sábado, 28 de março de 2009

Pintura e Literatura: momentos criativos-Lasar Segall


Artigo - Pintura e Literatura: momentos criativos

"Pintura é arte de dar felicidade mediante as cores e formas". (Norah Borges)

Neide Medeiros Santos, Neide Medeiros Santos Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/ PB

Marisa Lajolo organizou e fez a apresentação do livro "Histórias de quadros e leitores" (Ed. Moderna, 2006). Dez escritores, incluindo a própria Lajolo, criaram histórias a partir de quadros de pintura. Alguns optaram por exercícios de criação, outros preferiram registrar fatos verdadeiros.

Cada quadro condiz com a história apresentada. Os pintores retrataram cenas familiares em que o livro aparece sempre como o centro das atenções. Há quadros que apresentam a leitura individual, mas tanto na leitura coletiva quanto na leitura individual o livro e o ato de escrever são os elementos destacados.

No universo de dez textos literários, nove telas e uma fotografia, dois textos e duas telas nos chamaram a atenção de forma particular - o texto de Marisa Lajolo e o de Moacyr Scliar.

O título do texto de Marisa Lajolo - "A pintura é a poesia muda e a poesia é a pintura que fala" - é um pensamento do grego Simonides de Keos que viveu no século V antes de Cristo e remete ao velho parentesco entre pintura e poesia, quando a literatura se representava quase exclusivamente pela poesia. O texto selecionado por Lajolo é o soneto de Machado de Assis - "Soneto circular" e o quadro - "A dama do livro", de Roberto Fontana, que pertence ao acervo da Academia Brasileira de Letras.

Os leitores do jornal "A Gazeta de Noticias", jornal de muito prestígio no Rio de Janeiro, na edição do dia 18 de abril de 1895, encontraram em suas páginas um instigante soneto com um título um pouco enigmático: "Soneto circular". O autor era um nome bem conhecido nas letras brasileiras - Machado de Assis.
A primeira estrofe do soneto nos oferece uma visão do quadro de Fontana:

A bela dama ruiva e descansada,
De olhos langues, macios e perdidos,
C´um dos dedos calçados e compridos
Marca a recente página fechada.
(...)

Quem visita hoje o acervo machadiano, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, se depara com este quadro "La donna che legge", uma pintura de Roberto Fontana, com data de 1882. O quadro pertenceu a Machado de Assis, foi presente de amigos e durante alguns anos esteve ao lado dos móveis e objetos na casa do escritor na Rua Cosme Velho. A referência ao presente do quadro por sete amigos de Machado de Assis pode ser comprovada com a leitura da 3ª estrofe do soneto:

Mas, eis da tela se despega e anda,
E diz-me: - Horácio, Heitor, Cibrião, Miranda,
C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo,
(...)

Quanto ao interesse despertado pela tela por parte de Machado de Assis, vejamos a explicação dada por Marisa Lajolo. Passeando, certo dia, pela Rua do Ouvidor, Machado se depara com o bonito quadro na vitrine de uma loja e Lajolo conjectura várias perguntas que o escritor poderia ter feito diante daquela bela figura feminina. Não vamos nos alongar repetindo os possíveis pensamentos de Machado de Assis, vejamos a opinião de Lajolo:

"Eu, por mim, gosto de fantasiar que este quadro, pendurado próximo da escrivaninha onde Machado escrevinhava suas histórias, era uma espécie de lembrete ao autor: lembrava a ele que o leitor pode sempre fechar um livro que não lhe agrada". (p.11).

Se o (a) leitor (a) tiver oportunidade de visitar o acervo de Machado de Assis, na Academia Brasileira de Letras, poderá também criar uma história para esta tela de Roberto Fontana. Fica o convite.

Para ilustrar o pungente texto "Histórias de mãe e filho", Moacyr Scliar se inspirou em um quadro de Lasar Segall que retrata a mãe do escritor, Raquel, nascida em uma região que hoje faz parte da Ucrânia. Os avós de Scliar vieram morar no Brasil e a filha Raquel acompanhou os pais em uma longa viagem que começou de barco, trem e por fim de navio, foi nessa viagem que ela viu, no convés do navio, um rapaz com um livro nas mãos, era David. Raquel havia aprendido a ler com um tio e era fascinada por leitura, conversar com David, trocar idéias sobre livros fez com que a viagem se tornasse menos cansativa.

No Brasil, os dois se encontraram alguns anos depois, namoraram e resolveram se casar. Dessa união - David/Raquel nasceu Moacyr, mas o escritor não teve o prazer de conhecer sua mãe, ela morreu durante o parto e vem uma revelação plena de beleza textual:

"Durante a gravidez a mamãe lia muito. Não para ela, lia para mim. É isso mesmo lia para mim. (...) E segundo ela dizia a papai, sabia até de quais livros eu gostava mais:
- Coloque a mão aqui na minha barriga, David. Você está sentindo o nenê se mexer? Está percebendo que ele bate palmas? É porque eu acabei de ler um conto de Machado de Assis. Nosso filho adora Machado de Assis, David". (p. 63).

Se olharmos para o quadro de Segall, vamos encontrar uma jovem senhora deitada com um livro aberto entre as mãos, repousado sobre o ventre intumescido olhando para o infinito, sonhando talvez com o filho e prevendo que ele seria um escritor. O momento é sagrado, o menino estava bem guardadinho na barriga da mãe. A primeira impressão é que o quadro retrata apenas uma pessoa, mas ali, na barriga da mãe, está escondido um menininho que hoje é um adulto que escreve livros que falam sobre os problemas dos judeus e sobre muitos outros problemas inerentes à natureza humana, todos revestidos de muita beleza e criatividade.

Moacyr Scliar cresceu sem a presença da mãe, formou-se em medicina, tornou-se escritor e admirador de Machado de Assis. Escreveu vários livros que têm como personagem central a figura do escritor da Rua Cosme Velho. "Ciumento de carteirinha", livro que conquistou o 2º. lugar no Prêmio Jabuti 2008, é uma nova versão de Dom Casmurro e um atestado da admiração que o escritor devota a Machado de Assis.

Após as leituras dos textos de Marisa Lajolo e Moacyr Scliar sentimos como é importante visitar museus, academias, centros culturais, ter pais bons leitores, pais e professores que encaminhem seus filhos e alunos para o reino mágico da literatura.

sábado, 21 de março de 2009

Guia das curiosas: um livro cheio de novidades


Artigo - Guia das curiosas: um livro cheio de novidades

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
(Cecília Meireles. Lua Adversa).

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB

Marcelo Duarte já escreveu vários livros sobre curiosidades, mas estava devendo um livro dedicado às mulheres. Para concretizar essa ideia, pediu a colaboração de Inês de Castro e brindou os leitores, de forma mais especial às leitoras, com o livro "O guia das curiosas" (Ed. Panda, 2008).

Seria impossível, dentro de um pequeno espaço de jornal, resumir as principais curiosidades sobre as mulheres brasileiras que deixaram marcas pelos caminhos, mas vamos tentar apresentar alguns aspectos ligados à literatura e lançar perguntas que despertarão no(a) leitor (a) o desejo de ler o livro dessa dupla que sabe aguçar a curiosidade.

Você sabia que o 1º livro escrito por um brasileiro nato foi de uma mulher? Sim, é pura verdade. Ela se chamava Teresa Margarida da Silva Orta e escreveu "Aventura de Diófenes", em 1752.

Quem foi Nísia Floresta? Nísia Floresta Brasileira Augusta é seu nome completo, nasceu em Papari, hoje Nísia Floresta, no vizinho estado do Rio Grande do Norte e foi uma das pioneiras na defesa dos direitos da mulher. Viajou pelo Brasil e morou em muitos países da Europa. Estava com 22 anos quando escreveu um livro que a consagrou - "Direitos das mulheres e injustiça dos homens". Deve ter sido um escândalo para a época, estávamos em 1832.

Outra brasileira que não pode ser esquecida é a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Formou-se em medicina, era a única mulher em uma turma de 156 homens. Adepta da psicanálise de Jung, deixou livros sobre as teorias de seu mestre. Foi uma revolucionária no tratamento psiquiátrico, condenando o método do eletrochoque, procurou tratar os esquizofrênicos com uma terapia ocupacional, distribuindo pincéis e tintas. Com esta atitude revelou vários artistas e criou o Museu do Inconsciente que reúne peças de arte.

E na poesia? Quem são as estrelas? Cecília Meireles (1901- 1964) é uma estrela de muito brilho. Criou a primeira biblioteca infantil do país em 1934, no Rio de Janeiro. Além de poeta era uma grande educadora, escrevia crônicas nos jornais do Rio sobre educação. Foi a primeira mulher a ter um livro premiado pela Academia Brasileira de Letras (1938). O nome do livro? "Viagem".

No romance, quais são os grandes nomes femininos? Marcelo Duarte e Inês de Castro citam: Ana Maria Machado, Clarice Lispector, Dinah Silveira de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Rachel de Queiroz. Rachel de Queiroz quebrou o tabu - foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, abriu o caminho para outras.

Duas escritoras brasileiras receberam o maior prêmio internacional de literatura infantil (Prêmio Hans Christian Andersen) - Lygia Bojunga Nunes (1982) e Ana Maria Machado (2002). Esse prêmio equivale ao Nobel de literatura para adultos.

Há uma referência no livro que merece registro - na página 530 aparece o nome de Anayde Beiriz. "Uma autora na fogueira" é o título do texto em que os autores tecem considerações sobre a jovem paraibana que ousava frequentar as rodas literárias que eram reservadas aos homens na década de 20 do século XX, escrevia poemas e condenava os preconceitos contra a mulher.

Nesse livro, são citadas feministas brasileiras. Quem são elas? Carmem da Silva, Marina Colasanti e Rose Marie Muraro. Sabemos que há muitas outras, fiquemos com estas três.

Carmem da Silva era gaúcha e se consolidou na literatura escrevendo artigos para jornais e revistas. Autora da coluna "A arte de ser mulher", revista Cláudia (1963/1985), se destacou pela maneira franca e direta de expor suas ideias. Por ironia do destino, morreu em Volta Redonda, quando dava uma palestra sobre feminismo (1985).

Marina Colasanti nasceu na Etiópia, morou até os 11 anos na Itália, depois veio para o Brasil, aqui ficou e se casou com o escritor Affonso Romano de Sant´Anna, escreveu para diversas revistas femininas. É autora de livros de poesias, crônicas, contos, textos teóricos e livros para crianças. Seu livro "A nova mulher" foi muito vendido.

Rose Marie Muraro traduziu "A mística feminina" de Betty Friedan e parece que aí despertou para o feminismo dos anos 70 do século XX. Hoje é uma feminista ardorosa, "sem papas na língua e muito polêmica por suas posições". (p. 534). Rose Marie Muraro é escritora e fundadora do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Durante 17 anos, trabalhou na Editora Vozes.

Encontramos também, na literatura brasileira, personagens femininas marcantes. Quem não se lembra de Capitu? O ano passado se comemorou os 100 anos da morte do consagrado escritor Machado de Assis e essa figurinha enigmática, "de olhos de ressaca", foi muito lembrada. E Diadorim? Personagem de Guimarães Rosa. Homem ou Mulher? Demônio ou Anjo? Dona Flor? Aquela que tinha dois maridos - um morto e outro vivo. Ah! São tantos nomes.

Saiba mais

Limitamo-nos a falar um pouquinho sobre as brasileiras que se destacaram na vida real e na ficção, mas o mundo está cheiinho de mulheres e de personagens femininas famosas. Duvida? Leia "O guia das curiosas" e veja se não temos razão. Não se esqueça: ainda estamos em março e o dia 8 foi todinho dedicado a esse ser que tem fases como a lua - é nova, quarto - crescente, cheia e quarto - minguante. Às vezes gosta de ficar escondida, outras vezes sai para a rua e daí... ninguém segura, os homens que se cuidem.

sábado, 7 de março de 2009

Rubens Matuck: um artista de muitas faces


Artigo - Rubens Matuck: um artista de muitas faces

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
(Álvaro de Campos. Passagem das Horas)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB

A vocação para as artes começou muito cedo na vida de Rubens Matuck. Oscar D´Ambrosio, crítico de arte da APCA, no livro biográfico "Contando a arte de Rubens Matuck" (Noovha América, 2005), afirma que, aos 12 anos, Rubens já mostrava tendências para o mundo artístico. Diante da inclinação do filho para as artes, o pai perguntou ao menino se ele desejava mesmo levar a sério essa atividade, o filho respondeu que sim e ouviu este conselho que guarda até hoje: "Então vai ter que fazer bem feito".

Seguindo a orientação do pai, Rubens Matuck é um artista que procura fazer bem feito trabalhos em aquarela, pintura a óleo, gravura, escultura, trabalhos em madeira e sementes e tem o reconhecimento da classe artística no Brasil e no exterior. É também um ardoroso defensor da natureza.

Formado em Arquitetura pela FAU/USP, começou a se destacar como artista ainda na faculdade com uma exposição em aquarela. Terminado o curso, realizou várias viagens de pesquisas, atualmente mantém em seu ateliê, em São Paulo, cursos de História da Arte e um canteiro de mudas de árvores de nossa flora para presentear aos amigos e àquelas pessoas que pensam em humanizar sua rua ou sua cidade plantando árvores. Profere palestras e dá aulas de Arte Ambiental em escolas de nível médio e superior.

Estudou pintura com Aldemir Martins, Flexor e Jorge Mori; gravura com Evandro Carlos Jardim e Renina Katz; escultura com Van Acker, fez também cursos de fotogravura e fotografia.

No ensaio "O olhar atento", Oscar D´Ambrosio considera Rubens Matuck um cronista de viagens e, na sua coleção de cadernos, estão registradas as viagens a locais como o Pantanal, a Amazônia. Estão presentes também, nesses cadernos, peixes, pássaros e árvores da rica fauna e flora do Brasil. É possível encontrar, ainda, nos seus "moleskines", imagens relacionadas com as fascinantes jornadas empreendidas pela China, Estados Unidos e Itália.

Oscar D´Ambrosio, no ensaio citado, chama a atenção para o interesse de Matuck pela arqueologia, as culturas do passado e o domínio do trabalho com papéis japoneses, esta última técnica utilizada como suporte na pintura e trabalhos delicados.

Aliado a tudo isso, Matuck é também ilustrador de livros infantis. Com a ilustração para o livro de Mário Quintana - "Sapato Florido", ganhou o prêmio Jabuti de Ilustração em 1993.

Em 2007, Nilson Moulin (texto) e Rubens Matuck (ilustração) publicaram, pela Editora Cortez, "Leonardo desde Vinci", que ganhou o prêmio "Melhor Livro Informativo" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Para escrever e ilustrar este livro, Moulin e Matuck fizeram três viagens à Itália em diferentes estações do ano, trilharam os caminhos de Leonardo e afirmam, em nota introdutória, que para conhecer bem Leonardo da Vinci não basta apenas ir a Florença e Milão, nem tampouco visitar museus e centros de estudos, é necessário começar pela cidade de Vinci, percorrer os "lugares de Leonardo", ler a "biografia fundadora" do toscano Giorgio Vasari sobre Leonardo da Vinci e ler muitos outros textos que falam, descrevem e interpretam os vários Leonardos.

Após estas considerações, vamos viajar pelas páginas do livro e conhecer um pouco dos artistas múltiplos: Leonardo, Moulin e Rubens. O texto de Moulin intercala aspectos biográficos da vida e da arte de Leonardo da Vinci com textos poéticos de autores consagrados. Matuck ilustra com desenhos, aquarelas, sanguíneas.

No início do livro, o leitor se depara com o belíssimo poema "Ítaca" (p.8-9) do grego Constantino Caváfys, traduzido por Jorge de Sena. A respeito do poema, Moulin comenta: Caváfys escreveu este poema "com olhos e coração voltados para a História Antiga do Egito e da Grécia, sonhando com o mosaico mediterrâneo..." (p.11).

Para ilustrar o poema de Caváfys, Matuck repetiu o texto em letra manuscrita utilizando o amarelo, laranja, vermelho, roxo e azul. Uma primeira leitura nos dá a impressão de que estamos diante de um amontoado de letras, examinando, com mais atenção, verificamos que é o mesmo poema com uma nova roupagem.

Nas páginas 26 e 27, quatro aquarelas retratam a cidade de Vinci em diferentes estações do ano. Um pequeno texto verbal fala sobre a pequena aldeia Vinci, na época de Leonardo, e o interesse que esta cidade desperta hoje aos visitantes e turistas.

Moulin recorreu a um texto de Stendhal (p.48) para descrever a cidade de Florença. Uma aquarela (p.49) apresenta a bonita cúpula da igreja de Santa Maria del Fiore, uma obra-prima de Brunelleschi.

Neste livro, encontramos aforismos, provérbios da tradição oral toscana, coletados por Leonardo e, entre os 18 provérbios elencados, pinçamos este pelo vínculo natureza/poesia:

"É muito mais difícil entender obras da natureza que o livro de um poeta". (p.58).

Leonardo tencionava organizar um livro de pintura, mas não o fez, um discípulo e amigo, o pintor Francesco Melzi, foi quem concretizou a idéia. Esse tratado se refere a conselhos de um professor a seus alunos. Destacamos, entre essas orientações, os passos que devem ser seguidos por um aspirante a pintor. Com o título "Tratado da Pintura", extraímos o primeiro princípio:

"O princípio da ciência da pintura é o ponto, o segundo é a linha, o terceiro é a superfície, o quarto é o corpo que se reveste de tal superfície..." (p. 81).

Depois da leitura do livro de "Leonardo desde Vinci", aflora o desejo de fazer o mesmo percurso de Moulin e Matuck - visitar Vinci, Florença, toda região da toscana em diferentes estações do ano, visitar os museus e as bibliotecas, sentir o deslizar do tempo e as mudanças das estações. Se não for possível realizar o sonho de uma viagem à região da toscana, contentemo-nos com a leitura do livro que permite conhecer um pouco da vida e da obra desse artista de muitas faces - Leonardo da Vinci. Rubens Matuck, pela multiplicidade de sua obra, também pode ser considerado um artista de muitas faces.

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Em parceria com o físico Walmir Cardoso, Rubens Matuck desenvolveu um projeto próximo ao de Fernando Pessoa. Na exposição intitulada "Viagem ao Urupin", o artista e o físico apresentaram cinco visões de um planeta, cinco artistas fictícios cada um com seu "modus operandi" e uma viagem a um locus imaginário.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dumont - uma família de artistas e bordadeiras








Artigo - Dumont - uma família de artistas e bordadeiras

"... livros bordados- linguagem antiga em roupagem nova."(Nilma Lacerda. A vida por muitos fios)

Neide Medeiros Santos, Neide Medeiros Santos Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/ PB

Antônia Zulma Dumont, a mãe; Ângela, Marilu, Martha, Sávia, filhas; Demóstenes, desenhista, está formada a família de artistas e bordadeiras. Para conhecer um pouco da história dessa família mineira de Pirapora, vejamos o que nos diz Ângela.

A mãe começou bordando o enxoval dos filhos com linhas matizadas, desenhando joaninhas, miosótis e jasmins. No aguardo da chegada dos filhos, as tardes eram preenchidas com ponto atrás, rococó, ponto de areia. À noite, Dona Antônia ouvia novela pelo rádio e continuava no seu bordado e as filhas maiores se encantavam com a caixinha cheia de linhas coloridas.

O tempo foi passando... os filhos cresceram e aprenderam a bordar. Demóstenes, o único varão da prole, começou a fazer os desenhos e a mãe e as irmãs puxavam as linhas. O universo dos bordados e desenhos, antes restrito a joaninhas e flores, começou a ser enriquecido com pássaros, peixes, nuvens, jardins, castelos, cidades. Hoje, como bem diz Pascoal Soto, a família emenda sonho e realidade. Dos bordados da família Dumont, enriquecidos com os desenhos de Demóstenes, nasceram livros que encantam e tornam mais bonito o universo infantil.

Entre os livros ilustrados com bordados da família Dumont, destacamos: "Menino do rio doce", texto de Ziraldo (Ed. Companhia das Letrinhas, 1996), "Águas Emendadas", texto de Ângela Dumont (Ed. Moderna, 1998), "A moça tecelã", texto de Marina Colasanti (Ed. Global, 2004). A família tem aumentado a sua produção artística e há outros livros ilustrados por essas mãos divinas. Vamos falar um pouco sobre cada um dos livros citados.

Em "Menino do rio doce" o narrador/poeta identifica o menino com o rio - deitando o ouvido na margem, o menino ouvia seus segredos; olhando o horizonte ele via o rio sumir e nas horas de contemplação surgia a pergunta: "o que há além do rio? Será o rio infinito?".

Outra pergunta que sempre fazia: "de quem era o rio"? O rio era de muitas pessoas, mas ele tinha certeza de que o "rio mais belo era o rio de sua aldeia". E o rio tinha as suas histórias: Cobra-Grande, perigos escondidos nas pedras, serpentes que devoravam homens e crianças. O rio é o motivo condutor da história.

Um dia... o seu melhor amigo desapareceu nas águas do rio, o rio levou o companheiro das folganças e as águas ficaram mais tristes, o amigo ficou "dormindo o seu sono sem retorno", o azul já não era o mesmo, o azul alegre, festivo, foi substituído por um tom cinza, sem brilho, sem vida.

"Águas emendadas" é uma linda história de amor entre São Francisco e Santa Clara. Será que existiu esse amor? Se não existiu, foi inventado e muito bem inventado por essa família engenhosa e por poetas sensíveis.

Há passagens do livro que podem ser consideradas pura poesia, outras prosa poética.. As ilustrações feitas em matiz e ponto areia retratam paisagens, castelos, o sol, a lua e muitos e muitos pássaros.

O texto se inicia de forma tradicional: "Em Assis, entre longes azulados (...) vivia Francisco", mas logo depois a narrativa se perde e o texto se torna poesia, não há mais a preocupação com a narrativa, é sentir, é ver, e não pensar em nada, como bem apregoa o poeta Alberto Caeiro. Aí surge Clara "que por ali vivia" e "desde o dia em que ouviu Francisco, cismou sair de casa", e juntos subiam serras e desciam montes, colhiam flores, teciam fios e conversavam com os pássaros.

Neste livro, predominam as cores quentes - o amarelo, o vermelho. Há também uma profusão de tons alaranjados, ainda é possível encontrar uma mescla de tons carmins e róseos. Os matizes e os pontos de areia se entrelaçam nas vestes de Francisco e Clara.

Após a leitura do livro, lembramo-nos dos poemas de Cecília Meireles - "Pequeno Oratório de Santa Clara", poemas que representam três fases da vida de Santa Clara: infância, juventude e idade adulta, textos poéticos tão bonitos quanto às ilustrações e os bordados da família Dumont.

Na última página do livro, Ângela envia uma mensagem para os leitores: Que "Águas emendadas seja desenhado em muitas linguagens, até que cada um reborde sua história em redes de amor".

"A moça tecelã", texto de Marina Colasanti, com ilustrações dessa família de artistas, é um presente para o olhar e uma leitura deleitosa. Aqui o tecer encontra a mais alta expressão na prosa poética de Marina e nas mãos dessas hábeis bordadeiras.

Para ilustrar com bordados o texto de Marina Colasanti, a família Dumont recorreu aos tecidos de algodão colorido da Paraíba, teçumes de Pirenópolis e aos panos de Minas Gerais. Há um perfeito acasalamento entre o tecer palavras e o tecer fios.

A tecelã da palavra (Marina) encontra perfeitas parceiras no ato de tecer fios (Ângela, Antônia Zulma, Marilu, Martha e Sávia); escritora e ilustradoras caminham por um conto tradicional que mostra um trabalho feminino (ato de tecer) explorado pelo marido e senhor. As exigências do marido aumentam cada dia - às vezes ele queria uma casa tecida com as mais belas lãs de cor de tijolo, depois vinha o pedido - desejava agora morar em um palácio e a pobre moça tecia, tecia, sem descanso, já não havia mais tempo para ver a neve que caía lá fora, não tinha tempo para chamar o sol, era só trabalho, o tecer, antes prazeroso, tornou-se cansativo, extenuante.

Mas, um dia, a moça tecelã ficou extremamente cansada e resolveu desmanchar tudo, enquanto o marido dormia desteceu palácio, jardins, pátios e, sozinha, na sua pequena casa, a moça tecelã "sorriu para o jardim além da janela".

Em texto escrito para este livro, "A vida por muitos fios", a ensaísta e também escritora Nilma Lacerda diz: "... livros bordados - linguagem antiga em roupagem nova".
Com a técnica de livros bordados, a família Dumont está trazendo de volta um passado que parecia perdido, um passado que não pode morrer.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Resgate na Jordânia: o universo árabe de Luciana Savaget


Artigo - Resgate na Jordânia: o universo árabe de Luciana Savaget

Se os meus amigos me fugirem... de mim fugirão todos os tesouros. (Provérbio árabe, citado por Malba Tahan)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB

O escritor brasileiro e professor de matemática, Júlio César de Mello e Souza, que adotou o pseudônimo de Malba Tahan, foi um incansável admirador da literatura árabe, escreveu mais de 20 livros sobre lendas e contos árabes.

Malba Tahan se encantou, mas ficaram seus livros e o apreço por esta cultura milenar. Suas histórias fabulosas e o mundo encantado dos califas, princesas, reis, gênios da lâmpada e dos tapetes mágicos encantaram crianças e jovens do Brasil nas décadas de 50 e 60 do século XX. Quem viveu a infância nesse período e não se recorda de "O livro de Aladim", reeditado pela Record em 2001? O rico universo das mil e uma noites está presente neste livro cheio de encantamento.

Luciana Savaget, escritora e jornalista, deu continuidade ao trabalho de Malba Tahan, na valorização do mundo árabe, mas os tempos são outros, estamos no século XXI e o texto de Luciana traz marcas da modernidade. Em um auto-retrato, inserido no livro "Operação Resgate na Jordânia: o segredo do deserto", ela assim se define:
"Nasci no Rio de Janeiro e vivo inventando histórias (...) Quando eu crio uma história, é para que ela se prolongue no gesto, no olhar, na voz e nos conduza à imensidão do imaginário. E foi a fantasia que me levou de verdade a conhecer a Jordânia, a Síria e a Palestina em 2005".

Operação resgate na Jordânia: o segredo do deserto (Ed. Nova Fronteira, 2007, 204p.) é o segundo livro da escritora que retrata o mundo árabe e conta a viagem aventurosa da diretora da Sociedade Internacional de Resgate à Fantasia (SIRF) no Oriente Médio. É um texto jornalístico, um diário de viagem, um relato real e uma ficção, tudo mesclado de muita fantasia. A personagem-narradora transita entre dois mundos - o ser e o parecer.

Na companhia dessa guia especial, vamos percorrer terras decantadas por Malba Tahan e conhecer um pouco mais da história dos povos do Oriente Médio através da leitura desse interessante livro.

O livro contém muitas informações sobre o Iraque, Síria e Jordânia. Cartas, e-mails, fotografias, mapas da região, desenhos e ilustrações de Graça Lima dão a verdadeira dimensão do entrecruzar da realidade com o mundo imaginário.

A personagem-narradora é diretora das Heranças Culturais da Sirf - e sai à procura da lâmpada mágica de Aladim, desaparecida e escondida pelo gênio da lâmpada. Graças a Alá as crianças ainda não tomaram conhecimento desse sumiço. Será que a diretora vai encontrá-la?

Durante a leitura, que é um verdadeiro passeio pela cultura árabe, ficamos conhecendo aspectos da rica culinária desses países, até a receita de um delicioso biscoito de tâmara é fornecido pela personagem Azin, uma amiga da diretora. Azin é detentora de muitos saberes e conhece os meandros da rota dos aventureiros e daqueles que procuram colocar pedras no caminho de quem quer o bem da humanidade.

Registramos também a presença de alguns vocábulos árabes e a sensação do caminhar pelo deserto: o vento assolador, o sol causticante, tudo é detalhado com a precisão de quem caminhou e sentiu realmente o que é o deserto.

Na aventurosa viagem pelo deserto, oferecem leite de camelo à diretora da Sirf e dão a seguinte explicação: "O leite de camelo é rico em vitamina C e saboroso". (p.191).
Uma tônica constante no livro é o cuidado com a preservação das bibliotecas, com os livros, o cultivo das histórias que devem ser transmitidas de uma geração para outra, a lição que podemos usufruir da leitura.

O livro termina em aberto, a lâmpada não foi encontrada. Resignada, mas não desanimada, a diretora da Sirf conclui:

"Um agente da Sirf tem que ter em mente que: Nunca é tarde para resgatar os sonhos. Eles salvam a esperança."

Aguardemos novas aventuras por terras árabes. Luciana, certamente, está preparando uma nova viagem. Para onde será?

Saiba mais

Luciana Savaget já ganhou vários prêmios, entre eles o de Personalidade Internacional da Criança, da União Brasileira de Escritores. É autora de mais de 25 livros, seis deles publicados no México, Colômbia, Cuba, Alemanha e Palestina. "Operação Resgate em Bagdá: a batalha do invisível" foi traduzido para o árabe. O Ministério de Educação da Palestina comprou 11 mil exemplares e distribuiu nas escolas e campos de refugiados da Faixa de Gaza. Luciana desenvolve um projeto com crianças carentes na favela da Maré, no Rio de Janeiro, e apresentou parte deste projeto no Congresso Internacional IBBY (Copenhague, setembro de 2008)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Mzungu e os gemeos do tambor: historias quenianas


Artigo - Mzungu e os gêmeos do tambor: histórias quenianas
Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/Paraíba

Meja Mwangi, escritor queniano, é autor de vários livros premiados e traduzidos para o alemão, russo, japonês e português. Atualmente é considerado um dos escritores mais importantes de Quênia.

Mzungu (SM: 2006) não é propriamente um livro autobiográfico, mas conta fatos vivenciados pelo autor e a luta dos quenianos pela independência de seu país.

Nos anos 50, do século XX, Quênia era um país em permanente conflito; de um lado, estavam os "mau-mau", grupo guerrilheiro formado principalmente pelas tribos massai e kikuyu e do outro lado os colonizadores ingleses. É nesse clima de conflito entre os donos da terra e os colonizadores que se desenvolve a história de dois meninos - Nigel (inglês) e Kariuku (queniano).

No meio desse clima hostil, Nigel e Kariuku, indiferentes às rebeliões e mortes que envolvem as pessoas grandes, desenvolvem uma amizade que está acima da cor da pele e dos preconceitos. Com Kariuku, Nigel conhece as riquezas e a diversidade da floresta africana, distingue os animais peçonhentos dos inofensivos, os encantos da caça e da pesca. Nigel, por sua vez, explica a Kariuku como são as cidades grandes, na Inglaterra. Entre os dois meninos não há choque de culturas, é um entrecruzar de informações, um enriquecimento de saberes.

Quênia é um país que seduz não apenas os ingleses e os próprios quenianos, mas pessoas de outras regiões e de outros países. Rogério Andrade Barbosa, escritor brasileiro, já morou na África como voluntário das Nações Unidas e se revelou um apaixonado pela cultura africana, escreveu mais de sessenta livros e a metade desses livros falam sobre o povo africano, seus contos, suas histórias, suas tradições.

Os gêmeos do tambor (DCL: 2006), de Rogério Andrade Barbosa, com ilustrações de Ciça Fittipaldi, é um reconto do povo massai, habitantes da região que se situa entre Quênia e Tanzânia. Esta história, contada pelo povo massai, guarda afinidades com o conto bíblico que narra a história de Moisés - dois meninos gêmeos são lançados no rio e salvos por um pescador que resolve criá-los como se fossem seus próprios filhos. O pescador deu-lhes os nomes de Kume e Kidongoi e eles cresceram sem saber quem eram seus verdadeiros pais.

Na aldeia onde moravam, os meninos eram chamados de os "gêmeos do tambor", eles estranhavam a denominação, mas ninguém explicava o porquê do nome. Eles sabiam tudo sobre gado, os fenômenos da natureza, as estações do ano, o deslizar das águas nos rios, mas faltava conhecer seu próprio passado.

"O tempo é como o vento, passa depressa" e os meninos transformaram-se em jovens guerreiros, fortes como um tronco de baobá. Na passagem da adolescência para a idade adulta, os jovens devem se submeter a um ritual de iniciação, provas que todo massai deve passar para ser considerado um "maran" (homem), isto é, tornar-se um verdadeiro guerreiro e Kume e Kidongoi passaram brilhantemente por essas provas.

Um dia, o velho pescador sentiu que ia morrer e resolveu contar a verdade aos jovens que ele adotara como se fossem seus próprios filhos. Sabedores da verdade, os irmãos, agora "marans", resolveram sair para conhecer a terra onde nasceram os seus verdadeiros pais. Como eles chegaram ao conhecimento dos fatos, somente a leitura do livro traz a chave do mistério.

A riqueza desse conto vem aliada à belíssima ilustração de Ciça Fittipaldi, ilustradora que sabe manejar com tintas coloridas e matizar contas, cores, plumas, tudo de forma harmônica e agradável ao olhar.

Nas páginas 27 e 28, o leitor se extasia com a beleza de um baobá. Na página 27, a árvore está toda florida, flores branquinhas, com pistilos amarelos nos dão a sensação de uma eterna primavera. Na página seguinte, frutos marrons indicam a chegada do outono, do amadurecimento. Esta imagem pictórica e poética nos leva a refletir sobre o tempo, sobre o passar dos dias, das estações.

As flores representam o tempo da juventude, dos rituais de iniciação; os frutos - , o amadurecer, o tempo de partir, o tempo da procura, do encontro.

Os baobás estão presentes em outras páginas do livro, alguns aparecem pequenininhos, longe, muito longe, emoldurando o fundo das páginas, outros estão cheios de folhas verdes, mas o encanto das flores e dos frutos não se repete nas outras páginas.

No Eclesiastes, considerado um dos livros mais poéticos da Bíblia, há uma passagem que fala sobre o tempo e vale a pena repetir:

"Todas as coisas têm seu tempo e para cada ocupação chega a sua hora debaixo do céu. Hora para nascer e hora para morrer; hora para plantar e hora para arrancar o que se plantou...".

A imagem pictórica do baobá, carregado de flores e depois de frutos, pode ser associada a esta bela passagem bíblica. Chegou o tempo de Kume e Kidongoi colherem os frutos, o tempo de encontrar seus verdadeiros pais.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Raízes míticas da literatura indígena para crianças







Raízes míticas da literatura indígena para crianças

Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo. (Dom Hélder Câmara. *7/02/1909 - Centenário de nascimento).

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/Paraíba

O mitólogo americano Joseph Campbell, na entrevista concedida a Moyers, que se encontra no livro "O Poder do Mito", afirma que foi lendo os livros sobre os índios americanos, quando criança, que descobriu os mitos, pois nessas histórias estavam presentes "criação, morte e ressurreição". Vamos seguir a orientação de Campbell e viajar pelos caminhos do mito na literatura infantil indígena produzida para crianças no Brasil.

Quando falamos em literatura indígena para crianças no Brasil, século XXI, desponta o nome de Daniel Munduruku. O primeiro livro deste autor - "Histórias de índio" - foi editado pela Companhia das Letrinhas, em 1996. Em 2001, Daniel publicou "Meu vô Apolinário" (Studio Nobel: 2001) e explica como surgiu este livro. Ele tem dois amigos que costumam dizer que os índios têm uma coisa que o brasileiro não tem - "ancestralidade" e foi pesquisando sobre essa palavra que ele descobriu um significado muito bonito - ancestralidade que dizer raízes.

Meditando sobre esse significado, Daniel Munduruku concluiu que ser índio é ter raízes e foi buscar, na memória dos seus antepassados, no caso deste livro, o avô, a história de seu povo e, a partir dessa consciência, como ele bem afirma, surgiu "a poesia da sabedoria dos nossos anciãos e como eles têm destaque dentro de nossa sociedade e de nossos corações" (2001:38).

Os índios, os primeiros habitantes do Brasil, têm uma rica tradição mítica, o que estava faltando era um escritor que transformasse em livros essas histórias contadas pelos mais velhos às gerações mais novas, aos curumins, às crianças brasileiras do século XXI.

Alguém poderia dizer: e os livros indianistas de José de Alencar, os poemas indianistas de Gonçalves Dias e os textos de outros escritores que procuraram retratar os índios brasileiros, onde colocaríamos? Existiu, realmente, no século XIX, na literatura brasileira, uma preocupação em apresentar, de forma idealizada, os nossos índios, mas só no século XXI, nos livros de Daniel Munduruku e nos livros escritos por outros índios e descendentes indígenas eles deixaram de ser idealizados, passaram a ter voz. O índio é autor e ator da sua própria história.

Há um livro de Daniel Munduruku posterior a "Meu vô Apolinário" - Os Filhos do Sangue do Céu e outras histórias indígenas de origem (2005: Landy Editora) que apresenta algumas histórias indígenas relacionadas com o mito da criação, embora Daniel afirme que essas histórias não são lendas, sequer são mitos, são histórias que devem ser lidas com o coração, e é com o coração que vamos fazer a leitura dessas histórias e passar para vocês um pouco desse sentimento de ternura que elas despertam.

Para escrever este livro, Daniel recolheu histórias de quatro povos indígenas: Tariano, Apinajé, Tembé, Caiapó. Na apresentação, o autor fala que os textos não são lendas nem mitos, mas no subtítulo de cada história aparece a palavra mito - tem razão, portanto, o poeta Fernando Pessoa quando diz: "o mito é o nada que é tudo".

Vamos percorrer as trilhas desses contos que se ligam todos à origem da criação. O primeiro texto traz o mesmo título do livro - Os Filhos do Sangue do Céu - um mito do povo Tariano.
Quem são os tarianos?

Os tarianos estão presentes no Amazonas, mais precisamente no Alto Rio Negro, mas também na Colômbia. Pertencem ao tronco lingüístico Aruak e somam uma população de duas mil pessoas (2005:14).

Este conto fala sobre como nasceram as pessoas tarianas, elas teriam surgido de um grande trovão que explodiu, partiu-se em dois, transformou-se em carne, jorrou sangue e da divisão dos pedaços de carne apareceram os tarianos. Para conquistar seu espaço, eles lutaram muito, enfrentaram outros povos até se estabelecerem na região escolhida.

O segundo conto fala sobre o surgimento do milho entre os índios e aparece com este título - Como surgiu o milho - um mito do povo Apinajé.

Mas antes vejamos quem são os apinajés.

Os apinajés estão presentes no Estado de Tocantins. São falantes do Jê e somam uma população de mais aproximadamente mil pessoas. (2005:28).

O conto apresenta a história da origem do milho. Um homem muito moço perdeu a mulher, sua tristeza era tão grande que deixou os cabelos crescerem e decidiu dormir nas moitas ao lado da casa. Uma noite, olhando o céu, ele viu uma estrelinha muito bonita que lhe chamou a atenção, durante muito tempo ficou olhando para a estrela até que adormeceu. A estrela aparece depois em forma de uma rã e se transforma em uma linda moça. A princípio, a jovem vivia escondida dentro de um pote, depois de algum tempo ele apresenta a moça aos familiares e resolve casar com ela. A moça/estrela mostrou aos índios a árvore que dava milho, todos passaram a gostar do novo alimento e até hoje os Apinajés gostam muito de comer milho.

O penúltimo conto está também ligado à origem de outro alimento - a mandioca. Como surgiu a mandioca e outra aventura dos filhos das onças. Um mito do povo Tembé.

Os Tembé estão presentes nos Estados do Pará e Maranhão. São falantes do Tupi, da familia linguística tupi-guarani. Sua população é de aproximadamente 1.500 pessoas. (2005: 40)

Neste conto aparece a figura de um pajé poderoso, Maíra, que é detentor do segredo da mandioca, ele sabe como plantar, como colher. Onças, com atitudes humanas, também estão presentes, elas falam e agem como pessoas. É um conto cheio de aventuras, de viagens, de abandono e de reencontro.

O último conto traz o título Como apareceu o fogo, um mito do povo Caiapó.

Os Kayapó (Caiapós, Kaiapós, Kubenkokré) se autodenominam Mebemokré, que significa "gente do fundo do rio". Esse povo - que vive no sul do Pará - acredita que seus primeiros pais, seus antepassados, saíram de dentro do rio para povoar a terra. Mas acreditam também que são filhos das estrelas segundo o mito de origem.

São falantes de uma língua pertencente à família linguística jê e têm uma população de aproximadamente cinco mil pessoas. (2005:50)

O surgimento do fogo está muito ligado aos mitos da criação e, neste conto, um animal, uma onça macho, é a portadora do fogo, é ela quem ensina a um menino do povo kaiapó o lugar onde se encontra o fogo e a partir do conhecimento do fogo os kaiapós passaram a cozinhar seus alimentos.

Os Filhos do Sangue do Céu e outras histórias indígenas de origem reúne quatro contos, quatro histórias, quatro lendas, quatro mitos.

SAIBA MAIS

Daniel Munduruku é diretor-presidente do INBRAPI - Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual e tem procurado difundir, divulgar a boa literatura produzida por índios e descendentes indígenas. Que venham mais e mais livros, histórias e mais histórias e que as gerações futuras sintam um dia o orgulho de ser descendentes dos índios.