domingo, 19 de junho de 2011

Ruth Rocha: um arquipélago de histórias


Ruth Rocha: um arquipélago de histórias
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Eu disse o que eu acredito, eu disse sempre a verdade, eu acredito em justiça.
(Ruth Rocha)

Arquipélago é um conjunto mais ou menos numeroso de ilhas de vários tamanhos, agrupadas em determinados ponto do oceano, assim nos ensina o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda. Ruth Rocha, por sua vasta e diversificada produção literária para crianças e jovens, pode ser comparada a um arquipélago de histórias.
Esta prolífera escritora já escreveu cerca de 150 livros que transitam pelo reino da ficção infantil e juvenil, didáticos, paradidáticos, dicionário, almanaque. Traduziu muitos livros para crianças e conquistou os mais ambicionados prêmios na área infantil – Prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Academia Brasileira de Letras e três prêmios Jabutis.
Vamos conhecer alguns livros que habitam os arquipélagos de Ruth Rocha.
Marcelo, martelo, marmelo alcançou um milhão de exemplares, fato comparável ao livro O Menino Maluquinho de Ziraldo. O personagem principal dessa história é um menino que não está satisfeito com o nome atribuído a certos objetos e resolve dar nomes que apresentem uma motivação semântica, assim “colher” deveria se chamar” mexedor”; “leite”, “suco de vaca”; “casa”, “moradeira”. Neste livro, a escritora revela uma preocupação com a linguagem e o significado das palavras.
Boi, boiada, boiadeiro é composto por poemas inspirados nas telas do pintor naïf José Antônio da Silva. O cenário é o ambiente rural, com fazendas, plantação de algodão, arraial, fogueiras e louvações às festas juninas. A última estrofe do poema “Festa de São João”, rica em repetições (anáforas), vem marcada pela sonoridade e simplicidade de linguagem, características das cantigas populares:

Não há moça sem beleza,
Não há rico sem riqueza,
Em rio não há floresta.
Não há pasto sem capim,
Não há verso sem um fim,
Não há São João sem festa.

A série de livros “histórias de reis”, compreendendo: O reizinho mandão, O rei que não sabia de nada, O que os olhos não vêem e Sapo vira rei vira sapo denota uma escritora comprometida com o social. Esses livros vêm revestidos de muito humor. O quinto livro, Uma história de rabos presos, é posterior à série. Stephanie Noleto Siqueira, no ensaio “Reis! Quem são eles, afinal?” afirma que este último livro” ambienta-se na época contemporânea, mas o assunto central é o mesmo, a má gestão política.”
No rico universo literário de Ruth Rocha não faltam histórias ligadas ao feminismo. A mulher é apresentada sob um olhar diferente – é uma mulher com vez e voz. Os melhores exemplos dessa nova mulher podem ser encontrados nos livros Mulheres de coragem e Procurando firme.
A escritora também se voltou para os livros didáticos. Com a educadora e escritora Anna Flora, editou a coleção Escrever e criar... uma nova proposta: Redação, jogos, literatura. São livros voltados para as quatro séries do ensino fundamental que valorizam a leitura e a redação. O projeto teve ampla repercussão entre os professores e ganhou um dos mais importantes prêmios literários do Brasil – Jabuti 2002.
Monteiro Lobato apresentou a mitologia grega às crianças brasileiras nas décadas de 30 e 40 do século XX. Ruth Rocha se considera “filha de Lobato” e trouxe para meninos e meninas do século XXI a Odisséia e a Ilíada, atribuídas a Homero, epopéias antigas da literatura grega. São obras adaptadas. Esses livros receberam o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, foram publicados pela Editora Companhia das Letrinhas.
Ainda há muitos arquipélagos cheios de livros de Ruth Rocha, eles precisam ser descobertos. As editoras FTD e Salamandra estão reeditando os livros de Ruth Rocha, vamos procurá-los nas prateleiras das livrarias, nas estantes das bibliotecas.
As crianças irão gostar das histórias de Ruth Rocha. Para os pais e professores, recomendamos a leitura do livro “Vendo a vida com humor. Estudos sobre Ruth Rocha” Org. Vera Maria Tietzmann Silva. Cânone Editorial.

domingo, 12 de junho de 2011

leitura para os pequenos

LEITURA PARA OS PEQUENOS
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária - FNLIJ/PB)


Acho que o maior prêmio para o escritor é o leitor que está longe e com quem você pode dialogar.
(Ana Maria Machado. Teia de Autores).

Uma leitora do blog “nastrilhasdaliteratura”, brasileira que reside, atualmente, na Escócia, passou um e-mail solicitando uma relação de livros infantis de autores brasileiros para o filho de três anos. Ela disse que tenta estimular o filho o mais que pode para que se interesse pela língua portuguesa. A criança ainda não sabe ler, está na fase de ouvir histórias e a seleção de livros que fizemos vale para todas as mães que têm filhos nessa faixa etária.
Por solicitação da Revista Crescer, elaboramos uma lista de bons livros para os pequenos que precisam de ajuda dos pais na hora da leitura. Aqui estão alguns dos livros selecionados para a revista, acrescidos de breves comentários.
1. Palhaço, macaco, passarinho. Eucanaã Ferraz. Il. Jaguar. Companhia das Letrinhas, 2010. (Obs. Este livro ganhou o Prêmio FNLIJ – Melhor Livro para Criança – 2011).
O palhaço, o macaco e o passarinho têm muitas coisas em comum – palhaço e macaco gostam de fazer macaquices, gostam de provocar o riso nas crianças e nos adultos. O homem deseja ser passarinho para sair voando, leve, leve. O cartunista Jaguar captou bem o texto curtinho de Eucanaã e fez ilustrações bem engraçadas, macaco e o homem estão sempre rindo. E o passarinho? Este só aparece de costas. Não, ele nem aparece, o que vemos é um homem com asas de passarinho voando.
2. Curvo ou reto. Ana Maria Machado. Il. Luísa Baeta. Global
Este livro ajuda a criança a descobrir que as coisas que nos cercam são sempre curvas ou retas. As ilustrações destacadas dão a dimensão dos objetos. A linguagem rimada agrada a criança que gosta de brincar de fazer rimas, isso ocorre, muitas vezes, de forma bem espontânea.
3. Dez patinhos. Graça Lima (Texto e ilustração). Companhia das Letrinhas.
Graça Lima se utiliza do recurso poético da parlenda para escrever e ilustrar esta historinha. São dez patinhos que vão desaparecendo pouco a pouco, ficam nove, oito, sete... até que não fica mais nenhum. A história não termina com o fim dos patinhos, eles retornam e tudo começa de novo. As ilustrações trazem a marca da delicadeza do traço de Graça Lima. Na última página do livro, aparece uma brincadeira bem divertida.
4. Palavrinha ou Palavrão. Karin Sá Rego. Il.Daniel Kondo. Companhia das Letrinhas.
Este livro apresenta um jeito gostoso de ensinar o que é onomatopeia. Esta palavrinha que parece um palavrão surge desde o início da história, mas, só, nas últimas páginas, as crianças descobrem o que é onamotopeia. Ela esteve sempre presente em todo o decorrer da narrativa, de forma imperceptível. É um livro que tem poesia, rima e muita alegria.
5. O Sol e O Vento. Júlia Alba. Il. Taline Schubach. Callis.
Toda criança gosta de apostar, de provar que é capaz de vencer. Este livro proporciona essa oportunidade. Quem é o mais forte – o vento ou o sol? O homem vai ser o elemento do desafio.
6. João das Letras. Regina Rennó (Texto e ilustração). FTD.
Todos os habitantes daquela cidade tinham uma profissão – havia o sapateiro, a doceira, a costureira, mas ninguém sabia qual era a profissão de João. Só quando a história termina o leitor fica sabendo - o ofício de João era escrever e fazer sonhar os leitores de seus livros.
7. A Paixão de A e Z. Alonso Alvarez. Il. Marcelo Cips. Peirópolis.
Este não é um livro que ensina as letras do alfabeto de A a Z, é uma história que une duas letras: A e Z. A letra A está sempre presente nas palavras, mas o Z pouco aparece, isso não impede que surja uma paixão entre as duas letras. Elas estão unidas e bem juntinhas na palavra NatureZA.
Dizem que quem conta história aumenta um ponto. Apresentei sete livros e sete é conta de mentiroso. Procurem ler a revista Crescer do mês de junho, lá irão encontrar muitas outras dicas de leitura. O número sete vai ser somado a outros. Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato e acabou-se a fama de mentiroso.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Macaquinho e a lua- A lua dentro do coco


Macaquinho e a lua
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Muita poesia, e poesia de qualidade, é fundamental na escola!!!
(Ricardo da Cunha Lima)

Ricardo da Cunha Lima é professor e autor de poesia para crianças. No ensaio, “A poesia para crianças é fundamental na escola”, ele afirma que a poesia infantil brasileira é considerada uma das melhores do mundo e que as crianças são fascinadas por sua musicalidade, irreverência e criatividade.
Sérgio Capparelli e Eloar Guazzelli enveredaram pelo caminho da musicalidade, irreverência e criatividade na composição texto/ilustração de “A lua dentro do coco” (Projeto: 2010) que conquistou o prêmio de Melhor Livro de Poesia para Criança da FNLIJ (2011).
Capparelli nasceu em Minas Gerais, mas já andou por tantos lugares que pode ser considerado cidadão do mundo. É formado em Jornalismo (UFRGS), fez doutorado em Ciências da Comunicação ( Université de Paris II), morou na China, na Itália. Na Itália, ele morou em uma cidadezinha chamada San Vito al Tagliamento e foi nesse lugar meio mágico que observou, certa noite, uma lua muito bonita no alto de uma montanha, decidiu escrever em versos uma antiga história que ele ouvira quando morava na China.
Guazzelli, o ilustrador, percorreu caminhos mais brasileiros, nasceu em Vacaria (RS), atualmente mora e trabalha em São Paulo. É ilustrador, quadrinista, diretor de arte e animação e wap designer. Como seu companheiro Capparelli, já ganhou muitos prêmios e ilustrou diversos livros no Brasil e no exterior. Há um detalhe – gosta muito de desenhar a lua.
“A lua dentro do coco” é uma poesia narrativa que tem como protagonista um macaquinho. A história se inicia de modo trágico – a mãe do macaquinho morre com um tiro dado por algum homem malvado. Vejam como o poeta faz a descrição da morte:
“... ele OUviu
TIROS e logo um assoVIO:

Sua mãe caiu sem vida,
Flor rubra da despedida”
Não é possível representar a disposição das palavras e dos versos como está no livro, mas vou tentar explicar.
Algumas letras aparecem em destaque como se fossem maiúsculas, isso para conferir maior dramaticidade à morte da mãe do macaquinho e a palavra rubra está grafada na cor vermelha.
A mãe morre diante de um espelho d´água de um rio. O ilustrador desenhou um rio, a mãe caindo dentro do rio e pingos de sangue colore a página em branco.
Mas o tempo que tudo cura, vai se encarregar de curar a dor do macaquinho. Ele encontra amigos e logo começa a festa na floresta, contam lorotas, dão pulos e cambalhotas.
Um dia...
“Vejam, é uma lua cheia
Que pelo céu passeia

Por cima da sumaúma
Entre fiapos de bruma.”

Para ilustrar esses versos, Guazelli coloca o macaquinho só, sentado, olhando a lua que passeia pelo céu. O vocábulo “cheia” aparece em negrito e a lua vem acompanhada de fiapos.
E surge o desejo de pegar a lua, trazer a lua para a terra. Macaquinho chama os companheiros e juntos formam uma grande pirâmide para alcançar a lua. Aproximam-se da lua que cada vez fica maior, enorme.
“Era pequena e fica GRANDE,
Enorme essa pirâmide!”

E a pirâmide desmorona, os macaquinhos tombam, mas nenhum fica ferido, foi só um susto.
“A lua cheia se despedaça”
(...)
Caiu do céu? Tombou no poço?
O que será que vai acontecer? No céu não brilha mais a lua cheia. Onde está a noite enluarada? No fundo do poço?
Se o macaquinho foi capaz de superar a dor causada pela morte da mãe, encontrará solução para salvar a lua. Neste momento, aparece um COCO. O resto eu não conto não, fica por conta do leitor que irá procurar este livro nas livrarias, nas bibliotecas e ficará sabendo como termina a lenda/poema/história.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

LIVROS QUE VIERAM DE LONGE

















LIVROS QUE VIERAM DE LONGE
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Diariamente, a poesia me propõe hipóteses de vida, abre janelas para minha autoconsciência e me oferece planos poéticos de existência. E então escrevo.
(Dilan Camargo).

Moacir Scliar, escritor gaúcho, escreveu vários livros para jovens. Um dos seus livros traz o título “O irmão que veio de longe”. “Livros que vieram de longe” nos chegaram da terra de Scliar, Rio Grande do Sul, presenteados por outro gaúcho. São livros de poesias de Dilan Camargo, e menino que não gosta de poesia vai gostar, sim, desses livrinhos. São quatro livros: “O embrulho de Getúlio”. Scipione, 2004; “Brincriar”. Projeto, 2007; “Bamboletras”. Projeto, 2009 e o mais recente “Poeplano” . Projeto, 2010.
Dilan Camargo é natural de Itaqui e passou a infância e a juventude em Uruguaiana, fronteira com a Argentina. Atualmente, mora em Porto Alegre. Quando criança, freqüentava a biblioteca pública da cidade e lia muita poesia. Brincando, ele diz que lia “poesia por metro”. Será verdade? Difícil acreditar nessa história, mas se todo poeta é fingidor, Dilan Camargo é um fingidor.
O primeiro poema do livro “O embrulho de Getúlio” é cheio de interrogações:
O que está escondido
dentro do embrulho?
Será que borbulha?
Será uma agulha?
Surpresa. Não vou dizer o que contém o embrulho. Se o leitor tiver a curiosidade de ler o poema todinho vai descobrir. Será que vai ficar decepcionado? Não sei. Melhor conferir.
“Brincriar”, como o próprio nome sugere, é cheio de poemas brincalhões. O último poema “Sete maravilhas” não fala sobre as sete maravilhas do mundo, mas das sete maravilhas da vida de criança. Vou repetir alguns versos deste poema, os outros vocês imaginem, melhor, ainda, leiam o livro.
Primeira maravilha
mãe, pai,
filho, filha.

A segunda vou pular. Botem a imaginação para funcionar.
Lá vem a terceira:
Terceira maravilha
ler, escrever
além da cartilha.
E a quarta, a quinta, sexta e sétima? Estão bem explicadinhas no livro.
“Bamboletras” foi ilustrado por Guazelli, um cartunista que gosta de brincar com os sentidos ocultos nos versos e cria histórias paralelas. Isso torna a leitura dos poemas mais divertida. As ilustrações aparecem todas como se fossem quadrinhos.
Dom Queixote
Ele mesmo não se atura
quando olha no espelho
a sua triste figura
não quer ver nem por conselho.
Para ilustrar este poema, Guazelli apresentou um “Queixote” com queixo bem grande e pontudo, não “um cavaleiro de triste figura”, como o verdadeiro Dom Quixote, mas um cavaleiro de feia figura. E o que deseja Dom Queixote?
Não quer atacar moinhos
nem ser herói de epopeia
só quer achar nos caminhos
sua doce Dulcineia.
Chegamos ao último livro desse mágico das palavras – “Poeplano”. O poeta se traveste de Zé Limeira, conhecido “poeta do absurdo”, e cria versos estapafúrdios. Não acreditam? Vejamos:
Poeplano
Num poeplano
me chamo fulano
já fui freudiano
até kafkiano
sou mais franciscano
não há engano.
Faço mil planos:
voar de aeroplano
ser amigo de Beltrano
usar o tutano
passar de ano
tocar piano
virar drumoniano.
Pode ser insano
o meu poeplano
mas é bem humano.
Depois da leitura desses poeminhas brincalhões, Davi vai aprender a gostar de poesia. Não é Davi?

sábado, 21 de maio de 2011

CONTOS DA NATUREZA DE PAÍSES DISTANTES-Dawn Casey


CONTOS DA NATUREZA DE PAÍSES DISTANTES
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Ouvir histórias antigas e agir de acordo com seus conselhos nos ajuda a seguir adiante, comprometendo-nos a zelar pelo amanhã.
(Dawn Casey. Contos da Natureza)

Dawn Casey é escritora e professora primária na cidade de East Sussex, Inglaterra. Gosta muito de histórias tradicionais e acredita que o folclore pode ajudar a responder perguntas sobre questões da humanidade. Neste livro, “Contos da natureza” (WMF Martins Fontes: 2010), ela reuniu contos de sete países diferentes, recontou-os e deu-lhes nova roupagem.
Austrália, Nigéria, Sudoeste dos Estados Unidos, Bali, Cazaquistão, Índia, País de Gales foram os países escolhidos para representar, através de contos, o amor à natureza, à Terra. Cada texto vem precedido de informações sobre o país que dá origem ao conto.
O primeiro conto “A Mãe Sol” vem da Austrália, um relato que remete ao mito da criação. É uma lenda dos aborígenes australianos. O sol aparece como criador do mundo, dos animais e do próprio homem. Depois que a tarefa foi concluída, a Mãe Sol sobe para o céu e deixa este recado: “Cuidem da criação. Por seus antepassados, zelem pela Terra. Por seus filhos e pelos filhos de seus filhos, zelem pela Terra”. (p.15)
Da Nigéria, um conto do povo edo “Por que o céu é tão longe”. Este conto fala sobre o vício da gula e do desperdício. Osata é uma mulher que nunca ficava satisfeita com o que comia, sempre queria mais e mais, desperdiçava comida. Um dia toda comida acabou e para resolver o problema Osata prometeu a Terra: “Nunca mais pegarei mais do que o necessário. Nunca, nunca mais.” (p.28)
Uma das lendas mais bonitas veio do Sudoeste dos Estados Unidos. É de origem indígena, do povo comanche. A personagem principal é uma menina que recebeu o nome de “Ela que Está Só”. A pequena era órfã de pai e mãe e a única coisa que possuía era uma bonequinha feita por seu pai de couro de antílope. Na terra que a menina morava, houve uma grande seca, as plantas murcharam, os rios secaram, não havia caça para matar a fome dos homens. Os índios rezavam ao Grande Espírito pedindo chuvas para amenizar a situação devastadora da seca. A solução encontrada pelo Ancião, espécie de sacerdote, foi fazer uma grande fogueira para homenagear o Grande Espírito. Cada pessoa deveria jogar no fogo seu bem mais precioso. Ninguém teve coragem de se desfazer dos seus bens, somente “Ela que Está Só”, que tinha apenas a bonequinha presenteada por seu pai, foi capaz de fazer esse sacrifício.
Realizada a cerimônia e queimada a bonequinha, voltou a chover sobre a terra, os campos floresceram, as colinas e os vales ficaram cobertos de flores azuis e brilhantes.
Depois desse fato, “Ela que Está Só” recebeu um novo nome dado pelo Ancião, passou a se chamar “Ela que Amou seu Povo” e a partir daquele dia, “sempre que surge a lua da primavera, o Grande Espírito se lembra da oferenda da menininha e enche de flores as colinas e os vales da região. São flores azuis e brilhantes, como borboletas.” (p. 40)
O conto de Bali é uma conversa entre os animais da floresta. Eles querem saber qual o papel de cada animal, todos participam - do mais poderoso, o tigre, até o menorzinho – o vagalume. Nessa história, o tigre funciona como o professor que ensina e dá lições aos alunos.
Do Cazaquistão, a história de um “Jardim Mágico” que surgiu da generosidade de dois velhos amigos e do sonho de um jovem.
O conto indiano tem origem nas tribos Bishnoi e baseia-se em uma história verdadeira. Os fatos narrados ocorreram em 1730 em uma aldeia conhecida por Khejarli. A história se prende à defesa das florestas.
Mulheres e crianças, compreendendo esposas e filhas, avós, lutam contra madeireiros para que não derrubem as árvores da região onde moram. Diante da insensibilidade do chefe dos madeireiros, as mulheres argumentam:
“Senhor, essas árvores são nossa vida. Suas raízes firmam o solo. Elas impedem os deslizamentos de terra na estação das monções. Sem elas, nossos campos e nossas casas seriam levados pelas águas.” (p.75)
Mas o chefe não cede aos argumentos das mulheres. Amrita, uma menina, usa um artifício capaz de solucionar o problema. Leiam o conto para saber qual foi o artifício utilizado por Amrita.
O último conto é do País de Gales – “Água malcheirosa” – e fala sobre o lixo que um casal depositava toda noite em um local que ia dar na casa de um duende. Diante da reclamação do duende, o casal procura uma solução e a mulher tem uma ideia salvadora.
É interessante observar nesses contos que as soluções para todos os problemas partem sempre de uma mulher ou uma menina. É a predominância do feminino, até o Sol é apresentado como Mãe Sol.
Este livro é uma leitura recomendada para todos aqueles que se preocupam com o desmatamento desordenado, com o futuro do nosso planeta, com a poluição ambiental. Quem sabe essa leitura não levará as pessoas a pensar de modo mais sensato! Este pequeno livro pode não mudar o mundo, mas ajuda a repensar a questão da sobrevivência do planeta Terra.
Anne Wilson fez as ilustrações em estilo naïf, todas relacionadas com os países de origem dos contos e com as histórias apresentadas. Os contos são bonitos, alguns cheios de ternura e as ilustrações ajudam a compreender melhor a cultura de cada país.
Explicação: Os comentários desta coluna são frutos de leituras de livros recebidos via Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Leio-os, seleciono os melhores e apresento-os para os leitores. Depois de lidos, os livros cumprem uma nova missão – são distribuídos para bibliotecas de escolas públicas através do projeto “Mandala de Livros”. Este projeto está sob a nossa coordenação.

sábado, 14 de maio de 2011

MURURU NO AMAZONAS: um divisor de águas


MURURU NO AMAZONAS: um divisor de águas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa
de servir de caminho
para a esperança.
(Thiago de Mello. Como um rio)

Flávia Lins e Silva escreveu uma série de livros com relatos de viagens que tem como protagonista Pilar. Integram livros dessa série: “Diário de Pilar na Grécia”, “Cadernos de viagens de Pilar”, “A folia de Pilar na Bahia”. Flávia adora viajar e visitou lugares que considera fascinantes: Grécia, Machu Pichu e Amazonas.
A respeito da região amazônica, afirma: “É o lugar mais maravilhoso que já conheci. Parece que o mundo está em pleno nascimento, com tudo se acabando de se formar, no exato momento em que descobrimos”. Flávia fez uma viagem pelo rio Amazonas e navegou pelo tranquilo rio Negro, passando pelas Anavilhanas indo até Apuaú.
Certamente foi esse encontro de encantamento que deu origem a seu último livro – “Mururu no Amazonas” (Ed. Manati, 2010), indicado para o público juvenil e selecionado para o catálogo White Ravens da biblioteca infantojuvenil de Munique (2011).
Se, antes, Pilar era a protagonista dos livros indicados para o público infantil, em “Mururu no Amazonas”, um romance juvenil, vamos encontrar uma menina-moça, que assim se apresenta:
“Sou como meu nome: Andorinha. Vou de rio em rio e, quando o mundo esquenta, me arremesso de barriga na água. Na escola, me reinventaram e virei Dorinha. Desde então, carrego essa divisão em mim: sou Dorinha por fora e Andorinha por dentro”. (p.13-14)
A mãe conta que a menina aprendeu a remar antes mesmo de andar. Andar de barco é o que a menina mais gosta. Quando o rio sobe, ela não precisa se pendurar nos galhos para colher frutas, estica a mão e puxa. A árvore carregada de frutos fica bem na altura do barco. É, também, de barco que a menina vai para a escola. Remando sobre o mato alagado, ela gosta de inventar caminhos.
Só esteve no rio Negro uma vez, ainda era miúda, e guarda boas recordações desse dia – nadou nas águas calmas da cor de café, café ralo que se finge de transparente. A observação que segue traz marcas poéticas: “Quem entra uma vez no Negro não se cura nunca: passa o resto dos dias feito eu, afogada em saudade. (p. 16-17)
A sábia frase de Heráclito: “Ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio” encontra ressonância na observação de Andorinha: “Já percebi uma coisa: não tem rio sempre igual. Nem a vida é sempre a mesma. A água vai transformando o mundo com o tempo, ditando a vida dos bichos e a vida da gente. (p. 20-21)
Uma das distrações de Andorinha é inventar nomes. Remo poderia ser chamado de “ralamão.” A mão arde muito depois de remar. A formiga poderia se chamar “forminimiga”, pois estraga as plantações de mandioca. E já que tem nome inventado para tudo, ela resolve criar um nome para seu casquinho (barco), ele vai se chamar “mururu”. Ela não sabe o que quer dizer, nome inventado não precisa ser explicado.
Um dia a menina resolveu partir rio acima e encontrou um caboclo, o menino Guapiú, mas este lhe pede que o chame apenas de Piú. Os dois partem, cruzam as águas compridas do rio, procuram passagem de volta para as Anavilhanas (anavilhanas são ilhas que se formam no leito do rio) e de repente entram em um grande espelho. Paisagem deslumbrante é descrita com exclamações: “É o rio vestido de árvore! Tudo se mira na água: até o céu! Vaidoso, o céu passeia pelo rio, agora todo enfeitado de nuvens. A floresta também se admira, banhando-se no espelho da água.” (p. 41)
Andorinha e Piú estão sozinhos naquele mundaréu de água, escondidos de tudo e de todos. Talvez este seja o momento mais lírico do livro:
“Deitado comigo, Piú se faz homem, cada vez mais homem, e eu já não sou quem era: sou mulher inaugurada”. (p.55)
Juntos, muito unidos, o casal contempla o despertar da natureza. Um tracajá fêmea (tartaruga) desovando, o jambeiro se vestindo de púrpura, as tartaruginhas nascendo e correndo para o rio.
Não vamos contar o resto da história. Há ainda muita coisa bonita para descobrir, muitas águas para percorrer, muitos dias de chuva e de sol.
Em nota inserida na última página do livro, vem esta observação que vale a pena ser registrada:
“Este livro, Mururu no Amazonas, certamente é um divisor de águas na carreira da autora. Nele, Flávia deixa fluir o melhor de si, e o resultado é tão belo em sua nudez, tão justo em sua descabida medida, que o livro passa a ser uma obra ímpar, que inaugura a maturidade da escritora”.
Se Fernando Pessoa louvou o mar português, Lúcio Lins, o Cabo Branco, Flávia Lins e Silva escolheu o rio Amazonas.

domingo, 8 de maio de 2011

Leonardo da Vinci: um artista múltiplo


Leonardo da Vinci: um artista múltiplo
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
(Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos. Tabacaria)

Leonardo da Vinci (1452-1519) foi um artista múltiplo. Pintor, arquiteto, botânico, engenheiro, cientista, geólogo, matemático, escritor. Era um grande observador da natureza e do mundo. O artista tinha um caderno de rascunhos e registrava tudo o que via: estudos, desenhos e escrevia textos. “Leonardo da Vinci: fábulas, alegorias e adivinhações” (SM, 2010), adaptação livre com ilustrações de Edith Derdyk, é a reunião desse trabalho pouco conhecido do público.
A fábula, no sentido tradicional, é uma narrativa curta, protagonizada por animais irracionais que encerra uma moral implícita ou explícita. As fábulas escritas por Leonardo da Vinci condizem com a sua maneira de ver o mundo. Animais, minerais e objetos agem como seres humanos. Nas alegorias, o escritor utiliza figuras mitológicas e cria situações “bem-humoradas e inusitadas”. As adivinhações foram denominadas profecias e são pequenos textos com fórmulas enigmáticas e vêm carregadas de um tom visionário e fantástico.
Dezoito textos integram esse livro, sendo seis fábulas, seis alegorias e seis adivinhações.
Fábulas – “A pedra solitária no meio do caminho” relata o desejo de mudança de uma pedra – ela vivia no meio de flores, em um ambiente muito aprazível, mas tinha o desejo de viver junto com outras pedras. O desejo foi satisfeito, veio a desilusão e a prova de que nem sempre as mudanças são boas.
Em “A tinta negra e o papel branco”, o papel reclama da tinta negra por ter maculado a sua brancura com sinais, manchas e garranchos. O papel capitula diante da explicação convincente da tinta negra:
“É justamente por causa dessas palavras escritas com tinta negra que você não será jogado fora ao vento, não será queimado no fogo como alimento da fogueira de são João, não será usado para embrulhar objetos em vão ou simplesmente ir direto para o lixão!!!” (p.27)
Alegorias - Nas alegorias, os protagonistas são animais. Da Vinci criou até animais inexistentes. Alguém conhece um “cerasta”? Ele está bem vivo nesta alegoria. Vamos apresentá-lo. O cerasta é um animal estranho – tem quatro chifres pequenos que se movem no topo da cabeça. Esses chifres são utilizados de modo camuflado para conseguir pegar os pássaros. O animal estranho se enterra debaixo da terra, deixando apenas do lado de fora os quatro chifres. Os pássaros, na sua inocência, pensam que se trata de vermes ou minhocas e quando tentam comer os chifres são engaiolados e devorados com calma e sem nenhum esforço pelo cerasta.
O basilisco é outro animal nunca visto. Embora seja pequeno é capaz de queimar grandes prados, paralisar serpentes, quebrar árvores. Seu poder de destruição é incalculável. Ele deixa sua marca por onde passa. E a alegoria termina com esta observação: “O basilisco é um bicho que dá medo só de pensar nele, até porque ninguém, até hoje, viu um basilisco de verdade.” (p.38)
Adivinhas - “Dos olhos, do raio do sol e do pensamento” é a última adivinha do livro. O texto se inicia com a pergunta: “O que teriam em comum os olhos, o raio do Sol e o pensamento?” (p.57) No primeiro momento, a discussão gira em torno das possibilidades –”Se o Sol aparece do lado do Oriente e rapidamente espalha seus raios para o Ocidente... Se os olhos, quando se abrem, alcançam o Sol num milésimo de milésimo de segundo... Se a mente atravessa num só pensamento todas as terras... E vem a indagação: O que será que os olhos, o raio do Sol e o pensamento teriam em comum?
No segundo momento, ainda resta a dúvida: “Será que ele tem em comum a contagem do tempo em sua velocidade máxima: micromilésimo de milésimo de segundo?” (p.57). Seguem-se as afirmativas: O os olhos precisam de luz para ver... O Sol precisa de olhos para que as coisas que ele ilumina sejam vistas... e o pensamento precisa da luz de um olhar para pensar...
Tudo parece resolvido, mas as reticências e a interrogação da última frase comprovam que a dúvida ainda persiste:
‘ O que será que os olhos, o raio de Sol e o pensamento teriam em comum?”(p.57)
As fábulas, alegorias e adivinhações de Da Vinci foram baseadas em anotações do artista. O inusitado desses textos demonstra que estamos diante de um inventor que sabe, também, lidar com as palavras.
Edith Derdyk, a ilustradora e adaptadora do texto, é artista plástica e escritora. Já recebeu diversos prêmios, entre eles: The Rockfeller Foundation (Itália), The Banff Center (Canadá). No Brasil, APCA e Porto Seguro Fotografia (Revelação).


Para comemorar o dia do Artista Plástico, selecionamos este pequeno poema de Mário Quintana:
Os quadros são janelas abertas para o outro mundo deste mundo.