terça-feira, 21 de outubro de 2008

marc chagall e suas imagens aladas



Marc Chagall e suas figuras aladas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

“Só é minha
a terra que está
em minha alma.” (...)
(Marc Chagall. Trecho do poema Minha Terra).

Marc Chagall nasceu em 1887, na cidade de Vitebsk, na Rússia. Seu nome verdadeiro era Moshe Segall, mais tarde adotou o nome artístico de Marc Chagall e assim ficou conhecido no mundo das artes plásticas.
Embora tenha vivido grande parte de sua vida fora da Rússia, o bairro judeu de Vitesbsk , sua cidade natal, os músicos, os rabinos, cabras, bois e galinhas estão sempre presentes em seus quadros e murais. Pessoas, animais, objetos são retratados como figuras aladas.
Para conhecer mais sobre a vida aventurosa do precursor da pintura surrealista, encaminhamos o leitor para o bonito livro de Bimba Landmann Como me tornei Marc Chagall (Editora SM, 2007).
Bimba Landmann se utilizou do livro autobiográfico de Chagall (Minha Vida) e conta a história deste pintor que conseguiu alcançar sucesso na França e nos Estados Unidos, recriando o mundo através da pintura. Chagall também escreveu poesias.
Um pintor com alma de poeta, assim o romancista Henry Miller se referia a Marc Chagall.
Certa vez perguntaram a Chagall porque ele pintava cabras e peixes que voavam, violinistas de rosto verde trepados em telhados, casas que boiavam no céu de cabeça para baixo e ele respondeu de forma poética:
“Pintei meu mundo, minha vida
aquilo que vi e aquilo que sonhei:
pintei minha Rússia querida,
a Vitesbsk onde nasci,
o bairro dos judeus pobres onde cresci,
assim como os via quando era criança,
quando meu nome era Moshe Segall”.
Chagall morreu com 97 anos e morou muito anos na França. Em 1963, atendendo a um convite do governo francês, pintou o teto da Ópera de Paris. A respeito desse fato, Jude Welton, no livro Marc Chagall (Ed. Ática, 2006), afirma que alguns críticos foram contra a idéia de um judeu russo decorar esse monumento nacional francês, outros consideravam que a arte moderna era inadequada para um edifício do século XIX. Chagall estava com 77 anos. Quando a pintura ficou pronta, todos concordaram que o resultado foi uma obra-prima. Um crítico escreveu:
“Dessa vez, os melhores lugares do teatro são os mais altos”.
Se livros são destruídos nas guerras, nos regimes totalitários, os artistas (pintores) e seus quadros também são vítimas de perseguições.
Em 1933, foi organizada, na Basiléia, Suíça, uma grande retrospectiva em homenagem a Chagall e, nessa mesma época, na Alemanha, seus quadros foram queimados por ordem do governo nazista. Eram obras de um judeu, foi a justificativa.
Os déspotas não entendem que a Arte desconhece as fronteiras de raça, credo. O Belo deve ser admirado por todos, independente de ideologias.
Chagall era religioso, temente a Deus, e cenas bíblicas aparecem sempre na sua pintura, nos vitrais. Um dos seus quadros mais conhecidos traz o título Solidão. Nesse quadro, Chagall retratou uma vaquinha tranqüila, deitada junto a um violino, casas russas em um plano de fundo e uma enorme figura de um judeu em primeiro plano. O judeu se apresenta como uma pessoa melancólica, pensativa, segurando um rolo de Torá, o livro sagrado dos judeus. Complementando a cena, vemos um anjo voando. Anjos são imagens recorrentes nos quadros de Chagall.
Os vitrais das igrejas foram outra paixão de Chagall e o pintor só começou a se dedicar a essa arte aos 70 anos. O vitral da janela da Catedral de Chichester foi terminado quando Chagall tinha mais de 90 anos.
O crítico brasileiro Ferreira Gullar escreveu um livro que analisa, com bastante lucidez, obras de arte de artistas nacionais e internacionais e Chagall é objeto de análise de um artigo do crítico de arte. O livro de Gullar foi editado pela Cosac&Naify em 2003 e traz o título de “Relâmpagos”. É leitura essencial para quem gosta de Arte.
Para conhecer um pouco da obra de Marc Chagall, indicamos esses dois livros: “Como me tornei Marc Chagall” (Ed. SM) e “Marc Chagall” (Ed. Ática). São livros indicados para um público juvenil e para todo leitor que gosta de Arte. São livros bem escritos, com boa ilustração e que apresentam um pouco da vida e da obra artística desse cidadão do mundo.
No Brasil, é possível admirar alguns quadros de Chagall nos museus MAC-USP, São Paulo; MASP – São Paulo; MAB FAAP – Museu de Arte Brasileira, São Paulo; MNBA – Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, MAM – Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador.
Se você for a uma dessas cidades brasileiras (São Paulo, Rio e Salvador), aproveite para visitar os museus e procure ver os quadros de Marc Chagall. Enquanto a viagem não chega, a leitura desses dois livros vão suprir a ausência do que os olhos não vêem.
(Em tempo): O crítico brasileiro Antonio Candido, que teve alguns aspectos de sua obra analisada no artigo – Antonio Candido – um mestre da crítica literária no Brasil (O Norte, Show, C4, 02 de agosto de 2008), recebeu, no dia 20 de agosto, o Troféu Juca Pato, Intelectual do Ano, da União Brasileira de Escritores de São Paulo.




















sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O gosto de brincar com as palavras





O gosto de brincar com as palavras

 (Neide Medeiros Santos – Ensaísta e Crítica literária – FNLIJ/PB)

 

  Palavras

Gosto de brincar com elas.

Tenho preguiça de ser sério.

(Manoel de Barros. Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo).

 

Manoel Wenceslau Leite de Barros, ou simplesmente Manoel de Barros como é conhecido nacionalmente, nasceu em Cuiabá, em 1916, estudou e formou-se em Direito no Rio de Janeiro e por lá trabalhou durante muitos anos.  Na década de 60, aposentado das atividades profissionais, voltou para seu estado natal. Atualmente mora em uma fazenda nas proximidades de Campo Grande.

A carreira literária do poeta teve início na década de 30, com a publicação de livro “Poemas concebidos sem pecado” (1937). Somente nos anos 60, livre de outros compromissos, o poeta se dedicou às atividades agrícolas e, de maneira mais intensa, à poesia.

Ricardo Alexandre Rodrigues, na sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2006, com o título A Poética da Desutilidade. Um passeio pela poesia de Manoel de Barros afirma que, embora tenha publicado vários livros entre os anos 40 e 70, o reconhecimento do público só aconteceu por volta dos anos 80. O ensaísta lembra que as composições de Manoel de Barros nos despertam para reflexões em torno da poesia e de suas brincadeiras com as palavras. 

 Se fizermos um levantamento em torno da produção literária de Manoel de Barros, iremos constatar que a partir dos anos 80 o poeta intensificou a publicação de livros, mas foi em 2000 que o poeta começou a escrever livros destinados ao público infantil. Será que Exercícios de ser criança (2000), O Fazedor de Amanhecer (2001), Cantigas para um passarinho à toa (2003) e Poeminha em língua de brincar (2007) são livros para crianças? Sabemos que os rótulos nem sempre são fiéis ao conteúdo do texto literário, por isso preferimos dizer que, nesses livros, afloram sentimentos inerentes à criança e o leitor infantil se identifica com o poeta que sabe dar voz às pedras, aos passarinhos, às árvores.

 Exercícios de ser criança recebeu o Prêmio Odylo Costa filho (2000),  na categoria de poesia, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e Prêmio da Academia Brasileira de Letras nesse mesmo ano. As belíssimas ilustrações da família Dumont para esse livro formam um rendilhado perfeito entre texto (poemas) e tecido (bordados das irmãs Dumont, sob desenhos de Demóstenes Vargas).

O Fazedor de Amanhecer, com ilustrações de Ziraldo, ganhou em 2002 o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria livro de ficção; agora, em 2008, Poeminha em língua de brincar, com ilustrações de Martha Barros, ganhou o Prêmio FNLIJ Odylo Costa filho – O Melhor Livro de Poesia. É sobre este último livro de Manoel de Barros que iremos tecer algumas considerações.

Em Poeminha em língua de brincar, o poeta escolhe, cuidadosamente, cada palavra e vai tecendo uma renda que às vezes é labirinto, como neste exemplo:

Gostava mais de fazer floreios com as palavras do que de fazer idéias com elas.

 Outras vezes é renascença:

 Pois frases são letras sonhadas, não têm peso,

nem consistência de corda para agüentar uma rã em cima dela.

O labirinto é um bordado feito à mão, cheio de floreios; a renascença é uma renda tecida ponto por ponto, muito fina, delicada, leve, muito leve, quase sem peso.

Como as bordadeiras nordestinas que brincam com as linhas e os desenhos, construindo rendas e sonhos, o poeta brinca com as palavras e constrói poemas.  

 Martha Barros fez as ilustrações do livro. A capa se assemelha a um rio com peixes que flutuam em águas alaranjadas, ou será um pauta com notas musicais, povoada de meninos e passarinhos? Talvez o menino travesso saiba responder.

Nas páginas internas do livro, as ilustrações que acompanham os poemas guardam afinidades com desenhos e letras de um menino aprendiz.

As duas linguagens (verbal e pictórica) se enlaçam, se abraçam, caminham pari-passu formando um único texto, rico em simbologias. O poeta e a ilustradora têm uma maneira particular de “transver” o mundo.

Manoel de Barros, em entrevista concedida ao Jornal do Brasil  (Caderno Idéias, 30 de março de 2002) afirmou que trabalha cada letra, cada sílaba, cada palavra para conseguir certa harmonia para o verso ou a palavra. O apuramento na escolha de cada palavra, cada verso em Poeminha em língua de brincar comprova que estamos diante de um poeta comprometido com a linguagem e consciente do fazer poético.  

terça-feira, 14 de outubro de 2008

DILA - O ARTISTA DO POVO, O POETA DA MAO


DILA – O ARTISTA DO POVO, O POETA DA MÃO 
Neide Medeiros Santos 

O poeta popular Dila adota vários nomes – José Soares da Silva, José Cavalcanti Ferreira e Dila José Ferreira. Sua biografia vem envolvida de um certo mistério: antes de se estabelecer em Caruaru (PE), ele afirma que teria sido um dos integrantes do grupo de Lampião ou irmão de Lampião. Nasceu em 1937, na cidade de Bom Jardim (PE), sinal de que a sua afirmativa é fruto de fértil imaginação.
Como poeta popular, já publicou inúmeros folhetos, quase todos voltados para a temática do cangaço. Na sua tipografia, que funciona na casa onde mora com a mulher e os filhos, em Caruaru, Rua Antônio Satu, 36, conserva, sobre Lampião e cangaceiros, exemplares de folhetos de sua autoria que somam mais de cem títulos. Em alguns folhetos, além do seu próprio nome, Dila José Ferreira da Silva, acrescenta outros, como Barba Nova, no folheto Zé Baiano; e Marechal do Cordel do Cangaço, no folheto Viver de Cangaceiro.
O professor e pesquisador de literatura popular, Roberto Câmara Benjamin(1), um profundo conhecedor da arte do xilógrafo, faz uma pertinente observação a respeito das ilustrações que aparecem nas capas de seus folhetos: Dila se auto-retrata nas capas dos folhetos em trajes de cangaceiro. Examinando mais de cinqüenta folhetos do autor, atestamos a validade da observação do pesquisador. No livro Guriatã: um cordel para menino (2), livro de poemas do poeta pernambucano Marcus Accioly, Dila faz um auto-retrato em uma das páginas do livro e, nesse auto-retrato, não está vestido de cangaceiro, o que constitui uma raridade.
Como poeta da palavra, Dila está distante de Leandro Gomes de Barros ou mesmo de Manoel Camilo dos Santos: falta-lhe sopro poético. Escreve versos, geralmente em sextilhas, e as histórias não obedecem a uma seqüência lógica. Aproveita os versos das capas dos folhetos para fazer propaganda de sua tipografia e de outros estabelecimentos comerciais de Caruaru.
É como poeta da mão, e aqui usamos uma expressão de Bachelard (2) que o trabalho de Dila se destaca. No ensaio Matéria e Mão, Bachelard analisa o trabalho do gravador e averba: A gravura é a arte que não pode enganar. É pré-histórica, pré-humana.
Os desenhos feitos por Dila apresentam as características mencionadas por Bachelard – são primitivos e ligam-se a um tempo pré-histórico. Os animais (bois, touros,cães) e os instrumentos de corte ( faca, facão, quicé, lâminas), que ilustram o livro Guriatã: um cordel para menino, trazem a marca da gravura primitiva.
O professor Roberto Benjamin (3), na comunicação apresentada no IX Encontro Nacional de Pós-Graduação em Letras e Lingüística, com o título Em torno do texto- aparatos dos livros populares - Dila editor popular, chama-nos a atenção para algumas técnicas empregadas pelo xilógrafo que o tornam um artista singular. Dentre as técnicas inovadoras, Benjamin destaca a introdução da borracha como matéria prima em substituição à madeira. Sem recorrer a sofisticados processos químicos, Dila obtém resultados semelhantes à impressão off-set, daí Benjamin denominá-la folk-off-set. Outra técnica utilizada por Dila na produção de xilogravuras é a impressão das capas de folhetos e álbuns em cores. Benjamin atribui esse recurso à grande aceitação popular dos folhetos editados pela Luzeiro de São Paulo, com capas em policromia industriais. Dila procurou competir com a tipografia Luzeiro, oferecendo aos leitores de cordel capas também coloridas.
Em Guriatã: um cordel para menino, Dila não utilizou o recurso das cores. A xilogravura impressa em quase todas as páginas do livro segue o caminho tradicional ( preto e branco). O poeta da mão procurou traduzir plasticamente a linguagem verbal: Accioly vai descrevendo paisagens, animais, mitos populares e Dila vai procurando dar sopro de vida a esses seres que povoam a mata norte de Pernambuco. Podemos dizer, portanto, que houve uma feliz união entre os poemas de Accioly e a xilogravura primitiva do poeta da mão.

sábado, 4 de outubro de 2008

Linguagem poetica de Bartolomeu Campos de Queiros
















Artigo - A linguagem poética de Bartolomeu Campos de Queirós
"Do diálogo entre o sonhado e o desejo que se atreve é que inventamos a vida." (Bartolomeu Campos de Queirós)
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB
Bartolomeu Campos de Queirós já escreveu cerca de 50 livros. É um escritor de valor reconhecido no Brasil e no exterior, muitos de seus livros já foram traduzidos. Entre os prêmios internacionais recebidos pelo autor, destacam-se: Diploma de Honra IBBY (Londres), Prêmio Rosa Blanca (Cuba), Quatriéme Octogonal (França) e Finalista do Prêmio Andersen 2008 (IBBY, Copenhague). No Brasil, ganhou inúmeros prêmios e, mais recentemente, Jabuti (2008), com o livro "Sei por ouvir dizer" (Ed. Edelbra, 2007).
Mas o que será que torna este escritor tão querido e amado pelos leitores espalhados por diferentes regiões do Brasil?
Atribuímos a boa receptividade de seus livros à poeticidade da linguagem. Se o menino do dedo verde tinha o poder de transformar tudo que tocava em verde, Bartolomeu tem o poder de transformar toda e qualquer palavra em poesia.
O crítico Fábio Lucas, conhecedor dos meandros da literatura, define, assim, o texto desse escritor singular:
"O que há de invulgar no texto de Bartolomeu Campos de Queirós é uma leveza, uma transparência que não se traduz em superficialidade. Antes, constitui abertura para regiões profundas da comunicação poética. Ler o seu texto é envolver-se de imediato com a magia das palavras, é seduzir-se com a beleza e a musicalidade da prosa". (In: Longe do mar inventa-se um oceano).
Para o leitor que ainda não conhece os livros de Bartolomeu, recomendamos aqueles que têm o signo pássaro como motivo condutor - "Para criar passarinho" (Ed. Miguilim, 2000) foi considerado Altamente Recomendável pela FNLIJ/2001 e selecionado entre os cinco finalistas do Prêmio Jabuti - CBL/2001 e "Até passarinho passa" (Ed. Moderna, 2003) que recebeu, entre outros prêmios, FNLIJ - Prêmio Ofélia Fontes (2004), Prêmio da ABL e Menção Honrosa Jabuti (2004).
Com relação à comovente história "Até passarinho passa", podemos dizer que vem revestida de poeticidade, de lições de vida, de reflexões filosóficas. Se encontrar um amigo é encontrar um tesouro, o que dizer se esse amigo é cauteloso, constante, fiel? Como suportar a dor da partida desse amigo? De forma sutil, o autor leva o leitor a refletir sobre a efemeridade da vida, a alegria do encontro e a tristeza da partida.
Em 2007, Bartolomeu Campos de Queirós publicou três livros: "Para ler em silêncio (Ed. Moderna), "Sei por ouvir dizer" (Ed. Edelbra) e "O ovo e o anjo" (Ed. Global)".
"Para ler em silêncio" integra a série "A palavra é sua". Neste livro, o autor relata as experiências de um narrador-personagem quando criança e discorre sobre a arte de ouvir o silêncio, sobre o tempo da infância que desconhece ainda o ler e o escrever. Cada capítulo se inicia com um poema que se entrecruza com o texto em prosa e, diante de tanta beleza poética, o leitor perguntará: onde está a verdadeira poesia - na prosa ou nos versos? Está em tudo.
Há alguma coisa inusitada neste livro, depois da palavra FIM aparece um capítulo conclusivo de teor memorialista em que o narrador-personagem fala sobre as folhas do seu primeiro livro - "a parede da casa do avô" e as folhas do seu primeiro caderno - "os muros da casa do avô". (A casa do avô é tema recorrente em outros textos de Bartolomeu). O menino cresceu, freqüentou a escola e houve o encontro com os livros de verdade - "O livro de Lili", na escola primária; os de literatura, no ginasial, aí o menino grande criou gosto pela leitura e conclui: "Hoje todo livro literário me alfabetiza". (p. 64)"Sei por ouvir dizer" (Prêmio Jabuti 2008), na categoria infantil, apresenta como protagonista uma senhora com três idades distintas: uma idade passada, uma idade presente e outra idade futura, ela tinha três óculos - um para ver o longe, outro para ver o perto e um terceiro para procurar os dois óculos. Havia um menino no meio dessa história que fez uma visita a casa dessa senhora e resolveu ficar com os três pares de óculos e um dia eles também desapareceram, mas o menino já tinha aprendido a olhar a vida.
Suppa fez as ilustrações do livro com um colorido bem forte, vibrante, e predomínio da cor azul celeste. Em algumas ilustrações, a senhora está com os olhos fechados, em outras passagens os olhos estão bem abertos, instigantes, como se estivesse procurando algo perdido. Os óculos? O tempo?
No nível do parecer, é um livro jocoso, lúdico e as ilustrações seguem esse caminho; no nível do ser, apresenta uma proposta filosófica, é uma reflexão sobre a própria vida.
"O ovo e o anjo" é constituído de pequenos poemas que trazem a marca do lúdico, mas um ludismo que, como bem afirma Peter O´Sagae, em texto publicado em Dobras da Leitura, "desperta espantos do ninho das palavras - e, então vai acalentando o cotidiano e a imaginação como se fossem feitos da mesma matéria.".
Helena Alexandrino ilustrou o livro com cegonhas, anjos e paisagens tingidas de verde-água. A leveza do vôo dos pássaros e dos anjos combina com a leveza poética dos versos.
A ensaísta Stella de Moraes Pelllegrini, no livro "Caminhos e encruzilhadas: percursos poético e político de Bartolomeu Campos de Queirós, da formação do leitor à formação de leitores" (Ed. RHJ, 2005), ressalta que os textos de Bartolomeu Campos de Queirós são poéticos, políticos e revelam uma profunda preocupação com a formação de leitores e a construção de uma escola leitora.
Depois desses comentários certamente o leitor vai bisbilhotar livrarias, bibliotecas, estante da sua escola, casa do (a) amigo (a), e procurar livros desse escritor/passarinho e, com toda certeza, irá encontrá-los. Eles (os livros) têm alma, passeiam por livrarias, bibliotecas, por sebos culturais e pelas casas daquelas pessoas que gostam de poesia, estão apenas esperando por um leitor que leia em silêncio, entre "o sonho e o desejo

sábado, 27 de setembro de 2008

Uma triplice aliança

Uma tríplice aliança de escritores/leitores – Ana Maria Machado, Luiz Ruffato e Moacyr Scliar
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)
“Como leitores, começamos todos mais ou menos da mesma maneira, lendo um ou outro livro por indicação, por curiosidade ou por mero acaso. Mas, a partir de determinado momento, começamos por meio de nossas próprias decisões.”
(Luiz Ruffato. Literatura como alumbramento).
A editora SM convidou três bons escritores/leitores (Ana Maria Machado, Luiz Ruffato e Moacyr Scliar) para organizar uma antologia de textos curtos direcionados ao jovem leitor, e o resultado foram três excelentes livros – “Leituras de escritor” (Editora SM. Comboio de Cordas, 2008). Cada livro contém 14 pequenas histórias entremeadas por breves comentários sobre autor e obra selecionada.
A apresentação de Ana Maria Machado, traz o título “De memória, com afeto”. De maneira sucinta, Ana Maria fala sobre sua carreira de leitora voraz e confessa que prefere ler romance, ensaio e poesia e que relutou na escolha dos contos – “é um gênero muito difícil porque só admite a perfeição”. (p. 7)
A respeito do critério adotado para a seleção, a escritora explica que funcionou, inicialmente, a memória, acrescido depois da admiração. Fez questão de escolher os contos que foi lembrando como inesquecíveis.
“Literatura como alumbramento” é o título da apresentação de Luiz Ruffato que revela as dificuldades financeiras de sua família quando ele era criança e o pouco contato com os livros nessa fase de formação do leitor; era preciso ajudar o pai no orçamento doméstico, felizmente havia uma biblioteca na sua escola e este local, pouco freqüentado pelos alunos, foi o refúgio das suas primeiras leituras.
Ruffato acrescenta que depois as coisas mudaram, ele leu muito ao longo da vida e cita três autores selecionados para a antologia que se tornaram seus companheiros constantes: Machado de Assis, Anton Tchekhov e Luigi Pirandello.
“Do mito ao conto: o fogo das histórias” foi o título dado por Moacyr Scliar para sua apresentação. O escritor discorre a respeito de uma exposição fotográfica que circulou pelo mundo que se chamava “A família do homem”. Havia fotografias de vários lugares, mas uma chamava a sua atenção – numa pequena aldeia africana, à noite, ao pé de uma fogueira, um homem muito velho falava aos ouvintes, todos estavam sentados no chão. Era interessante observar como as pessoas pareciam atentas à fala daquele orador africano, encantados com o que ele transmitia.
Diante desse quadro descrito por Moacyr Scliar, perguntamos: O que estava fazendo aquele narrador? Certamente contando histórias para deleite do auditório. Era um “griot” ou “arokin” (um contador de histórias) que tinha poderes de encantar os ouvintes por meio da palavra.
Quanto ao critério da seleção dos contos, o organizador explica que foi uma escolha inteiramente pessoal e que é fanático por contos há muito tempo. Procurou reunir aqueles que mais o impressionaram, mais o comoveram.
Depois dessas considerações, vejamos os livros como um todo. Machado de Assis é uma unanimidade – ele está presente na antologia organizada pelos três escritores/leitores. Ana Maria escolheu o conto “Pai contra mãe”; Ruffato, “Conto de escola” e Scliar, um leitor que dialoga muito com Machado de Assis, selecionou “Missa do galo”.
Os textos vêm acompanhados de uma pequena biografia do autor e comentários sobre o conto apresentado. Os escritores/leitores têm uma maneira peculiar de apresentar os contistas e as observações sobre os contos são bem distintas.
Ana Maria Machado afirma que o conto, “A última folha”, de O. Henry, traz o ambiente cultural urbano do bairro de Greenwich Village, em Nova York, muito antes de se tornar uma atração turística. O. Henry revela certo olhar de ternura sobre suas personagens e, por meio de um “truquezinho no final do conto”, surpreende o leitor.
“Paco Yunque”, de César Vallejo, escritor peruano, integra a antologia de contos de Luiz Ruffato. Este texto foi extraído do livro “Escalas melografiadas” e, na época (1923), foi rejeitado pelos editores, hoje é leitura obrigatória nas escolas peruanas.
Qual teria sido o motivo tão forte para este conto ser rejeitado? “Paco Yunque” é a história de um menino maltratado por um outro menino poderoso e arrogante que lhe faz lembrar “todo o tempo sua função subalterna” (p. 104). É um texto de denúncia que deixa no leitor um sentimento de revolta e um desejo de mudança. Nos anos 20, do século passado, era considerado um conto subversivo.
Scliar, um apaixonado pela obra de Machado de Assis, escolheu um conto que encantou e encanta ainda todos os leitores. “Missa do galo” já proporcionou muitas releituras, recriações de escritores, professores e alunos.
Scliar considera-o um “conto clássico” cheio de insinuações e subentendidos. O clima envolvente da narrativa permanece inalterado, o passar dos anos não diminuiu o interesse pela trama bem urdida do seu criador.
Cada escritor/leitor selecionou 14 contos, perfazendo um total de 42. Dentro desse universo seleto, escolhemos um conto que representasse bem cada um dos organizadores da antologia.
O conto “A última folha”, por seu clima de mistério, seu caráter premonitório, condiz com Ana Maria Machado. Não foi uma escolha aleatória, não se deveu só a memória, houve uma empatia afetiva.
Ruffato apresenta, em seus textos ficcionais, personagens sofridas e abandonadas, sua prosa guarda semelhanças com a prosa graciliânica e “constrói seu texto com tintas políticas fortes”. Para representar Ruffato, nada melhor do que o conto “Paco Yunque”.
Vincular Scliar ao conto “Missa do galo” é quase uma obrigação. Scliar tem retrabalhado textos machadianos com tanta mestria que conseguiu prêmios como estudioso e pesquisador da obra de Machado de Assis. “O menino e o bruxo” e “Ciumento de carteirinha” atestam o que afirmamos.
Ainda uma palavrinha: a tríplice aliança não objetivou provocar nenhuma guerra, nenhuma defesa contra os inimigos, mas proporcionar uma agradável viagem através da boa leitura.

sábado, 20 de setembro de 2008

Livros à espera do leitor


Artigo - Livros à espera do (a) leitor (a)
Ó Bendito o que semeia/livros, livros à mão cheia/e manda o povo pensar!/ O livro caindo n´alma é gérmen - que faz a palma/ é chuva - que faz o mar. (Castro Alves)
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB
Ana Maria Machado é uma escritora múltipla, escreve livros para crianças e jovens, romances e livros teóricos sobre leitura e literatura. "Balaio: livros e leituras (Ed. Nova Fronteira, 2007), objeto de nossa atenção, se enquadra na linha dos teóricos".
Na apresentação do livro, com o título "Começo de conversa", Ana Maria Machado afirma que é o quarto volume em que reúne textos de palestras e artigos esparsos, acrescido de seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, antes divulgado apenas na internet.
Marisa Lajolo, responsável pela orelha do livro, destaca dois momentos que considera muito belos nesse universo do livre pensar: o momento em que a literatura infantil brasileira é objeto de uma reflexão muito original, aproximando a literatura infantil brasileira da literatura latino-americana não infantil e a parte em que o conjunto de obras e de autores perpetua o imaginário e a identidade brasileira. "Balaio: livros e leituras" está dividido em 16 textos que se agrupam em quatro blocos: "A hora da escrita, Quem somos nós? Crescendo com os livros e Instantâneos".
No artigo "Pelas frestas e brechas: importância da literatura infanto-juvenil brasileira", resultado de uma palestra proferida na Academia Brasileira de Letras em maio de 2005, a ensaísta relata a sua participação no júri Hans Christian Andersen em 1978 e o grande volume de livros que leu durante o período de dois anos. Convém lembrar que este prêmio, na área da literatura infanto-juvenil internacional, corresponde ao Nobel da Literatura.
Investida, naquele momento, na função de crítica literária, Ana Maria Machado chegou à "súbita percepção iluminadora": a literatura infantil brasileira do século XX, por sua originalidade e qualidade, não ficava nada a dever aos livros dos autores estrangeiros. A conquista do prêmio Andersen, alguns anos depois por Lygia Bojunga Nunes e pela própria Ana Maria Machado, comprova que ela estava com razão - a "súbita percepção iluminadora" vinha revestida de um caráter premonitório.
Quais seriam os fatores que contribuíram para que a nossa literatura infanto-juvenil atingisse a sua maioridade? Não tivemos a tradição no século XIX de autores como Robert Louis Stevenson, Beatriz Potter, C.S. Lewis e outros nomes emblemáticos, no entanto a literatura infanto-juvenil brasileira do século XX despontava como uma das mais brilhantes e criativas.
E vem a resposta de quem entende do risco do bordado. Vários foram os fatores que motivaram o apuramento desse tipo de literatura, um deles pode ser atribuído à repressão política dos anos da ditadura militar. Heloísa Buarque de Holanda, em um número especial da revista "Tempo Brasileiro", com uma retrospectiva analítica sobre a década de 70, apresentou uma hipótese crítica de rara agudeza: os intelectuais brasileiros, pressionados pelo regime autoritário, saíram em busca de novas expressões, "de brechas" e surgiram a poesia do mimeógrafo, letras das canções e a literatura infantil.
A Revista Recreio, a criação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1969), a instituição de prêmios para livros na área de literatura infanto-juvenil contribuíram para a divulgação de novos escritores.
Ana Maria Machado não esquece a importância exercida por Monteiro Lobato, muito antes do boom da literatura infantil brasileira. Lobato sabia transitar do real para o fantástico com a naturalidade de um grande sábio, deu ênfase ao falar brasileiro coloquial e instigou, nas crianças, o amor à literatura clássica. Abriu o caminho para a futura geração de escritores.
Não poderíamos deixar de registrar nesse belo ensaio um aspecto ressaltado pela autora: "o essencial da literatura infantil não deve ser o infantil, mero adjetivo. Deve ser a literatura, isso sim, substantivo". (p. 120)
Outro texto que merece atenção é o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, apresentado, pela primeira vez, em livro. O discurso começa e termina com poesia. Inicialmente, a autora improvisa uma canção à moda dos cantadores populares (oitava) e abençoa e agradece essa hora encantada. Na conclusão, apresenta o poema-canção de Chico Buarque de Holanda - "Tempo e artista", frisando que é necessário ter humildade e lembra "que a glória não passa de uma companheira das rugas e de um efeito do tempo que nos carrega". (p. 222)
Ana Maria Machado sucedeu, na ABL, a Evandro Lins e Silva, jurista e advogado consagrado no Brasil e grande amigo da escritora. Embora a cadeira tenha sido ocupada anteriormente por Luís Murat, Visconde de Taunay, Múcio Leão, Bernardo Elis, seu texto enfatiza a figura do jurista brasileiro e revela um profundo respeito e admiração pelo autor de "O Salão dos Passos Perdidos".
Há um fato relatado no discurso de posse que demonstra o grande apreço que a escritora tinha pelo jurista brasileiro. Em 1977, Ana Maria Machado foi processada, juntamente com seu editor, pelos herdeiros de Monteiro Lobato, que se sentiram atingidos por seu livro "Amigos Secretos" que homenageava, entre outros, o escritor paulista. Naquela ocasião, procurou André Martins, seu irmão e advogado para defendê-la e falou também com Técio Lins e Silva. Nessas idas e vindas aos escritórios dos advogados acabou conversando com Evandro Lins e Silva que se interessou pelo caso. Para se inteirar bem do assunto e do motivo da queixa dos familiares de Monteiro Lobato, Evandro Lins e Silva pediu o livro que Ana Maria havia escrito e depois lhe disse: "li-o com encantamento", rascunhou uma defesa brilhante, mas os advogados da editora preferiram entrar em acordo e a circulação do livro foi suspensa.
Cinco anos depois morre Evandro Lins e Silva. Ana Maria vai ao sepultamento e passou uma noite com um sono agitado, acordou de madrugada e lembrou-se de que sonhara com o advogado se despedindo dela e perguntando: "gostou da minha defesa?"
Para sua grande surpresa, no final desse mesmo dia, recebeu um telefonema que a deixou pensativa - os herdeiros da família tinham mudado de idéia e lhe comunicavam que o livro que escrevera poderia ser publicado e sua circulação restabelecida. Coincidência ou não, a pergunta do sonho de Evandro Lins e Silva tinha sua razão de ser. O fato merece uma explicação junguiana.
O discurso de posse de Ana Maria Machado traz a marca da afetividade, do carinho e da amizade que uniam jurista/escritora. É uma bonita peça literária que estava exigindo uma divulgação maior. A inclusão do discurso de posse no balaio de livros e leituras foi oportuna.
Se o (a) leitor (a) quiser saber mais sobre livros e leituras, não deixe de examinar o balaio - ele está cheio de comentários inteligentes à sua espera.

sábado, 6 de setembro de 2008

kafka um carteiro de bonecas


Artigo - Kafka - um carteiro de bonecas
"Só a inocência e a ignorância são Felizes, mas não o sabem". (Fernando Pessoa. O horror de conhecer. Segundo Tema, V. In: Poemas Dramáticos).
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária (FNLIJ/PB)
O escritor Franz Kafka viveu uma experiência bem singular um ano antes de sua morte - passeando, certo dia, pelo parque Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando. Qual seria o motivo daquele choro? Dirigiu-se à pequena, indagou-lhe o porquê do choro tão desconsolado e ela lhe explicou que havia perdido uma boneca no parque. Para alegrar a menina, Kafka inventa uma história - a boneca não se perdera, ela estava viajando e resolve criar cartas imaginárias escritas pela boneca endereçadas à menina, transformando-se, assim, em um carteiro de bonecas.
Este é o pequeno resumo da história de Jordi Sierra i Fabra - "Kafka e a boneca viajante", Ed.Martins Fontes, 2008, traduzido por Rubia Prates Goldoni, com ilustrações em tons neutros de Pep Montserrat.
Com esta bonita e comovente história, junção de um fato real e muita imaginação, Jordi Sierra ganhou o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil em 2007, concedido pelo Ministério de Cultura da Espanha. O autor é natural de Barcelona e, nesta cidade, criou a Fundação Jordi Sierra i Fabra e a Fundação Taller de Letras para a América Latina, na Colômbia, onde desenvolve um trabalho com crianças e jovens visando estimular o gosto pela leitura.
Vamos ao encontro do carteiro de bonecas e falar um pouco sobre essa trama que envolve um escritor e uma menininha que se sente feliz por receber cartas de uma boneca.
Para escrever esta bonita história, Jordi Sierra i Fabra se baseou em depoimentos de Dora Dymant que conviveu com Kafka nos seus últimos anos de vida, recriou as cartas que Kafka escreveu para a menina Elsi, a dona da boneca Brígida desaparecida em um banco de um parque de Berlim. (O nome da menina e da boneca são criações de Jordi Sierra i Fabra).
Foram 21 cartas endereçadas à menina, escritas de várias partes do mundo. Na primeira, Brígida tinha viajado para Londres e fala dos passeios pelo rio Tâmisa, da visita ao Picadilly Circus, das caminhadas pela Trafalgar Square, até peças de teatro a boneca assiste.
Essas cartas vêm revestidas de ensinamentos para a vida, de conselhos, de frases poéticas.
A segunda carta vem de Paris e diante da pergunta da pequena:
"- O senhor pode ler para mim?" Vem a resposta: "- Claro" (p. 61)
E o narrador comenta:
"Nenhuma dúvida nem questionamento. Pelo menos essa era a parte do encanto infantil mais bem aproveitada pelos adultos: a credulidade". (p. 61)
As cartas vão chegando de lugares os mais distantes - Moscou, China, México, Colômbia, cruzam os mares, alargam os horizontes. Em duas semanas, foram catorze cartas. Mas, chega um momento que a boneca deseja descansar, ela viaja à Tanzânia e as coisas vão mudando pouco a pouco.
Se a história de uma boneca que escreve cartas condiz com o inverossímil, mais inverossímil se torna quando essa boneca se apaixona por um explorador da selva africana. É na Tanzânia que Brígida conhece um moço alto, bonito, chamado Gustav e o coração bate mais forte, ela está apaixonada e os dois vivem um grande e intenso amor.
E vem mais uma vez a voz do narrador:
"Franz Kafka permaneceu no parque, saboreando aquela sensação tão curiosa. Por um lado, a felicidade pelo trabalho bem-feito. Por outro lado, o prazer de seu ofício muito bem entendido. Era um alquimista de palavras e emoções, um mago da natureza humana." (p. 95).
Com o casamento da boneca, as coisas parecem que chegam ao fim, mas vem a surpresa final, Kafka compra e presenteia Elsi com uma linda boneca e os sonhos vão continuar. Até quando? Até a menina crescer e se apaixonar por um moço verdadeiro.
A boneca presenteada pelo carteiro de bonecas já vem com um nome. Adivinhem? Dora, a musa inspiradora de Kafka e sua companheira devotada.
Não poderia deixar de registrar esta passagem grávida de poeticidade que se encontra nas últimas páginas do livro. É o narrador que expressa o pensamento de Kafka através do discurso indireto livre: "Por que ele não encontrou um carteiro de bonecas quando era menino?
Por que sempre teve que enfrentar o pai?
Por que não havia bonecas viajantes na vida real?
A infância é o tempo de acreditar em bonecas. É na infância que existem os finais felizes. Mas são muito mais necessários na maturidade os carteiros capazes de receber cartas que só um louco é capaz de escrever" (p. 113-114).
Jordi Sierra i Fabra, o escritor/poeta catalão, conclui o livro explicando como surgiu esta história.
Kafka morreu no sanatório Kierling, perto de Viena, um ano depois desta história, estava com 41 anos de idade. Nunca se soube o nome da menina que perdeu a boneca nem tampouco foram encontradas as cartas escritas para a menina. O conhecimento desses fatos se deve à Dora Dymant que na época vivia com o escritor.
Klaus Wagenbach, estudioso da obra de Kafka, durante muitos anos procurou por essa menina nos arredores do parque, colocou anúncios nos jornais, foi tudo em vão.
E vem a justificativa do escritor Jordi (Jorge) para o leitor:
"Quanto a mim, permiti-me a transgressão: inventar essas cartas, terminar a história, dar-lhe um final imaginário. (...) O que aconteceu é tão belo que o resto carece de importância. A única coisa evidente é que aquelas cartas devem ter sido mais lúcidas que as recriadas por mim". (p. 125).
Não podemos comparar as cartas escritas pelo carteiro de bonecas e as cartas recriadas por Jordi. As de Kafka se perderam no emaranhado do tempo. Não vamos chorar pelo que se perdeu, resta-nos o consolo das bonitas cartas do escritor catalão