quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Machado de Assis - do século XIX para o século XXI


            Machado de Assis – do século XIX para o século XXI
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

                        Em certa casa da Rua Cosme Velho
                        (que se abre no vazio)
                        venho visitar-te; e me recebes
                        na sala trastejada com simplicidade.
                        (...)
                        (Carlos Drummond de Andrade. A um bruxo com amor).

            Machado de Assis faleceu nas primeiras décadas do século XX (1908). Muitos dos seus livros (romances, contos, crônicas, poesia, teatro) foram publicados nos últimos anos do século XIX, mas quase tudo que o “Bruxo do Cosme Velho” escreveu continua atual. Podemos comprovar essa afirmativa pela publicação recente de dois livros organizados, respectivamente, por Luiz Antonio Aguiar – “O Mínimo e o Escondido: Crônicas de Machado de Assis” (Melhoramentos, 2015) e por Ninfa Parreiras – “Mapas Literários: o Rio em histórias” (Ed. Rovelle, 2015).  Esses livros são endereçados aos jovens.

            Luiz Antonio Aguiar é estudioso da obra de Machado de Assis e sempre descobre tesouros escondidos na vasta produção literária deste escritor que  não envelhece nunca;  seus textos são revisitados com frequência por Luiz Antonio, organizador do livro “Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias” (Ed. Record, 2008), uma valiosa contribuição para a fortuna crítica machadiana. Em 2009, este livro ganhou  o Prêmio de Melhor Livro Informativo da FNLIJ.  Agora, estamos diante de uma seleção de crônicas pouco divulgadas e vêm acompanhadas de comentários e explicações. São trinta textos que nos transportam ao conceito de Ezra Pound, expresso no livro “ABC da Literatura”:  “Literatura é linguagem carregada de significado”.  Pois bem, essas crônicas machadianas  às vezes  adquirem um matiz de contos e foram escritas com uma linguagem carregada de significados.

            Ninfa Parreiras organizou uma coletânea que tem como personagem principal uma cidade – o Rio de Janeiro. Ao lado de Joel Rufino dos Santos, Marina Colasanti, Nei Lopes e muitos outros cronistas que louvaram o Rio desponta Machado de Assis com o conto “Mariana”. A leitura desse texto vem comprovar, mais uma vez,  que estamos diante de um escritor que sabe utilizar   as palavras com mestria,  principalmente quando se trata de prosa.

            A ironia é um dos traços marcantes nos escritos machadianos.  Selecionamos a crônica “Regulamento dos bondes” (In: “O Mínimo e o Escondido”) que evidencia essa característica sempre presente.

  “Regulamento dos bondes” foi publicada em 4 de julho de 1883. O bonde era o transporte mais utilizado no Rio nesse período. O cronista dá sugestões hilárias para os usuários e enumera dez artigos  para disciplinar os bons modos dos passageiros.  O Art. I refere-se às pessoas acometidas por gripes (os encatarroados). Segundo o cronista, eles só podem tossir três vezes durante o percurso da viagem e se a tosse persistir devem adotar duas soluções: descerem do “bond” e prosseguir a viagem a pé, o que é um bom exercício, ou meterem-se na cama. O Art. VII trata das conversas em voz alta entre duas pessoas que viajam no mesmo “bond”. A conversa deve se limitar a quinze ou vinte palavras no máximo, e nunca fazer referências maliciosas, principalmente se houver senhoras. 

Nesse caso, a ironia se revela contra os maus modos dos passageiros: a solução proposta para evitar a transmissão de perdigotos àqueles que não estão “encatarroados” e o limite de palavras utilizadas nas conversas em voz alta -  não deve ultrapassar o número vinte.   Vale a pena ler a crônica toda e desfrutar da ironia que perpassa pelo  texto.

Ninfa Parreiras selecionou o conto “Mariana” ( In: “Mapas Literários: o Rio em histórias”) que se encontra no livro “Várias histórias”, publicado em 1896. Durante sete anos (1884-1891), Machado de Assis escreveu contos que foram divulgados no jornal “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro.  “Mariana” traz a data de 1891.

A leitura desse conto proporciona um passeio pelas ruas do Rio antigo e uma investigação sobre os sentimentos dos seus protagonistas – Evaristo e Mariana. Machado não se limita a descrever os personagens, ele vai além, o que interessa para este contista é o que se passa no interior desses “seres de papel”, criados por quem sabe realmente estabelecer um jogo psicológico entre os sentimentos de seus  personagens.

Vamos ao cerne do conto. Depois de dezoito anos de ausência do Rio de Janeiro, Evaristo retorna  e sente o desejo de rever uma antiga namorada – Mariana. Foi informado por um amigo que está casada com Xavier e que o marido passa por sérios problemas de saúde. Resolve, então, visitar aquela que nos anos da juventude povoou seus sonhos de rapaz.

A visita acontece. Ao chegar à casa de Mariana é recebido por um criado, identifica-se e espera pela chegada da ex-namorada. Não sabemos o tempo que demorou, enfim estamos no tempo psicológico e essa espera pode parecer uma eternidade. Esse momento sagrado proporciona a Evaristo o prazer de admirar, pendente da parede, por cima do canapé, o retrato de Mariana. Era uma pintura da jovem aos vinte e cinco anos, fase do namoro entre os dois. E vem a observação do narrador onisciente: “O tempo não descolara a formosura. Mariana estava ali, trajada à moda de 1865, com seus lindos olhos redondos e namorados.” (p. 126). Quanto tempo durou essa contemplação?  Não sabemos, mas foi o tempo suficiente para Evaristo navegar nas águas do passado e pressentir que Mariana descera da tela e da moldura e tinha vindo sentar-se junto ao ex-namorado. O que se segue é inusitado.   Machado estaria antecipando o realismo mágico?  Deixamos a resposta com o leitor. 
    
A denominação dada a Machado de Assis – o “Bruxo do Cosme Velho” se enquadra muito bem com o que ele representa na literatura brasileira – é realmente um bruxo no bom sentido – aquele  que é capaz de escrever sobre acontecimentos não imaginados pela lógica humana.  Relembremos “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O livro organizado por Ninfa Parreiras esconde outros segredos. O texto de Agostinho Ornellas é totalmente visual, vem representado por aquarelas das ruas e dos pontos turísticos do Rio de Janeiro. No conto “Mariana”,  Machado nos proporcionou  um passeio imaginário pelas ruas antigas do Rio;  Agostinho Ornellas faz um passeio pelo  Corcovado, Pão de Açúcar, Jardim Botânico, coisas do passado que permanecem no presente.

No mês que se comemora o Dia do Professor (15 de outubro) e Dia Nacional do Livro (29 de outubro), desejamos uma boa viagem através da leitura desses dois livros na companhia de um escritor que atravessa os séculos e permanece sempre novo.  
                  
NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS
DIA DO PROFESSOR

No dia 15 de outubro, foi dia do Professor e para saudar aqueles que têm a nobre missão de trazer conhecimentos, de educar, de formar leitores,  recorremos à professora e poeta chilena, Gabriela Mistral, com um pequeno excerto do seu belo poema em prosa “Oração da Mestra”:


“Senhor! Tu que ensinaste, perdoa-me se eu ensino, se levo o nome de Mestre que levaste na terra. Concede-me o amor único da minha escola, que nem o sortilégio da beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os dias. Mestre, faz perdurável a minha paixão, e passageiro o desencanto.”  

sábado, 5 de setembro de 2015

Tesouro escondido e descoberto

                        Tesouro Escondido e Descoberto
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            Gosto dos primeiros minutos da manhã, quando tudo na casa é silêncio e os telhados flutuam pela janela.
            (Roseana Murray. O Silêncio dos Descobrimentos)

            A procura de um livro em uma estante pode nos levar a descoberta de um livro esquecido, escondido no meio de muitos outros, isso aconteceu esta semana quando procurava um livro da escritora Vânia Resende e me deparei com “O Silêncio dos Descobrimentos” (Ed. Paulus, 2000), de Roseana Murray e Elvira Vigna. As duas estão reunidas neste livro no ato de escrever. Elvira Vigna vai mais além, escreve e ilustra.

            “O Silêncio dos Descobrimentos” tem o sabor de um livro antigo, um diário manuscrito, todo feito em letra cursiva. Poemas e textos em prosa convivem harmoniosamente e interagem com as ilustrações em preto e branco. 

            Como distinguir de quem é o texto? Os de Roseana Murray são escritos com um tipo de letra grossa, com uma caneta mais carregada de tinta; o de Elvira Vigna com um tipo de letra mais delicado, uma escrita fina.

            São textos e poemas para ler e curtir. Há outros que sugerem a participação do leitor. Nesse último caso, algumas páginas estão em branco e vêm acompanhados de apelos: “Diga quem você é” (p.6); “Faça aqui o mapa da sua geografia em algum momento do passado” (p.12); “Relate aqui um descobrimento seu” (p.14). E seguem-se muitos outros pedidos Depois da leitura desse livro, o leitor pode não se considerar poeta, mas ficará com a certeza de que dialogou com um texto, assumiu uma atitude de “coparticipação”, expressão utilizada por Gaston Bachelard para estabelecer um elo entre autor e leitor.
            Uma epígrafe poética de Elvira Vigna marca a abertura do livro:

            Este livro tem
            poemas,
            anotações,
            imagens de mares,
            ventos, pedras.
            o silêncio de
            todos os
            descobrimentos.

            O primeiro poema do livro é de Roseana Murray - “Me olho no espelho” (p.7) e guarda afinidades com “Retrato”, de Cecília Meireles. Na página anterior a este poema, aparece o convite de Elvira Vigna que exige a primeira participação do leitor: “Diga quem é você” (p.6).

             Roseana Murray é filha de pais poloneses. Lejbus Kligerman e Bertha Kligerman, pais de Roseana, vieram para o Brasil antes da 2ª. Guerra Mundial, fugindo do antissemitismo. No poema da p. 15, Roseana se refere à morte do pai, ao tio que tocava violino em um país distante, ao rio que atravessava a aldeia e ao barco que atravessou um oceano para que ela nascesse aqui.
            Quando meu pai morreu, eu quis chorar tantas coisas que não foram ditas. (p.15)
            Atente-se para o inusitado da expressão: “eu quis chorar tantas coisas que não foram ditas.”. 

            Elvira Vigna, nas páginas 70 e 71, escreve este poema:
            A foto é sempre muda, a foto dos
            que vieram depois, pelo
            mesmo caminho molhado,
            mas sem as
            calmarias.

            Na página seguinte (p.71), aparece um atestado de  Lejbus Kligerman, com uma foto 3x4 fixada na parte superior do lado direito da folha. É um atestado que foi emitido para o Serviço de Registro de Estrangeiros. Rio de Janeiro, em 13 de agosto de 1943. Vê-se, de forma bem legível, a data da foto  de Lejbus Kligerman: 25-5-1942.  

          No meio dos poemas, aparecem contos que falam sobre histórias cheias de maldade (Roseana) e sobre desenhos decorativos (Elvira Vigna), não faltando frases de poetas e pensadores, como Fernando Pessoa e Gaston Bachelard.


            Este livro está esgotado e uma das autoras (Roseana Murray) resolveu não mais reeditá-lo. É uma pena, um livro bonito e com acesso restrito.  Resta uma esperança: ele pode ser adquirido nos sebos, lido nas bibliotecas públicas e particulares. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O livro das simpatias

Livro das simpatias: nonsense e humor
            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

                        Eu quero um barco nas nuvens
                        um porto calmo
                        e a desarrumada vertigem
                        das velas dando adeus.
                        (Antonio Barreto. Livro das simpatias).

            Há várias maneiras de um livro cativar o leitor, pode ser pelo título, como “Enterrem meu coração na curva do rio”, “Olhai os lírios do campo”; pelas ilustrações, e citamos, “Tempo de voo”, “Rua Âmbar”, esses dois na área dos infantis. Há outros elementos que despertam o interesse do leitor – a capa, as epígrafes, as notas explicativas, as apresentações.  O teórico francês Gérard Genette denominou esses acessórios que complementam os livros de “paratextos”.

            O “Livro das simpatias” (Ed. Baobá, 2014), de Antonio Barreto, com ilustrações de Guili Seara, é um livro rico de paratextualidades. Se a capa chama a atenção pelo bonito colorido e os minúsculos desenhos, as ilustrações que antecedem os textos e tomam uma página inteira foram inspiradas nos desenhos em bico de pena de artistas do século XIX: Thiebault, H. Emy, Coste e constitui mais um motivo para atrair o leitor.  São treze textos apresentados de modo humorístico e, muitas vezes, desconexos, levando-nos a pensar nos poemas de Edward Lear, marcados pelo nonsense.
  
            Além das ilustrações que acompanham cada texto, logo após o título, aparece uma epígrafe. O poeta Mário Quintana, sempre reverenciado e citado neste livro, comparece com esta epígrafe: Teus silêncios são pausas musicais.  Quintana é intertextualizado nesta outra epigrafe: Procurar pelas coisas, mesmo as impossíveis, / É avivar de longe a brasa das estrelas. Ora... O que seria das coisas invisíveis, / Não fosse a ilusão de aprender a vê-las?  

            Podemos dividir o livro em duas partes; na primeira, encontramos treze receitas de simpatia irreverentes; na segunda, vêm explicações que nos são fornecidas pela sabedoria popular e não trazem a marca do nonsense.

            Vamos apresentar exemplos da simpatia do primeiro bloco e outra do segundo para que o leitor sinta como, embora diferentes, elas se complementam.

            “Para encontrar um príncipe encantado”, o narrador sugere que se procure com uma lanterna um sapo na lagoa, e coloque sobre sua cabeça uma cartolinha de mágico, em seguida, vire-se de costas e jogue duas mechas de seus próprios cabelos no brejo. Se o belo rapaz não aparecer, tente novamente.

            Para encontrar casamento, a sabedoria popular indica outro tipo de receita. É recorrer a Santo Antônio Casamenteiro. Esse santo é responsável por tirar muita moça do caritó. As rezas, as promessas, tudo vale, é ter fé no santo e esperar que apareça o marido desejado.

            Quanto à origem das simpatias, elas são desconhecidas. É difícil encontrar uma definição própria para essa crendice ou superstição. Folclore? Ficção? Verdade? Fantasia? Talvez pertençam “ao reino espantado das coisas imaginárias.”

            Não procure o leitor jovem (o livro é destinado aos jovens, mas pode ser lido com muito prazer pelos adultos) soluções ou simpatias plausíveis, é tudo apresentado de modo desconexo, risível e com muito humor.  

            Neste livro o que realmente nos chamou mais a atenção foram as ilustrações, recriadas a partir de desenhos antigos, seguindo-se as epígrafes, as intertextualidades com poemas de Quintana.  Acrescentamos a combinação dos rituais poéticos que se mesclam com o nonsense, o humor e a fantasia, além do predomínio dos elementos paratextuais.

            Para melhor conhecer os autores – escritor e ilustrador – vai um pouco de cada um deles. Antonio Barreto nasceu em Minas Gerais e afirma que antes de “vestir a carapuça de escritor” fez várias coisas na vida: estudou História, Letras e Engenharia Civil. Viajou muito, construiu pontes, edifícios, estradas, depois descobriu que a única coisa que o fazia realmente feliz era “ler, reler, escrever e reescrever”, aí se transformou em escritor.

            Giuli Seara veio da região Norte do Brasil, do Amapá, nasceu em plena Floresta Amazônica. É designer gráfico há mais de trinta anos, já conquistou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Para ilustrar o “Livro da simpatia”, utilizou a técnica da colagem sobre desenhos de bico de pena de ilustradores antigos e o resultado foi muito bom.


            A melhor receita para este finalzinho de férias é ler o “Livro das Simpatias”. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Bons livros para crianças

BONS LIVROS PARA CRIANÇAS
(Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            O papel da literatura nos primeiros anos é fundamental para que se processe uma relação ativa entre falante e língua.
            (Lígia Cademartori. O que é literatura infantil).

            Todos os anos, a revista CRESCER (Ed. Globo) seleciona os 30 Melhores Livros Infantis do Ano. O processo seletivo começa no mês de fevereiro. Especialistas e apaixonados por literatura infantil de todo o Brasil, escolhidos por jornalistas da revista, elegem os 30 melhores títulos publicados no decorrer do ano.

            Há quatro anos, é atribuído o troféu Monteiro Lobato ao escritor ou ilustrador que mais se destacou na área dos livros infantis. Em 2015, este prêmio foi conquistado por Lúcia Hiratsuka, autora do belíssimo livro “Orie” (Ed. Pequena Zahar, 2014), já comentado em nossa coluna. Este livro também ganhou o prêmio de Melhor Livro para Crianças da FNLIJ - 2015.

            A respeito do trabalho de escritora e ilustradora de Lúcia Hiratsuka, Eva Furnari assim se expressou:
            Ao longo da carreira, a Lúcia foi se aproximando de sua essência, de suas raízes. Sua obra tem emoção e essa é uma grande qualidade de seu trabalho. Seguramente, não temos outra como ela.
            (Eva Furnari, professora da USP, escritora e ilustradora. Revista Crescer, junho de 2015, p. 87).

            Os livros que integram a lista dos 30 Melhores são agrupados por temas. Medo, raiva, amizade, tristeza, saudade são temas importantes e devem estar presentes em livros para crianças.

            A poesia não pode ser esquecida e os versos que emocionam, divertem, rimados ou não, devem figurar nas leituras das crianças.

            O livro que instiga o leitor a brincar com o próprio livro é um atrativo que leva a interação criança/livro. O mundo do faz de conta, o convite à fantasia e à imaginação são elementos integrantes do mundo infantil.

            Livros que ajudam a entender como se relacionar com a natureza, as pessoas. Saber conviver fraternalmente com a sociedade é outro tema presente no mundo do pequeno leitor.

            Nesse universo diversificado de livros para crianças, é necessário que exista humor, livros que provoquem o riso, mas não se devem descartar os clássicos e as obras consagradas, como “Alice no país das maravilhas” e os livros de Lobato.

            Cada livro selecionado vem acompanhado de uma breve resenha crítica com indicação da faixa etária.

            Com o objetivo de auxiliar pais e professores na escolha de livros para crianças, segue a relação dos livros que integram a lista dos 30 Melhores Livros Infantis do Ano da revista “Crescer” (junho de 2015):

11.    Pequena Coisa Gigantesca. Texto e ilustração de Beatrice Alemagna. Ed. WMF Martins Fontes.
22.    O Gato. Texto de Bartolomeu Campos de Queirós. Il Anelise Zimmermann. Ed. Paulinas.
33.    Uma Pergunta tão Delicada. Texto de Leenvan der Berg. Il. Kaatje Vermeire. Ed. Pulo do Gato.
44.    A Raiva. Texto de Blandina Franco. Il. José Carlos Lollo. Ed. Pequena Zahar.
55.  A Árvore das Lembranças.  Texto de Britta Teckentrup. Ed. Rovelle.
66.  O Leão e o Pássaro. Texto e ilustrações de Marianne Duboc. Ed. Positivo.
77.    Pedro Carteiro. Texto e ilustrações de Beatrix Potter. Ed. Companhia das Letrinhas.
88. Vamos ajudar o Gildo. Texto e ilustrações de Silvana Rando. Ed. Brinque-Book.
99.    Joana no Trem. Texto e ilustrações de Katrin Scharer. Ed. Brinque-Book.
110. O Livro com um Buraco. Texto e ilustrações de Hervé Tullet. Ed. Cosac Naify.
111. Gorila. Texto de ilustrações de Anthony Browne. Ed. Pequena Zahar.
112. Hoje. Texto e ilustrações de Eva Montanari. Ed. Jujuba.
113. Eu Queria Ter... Texto de Giovanna Zoboli. Il. de Simona Mulazzani. Ed. WMF Martins Fontes.
114. Pocotó. Texto e ilustrações de Silvana Rando. Ed. Compor.
115. Zan. Texto e ilustrações de Jean-Claude R. Alphen. Ed. Manati.
116. Orie. Texto e ilustrações de Lúcia Hiratsuka. Ed. Pequena Zahar – Troféu Monteiro Lobato.
117. A Caminho de Casa. Texto de Sílvia Corrêa Il. Cárcamo. Ed. Edições de Janeiro.
118. Mel na boca. Texto e ilustrações de André Neves. Ed. Cortez.
119. O Nascimento de Celestine. Texto e ilustrações de Gabrielle Vincent. Ed. 34.
220. Vozes no Parque. Texto e ilustrações de Anthony Browne. Ed. Pequeno Zahar.  
221. Olhe para Mim. Texto de Ed Franck . Il. de Kris Nauwelaerts. Ed. Pulo do Gato.
222. O Livro Errado. Texto e ilustrações de Nick Bland. Ed. Brinque-Book.
223. Fases da Lua e Outros Segredos. Texto e ilustrações de Marilda Castanha. Ed. Peirópolis.
224.  Max, o Corajoso. Texto e ilustrações de Ed Vere. Ed. Companhia das Letrinhas.
225. O Bicho Alfabeto. Texto de Paulo Leminski. Il. Ziraldo. Ed. Companhia das Letrinhas.
226. Rimas de Lá e de Cá. Textos de José Jorge Letria e José Santos. Il. Yara Kono. Ed. Peirópolis.
227. Bebés Brasileirinhos. Texto de Lalau. Il. de Laurabeatriz. Ed. Cosac Naify.
228. Na Terra do Nunca Jamais. Texto de Linda Rode . Il. Fiona Modie. Ed. Martins Fontes.
229. Reinações de Narizinho. Textos de Monteiro Lobato. Il. Jean Gabriel Villin e J. Campos. Ed. Globo
330. Uma Festa de Cores. Texto de Ronaldo Fraga. Il. Anna Göbel. Ed. Autêntica.

Nota: Nas páginas 86 e 87, da revista “Crescer”, encontra-se uma matéria sobre Lúcia Hiratsuka (dados biográficos, fonte de criação e as obras mais recentes da autora).
Na página 88, aparece a lista com o nome de todos os jurados desse processo seletivo. É com muito prazer que integramos essa lista.

( Texto publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 19 a 25 de junho de 2015. Caderno “Variedades”. Coluna: “Livros&Literatura”, p. B-2.





quarta-feira, 3 de junho de 2015








‘”O bicho alfabeto”: poesia em tom maior
(Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

            quem me dera
            um mapa de tesouro
            que me leve a um velho baú
            cheio de mapas do tesouro.
            (Paulo Leminski. O bicho alfabeto).  

“O bicho alfabeto”, livro de Paulo Leminski, com ilustrações de Ziraldo, ganhou o Prêmio de Melhor Livro de Poesia em 2015, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

O título pode levar o leitor a pensar que se trata de mais um livro sobre as letras do alfabeto. Ledo engano. Leminski, como bem diz Arnaldo Antunes, na apresentação do livro – “brinca com as palavras, com os sentidos e formas das palavras.”

A escolha de Ziraldo para ilustrar esse livro foi muito feliz. Como Leminski, Ziraldo é um eterno “menino maluquinho”, e captou muito bem os sentidos da palavra poética, externando-os através de desenhos e traços originais.

Na primeira página, o bicho alfabeto parece um gato, todo formado de letras, mas na página seguinte tudo muda – uma espécie de Dom Quixote montado em um cavalo parece voar ao sabor do vento. O poema que segue faz alusão às vinte e três letras do alfabeto e ao “cavaleiro da triste figura”.

o bicho alfabeto
tem vinte e três letras
ou quase 

por onde ele passa
nascem palavras
e frases

com frases
 se fazem asas
palavras
o vento leve

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve (p.10-11)

E quando as coisas estão pretas, “uma chuva de estrelas/deixa no papel /esta poça de letras” (p.13). Do lado esquerdo aparece uma página toda preta, na página do lado direito, várias letrinhas parecem formar o céu e o chão não está salpicado de letras, mas de estrelas, como na canção de Orestes Barbosa “... a lua furando nosso zinco/ salpicava de estrelas nosso chão”.

E o que acontece quando uma estrela cadente, ainda quente, cai na palma da mão? Perfura a mão e cai no chão.

Para o pequeno poema – “tudo claro/ ainda não era o dia/ era apenas o raio” (p.40-41) uma ilustração bem simples, porém significativa – duas páginas de um amarelo intenso, da cor dos girassóis de Van Gogh.

O poema “A hora do tigre” traz a ilustração de um tigre mal humorado em cima de um globo ou uma bola e vêm os versos condizentes com a ilustração: “um tigre/ quando se entigra/ não é flor que se cheire/ não é tigre/ que se queira/ ser tigre/dura a vida inteira.” (p. 51).
 O jogo de palavras usado por Leminski nos lembra a parlenda e travalínguas do tigre: “três tigres tristes/para três pratos de trigo/três pratos de trigo/para três tigres tristes”.  Texto e ilustração não apresentam tigre triste, é um tigre desconfiado, comolhar matreiro, esperando que surja uma oportunidade para agarrar a presa.

Um pouco sobre este livro. Os poemas de “O bicho alfabeto” foram selecionados a partir de “Toda poesia” e compreende haicais, alguns poemas concretos, trava línguas, parlendas. Ziraldo, com seu jeito brincalhão, colaborou com desenhos jocosos e criativos. O livro é uma homenagem aos 70 anos de Leminski.  

            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

                   HERMANO JOSÉ

A melhor maneira de homenagear um poeta, um escritor, um pintor que se transformou em estrela no céu é divulgar a sua obra. Assim, em homenagem ao pintor, gravurista, poeta e ambientalista Hermano José segue um excerto de um dos seus belos poemas:

Duas vezes não se faz

Não se faz o mundo duas vezes:
Duas vezes a Lua
Duas vezes o Mar.

Não se faze duas vezes:
A inclinação do Cruzeiro do Sul,
A rotação diversa dos astros
A luz solar riscando madrugadas,
Crepúsculos incendiados
Para o sono dos pássaros.
[...]
Hermano José. Duas vezes não se faz.

REVISTA GENIUS


Um número especial da revista Genius (maio de 2015) foi dedicado a Epitácio Pessoa. Este ano, no dia 23 de maio, completou 150 anos de nascimento do jurista paraibano que ocupou os mais altos cargos na justiça brasileira: foi Ministro do Supremo Tribunal, Procurador da República, Juiz da Corte de Haia. Na política: Ministro da Justiça no governo de Campos Sales, Deputado e Senador pela Paraíba e Presidente da República. Todas essas facetas foram apresentadas pelos articulistas. O diretor da revista, Dr. Flávio Sátiro Fernandes, selecionou artigos antigos e atuais sobre Epitácio Pessoa e depoimentos de conterrâneos e contemporâneos do jurista.  A leitura desses textos é um atestado do grande valor de Epitácio Pessoa.

( Publicado no jornal "Contraponto". Paraíba, 29 de maio a 4 de junho de 2015)
“Carmen: a grande Pequena Notável” – prêmio duplo
(Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

            Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim
            Oh, meu bem, não faça assim comigo, não
            Você tem, você tem que me dar seu coração...
            (Joubert de Carvalho)

            A pesquisa biográfica, com o objetivo de publicar livros para o público infantojuvenil, tem proporcionado informações sobre artistas e escritores desconhecidos do público mais jovem. Na Paraíba, a editora Patmos tem procurado trazer a história e a vida dos grandes vultos paraibanos através dos quadrinhos. No Rio de Janeiro, as Edições de Janeiro persegue a linha das biografias, publicando livros sobre pessoas que marcaram a cena artística e literária de uma época.

            É dentro desse novo matiz literário-biográfico que surgiu o bonito livro – “Carmen: a grande Pequena Notável” (Edições de Janeiro, 2014), das escritoras Heloísa Seixas e Júlia Romeu e que contou com bonitas ilustrações de Graça Lima. Este livro recebeu em 2015 dois prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – Melhor Livro Informativo e Melhor Projeto Editorial.

            O projeto gráfico e a capa são da designer e ilustradora Raquel Matsushita. Ela ilustrou o livro “Alfabeto Escalafobético”, de Cláudio Fragata, vencedor do Jabuti 2014 na categoria Didático/Paradidático. Estamos, portanto, diante de um time experiente de escritoras e ilustradoras. 

            A biografia de Carmen Miranda para o público infantojuvenil veio acrescida de informações sobre a Era do Rádio, os primeiros discos lançados no Brasil e o uso do salto plataforma, uma criação da cantora para aumentar a sua altura, ela tinha só 1,52.  

            A história de Carmen Miranda começa com a vinda da família para o Brasil. O ano era 1909, início do século XX. Os pais eram portugueses e saíram de sua terra para tentar uma nova vida.  A infância, adolescência e juventude foi toda passada no Rio de Janeiro. Dos seis aos 16 anos, Carmen morou no boêmio bairro da Lapa.  

O nome completo de Carmen era Maria do Carmo Miranda Cunha, o pai era barbeiro e a mãe lavadeira.  Aqui, no Brasil, nasceram outros filhos do casal – no final, eram quatro meninas e dois meninos. Para ajudar a família, a mãe, além de lavar roupas, começou a fornecer refeições para as pessoas que trabalhavam nas redondezas. E a menina Maria do Carmo crescia, ajudava a mãe nos afazeres domésticos e cantava nos corais da escola. Era alegre e estava sempre cantarolando.

   Aos 14 anos, teve que deixar os estudos para trabalhar.  O primeiro emprego foi em um ateliê de costura, depois trabalhou em uma fábrica de chapéus e juntou duas coisas que gostava de fazer – costurar e cantar.

A voz agradável da mocinha chamou a atenção de um dos fregueses da pensão da mãe de Carmen, ele organizava shows no Rio de Janeiro, era a época dos cassinos e do apogeu do rádio. O pensionista fez o convite para a moça se apresentar a um empresário da noite. O convite foi aceito e Carmen (nome artístico adotado por Maria do Carmo) começou a despontar no cenário musical do Rio de Janeiro.

Um dos episódios mais interessantes deste livro é sobre a origem da música “Taí”, de Joubert de Carvalho, cantada por Carmen Miranda.   O compositor entrou numa loja e ouviu um disco com a voz de Carmen, ficou impressionado, parecia que ela estava dentro da vitrola. Nesse momento, apareceu uma mulher na porta da loja, era a própria Carmen e o vendedor apontou para ela dizendo: “Taí a nova cantora!”. Joubert saiu da loja com aquela palavrinha na cabeça – “Taí” e compôs uma música para o Carnaval que fez o maior sucesso.

A música “O que é que a baiana tem” surgiu em um filme brasileiro de 1938, “Banana da terra”. Nesse filme, Carmen canta a música criada por Dorival Caymmi e se valeu da indumentária de baiana que iria usar em muitos outros musicais no Brasil e nos Estados Unidos.

 Com o tempo, ela se tornou não só a rainha do rádio, mas uma das cantoras mais bem pagas nos cassinos cariocas. O Cassino da Urca era muito luxuoso e serviu de palco para as apresentações da “pequena notável”. Seu modo de vestir e de cantar atraiu a atenção dos empresários americanos e veio a proposta para cantar nos Estados Unidos, na Broadway, e participar de filmes. O desejo de brilhar lá fora a atraiu e lá se foi a “pequena” para as terras de Tio Sam, difundindo a alegria da música brasileira com graça e brejeirice.      
 Para escrever esse livro, as autoras e as ilustradoras fizeram inúmeras pesquisas: leram o livro de Ruy Castro – “Carmen – Uma Biografia”, examinaram revistas, jornais e as ilustrações que apareciam nas revistas da época áurea dos cassinos e dos programas de rádio no Rio de Janeiro, consultaram revistas de moda e a indumentária dos anos 1920 e 1930 e o resultado foi um livro de leitura agradável, um projeto editorial primoroso e ilustrações originais que transportam o leitor para os anos 20 e 30 do século XX.  

            NOTAS LITERÁRIAS

Segue-se a relação dos livros premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil com a categoria de cada livro, título do livro, nome dos autores e da editora.  Tudo isso para facilitar a aquisição desses livros. Alguns dos livros premiados já foram comentados em nossa coluna e relembramos “Orie”, “Os três ratos de Chantilly”, “Como uma carta de amor”. A partir desta semana, sempre que possível, iremos apresentar alguns desses livros premiados e lembramos que livros que recebem prêmio da FNLIJ concorrem e, muitas vezes, conseguem o Prêmio Jabuti.

PRÊMIO FNLIJ 2015 – PRODUÇÃO 2014

Criança: Orie. Lúcia Hiratsuka. Ed. Pequena Zahar
Jovem Hors-Concours: Como uma carta de amor. Marina Colasanti. Global.
Jovem: Desequilibristas. Manu Maltez. Peirópolis
Informativo: Carmen: a Grande Pequena Notável. Heloísa Seixas e Julia Romeu. Il. Graça Lima. Edições de Janeiro.
Poesia: O bicho alfabeto. Paulo Leminski. Il. Ziraldo. Companhia das Letrinhas.
Livro Brinquedo. O livro com um buraco. Hervé Tuilet. Cosac Naify.
Teatro: Mania de explicação: peça em seis atos, um prólogo e um epílogo. Adriana Falcão e Luiz Estelita Lins. Salamandra.
Teórico: Ofício da palavra. Org. José Eduardo Gonçalves. Autêntica
Reconto: Minimaginário de Andersen. Apresentação de Katia Canton. Il. Salmo Dansa. Companhia das Letrinhas.
Literatura em Língua Portuguesa: A menina do mar. Sophia de Melo Andresen. Cosac Naify
Trad/Adapt/Criança: 4 Contos. E.E. Cummings. Il. Guazelli. Cosac Naify.
Trad/Adapt/Informativo: Todo dia é dia de Malala. Melhoramentos.
Trad/Adapt/Jovem: Stefano. Maria Teresa Andruetto. Global
Trad/Adapt/Reconto: Por que o Mar é salgado: contos populares da Noruega. Asbjomsen&Moe. Il. Cárcamo. Berlendis Vertecchia.
Melhor Ilustração: Os três ratos de Chantilly. Alexandre Camanho. Pulo do Gato.

Melhor Projeto Editorial: Carmen: a Grande Pequena Notável. Heloísa Seixas e Júlia Romeu. Il. Graça Lima. Edições de Janeiro.