domingo, 23 de setembro de 2012



Monteiro Lobato: formador de leitores
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB) 


            Lobato escrevia porque lia e porque queria ensinar a ler. Lobato foi, nessa ordem, leitor, escritor e formador de leitores.
            (Socorro Acioli. Aula de leitura com Monteiro Lobato).


            “Aula de leitura com Monteiro Lobato” (Biruta, 2012) é a versão revisada e editada da dissertação de mestrado de Socorro Acioli, defendida na Universidade Federal do Ceará – “De Emília à Dona Quixotinha: uma aula de leitura com Monteiro Lobato”.  O prefácio é da lobatóloga Marisa Lajolo que considera importante este trabalho porque ressalta uma das vertentes mais promissoras dos estudos literários – a inclusão da leitura entre seus objetos.  
            O livro está dividido em quatro capítulos assim delimitados: “Personagens leitores”, “Monteiro Lobato: uma vida para leitura”, “A leitura no sitio do Pica-pau Amarelo” e “Emília, leitora de Dom Quixote: um caso de leitura-ação”.  
            Monteiro Lobato foi jornalista, crítico, cronista, escritor de livros infantis, romancista, editor e teve forte atuação no mercado editorial brasileiro. Socorro Acioli ressalta o papel inovador de Lobato como editor - criou estratégias eficientes de propaganda e de divulgação dos livros, deu oportunidade a novos escritores e ilustradores, aumentou a rede de vendas de livros no país.
            Nesses comentários ao livro de Socorro Acioli, vamos apresentar, inicialmente, um Lobato leitor, seguindo-se o escritor e, por último, o formador de leitores.  
            Lobato leitor – Na infância, o escritor teve contato com a biblioteca do avô, o Visconde de Tremembé, e foi nesse ambiente mágico que Lobato despertou para a leitura. Em carta a Godofredo Rangel (Barca de Gleyre, vol.1, p.51), Lobato, assim, se expressa:
            “A biblioteca do meu avô era ótima, tremendamente histórica e científica. Merecia uma redoma. [...] Cada vez que naquele tempo me pilhava na biblioteca de meu avô, abria um daqueles volumes e me deslumbrava.”
            Sobre as práticas de leitura, o escritor guardou, entre as lembranças da infância, os momentos em que reunia as irmãs e os filhos dos empregados da fazenda de sua família e passava horas a fio lendo para eles. Este episódio contado por Lobato me conduziu até João Cabral de Melo Neto. No poema narrativo “Descoberta da literatura”, o poeta fala sobre os folhetos de feira que lia para os trabalhadores do engenho de sua família, local onde sempre passava as férias escolares.
             Lobato relembra que leu, na infância, os livros de Júlio Verne e “Robinson Crusoé”, este último foi um presente que recebeu de Natal e foi “lido e relido com um deleite inenarrável”.
            Lobato escritor – O primeiro artigo de Lobato foi publicado em 1896, no jornal O Guarani, organizado pelos alunos do Colégio Paulista em Taubaté, contava 14 anos de idade. O artigo trazia o título “Rabiscando” e era uma crítica ao livro “Enciclopédia do riso e da galhofa”. Trazia a assinatura de Josbem, um dos pseudônimos utilizados pelo escritor.
            Em 1903, aluno do curso de Direito no Largo São Francisco, em São Paulo, fundou o jornal “O Minarete” e publicou vários textos neste jornal. Em 1904, vamos encontrá-lo como colunista do “Jornal de Taubaté”, escrevendo, depois, para muitos outros jornais de São Paulo.
            Em 1920, Lobato lançou seu primeiro livro infantil – A menina do narizinho arrebitado. Este livro foi o início de uma longa séria de livros para crianças. Mas Lobato escreveu também para adultos – contos, crônicas, artigos críticos e romances.  
            É na literatura infantil que encontramos o Lobato maior, o escritor querido das crianças e ele reconhece que este era o caminho da salvação quando diz em carta a Godofredo Rangel: “Estou condenado a ser o Andersen dessa terra – talvez da América latina, pois contratei 26 livros infantis com um editor de Buenos Aires”. (Esta carta traz a data de 28 de março de 1943).
            Lobato formador de leitores – Socorro Acioli estabelece comparações entre o educador Edgar Morin e Monteiro Lobato, os dois têm uma visão de mundo semelhante. Tanto para Morin como para Lobato o importante é “formar cidadãos capazes de enfrentar os problemas de seu tempo”. No livro “O poço do Visconde”, o Visconde de Sabugosa estuda geologia para descobrir o petróleo; “Nos Serões de Dona Benta” e em “História das Invenções’, a investigação científica e a pesquisa são estimuladas.
            Vários livros de Lobato dedicados às crianças são analisados pela ensaísta cearense que procura demonstrar a preocupação de Lobato com a formação do leitor.
            Aliado a tudo isso, há destaque para os aspectos técnicos sobre livros, leitura e escrita por meio de esclarecimentos feitos por Dona Benta – explicando o que é prefácio, a diferença entre gente e personagem.
            O último capítulo do livro é dedicado à Emília como leitora de Dom Quixote e a paixão da bonequinha por esse personagem marcante da literatura universal.
            Para o crítico Antonio Candido, “a literatura infantil é talvez a mais difícil de todos os gêneros literários (...) gênero ambíguo, em que o escritor é obrigado a ter duas idades e pensar em dois planos”.
            Monteiro Lobato conseguiu vencer essa barreira – portou-se como um escritor de duas idades - às vezes é um adulto/professor, outras vezes é uma criança que sonha e brinca como criança.

            NOTA LITERÁRIA

            AINDA LOBATO

 A obra literária de Monteiro Lobato tem sido objeto de inúmeras discussões, isso desde o tempo da ditadura Vargas. Recentemente, técnicos do MEC questionam: Lobato foi racista? “Caçadas de Pedrinho” deve ser banido dos bancos escolares ou acrescido de algumas informações? No meio dessa polêmica improdutiva, os  escritores  – Socorro Acioli e Simão Almeida  - publicam livros que valorizam a leitura na obra lobatiana (Acioli) e o papel do jornalista Lobato (Almeida) nos meios culturais brasileiros nas primeiras décadas do século XX. Lobato continua despertando interesse.  




terça-feira, 11 de setembro de 2012



ABC de José Lins do Rego
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB) 

As leis que regem a linguagem, quando se cristalizam e fecham em intransigências radicais, aniquilam a expressão e desmantelam o ritmo.
(José Lins do Rego. Discurso de posse na ABL, 1957).


A editora José Olympio, hoje pertencente ao grupo Record, tem uma história digna de registro no cenário das letras brasileiras. O livreiro e editor José Olympio foi o responsável pela edição e divulgação de muitos escritores nordestinos. Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Luís Jardim, nos anos 30 e 40 do século XX, integram o quadro de escritores da casa.   Gilberto Freyre dizia que José Olympio reunia em torno de si três dimensões – humana, cultural e editorial. Os anos se passaram, o livreiro/editor já não pertence ao mundo dos vivos, a editora sofreu revezes, mas o nome permanece bem vivo.
Atualmente, a editora José Olympio pertence ao grupo da Record.  Com o objetivo de divulgação escolar, os grandes escritores da antiga casa são apresentados de forma bem didática nos livros que trazem o título de ABC. Já tivemos o “ABC de Rachel de Queiroz”, “ABC de José Cândido de Carvalho”, aparece agora “ABC de José Lins do Rego” (Rio de Janeiro: José Olympio, 2012), texto de Bernardo Borges Buarque de Hollanda. O professor Damião Ramos Cavalcanti, conterrâneo de José Lins do Rego, foi o primeiro a dar a notícia sobre este livro que recebemos recentemente e passamos a tecer algumas considerações.
O ABC é um poema típico da literatura de cordel nordestina, composto de estrofes que se iniciam sucessivamente pelas letras do alfabeto, de A a Z. “ABC de José Lins do Rego” apresenta um resumo da vida e da obra do escritor paraibano com discussões de alguns temas pertinentes à obra deste escritor. Nas palavras de Bernardo Borges Buarque de Hollanda, é “uma porta de entrada para ajudar o leitor iniciante”.   
Bernardo Borges Buarque de Hollanda fez pós-doutorado em Paris, no ano de 2009, na Maison des Sciences de l´Homme e na Bibliothèque Nationalle de France e redigiu parte deste livro em Paris, a outra parte foi feita no Brasil e contou com a valiosa colaboração das filhas de José Lins do Rego e do poeta Thiago de Melo, amigo fraternal de Zé Lins.
Como ocorre com esta modalidade da poesia popular – ABC, vamos encontrar os verbetes agrupados de acordo com as letras do alfabeto, assim destacamos: A – Açúcar: E – Escola do Recife, F- Fogo Morto, G – Gilberto Freyre, J – José Olympio, M – Memória e Imaginação, Estes são alguns exemplos deste rico e vasto material sobre o escritor do “ciclo da cana-de-açúcar”. É sobre os verbetes citados que deitamos nosso olhar.
A – Açúcar. Para este verbete, o ensaísta Bernardo Buarque de Hollanda discorre sobre a origem do escritor José Lins do Rego, sua vivência no Engenho Corredor, a família, a ascensão e queda dos engenhos da várzea do rio Paraíba.  
E – Escola de Recife. A cidade de Recife é retratada, neste livro, a partir do ano 1916, época em que José Lins do Rego foi estudar naquela cidade a fim de concluir o ensino médio e se preparar para cursar a Faculdade de Direito. Bernardo Buarque de Hollanda traça um panorama histórico/político do período que compreende os anos da 1ª. Grande Guerra Mundial (1914/1918).
  F- Fogo Morto. Este romance é considerado pela crítica como a sua obra-prima. “O cenário de decomposição impregnaria boa parte das lembranças de José Lins, associando em sua memória a ruína das antigas unidades de produção de açúcar”. ( 2012,p.65). “Fogo Morto” representa a desfiguração de toda uma paisagem social do Nordeste.
G – Gilberto Freyre. A amizade de José Lins com Gilberto Freyre começou em 1923, no Café Continental, em Recife. Este local era ponto de encontro entre os políticos, jornalistas, escritores. Nas palavras do escritor paraibano, a amizade com o sociólogo pernambucano modificou inteiramente sua vida: “Para mim, teve começo naquela tarde de nosso encontro a minha existência literária. E a minha aprendizagem com o mestre da minha idade se iniciava sem que eu sentisse as lições.” (2012, p.79. Extraído do livro Gordos e Magros).
J – José Olympio. Mais do que um editor, José Olympio foi o responsável pela publicação de livros de autores nordestinos, entre eles José Lins do Rego. E vem uma informação interessante no que se refere à denominação “ciclo da cana-de-açúcar”. O nome de ciclo para os romances canavieiros  de José Lins foi uma sugestão da mulher de José Olympio, Vera Pacheco Jordão Pereira, uma estratégia que induzia para compra conjunta dos livros.   
M – Memória e Imaginação. Por sugestão de Gilberto Freyre, José Lins se tornou leitor de Marcel Proust. O escritor francês se apropriou da memória de maneira inovadora e descreveu suas recordações nos sete romances de teor memorialista – “Em busca do tempo perdido”. O livro “Menino de Engenho” e os outros romances canavieiros de Zé Lins apresentam várias características proustianas.
 É a sugestão que deixamos para os leitores neste inicio de setembro. Vamos reler os livros de Zé Lins, tendo como companhia o “ABC de José Lins do Rego”. 

NOTA LITERÁRIA 


JOACIL DE BRITTO PEREIRA (IN MEMORIAM)


 Joacil de Britto Pereira foi um escritor prolífero e transitou, com mestria, por vários gêneros literários: ensaio, romance, teatro, biografia, poesia. Um dos seus últimos textos foi escrito para a coletânea “Confesso que li” (João Pessoa: Ideia, 2012). Com o título “Memórias de infante e de adolescente”, pinçamos alguns momentos deste bem elaborado texto de cunho memorialista: 
Da primeira vez que falei em público, tinha pouco mais de cinco anos. E o fiz para declamar, em festa da Igreja Presbiteriana, uma poesia infantil. Ainda hoje a tenho de cor. [...] Um sucesso essa minha primeira falação. Declamei tudo direitinho, bem explicadinho, sem acanhamento e com a gesticulação adequada. Minha mãe me ensinara a poesia e comigo ensaiou para que pudesse recitá-la. Ela tinha dotes artísticos. (2012, p. 107-108).
Já adolescente, lembro-me muito bem que recebi uma missão de recitar, na noite de certo dia, em uma festa na Igreja Presbiteriana, o poema Caridade e Justiça, de Guerra Junqueiro. O pastor Josibias Fialho Marinho, pelas 08h00, me incumbiu de declamar aquele poema. Passei o dia ensaiando com minha mãe para recitar a versalhada de 22 estrofes, daquele vate lusitano. E à noite, dei conta do recado.” (2012, p. 108).
[...] também enveredei pela arte cênica, fui um dos fundadores do teatro de estudantes da Paraíba e encenei com o elenco a peça “Se o Anacleto Soubesse...”  de cujo elenco participei, interpretando o principal papel masculino.
Da adolescência à velhice sempre respirei literatura, mesmo enfermo leio e redijo todos os dias. (2012, p. 112).

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Coleção Meu Amigo Escritor


A COLEÇÃO MEU AMIGO ESCRITOR
( Neide Medeiros Santos – FNLIJ/PB)

            Não tenho ambições nem desejos
            Ser poeta não é uma ambição minha
            E a minha maneira de estar sozinho.
            ( Alberto Caeiro  – O guardador de rebanhos - I) 


            A Editora FTD, através da coleção “Meu amigo escritor”, procura aproximar o leitor jovem dos grandes poetas da língua portuguesa. Marisa Lajolo escreveu “O poeta do exílio”, uma leitura ficcional que tem como protagonista o poeta Gonçalves Dias; Álvaro Cardoso Gomes, com “O poeta que fingia”( Editora FTD,2010),  cria uma história imaginária sob o manto do fingimento com a inclusão de fatos reais da vida de Fernando Pessoa.   
            Antes das considerações sobre o livro, vamos conhecer um pouco do autor – Álvaro Cardoso Gomes e do ilustrador – Alexandre Camanho.
            Álvaro Cardoso Gomes se considera professor por escolha e escritor por vocação. Professor de Literatura Portuguesa da USP, é também romancista e ensaísta com vários livros publicados nos dois gêneros. Ao escrever “O poeta que fingia”, voltou a visitar Fernando Pessoa que, na sua opinião, foi o poeta mais marcante  da sua vida profissional e pessoal. É paixão antiga.
            Alexandre Camanho trabalha como ilustrador desde 1999 e seu interesse por artes plásticas começou muito cedo olhando as pinturas de Heronymus Bosch. Já teve trabalhos  expostos em salas de arte. Para ilustrar “O poeta que fingia”, utilizou a técnica da aquarela e “a tinta dissolvida pelo pincel deu ênfase aos aspectos fantásticos, lúdicos e caricaturescos.”
  Álvaro Cardoso afirma que releu a poesia de Fernando Pessoa e  realizou um passeio virtual por Lisboa  (cidade que ele conhece muito bem), visitando os bairros frequentados por Pessoa. As pesquisas sobre a infância do poeta levou o escritor a imaginar Fernando Pessoa no finzinho do século XIX e início do século XX, sua relação com a mãe, os irmãos, o padrasto, com os familiares. Naturalmente, nesse aspecto, entram elementos ficcionais.
              A narrativa se inicia com o poeta viajando com a mãe para Durban. Na juventude, regressando a Lisboa, Pessoa conhece o menino João Fernando que se torna seu amigo.  Os capítulos aparecem alternados – ora Fernando Pessoa é o foco da narrativa, ora é o menino João Fernando. Álvaro Cardoso  usa a técnica do contraponto, isto é, intercala fatos ligados à vida de Fernando Pessoa com os acontecimentos da vida do menino João Fernando.  
            João Fernando ficou órfão de mãe muito cedo, o pai bebia muito e obrigava o filho a trabalhar, tomava todo dinheiro que o menino ganhava. Que saudades da mãe! Ela morrera, deixando-o entregue ao pai.  Sentindo que o “miúdo” tinha gosto pela leitura, almejava-lhe um futuro promissor e desejava que prosseguisse nos estudos, mas o pai queria que o filho apenas trabalhasse.  O emprego em um bar frequentado pelo poeta Fernando Pessoa vai proporcionar ao menino um contato mais direto com a poesia. O poeta empresta-lhe livros, lê seus poemas e pede-lhe opinião. João Francisco sentia-se realmente importante diante daquele poeta  que recebia  atenções redobradas do dono do bar.
            Após a morte da mãe, a única pessoa que procurava ajudá-lo era o tio Manuel Rosado, irmão da mãe. Ele sempre aparecia na casa da irmã e continuou a visitar o sobrinho mesmo depois que a irmã partiu.   Um dia comunicou que ia viajar para o Brasil e pretendia fixar residência naquele país, prometeu, contudo, que mandaria buscá-lo.  O menino ficou triste e esperava com muita ansiedade as cartas do tio com noticias do Brasil. O pai descobriu a correspondência e escondia as cartas que chegava para João Fernando.  
            Em “O poeta que fingia”, Fernando Pessoa aparece também como personagem. As falas do poeta são recriação do que ele escreveu em cartas a amigos ou deixou registros em seus livros, outras reproduzem os versos e às vezes poemas inteiros de Pessoa e de seus heterônimos.
            A história romanceada de Pessoa e João Fernando termina com a viagem do rapaz para o Brasil, o tio cumpriu a promessa feita.  Fernando Pessoa vai para o porto de Lisboa  assistir a partida de João Fernando.  Ao acenar adeus, tira o lenço do bolso, enxuga os olhos, limpa os óculos e diz em voz alta:
            “- Mas, afinal, viajar para quê? Estrangeiro aqui como em toda a parte...”
 O livro contém muitas informações. O leitor encontra esclarecimentos sobre as citações., sobre poetas portugueses do passado e contemporâneos de Pessoa. Nas últimas páginas, aparece uma fotocronologia da vida e da obra deste poeta múltiplo, trechos de carta de Pessoa para amigos (Mário de Sá Carneiro) e para Ophélia Queiroz ( (namorada do poeta).  É uma verdadeira viagem pela vida e obra de Fernando Pessoa.

 

sábado, 28 de julho de 2012

As viagens de Thomas Kyd


As viagens de Thomas Kyd
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

             A arte de viajar é uma arte de admirar, uma arte de amar. É ir em peregrinação, participando intensamente de coisas, de fatos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre.
            (Cecília Meireles. Crônicas de viagem).

            Sheila Hue, escritora brasileira, é coordenadora do Núcleo de Manuscritos e Autógrafos do Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro) e autora do livro “O livro negro de Thomas Kyd” (FTD, 2011). Este livro recebeu o Prêmio “Autor Revelação”, em 2012 (FNLIJ).
            Fruto de muitas pesquisas, o livro trata do tema de viagens marítimas no século XVI. Estudiosa da História do Brasil e da Literatura Portuguesa, a autora não se detém apenas em narrar fatos corriqueiros que aconteciam durante a travessia pelo imenso Oceano Atlântico, seu olhar se volta para a análise de alguns personagens, entre eles o almirante Sir Thomas Cavendish, “conhecido por ser um homem mau e egoísta.”.
            As memórias de Thomas Kyd, nas palavras de Sheila Hue, foram livremente inspiradas na viagem real da frota de Thomas Cavendish em 1591 ao Novo Mundo. A narrativa se prende ao período do reinado de Elizabeth I (1558-1603), época áurea da marinha inglesa.     
            Thomas Kid é o personagem narrador, o herói desta história/estória fabulosa. Sem família e sem profissão, o garoto, ávido por aventuras marítimas, embarca na frota de Sir Thomas Cavendish, comandante inglês, “o navegador mais célebre de seu país.” Era a segunda vez que o comandante ia dar a volta ao mundo.
Thomas Kyd iniciou a viagem no Leicester, o galeão do próprio Sir Thomas Cavendish. Neste navio imperava o luxo. As cabines eram cheias de objetos ricos, tapetes, louças finas.  Belas lamparinas mantinham o navio sempre muito bem iluminado. Na companhia do comandante, viajavam nobres ingleses, seus músicos particulares e dois japoneses capturados por Cavendish em suas longas viagens. Falavam uma língua estranha e eram chamados de Christopher e Cosmus. Embora não entendesse a língua dos  japoneses, Thomas Kyd aproximou-se deles e manteve uma amizade fraterna durante toda viagem.  
Quando atravessavam a linha do Equador, houve calmaria e o navio ficou vários dias parado. Passada a calmaria, a frota composta de quatro navios retomou a rota traçada e chegou à terra firme.  Ancoraram ao largo de uma ilha encantadora, toda coberta de uma vegetação muito verde, com um mar inteiramente transparente. Havia peixe em abundância, mas por ordem de Cavendish não era permitido pescar. A ilha era Placência, nome pelo qual era conhecida a Ilha Grande, em Angra dos Reis. Esta ilha era muito frequentada pelas frotas inglesas no século XVI.
Ao chegar ao Novo Mundo, o menino teve o desapontamento de ver que, ao contrário de tudo que tinha ouvido, a terra não era rica. Os moradores, “homens-pássaro” (índios), possuíam apenas algumas ferramentas, vasilhas feitas com frutas e madeiras da terra, anzóis, facas e cordas. O que mais o impressionou foi a exuberância da flora – grandes árvores, folhas verdes e brilhantes, flores de todos os formatos, tamanhos e cores.  
Depois de Placência, a frota prosseguiu viagem para a vila de Santos, sul do Brasil e Patagônia. Mas o que causava estranheza ao menino era o modo como Cavendish tratava os tripulantes – dava chutes, enforcava-os, jogava-os no mar sem nenhum motivo. Apesar da beleza do mar e do céu, das bonitas noites de luar, das infinitas estrelas, o clima no navio era desagradável.  
Muitas aventuras e desventuras são descritas e narradas pelo personagem narrador. Para conhecê-las, o melhor é adquirir o livro e desfrutar da leitura com o pensamento voltado para o século XVI. 
“O livro negro de Thomas Kyd” traz ilustrações de Alexandre Camanho que foram desenvolvidas a partir do texto e não em cima do texto, conforme explicação do próprio ilustrador. Camanho utilizou desenhos de bico de pena e aquarela. A ilustração retrata muito bem o ambiente das grandes navegações – a indumentária dos personagens, os tipos de navios da época,  os “homens-pássaro”, primeiros habitantes  do Brasil, não faltando o desenho do mapa com o roteiro da viagem.
Tudo neste livro é bem apresentado – diagramação, capa, escolha do papel, tipo de letra, numeração das páginas. É livro para deitar o olhar e se apaixonar, principalmente alunos e professores de História.  

terça-feira, 17 de julho de 2012

O BICHO PREGUIÇA E A FLORESTA


O BICHO PREGUIÇA E A FLORESTA
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            A natureza, arte de Deus, supremo artifício,
            não a retoques.
            Humildemente aceita-a.
            (Daniel Lima. Poemas).


            No momento em que João Pessoa é sede da exposição de Frans Karjcberg, nada mais oportuno do que falar sobre um livro que vem conquistando o mundo infantil com seu “grito” para que a natureza seja preservada. Refiro-me ao livro ilustrado por Anouck Boisrobert e Louis Rigaud, com texto de Sophie Strady – “Na floresta do bicho-preguiça” (Ed. Cosac Naify, 2011), tradução de Cássio Silveira.
            É o primeiro livro “pop-up” da Cosac Naify, livro-brinquedo com dobraduras. É um jogo, um convite à criança para explorar a floresta e procurar o bicho-preguiça escondido entre as árvores.
            No Brasil, este livro ganhou o Prêmio de Melhor Livro Brinquedo da FNLIJ. Na quarta capa, aparece um texto escrito por Ana Maria de Niemeyer Cesarino alertando para a devastação das florestas no mundo. Esta devastação ameaça várias espécies de animais, entre elas o bicho-preguiça do Brasil.   
            “Na floresta do bicho-preguiça”, começa com a apresentação da floresta em sua plenitude – “tudo é verde, tudo é vida”.  É nesse universo verdejante que o bicho-preguiça se balança sossegado entre as folhas.  Pouco a pouco a paisagem vai sendo modificada, a floresta estremece, máquinas com garras horríveis arrancam as primeiras árvores. Os pássaros abandonam seus ninhos, somente o bicho-preguiça parece indiferente a esta mudança.
Diante da fúria da máquina assassina, os mamíferos fogem assustados, as serpentes rastejantes escapam pelo chão quase deserto. E vem a pergunta que irá se repetir mais adiante: “você consegue ainda ver o bicho-preguiça?”
            Por fim, resta apenas uma árvore e lá está pendurado o animalzinho solitário. Surge uma voz misteriosa: “bicho-preguiça, acorde! fuja daqui! salve-se!” .
            A página que se segue mostra a terra nua, sem vida. A floresta desapareceu e ninguém vê mais o bicho-preguiça. No cantinho da página, bem embaixo, aparece a figura de um homem – ele conduz um saco em uma das mãos  e joga alguma coisa no ar com a outra mão.  O que será? Serão sementes?
            Sim, são sementes. O homem resolveu plantar uma nova floresta, é um trabalho árduo, requer tempo e paciência, mas o homem é perseverante. Nessa mesma página, se o leitor puxar uma tirinha de papel para baixo (ela está presa no final da página) irá encontrar brotos de novas plantas surgindo. Pendurado em uma pequena árvore está o animalzinho preguiçoso.  
            Na última página, surge a floresta em toda sua plenitude. Araras azuis cortam o céu, mamíferos passeiam no meio das árvores. Não é a mesma floresta da primeira página, está menos densa, algumas árvores são novinhas, precisam de mais algum tempo para crescer.  O difícil é encontrar agora o bicho-preguiça. Será que o leitor consegue vê-lo?
            O desfecho do livro é cheio de esperança, o homem semeou as sementes, elas germinaram e a floresta renasceu cheia de graça e de vida. O tempo estava escuro, mas apareceu alguém que acreditou na “possibilidade do homem construir um mundo melhor”.
            Tudo neste livro foi planejado de modo ecológico – o papel utilizado veio de floresta gerenciada e ambientalmente correta. As tintas empregadas para dar colorido ao livro - marron e verde - foram produzidas a partir de tinta de soja.
            É válido registrar esta advertência de Ana Maria de Niemeyer Cesarino:
            “Nos dez últimos anos, treze milhões de hectares de florestas desapareceram no mundo, essa destruição ameaça a sobrevivência de inúmeras espécies, entre elas o bicho-preguiça do Brasil.”.
            Felizmente, ainda contamos com ardorosos defensores da nossa flora e fauna – o artista plástico Frans Krasjcberg e Thiago de Mello figuram entre os defensores da natureza e enquanto houver uma voz no deserto clamando pela salvação da floresta resta uma esperança.  
            Se livro para criança pode ser considerado um brinquedo e um bom presente, “Na floresta do bicho-preguiça” é um presente que irá agradar às crianças, aos professores e aos pais que irão ler junto com os filhos, interagir com eles e sentir a gravidade do desmatamento desenfreado e insensível que assola nosso planeta. É preciso ensinar as crianças o amor à natureza, não é necessário retocá-la, aceita-a.

domingo, 8 de julho de 2012


ILAN BRENMAN: o contador de histórias
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

            Quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia.
            (Walter Benjamin. O narrador)

            Ilan Brenman é psicólogo, fez mestrado e doutorado em Educação, mas gosta de se definir como “contador de histórias”. Já participou de inúmeras atividades e projetos ligados à leitura – contou histórias em hospitais para crianças, creches, trens e em muitas escolas. De origem judaica, muitos de seus contos estão ligados às suas raízes.
            “O Alvo” (Ed. Ática, 2011) ganhou o Prêmio Ofélia Fontes – “O Melhor para Criança” – FNLIJ/2012. Nessa bem urdida história de Ilan Brenman, um velho professor de uma cidadezinha polonesa do século XIX era chamado por todos de “mestre”. Além de professor, era considerado um conselheiro espiritual da comunidade. As pessoas procuravam o velho professor para falar sobre suas dificuldades, angústias, pesadelos. Era realmente uma pessoa muito especial. Quando interrogado, respondia as perguntas contando uma história.
            Certo dia, um aluno perguntou:
            “- Como o senhor sempre consegue encontrar uma história certa, para a pessoa certa, no momento certo?” (p. 13)
            A classe inteira ficou silenciosa aguardando a resposta do “mestre”. Ele olhou de forma carinhosa para seus alunos e começou a contar uma nova história.  
            “Há alguns anos, na capital Varsóvia, existiu um jovem apaixonado pela arte do arco e da flecha. Ele convenceu os pais a pagarem um curso de arqueiro numa renomada escola da cidade.” (p. 17).
            Durante quatro anos, o rapaz estudou com afinco todas as técnicas. Terminado o curso, julgou-se pronto para disputar campeonatos e partiu para visitar cidades e participar de competições. Chegou a Lublin e soube que haveria uma competição de tiro ao alvo naquela cidade, mas algo o deixou muito admirado.
            O rapaz viu um cercado de madeira comprido todo pintado com mais de cem alvos e todos traziam a marca de flechadas bem no centro, na pontuação máxima.  Procurou saber quem era o autor de tamanha façanha e descobriu que era um menino franzino de cerca de dez anos. A princípio não quis acreditar que aquele menino raquítico fosse capaz de tal proeza.  O menino repetiu: “Fui eu” e contou como tinha realizado tal feito.
             Como o menino realizou a proeza, eu sei por que li o livro, quem não leu não sabe. O desfecho da história está esperando o desvelamento do leitor.  Leia-o e descubra como o menino foi capaz de acertar todos os alvos.    
            Alguns aspectos merecem ser destacadas nessa história simples e  rica de ensinamentos. O ilustrador Renato Moriconi utilizou poucas cores – vermelho, preto e branco, sendo que o vermelho predomina sobre as outras. Quanto à preferência pelo vermelho e branco, pode-se deduzir que é uma alusão às cores da bandeira da Polônia – branco e vermelho.
            A capa do livro mostra a figura de um homem (o professor com longas barbas). Aparece um círculo, como se fosse um alvo, envolvendo a cabeça do professor. Em cima da cabeça, há um orifício denotador do acerto da seta. Este orifício se repete em todas as páginas do livro para marcar coisas distintas: pistilo de uma flor, a boca aberta do professor, o balão de um menino, o olho de uma abelha e, naturalmente, o alvo.
            A arte do livro e o projeto gráfico foi uma realização de Vinicius Rossignol Felipe, um trabalho singular e criativo que andou pari-passu com as ilustrações de Renato Moriconi.
            A revista “Crescer” selecionou” O Alvo” como um dos “30 Melhores Livros Infantis do Ano” com esta observação: “... a graça e a poesia se unem e mostram o valor e o poder de contar uma bela história”.
            Para Ilan Brenman – “contar, ouvir e ler histórias é um jeito gostoso de adquirir conhecimentos, de entender as coisas.”
            Walter Benjamin afirma que o grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais. Ilan Brenman foi buscar este conto na sua própria origem, nas histórias lidas e ouvidas no decorrer de sua vida. A arca deste contador de histórias guarda afinidades com a arca de Fernando Pessoa – ainda há muita coisa guardada, muitas histórias para contar.
  
            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            THIAGO DE MELLO E FRANS KRAJCBERG
            O poeta amazonense Thiago de Mello, autor entre outros livros de “Os Estatutos do Homem”, fez palestra no auditório da Estação Ciência no dia 30 de junho (sábado), às 9 h, dentro da programação de ampliação do Complexo da Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes. Para crianças, Thiago de Mello escreveu o belíssimo livro “Amazonas – Águas, Pássaros, Serras e Milagres” (Ed. Salamandra). No mesmo dia, à tarde (15h), o artista e ambientalista Frans Krajcberg participou da apresentação do documentário “O grito”, vídeo dirigido por Renata Rocha, biógrafa do artista. No novo complexo, encontra-se a exposição de Frans Karjcberg – “Natureza Extrema” que permanece aberta ao público até o mês de setembro. A exposição “Natureza Extrema” retrata a destruição das florestas e compreende totens, esculturas e fotografias de queimadas de florestas.  
            Transcrevemos o 1º. artigo do poema “Os Estatutos do Homem”.
            “Fica decretado
            que agora vale a verdade.
            Agora vale a vida,
            e de mãos dadas,
trabalharemos todos
pela vida verdadeira.” 
            (Thiago de Mello. Os Estatutos do Homem).