sábado, 31 de janeiro de 2009


João Pessoa – onde o sol nasce primeiro.
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)

extremo Cabo Branco
estranho trampolim
ao contemplar o Atlântico
o mar mergulha em mim.
(Lúcio Lins. Cabo Branco).

A Editora Cortez, com a “Coleção Nossa Capital”, vem desenvolvendo um projeto que objetiva tornar mais conhecidas as capitais brasileiras. José Xavier Cortez, um norte-riograndense radicado em São Paulo, e o editor Amir Piedade são os responsáveis por esse ambicioso projeto que deu certo. Prefeituras de algumas capitais, e Cortez cita como exemplo Recife e Fortaleza, compraram exemplares dos livros que falam sobre essas cidades para distribuir com os alunos da rede pública municipal. É uma coleção didática e lúdica.
Elaine Nunes, Gerente de Marketing da Editora Cortez, informou que já foram publicados 19 títulos referentes às capitais brasileiras e até o final de junho deverão sair mais dois títulos. Acredita-se que dentro de mais um ano a coleção esteja completa.
João Pessoa – onde o sol nasce primeiro, com texto do historiador José Octávio de Arruda Melo e ilustrações de Sóter Carreiro, teve lançamento no início do mês de maio e exemplares do livro estavam no stand da Cortez, durante o 10º. Salão do Livro, no Rio de Janeiro, em fins de maio do corrente ano. É um dos livros mais bonitos da coleção – orgulho para os pessoenses e para os autores do livro.
Aquarelas saídas do pincel colorido de Sóter Carreiro e excelentes fotografias dos recantos mais pitorescos da capital paraibana emolduram a história da cidade que é contada pelo historiador José Octávio.
Do nascedouro da cidade – entre o mar e o rio Sanhauá – desfila, diante dos olhos dos leitores mais desatentos, um texto enxuto e bem escrito, ilustrado com paisagens que encantam a todos os amantes da natureza. O “verde que está no ar”, nos versos do poeta Jomar Morais Souto, é realçado pelas bonitas aquarelas de Sóter Carreiro. Parece que o sonho de Sóter é transformar a cidade em um canteiro verde de árvores e de flores, ele coloca verde onde existe e onde a sua imaginação alcança.
Será que o leitor sabe todos os nomes que foram dados à cidade de João Pessoa? Inicialmente Nossa Senhora da Neves, depois com o domínio dos espanhóis a cidade passou a se chamar Felipéia de Nossa Senhora das Neves. Alguns anos mais tarde, os holandeses mudaram para Frederica. Com a expulsão dos holandeses em 1654 tornou-se Parahyba, como capital da capitania. Em setembro de 1930, em homenagem a João Pessoa, passou a chamar-se João Pessoa, nome que perdura até hoje.
A capital paraibana é considerada uma das mais verdes do mundo, isso se deve às reservas florestais que cercam a cidade – as matas do Buraquinho, Simões Lopes e Amém.
Quando chega dezembro, os paus-d´arco do Parque Sólon de Lucena enfeitam a paisagem. Não é necessário armar árvores artificiais de Natal, a natureza, com o amarelo dourado das flores, veste e ornamenta a cidade. Turistas de várias partes do Brasil e do exterior ficam deslumbrados com esse recanto salpicado de pontos amarelos.
João Pessoa – onde o sol nasce primeiro é um livro indicado para as crianças em idade escolar. Como documento histórico, traz um breve relato da vida social e econômica da cidade; como projeto artístico e fotográfico, dá uma bela visão da cidade e do seu “entorno”, para utilizar uma expressão cara ao artista plástico Nivalson Miranda.
Ainda uma perguntinha para o leitor: você sabe qual é o hino da cidade de João Pessoa? Todos gostam de ouvi-lo e consideram mesmo que “Meu sublime torrão”, do compositor Genival Macedo, é o verdadeiro hino da cidade. Mediante Lei Municipal 1.001, de 10 de março de 1972, aprovada pela Câmara Municipal, na gestão do prefeito Dorgival Terceiro Neto, “Meu sublime torrão” passou a ser considerado o Hino popular da cidade de João Pessoa.
A letra da música “Meu sublime torrão”, o brasão da cidade e a bandeira de João Pessoa se encontram no verso interno da capa do livro. A capa (frente e verso) é uma aquarela que retrata os tons verdes dos parques e das praças, torres de igrejas acinzentadas pela oxidação do tempo e telhados marrons que dão um toque de coisa antiga.
João Pessoa – onde o sol nasce primeiro é um livro indicado para o publico infanto-juvenil. É uma leitura que recomendamos para todos aqueles que gostam de João Pessoa, independente da faixa etária.

sábado, 24 de janeiro de 2009

escrever e ilustrar livros para criancas e jovens


Artigo - Escrever e ilustrar livros para crianças e jovens

No desenho, como na poesia, falamos por metáforas. Somamos as imagens arquetípicas e ainda nossos recursos de uso da linha e da cor.

(Ângela Lago. A Leitura da Imagem. In: Nos Caminhos da Literatura)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/Paraíba

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e o Instituto C&A promoveram, em São Paulo, entre os dias 22 e 24 de agosto de 2008, o Seminário "Prazer em Ler de Promoção da Leitura" que contou com a presença de escritores, ilustradores, professores e especialistas em literatura infantil. Foram seis conferências, cinco mesas de debates e 17 palestrantes do Brasil, Espanha, Argentina e Colômbia. Quem não teve a oportunidade de estar presente a este grande evento, poderá ter acesso ao que foi discutido durante esses dias com a leitura do livro "Nos caminhos da literatura" (Peirópolis, 2008).

Com o objetivo de oferecer uma visão panorâmica deste Seminário, vamos destacar algumas passagens dos textos que foram apresentados pelos escritores, ilustradores e por aqueles que estão envolvidos com problemas pertinentes à leitura e à literatura para crianças e jovens.

Teresa Colomer, espanhola, com formação em filologia hispânica e catalã, é doutora em ciências da educação. "Andar entre livros: a leitura literária na escola" (p.16-24) foi a conferência que abriu os trabalhos do Seminário. A educadora catalã se propôs a organizar um modo de pensar da leitura de livros em quatro âmbitos: ler, compartilhar, expandir e interpretar.

Ângela Lago, escritora e ilustradora mineira, com o texto "A leitura da imagem" (p. 28-31), deu ênfase à ilustração no livro infantil e discorreu, entre outros aspectos, sobre a metáfora, figura que está presente tanto na fala como no desenho.

Graça Lima, ilustradora carioca, apresentou o texto "Lendo imagens" (p.36-43) e frisou que, durante muito tempo, vigorou a idéia de que o papel do ilustrador era embelezar o texto, atualmente a tendência é examinar o livro como um conjunto global, o que possibilita uma leitura dupla, fonte de reflexões e questionamentos.

Ana Maria Machado, consagrada escritora brasileira, discorreu sobre "Alguns equívocos sobre leitura" (p. 48-67) e relatou a sua participação em um grande encontro realizado em Santiago do Chile (2005) sobre formulação de políticas de leitura. Na opinião da escritora, existem muitos equívocos com relação a esse assunto e ressaltou que, durante a sua palestra naquele evento, destacou a necessidade de formar professores leitores.

Xosé Antonio Neira Cruz, espanhol da região da Galícia, com o texto "Ler e escrever: os prazeres da intimidade com o livro" (p. 71-91), discutiu, entre outros aspectos, os problemas de uma sociedade globalizada onde, muitas vezes, o livro é considerado um entulho ou apenas um objeto de decoração.

O lingüista Luís Percival Leme Brito apresentou o texto "Literatura, Conhecimento e Liberdade" (p. 95-101) e lançou a pergunta: "O que faz a literatura - conhecimento ou entretenimento?" e teceu considerações sobre esses dois aspectos, enfatizando que a literatura deve ser uma forma de conhecer.

Daniel Munduruku, no texto "Educação indígena: do corpo, da mente e do espírito" (p.104-110), destacou a importância do sonho na cultura indígena e a valorização dos mais velhos, considerados os "guardiões da memória".

A professora Regina Zilberman, com a palestra "O ensino médio e a formação do leitor" (p. 113-117), analisou as questões de literatura dos vestibulares e criticou o reducionismo e simplificação com que são apresentadas no que se refere aos autores, às obras e às tendências literárias.

Marisa Lajolo, estudiosa da obra de Monteiro Lobato, falou sobre a correspondência de Lobato com a menina Maria Luiza, uma gauchinha de Pelotas - "Monteiro Lobato, um correspondente muito especial" (p. 121-128). São apresentadas apenas duas cartas, datadas de 1936, mas que deu margem a considerações bem interessantes. Só ficamos sabendo do conteúdo das cartas de Lobato e Lajolo, em análise percuciente, vai discutindo, passo a passo, o conteúdo dessas duas cartas.

A colombiana Silvia Castrillón é biblioteconomista e já participou de inúmeras atividades de fomento à leitura na Colômbia. O texto que apresentou - "Da leitura da palavra à leitura do mundo" (p. 130-136) está centrado no trabalho que vem desenvolvendo, em seu país, de promoção da leitura. Como coordenadora de programas de leitura, ela frisa que uma das condições básicas é "alentar de maneira permanente uma reflexão acerca da leitura e da escrita, e sua promoção". (p. 134).

Cecília Bettolli é argentina, professora e coordenadora de programas de leitura em Córdoba Com o texto "Infância - Literatura - Leitura. Alguns marcos dessa trama na Argentina" (p. 141-156) analisou a criança como sujeito histórico e social, como objeto de consumo e sujeito de direito e concluiu seu texto com uma citação do educador Paulo Freire.

O texto do escritor Bartolomeu Campos de Queirós não traz título (p. 158-163) e como ocorre com tudo que escreve, é afetuosamente poético. Ele fala sobre o valor do silêncio, do afeto e da fragilidade na literatura.

Marina Colasanti, ao apresentar "Avaliando uma dívida com a leitura" (p.166- 170), procurou demonstrar o real valor da leitura na vida dos escritores e foi enfática nas afirmativas: "A leitura, é sem duvida, o que mais diretamente me levou a escrever" (p.166) e prossegue:" A leitura me ensinou a escrever e me ensinou a fantasiar". (p. 167). E conclui com um recado para aqueles que pretendem ser escritores: "Se não for para provocar reflexão, não vale a pena escrever". (p.170).

A professora Nilma Gonçalves Lacerda, autora de bons livros para crianças e jovens, discorreu sobre "Leitura: uma escolha de caminhos" (p. 175-179) iniciou seu texto com uma citação de Dante Alighieri (A Divina Comédia) e discutiu aspectos relacionados com as escolhas das leituras e de suas próprias leituras na juventude.

O escritor e ilustrador Ricardo Azevedo em "Armadilhas para a formação de leitores: didatismo, sistema cultural dominante e políticas educacionais (p.182-208) revelou sua preocupação com o trabalho que as escolas desenvolvem com livros de ficção e de poesia e afirmou:" a escola, com poucas exceções, não sabe o que fazer com a literatura" (p. 183).

Nelly Novaes Coelho, professora e historiadora da literatura infantil brasileira, na conferência "Leitura e Literatura em Tempos de Internet" (p. 213-216) externou sua preocupação com o dialeto "internetês" e a ameaça da degradação ou deterioração da língua portuguesa. Para a professora, "a língua materna é o elemento primordial na construção de um povo". (p.216)

Laura Sandroni, especialista em literatura infantil, apresentou a palestra "A década de 70 e a Renovação da Literatura Infantil e Juvenil" (p. 219-228) e traçou um panorama da literatura infantil brasileira. A publicação do livro" A menina do Narizinho Arrebitado" (1921) pode ser considerado um marco da literatura infantil no Brasil. Laura considera que, com Lobato, a literatura infantil deu um "salto qualitativo" se compararmos com os autores que o precederam. Prosseguindo, a palestrante fez um balanço da atual literatura infantil no Brasil e citou os principais autores da atualidade nos diferentes gêneros: ficção, poesia, teatro, não esquecendo os ilustradores.

O livro se fecha com este texto de Laura Sandroni. "Nos caminhos literatura" é uma leitura indicada para professores e para todos aqueles que se preocupam com o destino da escola brasileira, do livro e da leitura.

sábado, 17 de janeiro de 2009

O eterno menino maluquinho- ziraldo



Artigo - O eterno menino maluquinho

Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. (Carlos Drummond de Andrade. Canção Amiga)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/Paraíba

Chegou mais um livro de Ziraldo nas livrarias para alegria dos leitores mirins - O namorado da fada ou O menino do planeta Urano (Editora Melhoramentos, 2008).

No livro "O menino da Lua", (Melhoramentos, 2006), Ziraldo criou uma turma de nove meninos, representantes de nove planetas, mas o autor já declarou que não vai obedecer à ordem dos planetas do sistema solar, os livros irão saindo de forma gradual e poderá haver uma interrupção para escrever outra história, como aconteceu com "A menina das estrelas" (Melhoramentos, 2007).

"O namorado da Fada ou O menino do Planeta Urano" é o primeiro menino interplanetário, o menino do planeta Urano. O principal personagem do livro é Théo que mora em um planeta todo feito de espuma e vapor. No planeta habitado pro Théo, o solo é "flutuoso" como um colchão de água. Nesse espaço sideral, vive também uma fada muito linda que se chama Anagrom e mora em um asteróide bonito, bem perto de Marte, todo enfeitado com "engenho e arte". Tente ler o nome da fada ao inverso. Surpresa! As fadas passeiam na Terra, na imaginação das crianças, há muitos e muitos séculos.

Um dia, Anagrom estava deitada em sua rede de palma quando descobre passeando no espaço um príncipe que era o dono desta história, o menino Théo. Ao avistar o menino, o coração de Anagrom bateu mais forte, foi um amor à primeira vista, os dois foram flechados por um outro menininho, aquele que se chama Cupido e que conduz um arco e flecha nas mãos. Como acontece nos contos de fadas, o tempo passou e Anagrom se transformou em uma linda moça, Théo em um bonito rapaz.

Mas, eis que surge uma bruxa... e os dois ficaram assustados. As bruxas sempre procuram fazer o mal, destruir os sonhos dos amantes apaixonados. Casamento marcado, juras de amor eterno, e agora? O que irá acontecer?

A bruxa da história de Ziraldo é uma bruxa boazinha, não irá fazer nenhum mal. No casamento de Théo e Anagrom, irá ajudar os noivos e abrilhantar a festa - contrata um coral de sapos cantores para cantar na igreja; com a ajuda dos duendes, "trasgos e avantesmas" prepara, em seu caldeirão, doces e iguarias como nunca se viu e convida toda a turma do Pererê para a festa.

Em nota, na última página do livro, Ziraldo explica que recorreu a duas palavras pouco comuns no diálogo com as crianças - "tragos e avantesmas", mas que são nomes adequados para esses tipos de monstrinhos, amigos da bruxa e que os leitores não terão dificuldades em compreender.

O narrador explica, ainda, nesta nota, que essa história não aconteceu ainda, está projetada para acontecer lá no século 3000 e o leitor poderá indagar: como foi possível saber cada detalhe? Milagres acontecem, estamos no reino das fadas e quem está contando a história é um "Viajante do Tempo", com uma visão de futuro longo, longo, bem além do horizonte.

Passado ou futuro não importa, o amor de Théo e Anagrom teve um final feliz como ocorre, geralmente, nos contos de fadas. Para dar um toque poético, todos que lá estiveram - ou um dia "estararão" naquela festa, cantaram ou "cantararão" um poema que o poeta preparou todo cheio de esperanças - uma canção para "acordar os homens e adormecer as crianças".

Na conversa descontraída da última página do livro, Ziraldo afirma que esta é a primeira história de amor que escreve para crianças e que os versos que utilizou para concluí-la foram tirados do poema "Canção Amiga", de Carlos Drummond de Andrade.

E aqui vai um lembrete para o pequeno leitor - se seu pai ou avô, pode ser também a mãe ou avó, gosta de colecionar coisas antigas e guardar moedas do tempo do império ou notas de dinheiro fora de circulação, pergunte se eles ou elas têm uma nota de cinquenta cruzados novos. Querem saber o motivo? Vou revelar o porquê da pergunta.

Em 1989, o Presidente do Brasil era José Sarney e a moeda da época era o cruzado novo. Drummond já habitava em outro planeta e surgiu uma nota de cinqüenta cruzados novos para homenageá-lo. No anverso da nota, aparecia o poema "Canção Amiga". Foram muitos planos para tentar estabelecer a moeda brasileira e o cruzado novo teve uma vida efêmera, essas notas só circularam até 1992, hoje ter uma nota de cinqüenta cruzados novos é coisa para colecionador ou pessoa que guarda o passado "preso na algibeira".

Agora, um convite - procure no livro "Novos Poemas", de Carlos Drummond de Andrade, o poema "Canção Amiga", leia, é bonito, curtinho e fácil de memorizar, leia sozinho, bem baixinho, leia para os seus amigos, copie e dê como presente a um amigo ou amiga que você guarda no lado esquerdo do coração, se quiser também pode procurar o CD Clube da Esquina 2, esse poema foi musicado por Milton Nascimento. É ler, ouvir, memorizar e não esquecer jamais.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902 e partiu para não mais voltar em 1987. "Canção Amiga" é o primeiro poema do livro "Novos Poemas", uma composição poética composta de 5 estrofes. A última estrofe do poema aparece como epígrafe deste texto e os dois últimos versos figuram como fecho da história do namorado da fada. Vale a pena repeti-los:

"Eu preparo uma canção 
que faça acordar os homens 
e adormecer as crianças."

É um poema que, na voz de Milton Nascimento, tem sabor de uma canção de ninar

sábado, 10 de janeiro de 2009

papel do ilustrador na literatura infantil brasileira


 O papel do ilustrador na literatura infantil brasileira

"A ilustração confere ao livro, além do seu valor estético, o apoio, a pausa e o devaneio tão importantes numa leitura criadora". (Regina Yolanda Werneck. A importância de imagem nos livros de Literatura Infantil e Juvenil)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba

O Patinho Feio, de Andersen, uma publicação da Editora Melhoramentos, (1915), é considerado o primeiro livro infantil ilustrado em cores, no Brasil. Maria Alexandre de Oliveira, no livro "A literatura para crianças e jovens no Brasil de ontem e de hoje: caminhos de ensino" (Paulinas, 2008), ressalta que, naquela publicação, com data do início do século XX, não constava o nome do ilustrador na capa, aparecia apenas o nome do autor - Andersen. A teórica da literatura infantil ainda destaca que: "No contexto tradicional, as ilustrações eram raras e pouco ou nunca coloridas; eram figurativas, redundantes, mas propiciando, já naquela época, uma comunicação não-linear, própria da linguagem imagética". (p.65/66).

Os avanços tecnológicos e o aprimoramento artístico proporcionaram um salto qualitativo na ilustração do livro infantil no Brasil. A partir da década de 70, do século XX, que coincidiu com a explosão da literatura para crianças e jovens, a ilustração tomou novos rumos e, em nossos dias (século XXI), encontramos ilustradores que procuram não só dialogar com o texto escrito, mas conferir poeticidade, simbologia e beleza artística à ilustração.

Graça Lima, ilustradora brasileira premiadíssima, em palestra proferida no Seminário "Prazer em Ler de Promoção da Leitura - Nos Caminhos da Literatura", em São Paulo (agosto de 2008), com patrocínio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Instituto C&A, foi muito feliz quando afirmou:

"A obra de um ilustrador é uma arte, porque, assim como os pintores, os escultores, os músicos ou qualquer outro tipo de artista, ele tem a mesma necessidade de fazer compreensíveis seus sonhos e, por meio de sua capacidade profissional, interpretar o mundo em que vive dando sua visão imaginativa e real à sociedade." (In: Nos Caminhos da Literatura: Peirópolis, 2008, p.41).

Em setembro de 2008, a Editora DCL publicou um livro todo dedicado à qualidade da ilustração no livro infantil. Ieda de Oliveira foi a organizadora do livro - "O que é a qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador" (DCL, 2008). No início de 2008, o professor e ilustrador Rui de Oliveira já havia publicado um livro centrado nos meandros da ilustração de livros - "Pelos jardins Boboli" (Nova Fronteira, 2008), objeto de uma de nossas resenhas aqui, no jornal O Norte, (16 de agosto de 2008, C4).

Ieda Oliveira organizou o livro "O que é a qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil", dividindo-o em duas partes. Na primeira, aparecem sete artigos de renomados ilustradores brasileiros e, na segunda, 14 depoimentos. Os artigos estão mais afeitos à historicidade da ilustração e os depoimentos centrados no modo de proceder de cada ilustrador. Vale a pena transcrever excertos de alguns depoimentos.

Ana Raquel vê a ilustração como Arte e considera difícil conceituar o que é uma boa ilustração:

"O que é uma boa ilustração?

Procurei palavras tipo lápis, pincel, tinta e papel para ilustrar este conceito. Não foi possível. Pincel ou lápis e tinta são substantivos e concretos.

Penso que ilustrar requer abstração, desafio, observação... Poesia quase sempre e uma dose bem servida de preconceito. Contra o óbvio". (p. 165).

Ana Terra observa o que é qualidade na ilustração:

"Qualidade não é ser "feio" ou "bonito", é a expressão da arte. Cada um com seu gosto. Cada um com seu estilo, mas todos com qualidade." (p.167).

André Neves analisa o papel do ilustrador da nova geração quando diz:

"... o que se deve acentuar é que nessa última geração os ilustradores estão plantando suas idéias com convicção. Não estão repetindo palavras, mas mostrando seus próprios jardins de olhar". (p.170).

Ângela Lago pediu a uma criança que ajudasse a responder a essa difícil pergunta: o que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil? E veio a resposta:

"Um desenho bom é um desenho que faz rir."

Ângela conclui com esta opinião:

"E ela está certa. É o que eu gostaria de conseguir. Um desenho que faça rir, ou sorrir, que pegue de surpresa, que se arranque um ah... Um desenho inesperado, um achado poético" (p. 173).

Márcia Széliga apela para a curiosidade do leitor:

"Ilustrar é despertar um questionamento, é instigar a curiosidade para desvendar os mistérios incrustados nas entrelinhas das palavras, na ambientação das formas e cores que acionam os sentidos do leitor, para que ele possa se sentir, em seu íntimo, um co-autor silencioso". (p.181)

Maurício Veneza estabelece uma analogia entre a ilustração e a música:

"A relação entre imagem e texto na obra literária não deve ser de vassalagem, e sim de associação. A analogia mais simples que me ocorre é com a música popular. A música de Tom Jobim, por exemplo, tem força própria e independente, assim como os versos de Vinicius de Moraes. Mas, quando se juntam, formam uma terceira coisa que difere das duas anteriores e que não existiria sem essa associação. O mesmo acontece com o livro ilustrado." (p. 185).

Thais Linhares, de forma bem descontraída, revela o que é uma boa ilustração:

"Uma ilustração boa, supimpa mesmo, é aquela que puxa pelos olhos, acorda a memória, dispara a inteligência e abre o coração. Tem múltiplas leituras. Isso mesmo, "lemos" a imagem, e é aí que questões de técnica, cultura, texto e personalidade se juntam para a festa visual'. (p.203).

Aqui estão alinhadas algumas opiniões de abalizados ilustradores que procuram dar vida e beleza às palavras através da ilustração. Não poderíamos deixar de fazer referência a um pintor/ilustrador paraibano que vem se destacando na arte de ilustrar livros - Flávio Tavares.

No livro "Zôo Imaginário" (Escrituras: 2005), do poeta Sérgio de Castro Pinto, o ilustrador conseguiu, com seu traço sutil, utilizando apenas o preto e o branco, não repetir palavras, mas mostrar, como sugere André Neves - seu próprio "jardim de olhar". Experiência semelhante ocorreu também quando Flávio ilustrou o bonito livro de poemas de Ricardo Anísio, Canção do Caos (Forma Editorial, 2008), desafiando a afirmativa do professor, teórico e ilustrador Rui de Oliveira:

"A poesia é um dos gêneros literários mais difíceis de serem ilustrados. Em alguns casos pelo seu intimismo, pela sucessão de metáforas e alegorias encadeadas, sem dúvida um dos momentos máximos de qualquer idioma. Tudo isso dificulta qualquer tipo de concreção visual". (Rui de Oliveira. Breve História da ilustração no livro infantil e juvenil. In: O que é a qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador. Org. Ieda Oliveira. DCL, 2008, p 22).

Flávio Tavares parece ignorar a dificuldade de que nos fala Rui de Oliveira e faz parceria não apenas com os poetas mais novos, mas com os antigos, observe-se a sua ligação com a poesia de Augusto dos Anjos. Se consultarmos o livro "A saga de um poeta" (Melo Filho e Pontes, Juca. Orgs. FBB, 1994), iremos encontrar vários poemas de Augusto dos Anjos ricamente ilustrados por este versátil artista e ilustrador paraibano.

Para pintar o grande painel que retrata a vida e a obra de Augusto dos Anjos que se encontra na Academia Paraibana de Letras, o pintor confessou a Luiz Augusto Crispim que leu e releu todo o EU. Foi tomado e possuído pelo espírito da obra de Augusto que ele conseguiu reproduzir o clima, a atmosfera augustiniana.



sábado, 3 de janeiro de 2009

FERIAS -TEMPO DE BOAS LEITURAS





Artigo - Férias - tempo de boas leituras

Para formar cidadãos críticos e independentes, difíceis de manipular, em permanente mobilização espiritual e com imaginação sempre em brasa, nada 
como as boas leituras. (Mário Vargas Llosa. A Verdade das Mentiras).

Neide Medeiros Santos, Crítica Literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba (FNLIJ/PB)

Em 2008 foram publicados bons livros para crianças e jovens, e aqui vamos apresentar uma relação de livros que nos chegaram através da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e que poderão ser lidos pelas crianças, por jovens e por todos aqueles que gostam de boas leituras.

Cordel

Da literatura de cordel selecionamos dois livros. O primeiro é A Espanhola Inglesa (Editora Scipione, 2008), de Manoel Monteiro, baseado na obra de Miguel de Cervantes, com ilustrações de Jô Oliveira. 
Manoel Monteiro é um cordelista bem conhecido dos paraibanos. Nasceu em Bezerros, Pernambuco, mas há muitos anos mora em Campina Grande e conserva em sua casa uma folheteria que é uma verdadeira biblioteca do cordel, tudo muito bem organizado.

Muitos folhetos de Manoel Monteiro foram transformados em livros e hoje estão sendo indicados para a grade curricular de várias cidades brasileiras.

Jô Oliveira nasceu em Itamaracá (PE), atualmente vive em Brasília. Na infância também morou em Campina Grande. São, portanto, autores ligados à Paraíba e às raízes nordestinas.

Jô tem trabalhado em parceria com cordelistas, ilustrando livros com cores fortes e traços que remetem ao estilo naïf, mas é autor também de alguns livros para o público infanto-juvenil.

A Espanhola Inglesa é um trabalho de recriação do texto de Cervantes por Manoel Monteiro, ele transformou em versos de cordel a narrativa em prosa de Cervantes. A bonita e comovente história da menina Isabel, de origem espanhola, que "foi raptada por mãos de ingleses brutais", é relatada pelo cordelista com lances que vão de obstáculos e desencontros a um desfecho diferente do texto cervantino. No fecho da história, Monteiro pede desculpas a Saavedra por "ter findado desse jeito" e revela:" Eu mesmo estou satisfeito". (p.58).

Em comentário a este final, diferente do conto de Cervantes, Cláudio Henrique Salles Andrade considera muito bom o proceder de Manoel Monteiro porque leva o leitor a querer conhecer a novela do escritor espanhol.

Da Editora Rovelle, publicação de 2008, outro livro com a temática do cordel - Cordelinho, texto de Chico Salles e ilustrações de Ciro Fernandes. Chico Salles e Ciro Fernandes são paraibanos, Chico nasceu em Sousa e Ciro, em Uiraúna.

Assis Ângelo, jornalista e escritor paraibano, radicado em São Paulo, faz a apresentação deste livro e afirma que a Paraíba é a "terra mais poética e musical do Brasil". Do "sublime torrão", cantores, teatrólogos, cineastas, romancistas, poetas populares e o poeta erudito Augusto dos Anjos, entre muitos outros, conquistaram o Sudeste.

O livro de Chico Salles é todo versado em sextilhas, com versos em redondilha maior (sete sílabas), condizente com a literatura de cordel e apresenta duas histórias - "O Barato da Barata" e "O Tigre que virou doutor", mas o destaque maior reside nas xilogravuras de Ciro Fernandes - coloridas, criativas, expressivas. A riqueza da xilogravura de Ciro nos conduz a uma outra leitura. Examinando as ilustrações, podemos criar novas histórias. O xilógrafo paraibano vai muito além do texto verbal, ele não se limita a representar a história, uma bonita trama colorida leva o leitor a mergulhar no reino do imaginário e da fantasia.

Poesia

Em 2008, a boa poesia se fez presente na literatura para crianças e jovens. Houve reedições de livros já consagrados pela crítica, como "O menino poeta" (Ed. Peirópolis), de Henriqueta Lisboa, ilustrado com lindas aquarelas de Nelson Cruz e posfácio de Gabriela Mistral.

Entre as novidades, destacamos "As meninas e o poeta" (Ed. Nova Fronteira), livro organizado pelo saudoso Elias José contendo pequenos poemas que Manuel Bandeira dedicou às meninas filhas de seus amigos, figuram também alguns poemas de livro para adultos e poemas inéditos de Bandeira descobertos pelo autor de "Lua no brejo". Graça Lima foi a ilustradora responsável pelas delicadas ilustrações de menininhas e, segundo Elias José: "ela faz poesia com imagens, cores e movimentos". Leiam, tenho certeza de que irão gostar.

Mário Vale é ilustrador, arte-educador e fez uma bem sucedida incursão nos poemas em prosa de Baudelaire, o resultado foi o bonito livro " O desejo de pintar e outros poemas em prosa de Baudelaire" (Ed. Noovha América). E o leitor poderá perguntar: este livro é para crianças? Calma, leitor apressado! O livro pode ser lido por um adolescente, pelo pai que gosta de poesia e pelos professores que já leram "Flores do Mal" "Os paraísos artificiais" e "Arte romântica". Uma coisa é certa - os pequenos leitores, aqueles que ainda não conhecem a poesia de Baudelaire, ficarão encantados com as ilustrações e poderão até criar pequenos poemas com as pinturas de Mário Vale.

Reconto

Lá vem outro paraibano - Bráulio Tavares. 2008 foi um ano promissor para os autores paraibanos. Da Editora 34, nos chega o livro "A invenção do mundo pelo Deus-curumim", com ilustrações do consagrado Fernando Vilela. Vilela foi econômico nas cores e vigoroso nos traços - letras e flechas se misturam, formando um emaranhado de figuras dançarinas.

Bráulio reconta um mito indígena brasileiro que fala sobre a criação do mundo. Estrelas, folhas, grãos de areia, tudo surgiu dentro de um coco e a linguagem poética de Bráulio dá vida até às próprias letras que aparecem como personagens.

"Contos do Baobá" (Ed. Nova Fronteira) são contos adaptados e ilustrados por Maté e fala sobre tempos primordiais, da época em que o céu ficava muito perto da Terra. As mulheres utilizavam longas varas e pescavam estrelas para os filhos brincarem.

São quatro narrativas inspiradas nos contos dos griots, os contadores de histórias da África, os guardiões da cultura oral africana. Como leitura complementar, o leitor encontra informações sobre o baobá, uma palavra que em árabe significa "o fruto de muitas sementes". Em Angola, essa mesma árvore se chama "imbondeiro" e nada se perde do baobá - folhas, frutos, flores, fibras do tronco, tudo é aproveitado, é uma árvore sagrada para os africanos. No Brasil, existem vários baobás, eles são encontrados em Recife, Natal e talvez existam na Paraíba, mas tenham muito cuidado para não confundir com a árvore conhecida popularmente como barriguda, esta habita as terras paraibanas, do cariri ao sertão.

Informativo

Os 100 anos da morte de Machado de Assis foram comemorados com reedições dos contos, romances, livros de poesias, peças de teatro, crítica literária. Houve conferências e palestras na Academia Brasileira de Letras e não faltaram também os livros informativos sobre Machado. O Rio de Janeiro, do período machadiano, foi revivido por muitos escritores e os pesquisadores Hélio Guimarães e Vladimir Sacchetta escreveram "Machado de Assis. Fotógrafo do invisível: o escritor, sua vida e sua época em crônicas e imagens", uma edição da Editora Moderna.

A pesquisa não poderia estar em melhores mãos. Hélio Guimarães é professor-doutor da USP, é pesquisador da obra de Machado de Assis. Vladimir Sachetta é jornalista, produtor cultural e sócio diretor da Companhia da Memória, uma organização encarregada de divulgar a memória do país em texto, imagem e som.

O subtítulo do livro já nos dá uma indicação - o leitor vai percorrer crônicas de Machado de Assis e ter uma visão mais detalhada do Rio da época do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Cartas, crônicas, textos de crítica literária e muitas fotografias desfilam diante dos olhos do leitor atento e curioso em saber cada vez mais sobre esse "bruxo" misterioso e genial.

2008 foi também um ano marcado por datas comemorativas e foram publicados vários livros dedicados aos 100 anos da imigração japonesa no Brasil.

Nereide Schiliaro Santa Rosa já escreveu mais de cinqüenta títulos sobre arte destinados ao público infanto-juvenil. Em "Papel e tinta: Artes do Japão" (Ed. Callis), a arte-educadora se debruça sobre as artes do Japão e apresenta um amplo painel das técnicas com papel e tinta utilizadas pelos artistas japoneses. Ao todo são demonstradas dez técnicas, entre elas o sumi-ê. Este ano, durante a Feira Japonesa em João Pessoa, a escritora e artista plástica Lúcia Hiratsuka fez palestra sobre literatura infantil e uma breve demonstração da técnica do sumi-ê, uma pintura e desenho em tinta preta.

O livro "Papel e tinta: Artes do Japão" é uma verdadeira obra de arte. Professora, orientadora técnica e coordenadora pedagógica, Nereide sabe dar um toque prático e beleza a seus livros sem cair no didatismo. A leitura desse livro proporciona um passeio e uma viagem prazerosa pela arte japonesa.

Teórico

Para completar a sugestão de boas leituras, indicamos um livro para professores, pais e educadores. Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini organizaram "Monteiro Lobato, livro a livro: Obra infantil" (Ed. UNESP). Os organizadores explicam, na apresentação do livro, que pretendem abrir rumos para novas pesquisas dos livros e do autor das histórias do Sítio.

O leitor adulto encontra, neste livro, um Lobato múltiplo - o advogado, o fazendeiro, o diplomata, o empresário, o tradutor, o criador de Sitio do Picapau Amarelo, o contista, um sonhador, um visionário, mas sobretudo um escritor que se cansou de escrever para marmanjos e resolveu investir no livro infantil.

O livro foi escrito por um grande número de especialistas em Lobato e cada ensaio oferece uma nova faceta deste escritor que foi um marco na literatura infantil brasileira. Os grandes escritores da atualidade e cito, entre outros, Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Ziraldo, Bartolomeu Campos de Queirós beberam água da fonte lobatiana.

Na apresentação do livro, os organizadores afirmam:

"Como seu título sugere, Monteiro Lobato livro a livro dedica um capítulo a cada título infantil do escritor, acompanhando a cronologia de lançamento de suas primeiras edições. Abrem o livro discussões breves sobre linguagem, imagens, ilustrações e práticas editoriais do escritor". (p. 10)

É uma pesquisa sobre o criador de Emília das mais completas que conhecemos. São 484 páginas de "linguagem clara e cristalina como água de pote", concluem os organizadores.

Aí estão 10 livros para todos os gostos - cordel, reconto, poesia, informativo, teórico. O que você, caro leitor, está esperando? Lembre-se: férias é tempo de boas leituras.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Um passeio cheio de graça pela vida e obra de Machado de Assis


Um passeio cheio de graça pela vida e obra de Machado de Assis
(Neide Medeiros Santos – Crítica FNLIJ/PB)

O Tempo inventou o almanaque... E choviam almanaques, muitos deles entremeados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas.
(Machado de Assis).

O almanaque é um livreto muito antigo e já circulava, no Brasil, na época de Machado de Assis. Apresentava assuntos variados, curiosidades, contos, poemas, matéria humorística e recreativa. As pessoas mais antigas guardam lembranças dos velhos almanaques que eram distribuídos, gratuitamente, nas farmácias brasileiras.
Nas primeiras décadas do século XX, Monteiro Lobato criou a história de Jeca Tatu, veiculada no Almanaque do Biotônico Fontoura. Jeca Tatu era vítima de “amarelão”, doença causada pela “ancilostomíase” e Lobato recomendava que o personagem tomasse Biotônico Fontoura para curar a doença. Lobato foi, assim, o maior divulgador do “santo remédio”.
Luiz Antônio Aguiar se inspirou nos antigos almanaques, no que se refere à diversidade de assuntos, para escrever o Almanaque Machado de Assis – vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias (Editora Record, 2008), A respeito desse livro, Anna Maria Rennhack, Gerente de Relações Institucionais da Editora Record, assim se expressou:
Almanaque Machado de Assis, de Luiz Antonio Aguiar, tem objetivos ambiciosos. O primeiro, despertar o leitor iniciante para o mundo do escritor, através de informações sobre vida, obra e outras curiosidades. O segundo, levar os leitores que já conhecem a obra de Machado de Assis a reler seus títulos e reviver deliciosas passagens de seus textos.
Luiz Antonio Aguiar divide o livro em duas fases. A primeira compreende dados biográficos do autor, atividades literárias e curiosidades machadianas. A segunda se detém na análise das principais obras de Machado de Assis e nas bruxarias literárias. Na última parte, há citações e breves comentários sobre biografias e estudos críticos a respeito do autor de Dom Casmurro.
Vamos iniciar o passeio seguindo a ordem de apresentação do livro. Conta-se que Memórias Póstumas de Brás Cubas nasceu em Nova Friburgo para onde Machado fora passar uma temporada com a esposa com o objetivo de curar-se de uma terrível crise intestinal e de uma infecção ocular. Incapaz de escrever, Machado ditara o livro ou partes dele para sua mulher.
A denominação “Bruxo do Cosme Velho” adveio do último e definitivo endereço de Machado de Assis no Rio de Janeiro. Rua Cosme Velho, 18, Laranjeiras. A casa era um sobrado com um jardinzinho na frente e havia um plantio de rosas. Machado gostava de cuidar das rosas do jardim.
O excerto do poema de Drummond, “A um bruxo com amor”, inserido no livro “A vida passada a limpo”, é outra referência feita por Luiz Antonio que remete para a leitura integral do poema de Drummond e sugere também um mergulho na obra machadiana. São tantas as citações de Drummond à galeria de personagens criadas pelo bruxo de Cosme Velho que o leitor fica querendo conhecer um pouco mais das obras de Machado de Assis.
O sentimento de vazio, após a morte de Carolina, companheira de 35 anos de casamento, se revela no trecho da carta enviada por Machado ao amigo Joaquim Nabuco:
Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo, mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. (Almanaque M. de Assis, p. 54).
Quatro anos depois da morte de Carolina, Machado parte, e entre os amigos que presenciaram a sua morte estava José Veríssimo. Foi este quem ouviu de Machado a sua última frase:
A vida é boa!
No capítulo “Mapa da obra”, com o título “Não deixe de ler”, o autor recomenda algumas leituras imprescindíveis dentro do universo machadiano: crônicas, contos, romances, poesia, crítica e teatro.
Para quem gosta de citar frases e aforismos de Machado de Assis, aconselhamos a leitura do capítulo “Assim falou Machado de Assis...” (p.189-195). Nessa parte se encontram frases, pensamentos e relíquias machadianas.
A Fase II se abre com “Poções Machadianas” e aparecem excertos de contos e romances comentados por Luiz Antonio Aguiar e por outros críticos de Machado de Assis. Ainda, no espírito da Fase II, Luiz Antonio Aguiar dá indicações sobre biografias e a fortuna crítica do autor de Dom Casmurro.
Não poderia faltar nesse livro o dilema: Capitu – culpada ou inocente? E vêm as diferentes opiniões dos críticos.
As fotografias que aparecem no livro, todas em tom sépia, retratam o sobrado da Rua Cosme Velho, ruas do Rio na época de Machado de Assis, objetos pertencentes ao escritor, retratos de Machado e da esposa Carolina em diferentes fases da vida, retratos de companheiros e amigos de Machado de Assis e uma pequena galeria de quadros, entre estes “A Dama do Livro”, quadro de Roberto Fontana que lhe foi presenteado por amigos.
Almanaque Machado de Assis: vida obra, curiosidades e bruxarias literárias pode ser lido em conta-gotas, cada dia um pouquinho. É uma leitura para “conhecer, pensar e se divertir”. Esse bruxo é mesmo “Indispensável”. Com sua fina ironia, Machado de Assis diverte, zomba e brinca com o leitor.
Este livro de Luiz Antonio Aguiar, fruto de pesquisas de mais de vinte anos, conforme declaração do próprio autor no Salão do Livro (2008), traz uma boa contribuição para a fortuna crítica de Machado de Assis no ano do centenário de sua morte. É um convite à leitura.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Nas Trilhas de Clarice e Beatriz


Nas Trilhas de Clarice e Beatriz

 

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba)

 

As palavras vão e vêm levando

sentimentos e afetos. Estamos tão longe, e, ao mesmo tempo,

tão perto!

(Eloí Elisabete Bocheco)

 

Eloí Elisabete Bocheco é professora e escritora de livros infanto-juvenis. Durante 13 anos, publicou crônicas no jornal “A Notícia”, de Joinville (SC). Algumas dessas crônicas foram reunidas em livro e publicadas com o título “Pedras Soltas” pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. São textos revestidos de muita poeticidade. Peter O´Sagae, editor de “Dobras da Leitura”, foi muito feliz no comentário que fez sobre este livro: 

“As crônicas mostram seu bordado: não vem à toa nenhuma frase, por mais travestida de non-sense que se pareça: a linha evola da referência local e da prisão do tempo. São como mimos de coral, ou riscos de groselha, em que o precioso e o efêmero provocam espanto”.

Eloí Elisabete e Zenilde Durly são responsáveis pelo jornal de literatura infantil e juvenil “O Balainho”, uma publicação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc). “O Balainho” tem divulgado autores nordestinos que trabalham com a literatura infantil.

 Em 2003, Eloí foi vencedora do Concurso “Leia Comigo”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com a bonita história ”Não vá embora, Clarice!”, um relato ficcional que prende o leitor do inicio ao fim do texto.

Antonio Candido, no livro “Personagem de Ficção”, fala sobre o processo de criação de personagens e afirma que todo escritor se revela um pouco através de seus personagens. Eloí Bocheco coloca muito de sua vivência nessa poética história de Clarice, uma professora que faz um trabalho de leitura com as mulheres que varrem a rua e freqüentam a Praça XV. Não sabemos onde fica a Praça XV, pode ser em Curitiba, Rio, Florianópolis ou qualquer cidade do Nordeste brasileiro, mas a Praça XV do relato de Eloí é uma praça especial. É lá que a professora Clarice vai encontrar as mulheres que varrem a rua e começa o seu trabalho de ler histórias para aquelas mulheres de vida tão simples. O interesse pela literatura começa a crescer, de simples ouvintes elas passam a ser leitoras, mas chega o momento da partida de Clarice, e elas (as mulheres leitoras) fazem esse apelo comovente: “Não vá embora, Clarice! “

Beatriz em trânsito (Ed. Dimensão, 2006) recebeu vários prêmios no Brasil e até no exterior. O livro foi selecionado para o catálogo White Ravens, da Biblioteca de Munique, com crítica de Ninfa Parreiras. No Brasil, foi o vencedor do prêmio Casa da Cultura Mário Quintana (RS), e consta do Acervo Básico da FNLIJ (2006).  

Na entrevista, concedida à Assessoria de Imprensa da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul, indagada a respeito do possível leitor de “Beatriz em trânsito”, a escritora respondeu: “é uma obra para todas as idades”.   

Aliando os dois lados de sua vida – professora/escritora, Eloí gosta de escrever sobre livros, leitura e professores. “Beatriz em trânsito” não foge dessa temática. Aqui vamos encontrar a protagonista, uma menina de 10 anos, que descobre o mundo através dos livros.

Beatriz é uma menina inteligente, mora com os avós e está sempre de mudança, não tem um pouso certo, daí o título do livro – “Beatriz em trânsito”, mas no meio dessas mudanças acontecem coisas interessantes, como conhecer vários amigos e, entre eles, o menino Samuel que anda em cadeiras de rodas e a menina Mariana, mais uma vez aparece uma professora – Guiomar – que cada semana traz uma novidade para a classe.  Além do armário cheiinho de livros, há o mural com textos escritos pelos alunos, textos que falam sobre medos, tristezas, alegrias, sonhos.

A maneira inovadora de a professora Guiomar ensinar, leva Beatriz a dizer: “A Guiomar é uma grande misturadora de aula e de vida”. (p.33)

Com sentimento e muito afeto, recebi o último livro de Eloí Bocheco – “Gaitinha tocou, bicharada dançou” (Ed. Paulinas, 2008). É um livro indicado para crianças que estão se alfabetizando. 

Antes de se encantar em passarinho, Elias José fez a apresentação deste livro com palavras cheias de fantasia e falou de forma carinhosa sobre a bruxinha Elisa, personagem sempre presente nos livros da autora catarinense.

“A bruxinha Elisa renova. É bruxa, criança e fada. Ela se envolve com a natureza, com árvores, peixes, pássaros e outros bichinhos. (...) Fica na memória afetiva do leitor, mesmo não sendo descrita pela autora, que prefere contar com a imaginação de quem lê.”

Ouso parafrasear Elias José e aposto: leiam “Pedras Soltas”, “ Não vá embora, Clarice!” “ Beatriz em trânsito” e as histórias da bruxinha Elisa. Se vocês começarem a ler os livros de Eloí Bocheco  vão gostar, é só começar.