sábado, 15 de outubro de 2011

O LENHADOR no Museu da Língua Portuguesa


O LENHADOR no Museu da Língua Portuguesa
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Catullo não morreu: luarizou-se...
(Mário Quintana. Um Epitáfio para Catullo da Paixão Cearense)
Francisco Marques (Chico dos Bonecos) “poeta, contista e desenrolador de brincadeiras” lançou, no dia 8 de outubro, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, o livro” O Lenhador” (Editora Peirópolis, 2011), com ilustrações de Manu Maltez.
O autor do poema, Catullo da Paixão Cearense, nasceu no dia 8 de outubro de 1863, em São Luís do Maranhão. Aos dez anos, foi morar no sertão do Ceará e aos dezessete se mudou com os pais para o Rio de Janeiro, ali se fixando definitivamente. O sobrenome Paixão Cearense não adveio de ter morado no Ceará, é uma herança paterna, seu pai se chamava Amâncio José Paixão Cearense. Inicialmente, Catullo sentiu-se atraído pela música, começou tocando flauta, mas logo se voltou para o violão que se tornou um amigo inseparável. Seus poemas são muito musicais e se prestam para leitura em voz alta, como fez Francisco Marques no Museu da Língua Portuguesa.
“O lenhador” é considerado um texto ecológico, integra o primeiro livro publicado por Catullo – “Meu Sertão”. A respeito desse poema, Mário de Andrade assim se expressou: “O poema é digno do espantoso inventor de metáforas e com uma temática espantosamente contemporânea para um poema de 1918”.
Muito anos depois, Manoel de Barros que muito entende da natureza, das árvores e dos passarinhos, saudou o poeta com estas palavras:
“Oi Catullo! Sabemos pouco ou quase nada sobre o coração das árvores. Eu, de minha parte, só penso em desver este mundo tão malvado com a natureza. Mas para desver este mundo precisei inventar outro”.
Catullo, como Manoel de Barros, inventou outro mundo. No poema “O Lenhador,” a oralidade e o tom teatral são elementos marcantes – é como se o coração do narrador estivesse sangrando de dor diante do machado insensato. Catullo é, também, autor da canção “Luar do sertão”, considerado “o hino nacional do coração brasileiro”.
Há duas versões do poema “O lenhador”. A primeira traz a data de 1918 e foi escrita em linguagem matuta, a segunda é de 1921, a linguagem é mais erudita. Preferimos a versão de 1918, é espontânea e a linguagem mais saborosa.
Um registro da primeira estrofe dos poemas comprova o que afirmamos:
Um lenhado derribava
as árvre, sem precisão,
e sempre a vó li dizia:
“ Meu fio: tem dó das árvre,
que as árvre tem coração!”(1918)
.....................................................
Um lenhador derribava,
à toa, sem precisão,
tudo quanto ele encontrava
que fosse vegetação.

A sua pobre avozinha,
toda a noite e todo o dia,
(mas sempre falando em vão...)
sem se cansar lhe dizia:

“Meu filho.. Tem compaixão!
Respeita a imagem das árvores,
porque elas têm coração.” (1921)

O neto parecia indiferente aos conselhos da avó, desmatava, queimava as árvores, nada escapava do machado do lenhador: ipês cheiinhos de flores eram derrubados, nem uma velha laranjeira que tinha fornecido as flores para o casamento da avó foi poupada, ficou toda desgalhada. E a avozinha sempre repetindo: “Meu fio: tem dó das árvre,/ que as árvre tem coração!”
Um dia, quando “o tinhoso” derrubava um grande ipê, viu o sangue jorrando do tronco, assombrou-se e fugiu correndo. Foi perseguindo por todas aquelas árvores que tinha derrubado. O poema “O Lenhador” merece ser lido, decorado por inteiro e declamado para a família, para os amigos, “para a irmãzinha natureza...”
Não poderia deixar de fazer referências às belas ilustrações de Manu Maltez. A economia das cores – apenas o cinza e o vermelho – denuncia, respectivamente, a morte das árvores e as feridas abertas pelo machado impiedoso do lenhador.
Alberto Manguel, no livro “Diário de Lecturas”, afirma que há livros que lemos com reverência, com respeito, livros que ficam gravados na nossa memória. “O lenhador” é um desses livros.
Quer saber mais sobre este livro, sobre a vida de Catullo, sobre o que disseram os biógrafos? Leia-o.

Suas mais famosas composições são Luar do Sertão (em parceria com João Pernambuco), de 1908, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e Flor amorosa, composta juntamente com Joaquim Calado em 1867. Também é o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da ´modinha´.




terça-feira, 4 de outubro de 2011

SER ÍNDIO: UMA ATITUDE DE CORAGEM E SUPERAÇÃO


SER ÍNDIO: UMA ATITUDE DE CORAGEM E SUPERAÇÃO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Ao escrever, dou conta da minha ancestralidade,
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo.
(Graça Graúna)

O escritor Daniel Munduruku esteve em João Pessoa e participou do II Seminário de Leitura na Rede (15 e 16 de setembro de 2011), realizado no auditório da Federação das Indústrias (SESI). De forma descontraída, o professor/filósofo dialogou com professores e mediadores de leitura e explicou o que ser índio no Brasil atual.
Filho da nação Munduruku, natural de Belém do Pará, Daniel Monteiro Costa adotou o sobrenome de Munduruku em homenagem a seu povo. Na conversa com o público, relatou que quando era criança tinha vergonha de ser índio. Na escola, os colegas diziam que índio era habitante da selva, da mata, e que se parecia com os animais. O menino ouvia essas histórias, sofria, e não podia negar sua origem – tinha cara de índio, cabelo de índio e pele de índio, chegou a desejar não ter nascido índio.
Mas, sempre existe um mas nas histórias, quer sejam reais, quer sejam fictícias, apareceu o avô que procurou mostrar ao menino Daniel a beleza e a riqueza dos povos indígenas e o que esse povos representavam para a sociedade brasileira. Hoje reconhece que o avô tinha razão. Quando deixou a aldeia e foi estudar e morar em São Paulo assumiu o compromisso de divulgar o modo de ser e de fazer dos índios brasileiros. E vem cumprindo muito bem a promessa.
Os inúmeros livros que já publicou sobre a cultura, os mitos, as histórias indígenas, as palestras que tem proferido em seminários, congressos, encontros de literatura infantil, feiras de livros, tudo atesta o trabalho de um escritor verdadeiramente comprometido com seu povo.
O livro “Coisas de Índio”, versão infantil e adulto (Ed. Callis), oferece um amplo panorama sobre as comunidades indígenas do Brasil. Com este título –” Coisas de índio “-, o escritor procurou minimizar o valor negativo da expressão e trazer o rico universo indígena para conhecimento das crianças e dos adultos.
Em 2011, Daniel Munduruku publicou “Coisas de onça” (Ed. Mercuryo Jovem), com ilustrações de Ciça Fittipaldi.
O escritor é graduado em Filosofia e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Escreveu mais de 40 livros para crianças e jovens, conquistou vários prêmios no Brasil e no exterior. Mora em Lorena, interior de São Paulo, e desenvolve um trabalho com escritores indígenas com o objetivo de difundir a literatura produzida por esses povos.
Ciça Fittipaldi é artista plástica, formada em Arquitetura e Urbanismo e dedicou-se à Antropologia. É professora de Artes da Universidade Federal de Goiás. Seu compromisso com a literatura indígena adveio de uma rica experiência que teve nos anos 1990 quando viveu entre os índios Nhambiquara. A coleção Morena (Ed. Melhoramentos), textos e ilustrações de Ciça Fittipaldi, é um conjunto de livros que aborda os mitos mais representativos dos índios.
“Coisas de onça” reúne três histórias de onça contadas pelo velho pajé Bijau e pela velha Kulahã. Nas aldeias, é costume os velhos contarem histórias para os mais novos, eles são considerados os “guardiões da memória”.
“A onça e o coelho esperto” é uma variante de “O Bicho Folharal”, conto recolhido por Gustavo Barroso e registrado por Câmara Cascudo em “Contos Tradicionais do Brasil”. No conto de Gustavo Barroso, o espertinho da história é a onça que engana a raposa. No conto indígena, o coelho consegue enganar a onça, mas o artifício usado pelos animais (onça e coelho) é quase o mesmo, lambuza-se de mel de abelhas e conseguem ludibriar o inimigo.
Kulahã contou a história de “A onça e a raposa”. Esta é a mesma versão de “O Bicho Folharal”, até os animais protagonistas são os mesmos – a onça e a raposa.
O terceiro conto “A onça e o veado” conta como esses dois animais construíram uma casa. O veado limpa o terreno para construir sua casa. No outro dia, quando volta para dar continuidade ao trabalho, encontra forquilhas e paus amarrando a casa e assim sucessivamente. Todo dia alguém colocava mais alguma coisa e o veado atribuiu o fato a Tupã. Só quando terminou a construção, o veado descobriu que tinha sido a onça que o havia ajudado e o jeito foi conviver com este animal que não merecia muita confiança, mas chegou um momento que o medo dominou e não foi mais possível a convivência. Resultado: abandonaram a casa.
Para escrever estas histórias, Daniel Munduruku fez pesquisas nos “Contos Populares” de Sílvio Romero, nas “Lendas de árvores e de plantas” de Altimar Pimentel e em outros livros que contam histórias da literatura oral e popular.
“Bem poucas palavras” é o texto introdutório do livro e Daniel Munduruku termina suas palavras com este pedido que transcrevemos:
“Aqui fica registrado meu pedido a todos os leitores que, ao tomar contato com este texto, elevem seu pensamento ao Criador, agradecendo pela sabedoria que estes antepassados deixaram escrita na memória da gente brasileira”.
Os livros “Coisas de índio”, nas duas versões – criança e adulto, podem ser encontrados na livraria Esquina das Letras.

Moçambique: um país tão longe e tão perto


Moçambique: um país tão longe e tão perto
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico.
(Mia Couto. Poema Mestiço)

Moçambique fica na costa oriental da África Austral, do outro lado do continente africano, e integra o grupo de países de língua portuguesa. Conseguiu a independência política de Portugal em 1975 depois de muitas lutas, tornando-se uma república multipartidária. É sobre este país, sua gente, suas histórias, que o escritor Júlio Emílio Braz escreveu “Moçambique” (Ed. Moderna, 2011).
O livro se compõe de textos adaptados e recontados por Antônio César Gomes Sobreira, pesquisados nos seus cadernos de viagens e diários. Gomes Sobreira nasceu em Portugal, em 13 de abril de 1915. Saiu de Portugal com um ano de idade, acompanhou os pais e permaneceu por quatro anos na colônia portuguesa de Moçambique. O pai era engenheiro e foi trabalhar naquele país. Com apenas dois meses de permanência em Cazula, uma aldeia do alto Zambeze, a mãe faleceu de causa desconhecida. Quatro anos depois, o pai resolveu enviar o filho para Portugal para a casa de um tio materno, aí foi criado e educado. Estudou na Universidade de Coimbra e se tornou um proeminente escritor e lingüista, só retornou a Moçambique depois de adulto. Faleceu em 14 de agosto de 2007, na cidade de Nampula.
Na apresentação do livro, Júlio Emílio Braz explica que o interesse pela África começou quando lançou os olhos para aquele continente à procura de suas próprias origens. No processo de auto-descobrimento, se voltou para os países que apresentam identidades étnicas e culturais com o Brasil, como Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola, Timor Leste, este último em plena Ásia, e Moçambique.
Vamos começar nossa viagem pelas histórias e contos moçambicanos, utilizando-se dos escritos do escritor, professor, folclorista e lingüista Antônio César Gomes Sobreira. Foram compiladas dezessete histórias. Nas Notas Finais do livro, o leitor encontra a biografia de Antônio César Gomes Sobreira, Bibliografia, O que é Moçambique? Dados sobre o autor e a obra.
A maioria dos contos é apresentada em prosa, mas encontramos um poema – “O filho desobediente” e uma peça teatral infantil, adaptada de um conto chuabo – “O coelho e a festa dos animais com chifres”.
O poema foi coletado num hospital de Nhamatanda durante a guerra civil, em meados de 1981, e publicado no livro “Gorongosa – Poemas para crianças inteligentes, de Antônio Sobreira, Livros da Nação. Sofala. Moçambique, 1994.” É um poema narrativo e conta a história de uma mulher que não tinha filhos. Aí a mulher teve uma ideia – resolveu criar um menino com pedaços de madeira e barro. Depois que terminou o trabalho, pediu-lhe que não brincasse longe de casa. A criança cresceu e começou a se aventurar e sair para mais distante. Veio a chuva e começou a dissolver o menino. A mãe ainda conseguiu salvá-lo nas primeiras vezes e reconstituí-lo, mas como as fugas aconteciam com freqüência um dia não foi possível refazer o filho querido que se desmanchou para sempre.
“O coelho e a festa dos animais com chifres” é uma peça adaptada de um conto chuabo. Em nota de rodapé, vem esta explicação: “Povo chuabo – concentra-se no centro sul da província de Zambezia, Moçambique, até a fronteira com o Maluí. O nome Chuabo significa “povo forte”, pois esse grupo ocupa as imediações do que foram os principais fortes portugueses no período da colonização.” (p.61)
A peça teatral envolve uma festa na floresta na qual só podia participar animais com chifres. O coelho resolve participar da festa e arranja uns chifres colocando-os na local das orelhas. A coelha, sua mulher, insiste para que não use esse artifício, pois poderia ser descoberto. Mas o coelho é insistente e não atende ao pedido. Vai à festa, bebe, dança e brinca com todos, mas no fim é desmascarado pelos animais chifrudos e recebe uma boa sova. Essa peça/conto apresenta afinidades com o texto popular “A festa no céu”, muito difundido no Brasil.
Os outros contos têm como protagonistas macacos mentirosos, amigos desleais, um gato corajoso e uma moça que nunca fala. Cada conto vem de uma região diferente de Moçambique. As notas de rodapé indicam o título do livro do professor Gomes Sobreira de onde foram retiradas as histórias.
O livro é dedicado à irmã Maria Jacinta de Souza, freira de uma congregação religiosa com sede em Maputo. Ela prestou uma inestimável ajuda a Júlio Emílio Braz na produção deste livro.
O escritor brasileiro costuma se apresentar nos colégios e contar histórias para as crianças. Em uma das visitas que fez a São Paulo, esteve em um colégio de freiras e soube que a congregação possuía um colégio na cidade de Maputo. As conversas com as freiras levaram-no a entrar em contato com a irmã Maria Jacinta de Souza, diretora do colégio de Maputo, que lhe enviou um rico material com lendas e mitos naturais de Moçambique.
Durante as explicações dadas pelo autor, encontramos inúmeras referências ao poeta Fernando Pessoa. Nas palavras que encerram o livro, aparece esta pergunta: “Cada um tem o Alberto Caeiro que merece ou pode ter, não é mesmo?” (p. 144)
Antônio César Gomes Sobreira e irmã Maria Jacinta – será que eles existiram mesmo? Somente quando terminei de ler o livro fiquei sabendo o que era real e o que era fantasia. Para desvendar o mistério, é necessário a leitura do livro.

domingo, 25 de setembro de 2011

Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável


Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O livro é uma extensão da memória e da imaginação.
(Jorge Luis Borges)

A Biblioteca Nacional, também chamada de Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, está localizada na Avenida Rio Branco, 219, Praça da Cinelândia. No dia 29 de outubro de 2010, completou 200 anos de existência. A história dessa biblioteca foi contada por Luciana Sandroni no livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” (Ed. Manati, 2011), que recebeu ilustrações de Eduardo Albini.
Luciana Sandroni já escreveu vários livros para crianças. “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” integra a série de livros de muito sucesso, destacando-se” Ludi vai à praia”, “Ludi na TV” e” Ludi na revolta da vacina”. Por este último livro, a autora recebeu o prêmio Carioquinha da Prefeitura do Rio de Janeiro e o prêmio O Melhor para Criança da FNLIJ. Com “Minhas memórias de Lobato”, conquistou o prêmio Jabuti.
O leitor deve estar curioso para saber como surgiu a Biblioteca Nacional. A história é longa, requer pesquisas, mas com o auxílio de Luciana Sandroni tudo se torna mais fácil. A história vai começar...
D. João I, rei de Portugal, e fundador da dinastia de Avis, foi o idealizador da primeira biblioteca ou “livraria” de Lisboa, denominação dada antigamente às bibliotecas em Portugal. Esse monarca era amante de obras raras e adquiriu muitos livros para o acervo da biblioteca. Em 1755, ocorreu em Lisboa um terremoto que destruiu grande parte dos livros da biblioteca. Alguns anos mais tarde, D. José I, outro rei de Portugal, procurou refazê-la adquirindo novas aquisições de obras raras.
Quando Napoleão Bonaparte invadiu Portugal, a família real se transferiu para o Brasil e, no sufoco da fuga, os livros da biblioteca que estavam encaixotados para embarque ficaram esquecidos no porto, somente dois anos depois chegaram ao Brasil.
A Biblioteca Nacional foi criada em 1810 por D. João VI e funcionou, inicialmente, no prédio da Ordem Terceira do Carmo, que ficava nas proximidades do Paço Municipal. Antes de se instalar definitivamente no prédio da Avenida Rio Branco (1910), a biblioteca passou por outros lugares. Chegou a hora de acompanhar a família Manso e visitar a atual Biblioteca Nacional.
A família Manso, criação da escritora Luciana Sandroni, é constituída pelo casal Marcos e Sandra, pelos filhos Ludi, Rafa e Chico, além de Margarida, auxiliar dos trabalhos domésticos, carinhosamente chamada de Marga.
Sábado foi o dia escolhido para visitar a Biblioteca Nacional. Enquanto tomavam café, Dona Sandra começou a falar sobre as relíquias guardadas na Biblioteca, todos ouviam com atenção, estavam curiosos. Os meninos já imaginavam que naquele prédio antigo devia habitar fantasmas e pensavam em aventuras com esses seres cheios de mistérios.
A visita tem início com a descrição da biblioteca – um prédio em estilo eclético, que é uma mistura de vários estilos da arquitetura – clássico, medieval, barroco. O guia da visita foi o senhor Botelho, “um senhor gordinho, de gravata borboleta, que parecia saído de um filme da década de 1940”. (p.37)
Depois da descrição do prédio, o que mais chamou a atenção dos visitantes foi o salão enorme, todo de mármore e cheio de colunas, uns lustres muito bonitos e uma escadaria coberta por tapete vermelho. É um prédio de quatro andares e no teto se avista um vitral todo colorido, vindo da França. A biblioteca parece um verdadeiro palácio.
No acervo da biblioteca, além de muitos e muitos livros há outras preciosidades que a família Manso vai descobrindo aos pouquinhos. Na Sala dos Periódicos, há várias estantes e aparelhos de microfilme. Lá se encontram jornais antigos e contemporâneos. São 9 mil jornais de todos os estados do Brasil. Eles estão microfilmados e alguns digitalizados. É possível ler o exemplar número 1 do “Jornal do Brasil” e também o número 1 do” Diário de Pernambuco” que traz a data de 1825, o jornal mais antigo da América Latina.
Na Sala de Iconografia, estão os livros que possuem mais imagem do que texto. Nesta sala se encontram, ainda, desenhos, caricaturas e gravuras de artistas famosos, como Debret e Rugendas. Há, também, fotos de Marc Ferrez e de muitos fotógrafos que registraram imagens do Brasil de um tempo passado.
Na sala 4, chamada Sala dos Manuscritos e Cartografia, há manuscritos importantíssimos, como o projeto da Lei Áurea, o processo criminal de Tiradentes, as cartas de D. Pedro I para a Marquesa de Santos e os preciosos manuscritos de Machado de Assis e Euclides da Cunha, além da partitura original de “O Guarani”, de Carlos Gomes. Todas essas preciosidades não podem ser manuseadas, só é possível conhecê-las na internet.
A visita é marcada pela presença de fantasmas de escritores, apagar de luzes, barulhos estranhos, muita coisa fruto das artimanhas da pequena Ludi que gosta de armar confusões.
A Biblioteca Nacional é uma das maiores do mundo. Se os argentinos se orgulham de Buenos Aires ter um elevado número de livrarias, os brasileiros se jactam, para usar um termo caro ao escritor Jorge Luis Borges, de ter a maior e melhor biblioteca da América Latina.
Para saber mais sobre a Biblioteca Nacional, indicamos a leitura do livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional”. É um livro divertido e muito informativo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

lima barreto para jovens

Lima Barreto para jovens
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
As glórias das letras só as têm quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega.
(Lima Barreto. Os Bruzudangas)
Clara dos Anjos e outros contos (Org. Ivan Marques. Ed. Scipione, 2011) reúne oito contos de Lima Barreto ilustrados por Marlette Menezes. O livro traz notas e textos críticos do professor de Literatura Brasileira da USP, Ivan Marques. Os textos do ensaísta vêm acompanhados de fotografias do Rio de Janeiro do início do século XX e tratam da questão racial do Brasil. A sua leitura permite uma compreensão mais aprofundada do pensamento e da obra de Lima Barreto.
Nos primeiros anos do século XX, os escritores mais prestigiados eram o romancista Coelho Neto e o poeta Olavo Bilac. Os dois cultivavam uma linguagem “castiça, empolada”. Lima Barreto repudiava este tipo de linguagem. O maior desejo do escritor era ser lido por pessoas simples e escrevia como o povo falava. Enquanto aqueles que procuravam a “literatura dos dicionários” são hoje esquecidos, a literatura de Lima Barreto permanece atual.
O Rio de Janeiro, principalmente a zona suburbana, foi o cenário escolhido para suas histórias. Os protagonistas de seus romances e contos são negros, mulatos e mestiços, aqueles que estavam à margem das classes dominantes.
Ivan Marques observa que a literatura combativa e forte do escritor é um instrumento afiado de ironia e senso crítico. Ele tudo questiona e a todos caricaturiza, especialmente os políticos, os burocratas e os literatos de seu tempo.
O conto de abertura da coletânea, “Clara dos Anjos”, foi publicado em 1904, é o embrião do futuro romance que recebeu o mesmo título do conto. É o texto que marca o início da carreira do escritor.
Clara dos Anjos, a protagonista, é uma pobre mulata suburbana. Seu pai era carteiro, gostava de música, tocava flauta e compunha valsas, tangos e acompanhamentos para modinhas. Acostumada às musicatas do pai, cresceu apaixonada pela “melancolia dos descantes e cantarolas”. Estava com dezessete anos quando conheceu Júlio Costa, um exímio cantor de modinhas. Quando ouviu o seresteiro cantar, o coração de Clara bateu mais forte, e Júlio só tinha olhos para “os seios empinados, volumosos e redondos” da moça.
Depois de algum tempo de namoro às escondidas, de encontros fortuitos no quarto da namorada durante a noite, a moça estava totalmente presa aos caprichos do ousado amante. O resultado era previsível. Clara dos Anjos engravida e o seresteiro Júlio desaparece de sua vida. A moça resolve procurar a mãe do rapaz e conta-lhe o que aconteceu entre os dois. A mãe de Júlio recebe-a rispidamente e manda-a embora afirmando que não tinha filho para casar-se com gente da laia de Clara.
Diante da recusa da mãe de Júlio em aceitá-la como nora, Clara reconhece seu estado de inferioridade. Quando vai ao encontro de sua mãe, chora e entre soluços diz:
“Mamãe, eu não sou nada nesta vida”. (p.29)
O sofrimento de Clara dos Anjos é um reflexo pungente das humilhações sofridas por todos os mulatos nos primeiros anos do século XX, no Brasil, incluindo-se, aqui, o próprio Lima Barreto.
O último conto da coletânea é “Miss Edith e seu tio”. O local escolhido para o desenvolvimento do enredo é a pensão “Boa Vista”, situada na praia do Flamengo. A pensão era administrada por Madame Barbosa, uma viúva de cerca de cinqüenta anos, auxiliada por Angélica, o braço direito da patroa. Angélica era cozinheira, copeira, arrumadeira, e lavadeira “Preta fiel” e submissa às ordens da patroa, cultivava uma gratidão ilimitada por Madame Barbosa.
Havia muitos hóspedes na pensão. Dona Sofia, viúva de um comerciante português; Dr. Magalhães, um bacharel habilidoso que tentava conquistar Dona Sofia; Melo, um empregado público; doutor Florentino que gostava de citar os Evangelhos. Viviam todos em harmonia. Para quebrar a monotonia da pensão, apareceram novos hóspedes – um casal de ingleses, melhor, um tio acompanhado de uma sobrinha. Pediram quartos separados e receberam toda a atenção de Madame Barbosa. Eram estrangeiros, gente muita fina, ingleses, surgindo até certo ciúme por parte dos hóspedes mais antigos.
Tio e sobrinha eram discretos, pouco se comunicavam com os hóspedes, mas é a astuta Angélica quem vai descobrir a farsa, e vem esta observação da sábia mulher:
“– Que pouca vergonha! Vá a gente a fiar-se nesses estrangeiros... Ele são gente como nós...” (p. 103)
O que Angélica presenciou entre o tio e a sobrinha só o leitor lendo o conto para saber.
Neste conto, Lima Barreto exerce a função crítica da literatura. Na opinião de Ivan Marques: “revela a força dos fracos, o talento dos negros, a beleza selvagem do Brasil”. (p.13)
E os outros seis contos? Estão à espera do leitor.

domingo, 28 de agosto de 2011

Memórias de um menino pescador


Memórias de um menino pescador
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Deixa-te levar pela criança que foste.
(José Saramago. Livro dos Conselhos)

A aldeia é Azinhaga, termo de origem árabe “as-zinaik” que significa “rua estreita”. O rio que banha a aldeia se chama Almonda. Foi aí que nasceu o escritor português José Saramago no ano de 1922.
Quando ainda não tinha dois anos, os pais migraram para Lisboa. A casa dos avós em Azinhaga não foi esquecida, era sempre visitada pelo menino, vinha passar férias na pequena cidade.
Em 2006, Saramago publicou “As pequenas memórias” (Companhia das Letras), um livro autobiográfico com retalhos de sua infância e parte da adolescência. Em 2011, a Companhia das Letrinhas lançou “O silêncio das águas”, com ilustrações de Manuel Estrada. Este último livro é um fragmento de “As pequenas memórias.”
Um dos divertimentos de Saramago quando ia visitar a avó, em Azinhaga, era pescar no rio Almonda. O livro “O silêncio das águas” narra a história de uma pescaria e as aventuras vivenciadas pelo menino.
A presença do rio é marcante na vida do escritor português. Saramago escreveu “Protopoema” que é uma homenagem ao rio de sua aldeia:
Do novelo emaranhado da memória, na escuridão de nós cegos, puxo um fio que me parece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
[...]
No livro “Viagem a Portugal”, o escritor lamenta que o Almonda seja, atualmente, um rio de águas mortas, envenenadas. Quando criança tomou muito banho em suas águas. Se não eram muito límpidas, não estavam contaminadas.
Vamos acompanhar Saramago e suas aventuras de menino pescador. Certa vez, munido dos apetrechos necessários saiu para pescar e ficou esperando que aparecesse algum peixe para ser fisgado. Nas horas de pescaria, gostava de ouvir o silêncio das águas.
De repente, sentiu um puxão muito forte, puxou, puxou e nada veio na linha. Anzol, boia, chumbada, tudo tinha desaparecido nas águas turvas do rio. Só podia ser um peixe muito grande o responsável por tamanho estrago. Surgiu, então, uma ideia, correu até a casa da avó, armou outra vez a vara de pescar e voltou para ajustar as contas definitivas com aquele peixe monstruoso.
Ao contar a avó o que lhe tinha acontecido e revelar que estava pronto para nova aventura, ela o alertou que seria difícil encontrar o peixe no mesmo local, mas o menino estava tão obstinado na operação de resgate que não ouviu, não podia ouvir e não queria ouvir o que avó lhe dizia.
Voltou ao rio, lançou o anzol e esperou. Foi nesse momento de grande expectativa que descobriu não existir no mundo “um silêncio mais profundo que o silêncio da água.”
Para saber se o menino conseguiu fisgar o peixe fujão, recomendamos a leitura de dois livros. Se for um leitor experiente, “As pequenas memórias”; se for leitor iniciante, irá gostar de ler “O silêncio das águas”.
Os vocábulos “experiente” e “iniciante” se referem às faixas etárias: fase juvenil, fase infantil.
Não poderia deixar de comentar as ilustrações de Manuel Estrada no livro “O silêncio das águas”. Para representar a expressão “boca do rio”, indicativo da foz do rio Almonda, Estrada desenhou uma boca enorme e uma enxurrada de água saindo pela boca.
As aves aquáticas, sempre espertas, ficam esperando algum peixe mais distraído, elas estão espalhadas em todas as páginas do livro. Muitas vezes se rivalizam com o pescador.
A avó retratada por Manuel Estrada é uma velhinha de óculos, avental, sentada em uma cadeira perto da janela fazendo crochê. Não falta um gato que brinca com um novelo de lã. As vovós modernas poderão reclamar do protótipo à moda antiga. Temos de retornar aos anos 30 e 40 do século XX, assim eram as nossas avós.
José Saramago é o único escritor de língua portuguesa que ganhou o Nobel de literatura. Com a publicação deste livro para crianças o escritor luso fica mais próximo do leitor infantil brasileiro.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola”


Livros, autores, leitores
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Tu escreves como o pássaro canta. Teu gorjeio?
Versos. Se não cantares, as manhãs seriam menos
vermelhas e os crepúsculos menos azuis.
(Tu Fu. Poeta chinês da dinastia de Thang. Trad. Cecília Meireles)

“Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola” é um dos últimos livros da coleção de crônicas para jovens da editora Objetiva. O autor é bem conhecido dos leitores brasileiros. As peças infantis “O Baile do Menino Deus”, “Bandeira de São João” e “Arlequim de Carnaval”, parceria com Assis Lima, já percorreram várias regiões do Brasil e tem agradado a todos, indistintamente.
Conheci Ronaldo nos idos de 1990, na apresentação do espetáculo “O Baile do Menino Deus”, no Teatro Guararapes, em Recife. Convidei-o, algum tempo depois, para uma conversa com os alunos de Literatura Infantil na UFPB. O escritor atendeu nosso pedido e veio a João Pessoa. A versatilidade do médico/escritor encantou os alunos e o livro “O Baile do Menino Deus” foi comprado por muitos. Alguns já eram professores e encenaram a peça nas suas escolas. Depois, encontrei o escritor no Seminário de Literatura Infantil na FAFIRE, Recife. Nos últimos tempos, os encontros foram com os livros – “Faca”, O pavão misterioso” (recriação), “Galileia”. Agora, nos chega um livro de crônicas.
O livro contém 41 crônicas de facetas diversas. Algumas se caracterizam por certa dose de humor, outras relembram fatos passados na infância. Destacamos aquelas que se voltam para livros, autores e leitores.
“O leitor e a bibliotecária” remete para a cidade de Crato, onde o autor passou parte da infância e adolescência. Havia uma biblioteca da diocese. Foi lá que o menino leu muitos livros, quase todos voltados para o Cristianismo. E segue esta observação: ‘Imagino que sou a única pessoa do mundo que leu a coleção Grandes Romances do Cristianismo, de que fazem parte títulos como Perseguidores e Mártires, Quo Vadis?, Otávio, Papai Falot, Ben-Hur, Os Últimos Dias de Pompeia, Os Noivos e por aí afora.” (p. 83).
Quando completou 14 anos, teve acesso à biblioteca da Faculdade de Filosofia de Crato e conheceu livros melhores. A bibliotecária descobriu que o adolescente gostava de ler e sempre avisava quando chegava um livro novo. Foi essa bibliotecária modesta, com seu fetiche pelo objeto livro e sua admiração pelo jovem leitor, que o seduziu para a leitura.
Convidado para a Festa Literária Internacional de Paraty, pediram-lhe que falasse sobre seu livro de cabeceira. E veio o dilema – se fosse para falar sobre os livros que se lê antes de dormir, os livros que estão na mesinha de cabeceira, nesse caso não existe nenhum, o escritor não costuma ler à noite e não conserva livros no quarto de dormir. Qual seria esse livro, o livro marcante que, embora distante da cabeceira, é sempre relido? E veio a confissão: “História Sagrada, que nada mais é do que uma seleta de textos da Bíblia hebraica, apresentada em dois subtítulos: Antigo Testamento e Novo Testamento”. (p. 32).
Embora não seja católico praticante, Ronaldo considera que a “Bíblia, livro possível de ser lido de muitas maneiras, é um legado de histórias a que podemos recorrer sem crença religiosa ou com fé de um crente. Inesgotável, possui as imagens dos sonhos, a épica, a tragédia, a poesia, a invenção, a genealogia, a retórica e os números.” (p. 33-34).
Uma das últimas crônicas - “Memória e bytes” está relacionada com uma conversa que teve com um amigo sobre poesia. O autor tentou se lembrar de um poema de Tu Fu, poeta chinês da dinastia de Thang, que foi traduzido no Brasil por Cecília Meireles. A memória o traiu, só se lembrava da primeira estrofe. Prometeu ao amigo que mandaria o poema por e-mail. Quando chegou em casa, conseguiu reaver o poema e enviou para o amigo, mas houve desconexão na hora da remessa e o poema extraviou-se. Desistiu de enviar o poema pelo correio eletrônico. Resultado: qualquer dia, quando encontrar o amigo, irá recitar as estrofes restantes.
Aqui vão as duas primeiras estrofes do poema de Tu Fu, citado na crônica “Memória e bytes”. O poema, como um todo, só o leitor consultando o livro “Poemas chineses Li Po e Tu Fu”, tradução de Cecília Meireles. Ed. Nova Fronteira.
“Vinde! Em redor de minha casa canta um riacho alegre como a primavera. Vereis talvez gaivotas, se o vento se levantar.”
A estrofe seguinte que foi esquecida:
“Como jamais recebo visitas, não mando varrer as aleias
do meu jardim. Pisareis num tapete de folhas.”
[...]
O poema prossegue. Fica a sugestão para a leitura completa.
A epígrafe do texto “Livros, autores, leitores” é a primeira estrofe de um poema de Tu Fu, pinçado do livro traduzido por Cecília Meireles.