNLIJ).
            Fruto de muitas pesquisas, o livro trata do tema de viagens marítimas no século XVI. Estudiosa da História do Brasil e da Literatura Portuguesa, a autora não se detém apenas em narrar fatos corriqueiros que aconteciam durante a travessia pelo imenso Oceano Atlântico, seu olhar se volta para a análise de alguns personagens, entre eles o almirante Sir Thomas Cavendish, “conhecido por ser um homem mau e egoísta.”.
            As memórias de Thomas Kyd, nas palavras de Sheila Hue, foram livremente inspiradas na viagem real da frota de Thomas Cavendish em 1591 ao Novo Mundo. A narrativa se prende ao período do reinado de Elizabeth I (1558-1603), época áurea da marinha inglesa.     
            Thomas Kid é o personagem narrador, o herói desta história/estória fabulosa. Sem família e sem profissão, o garoto, ávido por aventuras marítimas, embarca na frota de Sir Thomas Cavendish, comandante inglês, “o navegador mais célebre de seu país.” Era a segunda vez que o comandante ia dar a volta ao mundo.
Thomas Kyd iniciou a viagem no Leicester, o galeão do próprio Sir Thomas Cavendish. Neste navio imperava o luxo. As cabines eram cheias de objetos ricos, tapetes, louças finas.  Belas lamparinas mantinham o navio sempre muito bem iluminado. Na companhia do comandante, viajavam nobres ingleses, seus músicos particulares e dois japoneses capturados por Cavendish em suas longas viagens. Falavam uma língua estranha e eram chamados de Christopher e Cosmus. Embora não entendesse a língua dos  japoneses, Thomas Kyd aproximou-se deles e manteve uma amizade fraterna durante toda viagem.  
Quando atravessavam a linha do Equador, houve calmaria e o navio ficou vários dias parado. Passada a calmaria, a frota composta de quatro navios retomou a rota traçada e chegou à terra firme.  Ancoraram ao largo de uma ilha encantadora, toda coberta de uma vegetação muito verde, com um mar inteiramente transparente. Havia peixe em abundância, mas por ordem de Cavendish não era permitido pescar. A ilha era Placência, nome pelo qual era conhecida a Ilha Grande, em Angra dos Reis. Esta ilha era muito frequentada pelas frotas inglesas no século XVI.
Ao chegar ao Novo Mundo, o menino teve o desapontamento de ver que, ao contrário de tudo que tinha ouvido, a terra não era rica. Os moradores, “homens-pássaro” (índios), possuíam apenas algumas ferramentas, vasilhas feitas com frutas e madeiras da terra, anzóis, facas e cordas. O que mais o impressionou foi a exuberância da flora – grandes árvores, folhas verdes e brilhantes, flores de todos os formatos, tamanhos e cores.  
Depois de Placência, a frota prosseguiu viagem para a vila de Santos, sul do Brasil e Patagônia. Mas o que causava estranheza ao menino era o modo como Cavendish tratava os tripulantes – dava chutes, enforcava-os, jogava-os no mar sem nenhum motivo. Apesar da beleza do mar e do céu, das bonitas noites de luar, das infinitas estrelas, o clima no navio era desagradável.  
Muitas aventuras e desventuras são descritas e narradas pelo personagem narrador. Para conhecê-las, o melhor é adquirir o livro e desfrutar da leitura com o pensamento voltado para o século XVI. 
“O livro negro de Thomas Kyd” traz ilustrações de Alexandre Camanho que foram desenvolvidas a partir do texto e não em cima do texto, conforme explicação do próprio ilustrador. Camanho utilizou desenhos de bico de pena e aquarela. A ilustração retrata muito bem o ambiente das grandes navegações – a indumentária dos personagens, os tipos de navios da época,  os “homens-pássaro”, primeiros habitantes  do Brasil, não faltando o desenho do mapa com o roteiro da viagem.
Tudo neste livro é bem apresentado – diagramação, capa, escolha do papel, tipo de letra, numeração das páginas. É livro para deitar o olhar e se apaixonar, principalmente alunos e professores de História.  

terça-feira, 17 de julho de 2012

O BICHO PREGUIÇA E A FLORESTA


O BICHO PREGUIÇA E A FLORESTA
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            A natureza, arte de Deus, supremo artifício,
            não a retoques.
            Humildemente aceita-a.
            (Daniel Lima. Poemas).


            No momento em que João Pessoa é sede da exposição de Frans Karjcberg, nada mais oportuno do que falar sobre um livro que vem conquistando o mundo infantil com seu “grito” para que a natureza seja preservada. Refiro-me ao livro ilustrado por Anouck Boisrobert e Louis Rigaud, com texto de Sophie Strady – “Na floresta do bicho-preguiça” (Ed. Cosac Naify, 2011), tradução de Cássio Silveira.
            É o primeiro livro “pop-up” da Cosac Naify, livro-brinquedo com dobraduras. É um jogo, um convite à criança para explorar a floresta e procurar o bicho-preguiça escondido entre as árvores.
            No Brasil, este livro ganhou o Prêmio de Melhor Livro Brinquedo da FNLIJ. Na quarta capa, aparece um texto escrito por Ana Maria de Niemeyer Cesarino alertando para a devastação das florestas no mundo. Esta devastação ameaça várias espécies de animais, entre elas o bicho-preguiça do Brasil.   
            “Na floresta do bicho-preguiça”, começa com a apresentação da floresta em sua plenitude – “tudo é verde, tudo é vida”.  É nesse universo verdejante que o bicho-preguiça se balança sossegado entre as folhas.  Pouco a pouco a paisagem vai sendo modificada, a floresta estremece, máquinas com garras horríveis arrancam as primeiras árvores. Os pássaros abandonam seus ninhos, somente o bicho-preguiça parece indiferente a esta mudança.
Diante da fúria da máquina assassina, os mamíferos fogem assustados, as serpentes rastejantes escapam pelo chão quase deserto. E vem a pergunta que irá se repetir mais adiante: “você consegue ainda ver o bicho-preguiça?”
            Por fim, resta apenas uma árvore e lá está pendurado o animalzinho solitário. Surge uma voz misteriosa: “bicho-preguiça, acorde! fuja daqui! salve-se!” .
            A página que se segue mostra a terra nua, sem vida. A floresta desapareceu e ninguém vê mais o bicho-preguiça. No cantinho da página, bem embaixo, aparece a figura de um homem – ele conduz um saco em uma das mãos  e joga alguma coisa no ar com a outra mão.  O que será? Serão sementes?
            Sim, são sementes. O homem resolveu plantar uma nova floresta, é um trabalho árduo, requer tempo e paciência, mas o homem é perseverante. Nessa mesma página, se o leitor puxar uma tirinha de papel para baixo (ela está presa no final da página) irá encontrar brotos de novas plantas surgindo. Pendurado em uma pequena árvore está o animalzinho preguiçoso.  
            Na última página, surge a floresta em toda sua plenitude. Araras azuis cortam o céu, mamíferos passeiam no meio das árvores. Não é a mesma floresta da primeira página, está menos densa, algumas árvores são novinhas, precisam de mais algum tempo para crescer.  O difícil é encontrar agora o bicho-preguiça. Será que o leitor consegue vê-lo?
            O desfecho do livro é cheio de esperança, o homem semeou as sementes, elas germinaram e a floresta renasceu cheia de graça e de vida. O tempo estava escuro, mas apareceu alguém que acreditou na “possibilidade do homem construir um mundo melhor”.
            Tudo neste livro foi planejado de modo ecológico – o papel utilizado veio de floresta gerenciada e ambientalmente correta. As tintas empregadas para dar colorido ao livro - marron e verde - foram produzidas a partir de tinta de soja.
            É válido registrar esta advertência de Ana Maria de Niemeyer Cesarino:
            “Nos dez últimos anos, treze milhões de hectares de florestas desapareceram no mundo, essa destruição ameaça a sobrevivência de inúmeras espécies, entre elas o bicho-preguiça do Brasil.”.
            Felizmente, ainda contamos com ardorosos defensores da nossa flora e fauna – o artista plástico Frans Krasjcberg e Thiago de Mello figuram entre os defensores da natureza e enquanto houver uma voz no deserto clamando pela salvação da floresta resta uma esperança.  
            Se livro para criança pode ser considerado um brinquedo e um bom presente, “Na floresta do bicho-preguiça” é um presente que irá agradar às crianças, aos professores e aos pais que irão ler junto com os filhos, interagir com eles e sentir a gravidade do desmatamento desenfreado e insensível que assola nosso planeta. É preciso ensinar as crianças o amor à natureza, não é necessário retocá-la, aceita-a.

domingo, 8 de julho de 2012


ILAN BRENMAN: o contador de histórias
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

            Quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia.
            (Walter Benjamin. O narrador)

            Ilan Brenman é psicólogo, fez mestrado e doutorado em Educação, mas gosta de se definir como “contador de histórias”. Já participou de inúmeras atividades e projetos ligados à leitura – contou histórias em hospitais para crianças, creches, trens e em muitas escolas. De origem judaica, muitos de seus contos estão ligados às suas raízes.
            “O Alvo” (Ed. Ática, 2011) ganhou o Prêmio Ofélia Fontes – “O Melhor para Criança” – FNLIJ/2012. Nessa bem urdida história de Ilan Brenman, um velho professor de uma cidadezinha polonesa do século XIX era chamado por todos de “mestre”. Além de professor, era considerado um conselheiro espiritual da comunidade. As pessoas procuravam o velho professor para falar sobre suas dificuldades, angústias, pesadelos. Era realmente uma pessoa muito especial. Quando interrogado, respondia as perguntas contando uma história.
            Certo dia, um aluno perguntou:
            “- Como o senhor sempre consegue encontrar uma história certa, para a pessoa certa, no momento certo?” (p. 13)
            A classe inteira ficou silenciosa aguardando a resposta do “mestre”. Ele olhou de forma carinhosa para seus alunos e começou a contar uma nova história.  
            “Há alguns anos, na capital Varsóvia, existiu um jovem apaixonado pela arte do arco e da flecha. Ele convenceu os pais a pagarem um curso de arqueiro numa renomada escola da cidade.” (p. 17).
            Durante quatro anos, o rapaz estudou com afinco todas as técnicas. Terminado o curso, julgou-se pronto para disputar campeonatos e partiu para visitar cidades e participar de competições. Chegou a Lublin e soube que haveria uma competição de tiro ao alvo naquela cidade, mas algo o deixou muito admirado.
            O rapaz viu um cercado de madeira comprido todo pintado com mais de cem alvos e todos traziam a marca de flechadas bem no centro, na pontuação máxima.  Procurou saber quem era o autor de tamanha façanha e descobriu que era um menino franzino de cerca de dez anos. A princípio não quis acreditar que aquele menino raquítico fosse capaz de tal proeza.  O menino repetiu: “Fui eu” e contou como tinha realizado tal feito.
             Como o menino realizou a proeza, eu sei por que li o livro, quem não leu não sabe. O desfecho da história está esperando o desvelamento do leitor.  Leia-o e descubra como o menino foi capaz de acertar todos os alvos.    
            Alguns aspectos merecem ser destacadas nessa história simples e  rica de ensinamentos. O ilustrador Renato Moriconi utilizou poucas cores – vermelho, preto e branco, sendo que o vermelho predomina sobre as outras. Quanto à preferência pelo vermelho e branco, pode-se deduzir que é uma alusão às cores da bandeira da Polônia – branco e vermelho.
            A capa do livro mostra a figura de um homem (o professor com longas barbas). Aparece um círculo, como se fosse um alvo, envolvendo a cabeça do professor. Em cima da cabeça, há um orifício denotador do acerto da seta. Este orifício se repete em todas as páginas do livro para marcar coisas distintas: pistilo de uma flor, a boca aberta do professor, o balão de um menino, o olho de uma abelha e, naturalmente, o alvo.
            A arte do livro e o projeto gráfico foi uma realização de Vinicius Rossignol Felipe, um trabalho singular e criativo que andou pari-passu com as ilustrações de Renato Moriconi.
            A revista “Crescer” selecionou” O Alvo” como um dos “30 Melhores Livros Infantis do Ano” com esta observação: “... a graça e a poesia se unem e mostram o valor e o poder de contar uma bela história”.
            Para Ilan Brenman – “contar, ouvir e ler histórias é um jeito gostoso de adquirir conhecimentos, de entender as coisas.”
            Walter Benjamin afirma que o grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais. Ilan Brenman foi buscar este conto na sua própria origem, nas histórias lidas e ouvidas no decorrer de sua vida. A arca deste contador de histórias guarda afinidades com a arca de Fernando Pessoa – ainda há muita coisa guardada, muitas histórias para contar.
  
            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            THIAGO DE MELLO E FRANS KRAJCBERG
            O poeta amazonense Thiago de Mello, autor entre outros livros de “Os Estatutos do Homem”, fez palestra no auditório da Estação Ciência no dia 30 de junho (sábado), às 9 h, dentro da programação de ampliação do Complexo da Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes. Para crianças, Thiago de Mello escreveu o belíssimo livro “Amazonas – Águas, Pássaros, Serras e Milagres” (Ed. Salamandra). No mesmo dia, à tarde (15h), o artista e ambientalista Frans Krajcberg participou da apresentação do documentário “O grito”, vídeo dirigido por Renata Rocha, biógrafa do artista. No novo complexo, encontra-se a exposição de Frans Karjcberg – “Natureza Extrema” que permanece aberta ao público até o mês de setembro. A exposição “Natureza Extrema” retrata a destruição das florestas e compreende totens, esculturas e fotografias de queimadas de florestas.  
            Transcrevemos o 1º. artigo do poema “Os Estatutos do Homem”.
            “Fica decretado
            que agora vale a verdade.
            Agora vale a vida,
            e de mãos dadas,
trabalharemos todos
pela vida verdadeira.” 
            (Thiago de Mello. Os Estatutos do Homem).

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A literatura infantil brasileira vai à Costa Rica


A literatura infantil brasileira vai à Costa Rica
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            O domínio da língua espanhola (para os luso-falantes, no nosso caso) e da língua portuguesa (para os hispanos-falantes) é uma condição sine qua non para uma concretização sólida do intercâmbio principalmente cultural.
            (Marinalva Freire da Silva. O ensino da língua espanhola no Brasil: fator de inclusão social).


            Glória Valadares Granjeiro e Ninfa Parreiras, professoras e críticas literárias vinculadas à Fundação Nacional do livro Infantil e Juvenil, compilaram 25 contos infantojuvenis de escritores brasileiros que foram reunidos no livro “Cuentos infantiles brasileños” (San José. C.R. Editorama, 2011).
            Um livro desse porte exige um trabalho de muitas mãos – o embaixador Tadeu Valadares fez a apresentação; o escritor costariquenho Alfonso Chase- Brenes escreveu um texto em que ressalta a importância deste livro para “los ninos y los jóvenes” de Costa Rica; as organizadoras escreveram um texto discutindo os muitos caminhos que devem ser percorridos para se conhecer a literatura de um país.
Ao lado dos textos teóricos, o leitor encontra os contos selecionados, traduzidos por Jenny Valverde Chaves, as ilustrações em preto e branco de Marianela Solano Jimménez.  Não foi uma tarefa fácil, exigiu a colaboração de várias pessoas para a concretização deste livro e o estabelecimento salutar de um intercâmbio cultural.
Dentro de um universo de 25 contos, seria impossível falar sobre todos. Selecionamos alguns textos para breves comentários e deixamos a sugestão de leitura desses contos para os jovens leitores de Costa Rica, professores de espanhol no Brasil e para os alunos de nível médio. O ensino da língua espanhola consta do currículo das escolas brasileiras de acordo com a Lei 11.161, de 05 de agosto de 2005.
Ana Maria Machado e Lygia Bojunga Nunes abrem a coletânea com textos que foram mensagens que as duas escritoras escreveram para o Dia internacional do Livro Infantil (02 de abril data de nascimento de Hans Christian Andersen). Tanto Ana Maria como Lygia Bojunga escreveram sobre suas experiências com os livros.
Com o título: “Libros: el mundo en una red encantada”, Ana Maria fala sobre o seu primeiro encontro com o livro e isso ocorreu no escritório de seu pai. A menina era bem pequena, e vendo uma estátua de bronze com um cavaleiro delgado montado em um cavalo esquelético, seguido por outro cavaleiro gorducho montado em um burrico, perguntou ao pai quem eram aqueles dois. O pai foi até a estante e pegou um livro bem volumoso – “Dom Quixote”, mostrou a filha, explicou quem eram aqueles dois cavaleiros e começou a contar a história de Dom Quixote. Depois, quando aprendeu a ler,a menina passou a viver dentro dos livros, como Dom Quixote.
Lygia Bojunga escreveu o texto: “El intercambio” e fala sobre o fascínio que os livros sempre exerceram na sua vida. Quando bem pequena, na fase que ainda não sabia ler, Lygia brincava com os livros, fazia casinha com eles e quando a casa estava pronta entrava dentro daquela construção e imaginava que estava dentro de um livro.
Os contos estão agrupados de acordo com as décadas em que foram publicados. Da década de 60 do século XX até 2000, vinte e cinco escritores de renomado valor literário estão presentes nesta coletânea. Ressaltamos a importância deste livro – escritores brasileiros tiveram seus textos traduzidos para o espanhol e as crianças de Costa Rica puderam ter o contato com o melhor da literatura infantil brasileira nos últimos 40 anos.
As organizadoras foram cuidadosas ao selecionar os textos de escritores das cinco regiões brasileiras. Para exemplificar, citamos esses autores que representam suas respectivas regiões: Yaguarê Yamã (região amazônica); André Neves (nordeste); Bartolomeu Campos de Queirós (sudeste); Eloí Elisabete Bocheco (sul); Roger Mello (região central, Brasília). Ana Maria Machado e Lygia Bojunga são, respectivamente, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul.
Não falta a presença de escritores/ilustradores, assim comparecem: Ziraldo, Guto Lins, André Neves e Fábio Sombra.
O texto de Ziraldo não é um conto, o autor discorre sobre a miscigenação de raças e dá relevo à poesia do guatemalteco Humberto Ak´bal. Em seguida, o escritor/ilustrador escreve sobre sua infância passada em pequenas cidades do interior de Minas Gerais. É um texto ligado à memória afetiva do autor.
Após os contos, os leitores encontram uma mini biografia de cada escritor; uma bibliografia sobre literatura infantil e brasileira; os principais blogs brasileiros dedicados à literatura infantil, as instituições que promovem a leitura e os blogs individuais dos autores.
Depois da leitura desses contos, as crianças de Costa Rica ficarão com uma visão ampla da produção literária produzida no Brasil nos últimos anos, e saberão um pouco mais da história do nosso povo.   Os adolescentes e jovens brasileiros irão adquirir um melhor conhecimento da língua espanhola.

NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS
MONTEIRO LOBATO

O cronista Gonzaga Rodrigues, na sua coluna do dia 24/06/2012 – Jornal da Paraíba – “Lobato”, faz esta instigante pergunta: “Será que Lobato ainda serve de presente?” Na dúvida, entrou na livraria e comprou um livro de Lobato para a neta Milena, de nove anos.
Se Lobato não figura mais nas estantes das crianças do século XXI, os especialistas e estudiosos da obra de “Zé Bento” continuam se debruçando sobre o “universo encantado” do criador do sítio do Picapau Amarelo.
Recentemente, o professor paraibano Simão Farias Almeida defendeu tese de doutorado em Literatura Brasileira (UFPB) sobre a obra de Lobato. Em 2009, “Monteiro Lobato, livro a livro” (São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), organizado por João Luís Ceccantini e Marisa Lajolo ganhou dois importantes prêmios nacionais – o  Prêmio Jabuti –” Livro do Ano”, área de Teoria/Crítica Literária e o selo “Altamente Recomendável” da FNLIJ.  
Louvável a atitude do cronista ao comprar um livro de Lobato para a neta.

REVISTA CRESCER

A revista Crescer (Editora Globo) publica, no mês de junho, uma seleção dos “30 Melhores Livros Infantis do Ano”. Esta seleção é feita por “especialistas e apaixonados por literatura infantil” (Revista Crescer, p. 58).
Participamos desse processo seletivo e aqui vão alguns livros selecionados: “Museu Desmiolado” (Ed. Projeto), do poeta e músico gaúcho Alexandre Brito, com ilustrações de Graça Lima. “São ao todo mais de 20 invenções malucas retratadas em poemas repletos de musicalidade, humor e irreverência”. Indicado a partir dos 7 anos. “O Alvo” (Ed. Ática) de Ilan Brenman, ilustrado por Renato Moriconi. Este livro mostra o poder de contar uma bela história e constou do catálogo “White Ravens” 2012, uma seleção internacional feita pela Biblioteca Internacional da Juventude (Munique, Alemanha), a maior biblioteca de literatura infantil do mundo, foi destaque na Feira de Livros Infantis de Bolonha (Itália, 2012) e recebeu o Prêmio “ Melhor para Criança” da FNLIJ/2012. É indicado para crianças de 5 anos. “Árvores do Brasil – cada poema no seu galho” (Ed. Peirópolis), textos de Lalau e ilustrações de Laura Beatriz. “A dupla não cansa de falar sobre meio ambiente e natureza. Em poema e ilustrações marcantes, nos alertam e nos encantam para o assunto sem ser ecologicamente corretos”. O livro destaca 15 árvores brasileiras. Indicado para crianças de 7 e 8 anos. “Os Heróis do Tsunami”, com texto e ilustração de Fernando Vilela. Há muitos outros livros que foram selecionados por 42 especialistas. A relação de todos os livros se encontra nas páginas (50 a 58). O nome dos jurados, na página 58. 
            Este ano a revista Crescer criou o Troféu Monteiro Lobato que foi entregue a Fernando Vilela em festa comemorativa na entrega de prêmios aos autores dos livros selecionados. Fernando Vilela, escritor e ilustrador brasileiro  foi o ganhador do troféu. O livro de Vilela – “Os heróis do tsunami”  (Ed. Brinque-Book) consta da lista dos 30 Melhores Livros Infantis do ano da revista Crescer.  

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Augusto dos Anjos para ler,recitar e cantar


Augusto dos Anjos para ler, recitar e cantar
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária FNLIJ/PB)

            De onde ela vem?! De que matéria bruta
            Vem essa luz que sobre as nebulosas
            Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
(Augusto dos Anjos. A Ideia).

Depois de quatro dias vivenciando intensamente a poesia de Augusto dos Anjos durante o I CONALI – Congresso Nacional de Literatura (3 a 6 de junho), o correio nos traz o livro “O Canto das Musas – poemas para conhecer, ler, recitar e cantar”, de Aline Evangelista Martins, Cibele Lopresti Costa e Péricles Cavalcanti, com organização de Zélia Cavalcanti. O livro foi  publicado  pela  Cia. Das Letras (2012) e inclui CD com poemas musicados por Péricles Cavalcanti.
Destinado aos jovens, este livro irá agradar não somente a este tipo de público, mas a todos aqueles que gostam de poesia e música.   Vinte e três poemas, todos de domínio público, de autores brasileiros e portugueses, estão distribuídos nas páginas do livro.   Augusto dos Anjos está presente com dois sonetos “A Ideia” (musicado) e “O morcego” (recitado).
Os textos cantados e recitados nos levam a um passado distante, parece que estamos em um grande sarau nas últimas décadas do século XIX e primeiros anos do século XX. Em nossa imaginação, podemos visualizar a casa-grande do Engenho Pau D´Arco sendo palco dessas recitações com os filhos de Dr. Alexandre Rodrigues dos Anjos declamando poemas de Castro Alves, Gonçalves Dias e sonetos de Camões.
 Os poetas escolhidos para interpretação musical foram: Gregório de Matos, Luiz Vaz de Camões, Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Castro Alves, Ricardo Reis, Alphonsus de Guimaraens, Fernando Pessoa, Casimiro de Abreu, Augusto dos Anjos, Machado de Assis e Antero de Quental. Para as récitas: Camões, Machado de Assis, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Augusto dos Anjos, Gregório de Matos, Fernando Pessoa, Antero de Quental, Alphonsus de Guimaraens, Gonçalves Dias e Castro Alves. Notamos que houve repetição dos poetas na escolha das récitas.  
Cada poema vem acompanhado de análise estilística e interpretativa, de informações sobre a vida do autor, o contexto histórico e o período literário em que a obra foi escrita. Um glossário com explicações sobre termos poéticos aparece nas últimas páginas do livro.
Péricles Cavalcanti, responsável pela parte musical, apresenta notas sobre a gênese das composições e afirma que às vezes teve que mudar de opinião e cita os poemas de Augusto dos Anjos. Ele pensou em musicar, inicialmente, “O morcego”, por sua estranheza e singularidade, mas examinando, de maneira cuidadosa, descobriu que “A Ideia” proporcionava uma fluência natural para a entoação resultante do texto. Assim, a parte musical ficou com “A ideia” e “O morcego” foi para a récita.     
            O soneto “A Ideia” exigiu muitas leituras das autoras. Ao lado da pesquisa sobre o vocabulário científico, aspectos fonéticos e estilísticos, elas se detiveram no momento histórico e social em que Augusto viveu e as correntes estéticas que podem tê-lo influenciado.
            O tema é a investigação da origem da ideia. “De onde ela vem?!” É a pergunta que aparece no primeiro verso do primeiro quarteto e se prolonga por toda estrofe. As interrogações se entrecruzam com as exclamações e tudo parece muito nebuloso. O vocábulo “absconso”, presente no primeiro terceto, cujo significado é oculto, misterioso, comprova que não é fácil entender de onde vem a ideia.
            A sonoridade poética do soneto traz a marca da recorrência aos sons consonantais que interrompem a saída natural do ar, isso faz com que a língua trave para a emissão do som. Aqui, não encontramos a musicalidade livre e natural de um Bandeira ou Cecília Meireles, poetas que usavam, com muita frequência, o uso dos sons vocálicos.   
            Quanto ao interesse que a obra de Augusto dos Anjos despertou e ainda desperta nos leitores, Aline e Cibele atribuem a “um estilo único, que traz palavras e temas inusitados para o gênero poético.” (p.99). O vocabulário científico utilizado pelo poeta produz imagens chocantes.
             Para o leitor adulto, este livro é um repositório de velhas lembranças, das leituras feitas na adolescência nos manuais de preparação para o exame de admissão (passagem do antigo primário para o ginásio). Os mais jovens terão a oportunidade de ler, ouvir e cantar ao som de ritmos variados – samba-canção, hip-hop, bossa-nova, balada pop, rock, valsa, folk.
            Para concluir, é válido repetir a frase de Charles Llody, transcrita na coluna de João Manoel de Carvalho (Contraponto: 08 a 14 de junho de 2012 – A - 3): 
            “Gostaria de mudar o mundo com a beleza da música.”


            O PRAZER PELA LEITURA
            (Talita Oashi)

            A leitura surgiu na minha vida através do amor que minha avó sempre teve pelos livros e pelo mundo encantado do faz de conta. Por ser professora, ela despertou em mim, ainda pequena, uma paixão pela arte de ler.
            Comecei minha experiência por Monteiro Lobato, com seus personagens adoráveis e astutos, naquele mundo, fantasiado por uma menininha espevitada chamada Emília. Em seguida, veio Fernanda Lopes de Almeida, Ana Maria Machado – “Bisa Bia, Bisa Bel”, Ziraldo, os contos envolventes de Machado de Assis e todo imenso universo jurídico que ainda me persegue nos dias de hoje.
            Sem sombra de dúvidas, houve aquele livro que me fascinou, que passou de um simples livro de cabeceira, - “O menino maluquinho”. Era um personagem alegre, tagarela, criativo e que não parava quieto. Acredito que me inspirava nele para aprontar as minhas travessuras.
            Com o avanço da tecnologia, a magia de leitura foi se perdendo aos poucos, pois muitas pessoas deixaram de lado o livro e o substituíram por um simples filme. Porém, nada mais se compara às emoções que sentimos quando criamos e imaginamos o cenário de um livro em nossas mentes.
            Contudo, mesmo diante de todas essas mudanças, a leitura será sempre essencial. É algo muito importante para o desenvolvimento do ser humano. É por meio dela que enriquecemos nosso vocabulário, adquirimos conhecimentos, ampliamos horizontes e, acima de tudo, obtemos um grande prazer. 
             
           











domingo, 10 de junho de 2012

LER: UM PRAZER APAIXONANTE


LER: UM PRAZER APAIXONANTE
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
            A música pode ser a arte mais universal, o teatro, o cinema e as artes plásticas podem nos fazer viajar, mas a literatura nos permite ser mais do que meros espectadores.
                 (Heloísa Seixas. O prazer de ler).

            Heloísa Seixas, jornalista e escritora, já escreveu vários livros de contos. Alguns desses contos reunidos em livros foram publicados nas colunas de jornais. Em 2009, com o livro “Uma ilha chamada livro: contos mínimos sobre ler, escrever e contar” (Ed. Record, 2008), a autora  ganhou o Prêmio” Melhor Livro Para Jovem” da FNLIJ. Em 2011, pela Editora Casa da Palavra, dentro da mesma temática, publicou “O prazer de ler”, reunião de dez pequenos textos, que falam sobre a paixão e o amor aos livros. 
            Com o título – “Livros com alma”, a escritora discorre a respeito dos livros que moram nos sebos. Eles têm personalidade própria.   Muitas vezes os antigos donos deixaram registros em suas páginas: dores, alegrias, esperanças e inquietações. Folheando livros antigos, deparamo-nos com dedicatórias, datas, uma caligrafia delicada e floreada que remete a um alguém que não conhecemos. Há livros que trazem observações ao lado das páginas, em outros encontramos retratos, convites de casamento, bilhetes, contas, anotações diversas. Pertenceram a pessoas que se foram, mas ficaram suas marcas nas páginas desses livros com alma.                         
            A respeito de sebos, Heloísa retoma a pertinente observação de Márcio Moreira Alves, um apaixonado por sebos.  Nos Estados Unidos e na Europa, os maiores antiquários de livros pertencem aos judeus, isso ocorre porque o povo judeu tem uma forte relação com a palavra impressa. “São o povo do livro”. No Brasil atual, encontramos judeus que são donos de livrarias e editoras. A “Livraria Cultura” e a editora “Companhia das Letras” pertencem a judeus.
            Há outros lugares com alma – são as bibliotecas. Uma grande biblioteca nos dá a sensação de um lugar sem fim. Ao visitar a biblioteca da Universidade de Salamanca, fundada em 1218, Heloísa teve o privilégio de percorrer corredores com estantes cheias de livros muito antigos. Atualmente, esses “objetos sagrados” não estão acessíveis ao público, olham-se os livros através de “um aquário de vidro”, mas como fez uma visita na companhia de um grupo da universidade teve a oportunidade de passear no meio de exemplares raríssimos. Sentiu-se dentro da biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges.
            Que tal uma visita a antigas bibliotecas? O Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, por seu estilo arquitetônico rebuscado, “parece mesmo um templo”. A imponência da Biblioteca Nacional, também situada no Rio, plantada no coração da Cinelândia, impressiona pelas paredes de mármore, os gradis trabalhados, os grandes lustres e os vitrais que refletem os raios de sol no entardecer. Em João Pessoa, temos o prédio da Biblioteca Pública na Rua General Osório com uma bonita arquitetura. Bibliotecas são templos sagrados, exigem muito respeito.
            O último artigo traz uma lista de livros que a autora levaria para uma ilha deserta. São 68 títulos, compreendendo literatura de língua inglesa, francesa, brasileira e portuguesa. Após a citação de cada livro, vem uma breve explicação sobre o conteúdo.  Não me atrevo a tanto, elaborei uma pequena lista, contendo os dez livros de literatura infantojuvenil, todos de autores brasileiros, que levaria para uma ilha deserta.      
1.    Memórias da Emília. Monteiro Lobato.
Este livro atrai pela irreverência da boneca Emília que tudo contesta, tudo questiona. Emília é uma boneca inteligente e dominadora.  
2.    Histórias de Alexandre. Graciliano Ramos
As histórias “façanhudas” de um mentiroso (Alexandre)  encanta o publico ouvinte que aplaude e faz de conta que acredita.
3.    Histórias da velha Totônia. José Lins do Rego
Lins do Rego recriou quatro histórias de encantamento que povoavam o imaginário dos meninos de engenho do início do século XX.  
4.    A fada que tinha ideias. Fernanda Lopes de Almeida
A autora foi buscar uma fadinha bem inteligente que passa esta lição:  estudar é também brincar.
5.    O menino maluquinho. Ziraldo
O menino maluquinho criado por Ziraldo tem encantos mil – olho maior do que a barriga, fogo no rabo, vento nos pés e pernas que davam para abraçar o mundo.
6.    Bisa Bia, Bisa Bel. Ana Maria Machado.
Passado, presente e futuro se entrecruzam nesta bonita história de Ana Maria Machado. Bisa Bia é passado que se torna presente na imaginação da menina Bel.  
7.    Sete cartas e dois sonhos. Lygia Bojunga Nunes
A arte é o assunto dominante deste livro que fala sobre amor e morte, sobre suicídio, tema considerado tabu no campo da literatura infantil. Com sutileza, a autora trata do desaparecimento do pintor. 
8.    A caligrafia de Dona Sofia. André Neves
Dona Sofia era uma professora aposentada que resolveu revolucionar a sua pequena cidade com uma atitude inovadora – mandava cartões para os habitantes com poemas de poetas brasileiros e portugueses. Aqueles que não se tornaram poetas começaram a gostar de poesia.
9.    Para criar passarinho. Bartolomeu Campos de Queirós.
Constituído de pequenos capítulos com apenas um parágrafo, cada capítulo é um hino de louvor à poesia.
10. Romances de cordel. Ferreira Gullar.
Ferreira Gullar reúne quatro histórias verdadeiras de homens e mulheres que lutaram contra a opressão, contra o regime totalitário que dominou o Brasil durante a ditadura militar.   

A lista poderia ser mais longa, fica para uma próxima oportunidade.