domingo, 17 de julho de 2011

Professoras que marcaram vidas






Professoras que marcaram vidas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Um bom professor revela o mundo inteiro às crianças, torna-lhes possível aprender a usar suas mentes e, de muitas maneiras, prepara-as para a vida.
(Golda Meir. Minha Vida)

Esta semana trago para os leitores a história de duas professoras – uma fictícia, outra real. “A professora encantadora”, de Márcio Vassalo (Ed. Abacatte, 2010), ilustrado por Ana Terra, é um texto ficcional. “Doses de sonho”, de Eloí Bocheco, texto premiado no Concurso “Leia Comigo” (FNLIJ, 2011), é uma história real e pode ser lida no blog “Sala de Ferramentas”.
Maísa, “A professora encantadora”, era uma professora especial. Olhava para tudo com olho de “assombro e estranheza”, suas aulas eram agradáveis e surpreendentes. Quando estava dando aulas, não queria ser interrompida e colocava este aviso na porta: “Não entre, estamos suspirando”. Suspirar significava diminuir o medo no coração, dividir silêncio e multiplicar poesia no pensamento.
A professora Maísa ensinava os alunos a não ter medo de errar, a escutar, a esperar, a pensar. Ela não tinha pressa para nada e explicava que as surpresas deliciosas estavam guardadas nas coisas simples da vida.
Esta professora tinha uma maneira cativante de ensinar – ela mostrava aos alunos que estranho pode ser só o que a gente ainda não conhece; que alguém só sabe ensinar quando não consegue parar de aprender; que errar pode ser uma forma de caminhar.
A ilustradora Ana Terra, responsável pelas ilustrações do livro, apresenta uma professora bem moderna. Maísa usava bolsas multicoloridas e parecia estar sempre flutuando. Era uma professora meio maluquinha – subia em uma escada para dar certas explicações, escrevia bilhetes na porta da sala para não ser interrompida, tinha sempre um poema para dar de presente aos alunos.
Ana Schirley lecionava na Escola Juçá Barbosa Calado, na cidade de Capinzal, meio-oeste de Santa Catarina. Chegava à escola com os braços cheios de livros. Havia o livro didático de Antônio Ravanelli, mas era pouco usado, o que ela gostava mesmo era de ler poesias, crônicas e capítulos de livros. Lia em voz alta e, naquelas sessões de leitura, os alunos sentiam que as palavras tinham poder, eram arrebatadoras. A própria professora se deliciava com o que lia.
Os textos que a professora Ana Schirley trazia para a sala de aula eram datilografados em estêncil, na máquina de escrever, e impressos em mimeógrafo a álcool. Cada aluno recebia uma cópia, depois a voz apaixonada da professora invadia a sala e as palavras saíam macias como seda.
“O anjo da noite”, na visão poética de Cecília Meireles, era um dos textos preferidos pela professora. A mestra cuidava da memória literária e abria ruas sem fim na imaginação dos seus alunos.
De Cecília Meireles, apresentou “Ou isto o aquilo”, uma coletânea de poemas para crianças. Era um livro mágico. Trazia textos de outros poetas para a sala de aula. Ainda, lia o “Sermão da Sexagésima”, do padre Antônio Vieira. Fazia uma escolha criteriosa de textos para suas aulas.
A crônica “O Cajueiro”, de Rubem Braga, na leitura da professora, encantava a turma toda. Ele caía devagarinho, com muito cuidado para não machucar a casa, e estava cheio de flores. Era setembro. A carta da irmã do cronista esclarece este detalhe.
Eloí mora em uma região onde não se vê um cajueiro, mas confessa que era apaixonada por aquela árvore, sentimento afetivo despertado pelo texto de Rubem Braga que ganhava mais vida quando era lido por Ana Schirley. ( Esta crônica, lembrada por Eloí, levou-me ao passado e veio na minha memória a crônica “A corujinha da madrugada” do mesmo autor e de surpreendente beleza.)
O chão da escola era carcomido, as carteiras riscadas, as vidraças em pedaços, a sala era feia, o quadro de giz esburacado, mas tudo isso era esquecido. Os alunos ficavam seduzidos pelos rituais de leitura empregados por aquela professora dedicada e comprometida com os verdadeiros ideais da educação.
Nas palavras de Eloí Bocheco: “as aulas eram noturnas, mas dentro de nós, o sol brilhava”.
Golda Meir, no livro “Minha Vida”, revela um grande sonho que teve aos quatorze anos - gostaria de ter sido professora por considerar essa profissão a mais nobre e mais satisfatória de todas as profissões.
Maísa, a professora idealizada por Márcio Vassalo, e Ana Schirley, a professora real de Eloí Bocheco, representam o ideal almejado um dia por Golda Meir.

domingo, 10 de julho de 2011

O Presente Misterioso


O Presente Misterioso
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Música é vida interior e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.
(Artur da Távola)

O ano de 2010 me reservou encontros com muitos livros de literatura para crianças e jovens, livros que podem ser lidos com prazer pelos adultos. Foi uma agradável surpresa a leitura de “O dom” (Ed. SM), de Susie Morgenstein, ilustrado por Cheng Jiang Hong e traduzido no Brasil por Pádua Fernandes.
O livro vem acompanhado de um CD com narração da história por Caco Ciocler, ator de teatro, cinema e televisão, com formação em Arte Dramática (USP). Moacyr Scliar escreveu o posfácio e afirma que contar histórias faz parte da tradição judaica. O escritor cita a Bíblia e o Talmude como fontes de muitas histórias.
Mas isso ainda diz pouco, parafraseando o retirante Severino. Nas faixas de 1 a 12 do CD, a narração vem intercalada por excertos de peças de Louis Dunoyer. Nas outras, de 13 a 19, executam-se excertos de Bach e Paganini. Para completar o quarteto de excelência, o intérprete de violino é Joshua Epstein.
Para que público se destina este livro? Para crianças, jovens, para os contadores de histórias, para mim e para você, meu leitor especial.
Vamos deixar as informações sobre o livro e rumamos em direção à história.
Havia uma família judia que morava em um minúsculo barraco, em uma região do leste da Europa. Não guardava tesouros antigos ou objetos preciosos, assim não temiam os ladrões.
A família Oifetzmil era constituída pela mãe, pai e dois filhos. Chegou um terceiro filho e os pais se sentiram abençoados com a chegada do novo rebento. Era um bebê grande e de aparência saudável. Os pais chamaram-no Oycher, que significa “riqueza” em iídiche.
Quando completou oito dias de nascido, Oycher foi circuncidado, segundo a tradição e costume do povo judeu. Nesse mesmo dia, a família recebeu um presente inesperado – um homem desconhecido trouxe uma caixa para o menino com esta recomendação: “Ninguém abrirá esta caixa até o terceiro aniversário do menino. Nesse dia, após soprar as velinhas, quando lhe cortarem os cabelos pela primeira vez, ele tomará o presente nas próprias mãos.” (p. 12-13)
Após estas palavras, o homem desapareceu e começou o interesse dos vizinhos, amigos, familiares para descobrir o conteúdo da caixa. Surgiram as mais variadas opiniões.
Herchel, o mascate, segurou a caixa e declarou: contém dinheiro; Shayndel, a dona da padaria, tinha outra opinião – são passagens para a América; Feivel, o sapateiro, não tinha ideia alguma, mas arriscou: o conteúdo dessa caixa vai ajudar a criança a trilhar o caminho da liberdade; Beryl, o ferreiro, não concordava. Para ele, o pequeno baú continha uma arma secreta contra os “pogroms”.
Em nota de rodapé, aparece a explicação para este vocábulo: “O termo designa os ataques (agressões, estupros, roubos e assassinatos) cometidos contra os judeus com apoio das autoridades, na Rússia czarista”. (p.18)
Schia, o escrivão, examinava tanto a criança como a caixa e fez a seguinte revelação:
“Meu querido Oycherel, nessa caixa você encontrará uma linguagem universal. Não existe língua mais bela. Não precisará conhecer o alfabeto nem a acentuação.” (p.19)
Oycherel é diminutivo de Oycher.
Moische, o alfaiate, repreendeu Schia e disse:
“Uma língua não pode ser escondida numa caixa. Eu é que sei o que há aí dentro. Vou lhes dizer e verão se não estou certo, meus amigos. Boas ferramentas são o melhor presente.” (p.20)
Para o velho Moische, a caixa continha uma ferramenta. O menino teria uma profissão, o que seria um escudo contra a pobreza.
Faltava a opinião do rabino. Este profetizou: “Aí dentro está o diabo”. E completou: “O que há nessa caixa de vícios impedirá seu filho de cumprir as seiscentas e treze mitzvót.” (p. 26).
Mitzvót são os mandamentos e regras de conduta cotidiana que devem ser seguidos pelo judeu praticante.
Houve silêncio geral depois das palavras do rabino.
O dia do aniversário de Oycher se aproximava. O menino estava com dois anos e meio, não falava, só sabia repetir essas sílabas: “gaga gugu”.
Chegou o dia do 3º. aniversário de Oycher, a misteriosa caixa seria aberta. Para surpresa de todos, Oycher, que até aquela data não falava nada, quando abriu a caixa pronunciou, de forma bem clara: “violino”.
A história prossegue, mas vou terminar por aqui. Não disse tudo, mas disse o essencial.
Quem quiser saber o que aconteceu depois leia o livro, e sinta “a delícia das coisas simples.” A leitura é uma delas.

domingo, 3 de julho de 2011

Urupemba: a cidade dos segredos

Urupemba: a cidade dos segredos
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.
( Segredo. Henriqueta Lisboa)

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza. É jornalista e escreve livros para crianças e jovens. Foi aluna de Gabriel García Márquez na oficina de criação literária em Cuba (2006) e bolsista da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique (2007). É uma cearense andarilha.
Em 2010, a escritora publicou dois livros pela editora Biruta – “A Bailarina Fantasma” e “ Inventário de Segredos”. Os dois livros receberam o selo Altamente Recomendável da FNLIJ. Destinam-se ao público infantojuvenil.
É sobre “Inventário de Segredos”, mais próximo das raízes nordestinas – é um cordel – que teceremos algumas considerações.
Os personagens forma inspirados em pessoas que a autora conheceu em suas andanças pelo interior do Nordeste. O cenário escolhido para o desenvolvimento da história foi uma pequena cidade chamada Urupemba.
Vamos conhecer alguns dos personagens, seus dramas, aspirações e, principalmente, os segredos.
Amadeu Bezerril era o moço mais bonito da cidade, mas não gostava de namorar. A mãe preocupada arranjou uma namorada para o filho – Belinha, uma moça bonita e bem faceira, só ela seria capaz de conquistar o coração do moço. Conversavam, trocavam receitas, beijos bem ligeiros, nada de beijo demorado. Um dia, Amadeu contou-lhe um segredo que guardava a sete chaves e Belinha perdeu o namorado.
Mas Belinha não desistiu, apaixonou-se pelo carteiro, mas o coração do carteiro já pertencia a Dulcineia. Pobre Belinha! Parece que nasceu mesmo para titia.
Dr. Geraldo era doutor sem diploma. Chegou em Urupema fugido da capital. “No curso de medicina/Perdeu a prova final”. E Dr. Geraldo curava toda doença com a tal da homeopatia. “Remédio branco e docinho/ Mas sem nada de alquimia”.
Bem próximo de Dr. Geraldo existia uma pessoa que manipulava o remédio. Quem era essa pessoa? É segredo.
Raimunda Girleuda Batista era o nome de batismo dessa moça. Resolveu, porém, ser artista e pensou com seus botões: “Girleuda é lá nome de gente?” Conseguiu nova certidão com o juiz da cidade e passou a se chamar Keylanne Mary Batista. O juiz guardava um segredo bem escondido, só Raimunda sabia. É fácil entender porque Raimunda conseguiu mudar o nome de maneira tão rápida.
O ex-prefeito Quirino era casado com Rita. “Comprava vestidos e joias/Tudo para vê-la contente”. Quirino morreu de repente e ficou sabendo que era marido traído. O segredo só foi revelado depois que virou defunto.
Em Urupemba todo mundo tem segredo – a moça namoradeira, o moço bonito, o carteiro, o juiz, o prefeito, o padre, o sacristão. Alguns segredos foram revelados, outros estão guardadinhos nas páginas do livro “Inventário de Segredos”. Guardei-os para os leitores curiosos.
O livro começa com o segredo de Amadeu, o rapaz que não gostava de namorar, e termina com Zacarias, o padre que tudo ouviu, anotou em um livro e como vai morar em outra cidade deixou este inventário
Mateus Rios fez as ilustrações. São bem jocosas, condizentes com o texto verbal. O livro é apresentado como se fosse um livro bem antigo, quase artesanal. A cor da capa e das folhas internas em sépia e os tons sombrios das ilustrações conferem um ar de “antigamente”.
Nota. Urupemba, variante de urupema, é uma espécie de peneira de fibra vegetal utilizada na culinária para peneirar milho verde e fazer pamonha.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

VERMELHO: a cor da amargura


VERMELHO: a cor da amargura
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária - FNLIJ/PB)

Um tomate fatiado pode concentrar muitas metáforas, memória afetiva e poesia. Em Vermelho Amargo, Bartolomeu Campos de Queirós nos transporta para os mil olhos do menino-narrador e, quando damos conta, é nossa infância que passa a coadjuvar seu olhar sensível.
(Gabriel Vilela. Capa de Vermelho Amargo)

Vermelho Amargo é o livro mais recente do escritor Bartolomeu Campos de Queirós (Ed. Cosac Naify, 2011). O lançamento ocorreu no 13º. Salão do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro, no dia 14 de junho. É o primeiro romance do escritor destinado aos adultos. Durante muitos anos, Bartolomeu publicou livros para crianças e jovens. Alguns são classificados como infantojuvenil, mas, pela profundidade filosófica, estão mais próximos do público adulto.
No programa Sem Censura (TV Cultura), no dia 12 de junho de 2011, o escritor falou sobre “Vermelho Amargo e afirmou: É um retorno à minha infância. É a história de um tomate. Não é um livro fácil”.
Aceitamos o desafio. Vamos seguir trilhas ásperas, pedregosas e caminhos tortuosos.
O livro não apresenta capítulos, está dividido por parágrafos, técnica utilizada, com muita mestria, pelo escritor.
A narrativa se inicia sob o ponto de vista de um menino-narrador:
Mesmo em maio – com manhãs secas e frias – sou tentado a mentir-me. E minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. (p. 7)
Foi, também, no mês de maio – “manhã seca e fria de maio” que a mãe partiu.
Mas é o tomate, imagem recorrente na narrativa, o “leitmotiv” do texto.
A mãe, com muito afago, cortava o tomate em cruz, lavava-o com água pura, enxugava-o com um pano de prato muito branco e dispunha-o em uma travessa. Era um trabalho feito com muito amor. No almoço, o tomate era repartido entre os filhos.
Diante dos olhos do menino, os tomates cortados em forma de cruz se “transfiguravam em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa. E barqueiros eram as sementes, vestidas em resina de limo e brilho”. (p.15)
Quando a mãe partiu, a casa se tornou um lugar provisório, uma estação de trem com “indecifrável plataforma”. Os cômodos da casa se apresentavam sombrios – “antes bem-aventurança primavera” – agora abrigavam “passageiros sem linha do horizonte”.
A mãe foi substituída por uma nova moradora, a esposa do pai, totalmente diferente, e essa diferença se torna mais evidente na maneira de cortar o tomate.
A esposa do pai retalhava o tomate em fatias muito finas. A fatia era tão transparente que era possível entrever o arroz branco do outro lado. Quando afiava a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um dos enteados.
E o tomate passou a ter novos significados – era “a raiva vestida de vermelho empunhando uma faca”. (p.17)
“As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar”. (p.10)
Vermelho Amargo é um livro que fala de perdas, de partidas, de vazio, do “obscuro filtrado pelas frestas das janelas”.
Se a linguagem é intérprete de estados interiores, o estilo convulsivo e soluçante, presente em “Vermelho Amargo”, conota, na real acepção da palavra, a verdadeira dor da existência.
Depois da leitura do livro, pode-se dizer que o vermelho é amargo quando o mundo afetivo é brutalmente fatiado. O vermelho tem sabor de fel quando não existe amor.
Bartolomeu aliviou a dor (catarse) quando conseguiu passar para o papel branco a sua própria história. A epígrafe que abre o livro é o melhor atestado do que afirmamos:
Foi preciso deixar o vermelho sobre o papel branco para bem aliviar seu amargor.
Vermelho Amargo pode ser encontrado na Livraria Esquina das Letras.

NOTAS LITERÁRIAS
Pérolas pescadas da fala de Bartolomeu Campos de Queirós, no Programa Sem Censura (TV. Cultura, no dia 12 de junho de 2011):
Sobre o avô:
Meu avô escrevia nas paredes da casa. Quando morreu, sua casa era um bordado todo.

Sobre o livro Vermelho Amargo:
Vermelho Amargo é um retorno à minha infância. É a história de um tomate. É obscuro, não é uma leitura fácil.

Memória:
Não existe memória pura. Toda memória é fantasiosa.

Seu modo de escrever:
Escrevo à mão, só depois do texto pronto passo para o computador.

A respeito dos críticos literários:
A crítica é muito importante para tornar o escritor conhecido e reconhecido.

Sobre bibliotecas:
Minas Gerais tem 865 municípios, todos têm biblioteca pública.
Observação pessoal: O exemplo de Minas Gerais deve ser seguido por todos os estados do Brasil.

Literatura:
A literatura é o único espaço que o homem tem para conversar com a fantasia.

Experiência em Paris:
Quando residiu em Paris para fazer pós-graduação, Bartolomeu morava perto de um lago. No local havia muitos peixes e gaivotas. Observando o ir e vir das gaivotas, chegou a esta conclusão:
O peixe e o pássaro não deixam rastros por onde passam.


domingo, 19 de junho de 2011

Ruth Rocha: um arquipélago de histórias


Ruth Rocha: um arquipélago de histórias
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Eu disse o que eu acredito, eu disse sempre a verdade, eu acredito em justiça.
(Ruth Rocha)

Arquipélago é um conjunto mais ou menos numeroso de ilhas de vários tamanhos, agrupadas em determinados ponto do oceano, assim nos ensina o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda. Ruth Rocha, por sua vasta e diversificada produção literária para crianças e jovens, pode ser comparada a um arquipélago de histórias.
Esta prolífera escritora já escreveu cerca de 150 livros que transitam pelo reino da ficção infantil e juvenil, didáticos, paradidáticos, dicionário, almanaque. Traduziu muitos livros para crianças e conquistou os mais ambicionados prêmios na área infantil – Prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Academia Brasileira de Letras e três prêmios Jabutis.
Vamos conhecer alguns livros que habitam os arquipélagos de Ruth Rocha.
Marcelo, martelo, marmelo alcançou um milhão de exemplares, fato comparável ao livro O Menino Maluquinho de Ziraldo. O personagem principal dessa história é um menino que não está satisfeito com o nome atribuído a certos objetos e resolve dar nomes que apresentem uma motivação semântica, assim “colher” deveria se chamar” mexedor”; “leite”, “suco de vaca”; “casa”, “moradeira”. Neste livro, a escritora revela uma preocupação com a linguagem e o significado das palavras.
Boi, boiada, boiadeiro é composto por poemas inspirados nas telas do pintor naïf José Antônio da Silva. O cenário é o ambiente rural, com fazendas, plantação de algodão, arraial, fogueiras e louvações às festas juninas. A última estrofe do poema “Festa de São João”, rica em repetições (anáforas), vem marcada pela sonoridade e simplicidade de linguagem, características das cantigas populares:

Não há moça sem beleza,
Não há rico sem riqueza,
Em rio não há floresta.
Não há pasto sem capim,
Não há verso sem um fim,
Não há São João sem festa.

A série de livros “histórias de reis”, compreendendo: O reizinho mandão, O rei que não sabia de nada, O que os olhos não vêem e Sapo vira rei vira sapo denota uma escritora comprometida com o social. Esses livros vêm revestidos de muito humor. O quinto livro, Uma história de rabos presos, é posterior à série. Stephanie Noleto Siqueira, no ensaio “Reis! Quem são eles, afinal?” afirma que este último livro” ambienta-se na época contemporânea, mas o assunto central é o mesmo, a má gestão política.”
No rico universo literário de Ruth Rocha não faltam histórias ligadas ao feminismo. A mulher é apresentada sob um olhar diferente – é uma mulher com vez e voz. Os melhores exemplos dessa nova mulher podem ser encontrados nos livros Mulheres de coragem e Procurando firme.
A escritora também se voltou para os livros didáticos. Com a educadora e escritora Anna Flora, editou a coleção Escrever e criar... uma nova proposta: Redação, jogos, literatura. São livros voltados para as quatro séries do ensino fundamental que valorizam a leitura e a redação. O projeto teve ampla repercussão entre os professores e ganhou um dos mais importantes prêmios literários do Brasil – Jabuti 2002.
Monteiro Lobato apresentou a mitologia grega às crianças brasileiras nas décadas de 30 e 40 do século XX. Ruth Rocha se considera “filha de Lobato” e trouxe para meninos e meninas do século XXI a Odisséia e a Ilíada, atribuídas a Homero, epopéias antigas da literatura grega. São obras adaptadas. Esses livros receberam o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, foram publicados pela Editora Companhia das Letrinhas.
Ainda há muitos arquipélagos cheios de livros de Ruth Rocha, eles precisam ser descobertos. As editoras FTD e Salamandra estão reeditando os livros de Ruth Rocha, vamos procurá-los nas prateleiras das livrarias, nas estantes das bibliotecas.
As crianças irão gostar das histórias de Ruth Rocha. Para os pais e professores, recomendamos a leitura do livro “Vendo a vida com humor. Estudos sobre Ruth Rocha” Org. Vera Maria Tietzmann Silva. Cânone Editorial.

domingo, 12 de junho de 2011

leitura para os pequenos

LEITURA PARA OS PEQUENOS
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária - FNLIJ/PB)


Acho que o maior prêmio para o escritor é o leitor que está longe e com quem você pode dialogar.
(Ana Maria Machado. Teia de Autores).

Uma leitora do blog “nastrilhasdaliteratura”, brasileira que reside, atualmente, na Escócia, passou um e-mail solicitando uma relação de livros infantis de autores brasileiros para o filho de três anos. Ela disse que tenta estimular o filho o mais que pode para que se interesse pela língua portuguesa. A criança ainda não sabe ler, está na fase de ouvir histórias e a seleção de livros que fizemos vale para todas as mães que têm filhos nessa faixa etária.
Por solicitação da Revista Crescer, elaboramos uma lista de bons livros para os pequenos que precisam de ajuda dos pais na hora da leitura. Aqui estão alguns dos livros selecionados para a revista, acrescidos de breves comentários.
1. Palhaço, macaco, passarinho. Eucanaã Ferraz. Il. Jaguar. Companhia das Letrinhas, 2010. (Obs. Este livro ganhou o Prêmio FNLIJ – Melhor Livro para Criança – 2011).
O palhaço, o macaco e o passarinho têm muitas coisas em comum – palhaço e macaco gostam de fazer macaquices, gostam de provocar o riso nas crianças e nos adultos. O homem deseja ser passarinho para sair voando, leve, leve. O cartunista Jaguar captou bem o texto curtinho de Eucanaã e fez ilustrações bem engraçadas, macaco e o homem estão sempre rindo. E o passarinho? Este só aparece de costas. Não, ele nem aparece, o que vemos é um homem com asas de passarinho voando.
2. Curvo ou reto. Ana Maria Machado. Il. Luísa Baeta. Global
Este livro ajuda a criança a descobrir que as coisas que nos cercam são sempre curvas ou retas. As ilustrações destacadas dão a dimensão dos objetos. A linguagem rimada agrada a criança que gosta de brincar de fazer rimas, isso ocorre, muitas vezes, de forma bem espontânea.
3. Dez patinhos. Graça Lima (Texto e ilustração). Companhia das Letrinhas.
Graça Lima se utiliza do recurso poético da parlenda para escrever e ilustrar esta historinha. São dez patinhos que vão desaparecendo pouco a pouco, ficam nove, oito, sete... até que não fica mais nenhum. A história não termina com o fim dos patinhos, eles retornam e tudo começa de novo. As ilustrações trazem a marca da delicadeza do traço de Graça Lima. Na última página do livro, aparece uma brincadeira bem divertida.
4. Palavrinha ou Palavrão. Karin Sá Rego. Il.Daniel Kondo. Companhia das Letrinhas.
Este livro apresenta um jeito gostoso de ensinar o que é onomatopeia. Esta palavrinha que parece um palavrão surge desde o início da história, mas, só, nas últimas páginas, as crianças descobrem o que é onamotopeia. Ela esteve sempre presente em todo o decorrer da narrativa, de forma imperceptível. É um livro que tem poesia, rima e muita alegria.
5. O Sol e O Vento. Júlia Alba. Il. Taline Schubach. Callis.
Toda criança gosta de apostar, de provar que é capaz de vencer. Este livro proporciona essa oportunidade. Quem é o mais forte – o vento ou o sol? O homem vai ser o elemento do desafio.
6. João das Letras. Regina Rennó (Texto e ilustração). FTD.
Todos os habitantes daquela cidade tinham uma profissão – havia o sapateiro, a doceira, a costureira, mas ninguém sabia qual era a profissão de João. Só quando a história termina o leitor fica sabendo - o ofício de João era escrever e fazer sonhar os leitores de seus livros.
7. A Paixão de A e Z. Alonso Alvarez. Il. Marcelo Cips. Peirópolis.
Este não é um livro que ensina as letras do alfabeto de A a Z, é uma história que une duas letras: A e Z. A letra A está sempre presente nas palavras, mas o Z pouco aparece, isso não impede que surja uma paixão entre as duas letras. Elas estão unidas e bem juntinhas na palavra NatureZA.
Dizem que quem conta história aumenta um ponto. Apresentei sete livros e sete é conta de mentiroso. Procurem ler a revista Crescer do mês de junho, lá irão encontrar muitas outras dicas de leitura. O número sete vai ser somado a outros. Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato e acabou-se a fama de mentiroso.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Macaquinho e a lua- A lua dentro do coco


Macaquinho e a lua
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Muita poesia, e poesia de qualidade, é fundamental na escola!!!
(Ricardo da Cunha Lima)

Ricardo da Cunha Lima é professor e autor de poesia para crianças. No ensaio, “A poesia para crianças é fundamental na escola”, ele afirma que a poesia infantil brasileira é considerada uma das melhores do mundo e que as crianças são fascinadas por sua musicalidade, irreverência e criatividade.
Sérgio Capparelli e Eloar Guazzelli enveredaram pelo caminho da musicalidade, irreverência e criatividade na composição texto/ilustração de “A lua dentro do coco” (Projeto: 2010) que conquistou o prêmio de Melhor Livro de Poesia para Criança da FNLIJ (2011).
Capparelli nasceu em Minas Gerais, mas já andou por tantos lugares que pode ser considerado cidadão do mundo. É formado em Jornalismo (UFRGS), fez doutorado em Ciências da Comunicação ( Université de Paris II), morou na China, na Itália. Na Itália, ele morou em uma cidadezinha chamada San Vito al Tagliamento e foi nesse lugar meio mágico que observou, certa noite, uma lua muito bonita no alto de uma montanha, decidiu escrever em versos uma antiga história que ele ouvira quando morava na China.
Guazzelli, o ilustrador, percorreu caminhos mais brasileiros, nasceu em Vacaria (RS), atualmente mora e trabalha em São Paulo. É ilustrador, quadrinista, diretor de arte e animação e wap designer. Como seu companheiro Capparelli, já ganhou muitos prêmios e ilustrou diversos livros no Brasil e no exterior. Há um detalhe – gosta muito de desenhar a lua.
“A lua dentro do coco” é uma poesia narrativa que tem como protagonista um macaquinho. A história se inicia de modo trágico – a mãe do macaquinho morre com um tiro dado por algum homem malvado. Vejam como o poeta faz a descrição da morte:
“... ele OUviu
TIROS e logo um assoVIO:

Sua mãe caiu sem vida,
Flor rubra da despedida”
Não é possível representar a disposição das palavras e dos versos como está no livro, mas vou tentar explicar.
Algumas letras aparecem em destaque como se fossem maiúsculas, isso para conferir maior dramaticidade à morte da mãe do macaquinho e a palavra rubra está grafada na cor vermelha.
A mãe morre diante de um espelho d´água de um rio. O ilustrador desenhou um rio, a mãe caindo dentro do rio e pingos de sangue colore a página em branco.
Mas o tempo que tudo cura, vai se encarregar de curar a dor do macaquinho. Ele encontra amigos e logo começa a festa na floresta, contam lorotas, dão pulos e cambalhotas.
Um dia...
“Vejam, é uma lua cheia
Que pelo céu passeia

Por cima da sumaúma
Entre fiapos de bruma.”

Para ilustrar esses versos, Guazelli coloca o macaquinho só, sentado, olhando a lua que passeia pelo céu. O vocábulo “cheia” aparece em negrito e a lua vem acompanhada de fiapos.
E surge o desejo de pegar a lua, trazer a lua para a terra. Macaquinho chama os companheiros e juntos formam uma grande pirâmide para alcançar a lua. Aproximam-se da lua que cada vez fica maior, enorme.
“Era pequena e fica GRANDE,
Enorme essa pirâmide!”

E a pirâmide desmorona, os macaquinhos tombam, mas nenhum fica ferido, foi só um susto.
“A lua cheia se despedaça”
(...)
Caiu do céu? Tombou no poço?
O que será que vai acontecer? No céu não brilha mais a lua cheia. Onde está a noite enluarada? No fundo do poço?
Se o macaquinho foi capaz de superar a dor causada pela morte da mãe, encontrará solução para salvar a lua. Neste momento, aparece um COCO. O resto eu não conto não, fica por conta do leitor que irá procurar este livro nas livrarias, nas bibliotecas e ficará sabendo como termina a lenda/poema/história.