sexta-feira, 30 de julho de 2010

MALBA TAHAN: O mago da literatura juvenil brasileira









MALBA TAHAN: O mago da literatura juvenil brasileira
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

O viajante deslumbrado
lê o livro com a certeza
de que o deserto tão falado
é um oásis de beleza!
(A. Monteiro. A sombra do arco-íris. Para Malba Tahan)

Júlio César de Mello e Souza foi figura de destaque no magistério brasileiro no início do século XX. Nasceu no Rio de Janeiro e aí estudou. Formou-se em engenharia e dedicou-se ao ensino como professor de matemática no Colégio Pedro II e na Universidade do Brasil (Rio de Janeiro). Publicou livros didáticos de matemática e geometria. Anos mais tarde enveredou para a literatura e utilizou o pseudônimo de Malba Tahan. Nessa fase, escreveu livros que retratavam as tradições e os costumes árabes. O pseudônimo suplantou o nome próprio e ficou conhecido no mundo das letras como Malba Tahan. O professor e autor de livros didáticos caiu no esquecimento.
A professora Nelly Novaes Coelho, no Dicionário Crítico da Literatura Infantil/Juvenil Brasileira, afirma que Malba Tahan não foi um “inventor literário, no sentido amplo do termo, mas com um talento especial conseguiu recriar ou inventar, a partir de modelos originais, uma série de lendas, romances ou contos maravilhosos, onde a atmosfera oriental era o ponto básico”. ( 1983: 575)
“O homem que calculava” é um dos seus livros de mais sucesso e com maior número de edições. Em 2002, a editora Record publicou duas edições – a 59ª. e 60ª. O ambiente do livro é árabe, mas aflora a faceta didática, o tom educativo e cultural. É considerado um clássico brasileiro e foi traduzido para o inglês e o espanhol.
Sobre os costumes e lendas do povo árabe, Malba Tahan publicou mais de 20 livros. Os personagens dos seus contos são sultões, califas, príncipes e princesas, beduínos e escravos. A leitura desses contos nos transporta para as histórias das “Mil e Uma Noites” contadas por Sherazade.

O livro “Os Melhores Contos” (Ed. Record) reúne 28 histórias que foram pinçadas de vários livros do autor. Uma das histórias traz o curioso título “O sábio da efelogia” (De “Maktub”). Será que o leitor sabe o que é efelogia? Em caso negativo, aconselhamos que faça a leitura do conto. Se já leu e está esquecido não perca tempo, faça uma releitura e terá de volta as lembranças das leituras juvenis.
“Os trinta e cinco camelos” (De “O homem que calculava”) envolve um intrincado problema de herança. O pai morre e deixa para três filhos 35 camelos que deveriam ser divididos da seguinte forma: para o filho mais velho, caberia a metade dos camelos; o segundo filho deveria receber a terça parte e o mais novo apenas a nona parte. Os irmãos discutiam, discutiam e não chegavam a um acordo. Nas contas havia sempre uma fração de camelos. Como dividir? O inteligente Beremiz foi chamado para resolver o problema. Como era exímio algebrista, deu uma solução que satisfez a todos. Beremiz que não era herdeiro recebeu dois camelos – demonstrou ser inteligente e sagaz.
“O tesouro de Bresa” (de “Lendas do Deserto”) conta a história de um pobre alfaiate que morava na Babilônia e desejava ser um dia dono de palácios e grandes tesouros, mas isso parecia quase impossível. Certo dia recebeu a visita de um velho mercador da Fenícia que vendia tapetes, caixas de ébano, pedras coloridas, objetos desejados pelos babilônios. No meio das preciosidades, Enedim, este era o nome do alfaiate, descobriu um livro cheio de caracteres estranhos e indecifráveis. O comerciante ladino disse-lhe que era um livro valioso e custava três dinares. Era muito dinheiro, o alfaiate pediu abatimento e conseguiu comprar por dois dinares. Debruçado sobre o livro, decifrou uma legenda: “O segredo do tesouro de Bresa”. Com vivo interesse, continuou lendo o livro com o objetivo de descobrir o tesouro de Bresa. Será que Enedim encontrou o cobiçado tesouro? Leiam e me contem depois.
Ainda há vinte cinco histórias esperando pelo leitor.
O dicionário de Aurélio registra que o vocábulo “mago” significa o homem que pratica a magia, o feiticeiro, o bruxo, o mágico. Nesse sentido, Malba Tahan é o mago da literatura juvenil brasileira. Com suas histórias cheias de encanto, consegue ser mágico, bruxo e feiticeiro ao mesmo tempo.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Roger Mello: o poeta da ilustração.


Roger Mello: o poeta da ilustração.
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

O que se espera de um livro para crianças é que as imagens contenham arte, que tenham sido feitas por um verdadeiro artista.
(Rui de Oliveira. Pelos jardins Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens)

Nosso convidado desta semana é o ilustrador e escritor Roger Mello. Ele vem acompanhado do poeta Manuel Bandeira e me traz um livro de presente – “Carvoeirinhos”, editado pela Companhia das Letrinhas em 2009, e que recebeu vários prêmios no Brasil, entre eles o Prêmio de Melhor Livro Ilustrado para Crianças da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (2010). O título do livro nos conduz ao poema de Bandeira – “Meninos Carvoeiros”.
Na entrevista que concedeu a Sérgio Maggio, no jornal “Correio Brasiliense”, em 26/10/2009, o escritor falou sobre a gênese do livro e deu as seguintes explicações: na sua infância, quando viajava de carro, saindo de Brasília, o menino via umas “casas redondas que soltavam fumaça” e o pai explicava que não eram casas, mas fornos de fazer carvão. Anos mais tarde, deparou-se com o poema de Manuel Bandeira “Meninos carvoeiros” e voltou a lembrança da infância e das casinhas de fazer carvão. Da junção dessas duas coisas, surgiu a ideia de escrever e ilustrar “Carvoeirinhos” que traz como epígrafe esses versos do poema de Manuel Bandeira:
Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade
- Eh, carvoeiro!
E vão tocando os animais com um relho enorme [...]

A madrugada parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis”




Repetimos palavras da escritora Eloí Bocheco, ditas em outro contexto. Aproximemo-nos do livro “Carvoeirinhos” com “delicadeza porque Roger Mello tem alma de seda”.
A cor da capa do livro chama a atenção do leitor pelo predomínio do cinza e do preto. O título “Carvoeirinhos” apresenta nuances nas cores: preto, cinza, vermelho, laranja e amarelo, simbolizando, respectivamente, o carvão, as cinzas e o fogo. Na capa aparecem, ainda, casinhas redondas de fazer carvão. Uma labareda laranja e vermelha, saindo de uma das casinhas, dá colorido ao universo cinzento e preto.
Se a capa é inovadora, mais inusitada é a história – um maribondo narrador tudo observa, tudo conta, através do monólogo interior. Há, também, a presença de meninos carvoeiros que interagem com o narrador.
No meio do livro – uma surpresa – recortes de papel coloridos em tons quentes, no formato de labaredas, dão um destaque especial às cores cinza e preto que aparecem no fundo da página.
Duas páginas do livro são ocupadas com casinhas de cupim que mais parecem cidadezinhas iluminadas. As larvas de vaga-lumes, representadas por pontinhos da cor laranja, acendem os cupinzeiros e tudo parece iluminado.
A linguagem é poética, frases curtas, ritmadas. Para Sérgio Maggio, é um livro que denuncia poeticamente os males do trabalho infantil. Denúncia semelhante também pode ser registrada em “Meninos do Mangue” do mesmo autor ( Companhia das Letrinhas, 2001).
Em 2007, a “Folha de São Paulo” publicou uma lista de livros que toda criança deve ler antes de virar adulto e lá estavam três livros de Roger Mello: “A flor do lado de lá” (Ed.Global, livro só de imagens) ; “Todo cuidado é pouco (Ed. Companhia das Letrinhas), “Meninos do Mangue” (Companhia das Letrinhas). Acrescentamos mais dois livros para completar cinco livros: “Jardins” (Ed. Manati, texto de Roseana Murray e belíssimas ilustrações de Roger Mello) e “Carvoeirinhos”, objeto de nossos comentários.
Despedi-me do nosso convidado desta semana com a promessa de que irá escrever e ilustrar livros tão bonitos quanto “Carvoeirinhos”. Alguns já estão em fase de gestação. Aguardemos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

roseana murray e a poética das transparências e delicadezas




Roseana Murray e a poética das transparências e delicadezas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Um dia os homens acordaram
e estava tudo diferente:
das armas atômicas nem sinal havia
e todos falavam a mesma língua,
falavam poesia.
(Roseana Murray. Sonho.)

Os professores falam sempre da dificuldade que sentem em trabalhar com a poesia em sala da aula. O texto poético é sintético, às vezes hermético e, geralmente, simbólico. A soma desses fatores exige mais reflexão por parte dos professores e dos alunos. Vivemos em um mundo de apressados e a poesia desponta como o momento da descontração, da calma, do sentir.
Carlos Drummond de Andrade, no artigo “A educação do ser poético, reconhece o lado menineiro da poesia, depois abandonado pelo adulto e interroga:
“Por que motivo as crianças de modo geral são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? Será que a poesia é um estado de infância relacionado com a necessidade de jogo, a ausência do conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos do viver – estado de pureza da mente em suma? Acho que é um pouco de tudo isso...”
A reflexão sobre o pensar drummondiano nos leva à moderna poesia brasileira destinada ao público infantil e juvenil, e encontramos muitos poetas que se preocupam em apresentar livros de poesia que revelam um “estado de infância”. Roseana Murray desponta como poeta voltada para o lado menineiro. Já escreveu mais de 50 livros, quase todos no reino da poesia. Ela costuma dizer que não se considera escritora de ficção, apenas poeta. Filha de imigrantes poloneses que vieram para o Brasil fugindo do antissemitismo atualmente mora em Saquarema, no estado do Rio.
O título de seus livros indica que a poesia está em tudo. “Fardo de carinho” foi o primeiro. Depois vieram muitos outros: “Receitas do olhar”, “Manual de Delicadeza de A a Z”, “Fruta no ponto”. ”Jardins” recebeu o prêmio da ABL- 2002 e foi ilustrado por Roger Mello. É poeta que sabe lidar muito bem com as palavras. É capaz de transformar os classificados de jornais em “Classificados Poéticos”, outro título de um dos seus livros.
Em 2010, pela Editora Lê, Roseana Murray publicou “Carteira de Identidade” com ilustrações em preto e branco de Elvira Vigna. Desta vez o título esconde segredos poéticos.
Os poemas deste livro vêm marcados por inquietantes indagações: Quem sou eu? O que é o mundo?
O poema “Perguntas” está cheio de interrogações. É a procura da memória, de um lobo antigo, a busca de signos.
O olhar para o céu também suscita dúvidas:
“seremos os únicos
a habitar o universo?”(p.14)
No poema “Corpo”, a pergunta:
“Meu corpo vibra,
pulsa,
é uma bomba-relógio?”
“Tamanho”, um dos últimos poemas do livro, é todo pontuado por interrogações:
O meu tamanho
é o mundo?
O que meu corpo
desenha no ar?
Sou uma arquitetura
mutante?”(p. 42)
No último poema, “Impressão Digital”, o leitor pensa que irá encontrar a chave. Ledo engano. O eu lírico conclui:
“Quem sou?” (p.46)
Ferreira Gullar, misto de poeta e crítico literário, considera que a poesia de Roseana Murray “é feita de transparências e delicadezas, como se ela falasse para mostrar o silêncio. E assim a linguagem alcança a condição de pluma e porcelana.”
“Carteira de Identidade” é um livro de poemas para crianças? Difícil responder à questão. É um livro de transparências e delicadezas, como bem definiu Ferreira Gullar.

sábado, 10 de julho de 2010

Platero e Eu – uma história cheia de ternura




Platero e Eu – uma história cheia de ternura
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB

Para mi, la poesía há estado siempre intimamente fundida com toda mi existência, y no há sido poesía objetiva casi nunca.
(Juan Ramón Jiménez. Poesías Escojidas. Espasa-Calpe)

“Platero e Eu”, de Juan Ramón Jiménez, poeta espanhol, é um livro que teve a 1ª edição em 1916. Continua sendo reeditado e atraindo leitores do mundo inteiro. Este ano (2010), a editora WMF Martins Fontes, em comemoração aos 50 anos da fundação da Livraria Martins Fontes, preparou uma edição especial para este livro – uma edição bilíngue (espanhol/português), traduzida por Mônica Stahel e ilustrada pelo artista plástico Javier Zabala.
O lançamento desta primorosa edição ocorreu no Instituto Cervantes, em São Paulo, com palestra da professora María de La Concepción Piñero Valverde. Pedro Benítez Pérez, do Instituto Cervantes de São Paulo, escreveu a “Apresentação à Edição Brasileira”. O ensaísta tece pertinentes considerações sobre a obra, com destaque para a presença de alguns temas: a dor física, a dor moral, a morte, a atitude crítica diante da sociedade, a natureza, os valores dos homens, seus vícios, sua crueldade. Todas essas ideias desencadeadas pela ótica de um animal-personagem: um burrico.
Alexandre Martins Fontes, um dos filhos do Sr. Martins Fontes, no encarte que vem junto a esta primorosa edição, afirma que seu pai sempre sonhou com a possibilidade de publicar “Platero e Eu”, mas por razões diversas nunca chegou a fazê-lo. A publicação deste livro foi, portanto, uma homenagem à memória do pai.
Juan Ramón Jiménez nasceu em 1881 na cidade de Morguer, região da Andaluzia, no sul da Espanha. Por suas convicções liberais, deixou a Espanha na época do ditador Franco e refugiou-se nos Estados Unidos. Morou, também, em Porto Rico e Cuba. Em 1956 foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Faleceu dois anos depois que recebeu o Prêmio (1958).
Sua vasta produção poética foi reunida em “Poesías últimas escojidas - 1918/1958”, uma edição da Espasa-Calpe. A leitura deste livro permite um melhor conhecimento da poesia de Ramón Jiménez e reúne poemas da fase vivida na Espanha e poemas dos vinte e dois anos fora de sua terra natal.
Vamos caminhar um pouco na companhia desse poeta que considerava a poesia uma parte de sua própria vida e colocava poesia em tudo que escrevia. “Platero e Eu” é um texto em prosa, mas apresenta características de um poema. Consultemos Emil Staiger – “Conceitos Fundamentais da Poética” e chegaremos à conclusão de que o livro se enquadra perfeitamente no gênero lírico.
Vejamos alguns excertos deste livro tão rico de ensinamentos.
“Platero e Eu” vem acompanhado do subtítulo – “Elegia andaluza” e foi escrito entre 1907-1916. O vocábulo “elegia” é usado na poesia para designar uma modalidade poética de canto plangente que remete ao luto e à tristeza. Pelo subtítulo, já pressentimos a leitura que nos aguarda. Quanto à andaluza, refere-se à região espanhola do poeta – a Andaluzia.
No primeiro capítulo, o poeta Juan Ramón Jiménez descreve assim o protagonista:
“Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio por fora, que parece todo de algodão, parece não ter ossos.” (2010: p. 5)
Vejamos a imagem: “Parece todo de algodão...” Será que existe algo mais fofinho do que algodão em pluma? E a reiteração: “parece não ter ossos” confirma a maciez do pelo de Platero.
O que mais enternece o leitor é o carinho devotado a Platero e a conversa que o narrador mantém com o burrinho, parece que estamos diante de Vicente e seu cavalinho azul, peça teatral de Maria Clara Machado que apresenta o mesmo processo antropomórfico de Platero e a mesma sensibilidade poética.
Em todo o decorrer da narrativa, Platero é tratado como um ser dotado de sentimentos próprios do homem e o livro conclui de forma nostálgica – Platero morre. Compreende-se, assim, o porquê do subtítulo – “elegia andaluza”.
Para melhor entender a dimensão literária deste livro, repetimos as palavras de Pedro Benítez Pérez, do Instituto Cervantes de São Paulo:
Embora Platero y yo seja considerado com frequência um livro para crianças, na realidade é um compêndio das vivências poéticas de um adulto extremamente sensível, que não perdeu o contato com a pureza da infância e que exalta a vida acima do sofrimento, das misérias morais, das ruínas de um povoado.
(Texto publicado no jornal Contraponto. João Pessoa, 09 a 15 de julho de 2010. Caderno B-5).

sábado, 3 de julho de 2010

Angela-Lago e a lição da simplicidade





Angela-Lago e a lição da simplicidade
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – PB)

Gostaria de ser simples em tudo. Simplicidade é a coisa mais bonita do mundo. Ser simples nos ajuda a ser inteiros. Além disso, a simplicidade permite que eu me aproxime do meu leitor predileto: a criança.
(Angela-Lago. Entrevista publicada pela Cosac Naify)

Angela-Lago, mineira de Belo Horizonte, escreve e ilustra livros infantis desde 1980. Já recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior. Seu livro “Cena de rua” (1994) integra a antologia “The Best Picture books of world” de Abhram Press, de Nova York.
Quando Ferreira Gullar entregou os originais de “Um gato chamado gatinho” à editora Salamandra, o editor Paschoal Soto convidou Angela-Lago para ilustrá-lo. Foi um casamento perfeito – reuniu dois gatófilos – um grande poeta e uma excelente ilustradora. O livro agradou a todos.
Em 2007, nova surpresa – “Um livro de horas”, uma edição de rara beleza, uma seleção de poemas de Emily Dickinson ilustrados e traduzidos por Angela-Lago e a conquista de mais prêmios – Prêmio Jabuti na categoria de Ilustração e Prêmio FNLIJ nessa mesma categoria.
Entre 2009 e 2010, a escritora/ilustradora ganhou três grandes prêmios. O primeiro, da Fundação Biblioteca Nacional (2009), pelas ilustrações do livro de poemas de Ronaldo Simões Coelho - “Bichos” (Ed. Aletria). Este livro ficou em 2º. lugar no Concurso da FBN e já foi objeto de comentários nesta coluna.
Com “Marginal à esquerda” (RHJ: 2009), ela obteve o Prêmio de Melhor Livro para Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (2010 – Hors Concours). Este mesmo livro conquistou, recentemente, o Prêmio de Literatura Infantil da Academia Brasileira de Letras. A escritora será recebida no Petit Trianon (ABL), no dia 20 de julho, data do 113º. aniversário da ABL.
Vamos conhecer um pouco do rico universo de “Marginal à esquerda”.
O protagonista da história é Miúdo, um menino que tem música na alma. Nas mãos de Miúdo, “o violino parece falar”, é assim que Maria do Zé Pita, sua irmã, se refere ao caçula da família.

Uma mãe e quatro filhos, esta é a família de Miúdo. Eles moram na periferia de uma cidade grande. Envolvimento com drogas, uma mãe doente e um ambiente de muita pobreza cercam a vida de Miúdo.
Para atravessar a noite e minorar o sofrimento, a mãe pede ao filho: “Toque as Quatro Estações, de Vivaldi”. A música invade o casebre e parece vinda do céu. Os sons do violino enchem a noite e o ambiente daquela casa humilde se torna aconchegante e acolhedor. Pouco a pouco a mãe adormece e esquece as dores.
O carinho devotado ao filho caçula suscita ciúmes nos irmãos. E vem a pergunta: A mãe acredita que Miúdo será um dia um grande músico? Sim. Aquela mãe doente, que pouco espera do futuro, tem grandes esperanças no filho músico.
Surge o convite para Miúdo tocar em São Paulo. O menino comunica a mãe o convite recebido, e ela com o coração partido diz: “Vai meu filho, e não volta”.
Tocar em São Paulo, diante de uma grande orquestra, é uma boa oportunidade para Miúdo. É a possibilidade de sair da marginalidade.
Qual será o destino de Miúdo ? Não sabemos. O livro termina com enredo aberto. Cabe ao leitor tirar suas conclusões.
Com “Marginal à esquerda”, Angela-Lago demonstra que seus livros vão além do simplesmente literário. É uma escritora comprometida, também, com o social. A preocupação com meninos de rua, que já se evidenciava em “Cena de rua”, foi retomada, com muita propriedade, neste seu último livro.
Na entrevista que concedeu à editora Cosac Naify, a escritora externou que gostaria de ser simples. Acrescentamos que a sua simplicidade reside em não usar artificialismos lingüísticos, em saber escolher as palavras certas, em dizer o máximo com o mínimo de palavras. Ser simples é escrever como Angela-Lago, com leveza e poeticidade. Lembramos palavras do escritor Graciliano Ramos – “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.”

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Saramago:viajando por terras portuguesas






Viajando com Saramago por terras portuguesas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

A felicidade, fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles. Entregue as suas flores a quem sabe cuidar delas, e comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva.
(José Saramago. Apresentação do livro “Viagem a Portugal”.)

José Saramago, o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, escreveu romances, peças teatrais, contos, poesias, literatura infantil e um livro de viagens – “Viagem a Portugal”. No Brasil, o livro de viagens de Saramago foi publicado pela Companhia das Letras (1997).
Portugal é um pequeno país da Europa, mas parece enorme quando temos como companheiro de viagem o escritor José Saramago. É na companhia desse “viajante especial” que vamos andar por terras portuguesas. Vamos seguir a sua orientação: “Viajar é estar mais e andar menos”.
Para o viajante, em alguns locais, a vida parece estar escondida, a aquecer-se nas lareiras. Para Saramago, que conhece cantos e recantos de Portugal, é possível descobrir locais pitorescos que só quem ama é capaz de ver e sentir.
A viagem desse “viajante especial” abrange terras do Nordeste e Noroeste de Portugal, terras baixas, vizinhas do mar, brandas beiras de pedras, passa pelo rio Mondego, por terras de Alentejo e Algarve. Seria impossível conhecer todas essas terras. Contentemo-nos com alguns detalhes.
Comecemos nossa viagem pela pequena aldeia de Rio de Onor. Lá se fabrica o bagaço, aguardente de uva. Se o viajante quiser aprender como se faz essa bebida, há sempre alguém disponível para ensinar. Ela é milagrosa, cura até dor de dentes. Vale a pena experimentar essa delícia de Rio de Onor.
E o que dizer do Monte Evereste de Lanhoso? O viajante sobe e dá voltas e mais voltas, e avista, bem no alto, o Castelo de Póvoa de Lanhoso. Chegando ao castelo, tem a sensação de que está no Himalaia, no Monte Evereste.


Em Coimbra, é aconselhável visitar a Sé Velha e admirar a galeria de reforçadas colunas que corre sobre as naves laterais. É uma das mais belas invenções do estilo românico. Outra visita imperdível é o Mosteiro de Santa Clara. Não pode deixar de deitar o olhar sobre o Mondego
Saindo de Viseu, o viajante entra na estrada que vai a Castro Daire e “sente-se reconciliado com o mundo entre montes e florestas”... (p. 183). Descendo pelo rio Vouga, de águas claras que vão a caminho do mar, o viajante tem a vaga impressão de que lá deixou qualquer coisa – o que será?
Essa viagem a Portugal não acaba nunca. Saramago nos ensina que quando o viajante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver, sabia que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo doutra. E preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava”. (p.387)
Muitos viajantes viram as aldeias portuguesas, os rios, os montes, as igrejas. Compraram retratos e postais e, ao voltar para casa, mostraram aos parentes e amigos, mas “nenhum deles, entretanto, teve como levar a viagem para casa, refazê-la por escrito e escolher que iria partilhá-la infinitamente”, como fez Saramago .
Fernando Pessoa, através do heterônimo Alberto Caeiro, Poema XXIV, “O Guardador de Rebanhos” disse esses versos que deveria ser o lema de todo viajante:
“O essencial é saber ver”.
Viajar é ter olhos para ver.
De José Saramago:
“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa.”
(José Saramago. Viagem a Portugal)
José Saramago se foi, mas ficaram seus romances, suas memórias, livro de viagem e de literatura infantil
Nos últimos anos, Saramago mantinha um blog na internet (http://caderno.josesaramago.org). Em um dos post, de acordo com a informação de Schneider Carpeggiani (Jornal do Commercio – “Saramago, o fim da polêmica”, Caderno C, Recife, 19 de junho de 2010, p. 01), o escritor teceu algumas razões para lermos certos escritores. Seguem os nomes dos autores da lista: Padre Antonio Vieira porque soube dar beleza à língua portuguesa; Cervantes porque sem Quixote a Península Ibérica seria uma casa sem telhado; Montaigne porque não precisou de Freud para saber quem era; Voltaire porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu ao desgosto; Raul Brandão porque não é necessário ser gênio para escrever um livro genial , o Húmus; Fernando Pessoa porque é a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Clássicos Infantis Universais


Clássicos Infantis Universais
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
(Carlos Drummond de Andrade. Infância)

A escritora e ensaísta Ana Maria Machado escreveu um livro – “Como e por que ler os Clássicos Universais desde cedo” (Ed. Objetiva: 2002) que deve ser lido e relido por todos aqueles que querem saber um pouco mais sobre os clássicos infantis universais.
Partindo de sua própria experiência, a escritora conta como foi o seu primeiro contato com um livro clássico. Era muito pequena, ainda não sabia ler, e seu pai foi contando aos poucos, com suas próprias palavras, a história de Dom Quixote e Sancho Pança. Algum tempo depois, já familiarizada com o mundo das letras, leu “Dom Quixote das crianças”, na adaptação de Monteiro Lobato.
Neste livro/ensaio, Ana Maria Machado dá algumas dicas importantes sobre livros e leitura. Há duas coisinhas que consideramos fundamentais:
“Clássico não é livro antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda”.
“O primeiro contato com um clássico, na infância e adolescência, não precisa ser com o original. O ideal mesmo é uma boa adaptação bem-feita e atraente”. (2002: p.15)
Chamamos a atenção do leitor para esta segunda afirmativa. Existe quem condene as adaptações dos clássicos sob o argumento de que deturpam o texto original. Essa observação nem sempre é verdadeira. Ferreira Gullar traduziu e adaptou Dom Quixote de La Mancha para o público jovem com tanta mestria que mereceu o prêmio FNLIJ/2003, na categoria de Tradução/Jovem.
Seguindo a linha de traduções e adaptações cuidadosas, Ana Maria Machado cita, entre outros, Beatrix Potter (As Aventuras de Pedro, o Coelho), Carlo Collodi (Pinóquio), Charles Dickens (Oliver Twist), Daniel Defoe (Robinson Crusoé), J.R. Tolkien ( O Senhor dos Anéis), Jonathan Swift ( As Viagens de Gulliver), Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas), Mark Twain (As Aventuras de Tom Sawyer). Nesta lista, não falta o brasileiro Monteiro Lobato. Muitos são os autores e muitos são os livros citados. Vale uma consulta ao livro “Como e por que ler os clássicos universais desde cedo”.
Não sendo possível discorrer sobre cada um desses livros, optamos por Charles Dickens e a interessante história de “Oliver Twist” (Companhia das Letrinhas), uma adaptação de Naia Bray-Moffatt, com ilustração de Ivan Andrew e traduzido por Hildegard Feist.
O livro condensa a história de Oliver Twist, um menino órfão, criado em um orfanato onde é maltratado e explorado. Traz, ainda, informações sobre os costumes dos ingleses na época em que se desenrola a ação (inícios do século XIX), fotos de Londres antiga, ilustrações e descrições sobre o ambiente e o modo de viver dos londrinos.
“Oliver Twist” permite ao leitor conhecer Londres da época Vitoriana e saber alguns detalhes da vida de Charles Dickens. Quando criança, ele queria ser ator e sua grande paixão pelo teatro se evidencia em seus romances. Pela intensa dramaticidade, muitos foram adaptados para o teatro. É o caso de “Oliver Twist” em que a morte da personagem Nancy causou tamanha comoção no público que a peça foi proibida de ser representada durante certo tempo.
A vida das crianças pobres na época vitoriana era excessivamente dura. Trabalhavam muito e eram exploradas pelos adultos. Os pobres saíam do campo e iam à procura de trabalho nas cidades, moravam em cortiços, embaixo de pontes e em lugares insalubres. As doenças proliferavam e muitos morriam na infância. Oliver Twist vivenciou os dramas de um menino pobre e órfão.
A respeito desse livro, Ana Maria Machado assim se expressa:
“... acho que recomendaria “Oliver Twist” para uma iniciação jovem. É muito triste e pode até fazer chorar, mas é ótimo. (...) É um desses livros que a gente não consegue largar, vivendo os medos e os sustos de uma criança que foge dos maus-tratos e sai pelas ruas tentando de todo jeito sobreviver e escapar da maldade de adultos que tentam explorá-lo na marginalidade.” (p.104).