quarta-feira, 3 de junho de 2015

“Carmen: a grande Pequena Notável” – prêmio duplo
(Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

            Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim
            Oh, meu bem, não faça assim comigo, não
            Você tem, você tem que me dar seu coração...
            (Joubert de Carvalho)

            A pesquisa biográfica, com o objetivo de publicar livros para o público infantojuvenil, tem proporcionado informações sobre artistas e escritores desconhecidos do público mais jovem. Na Paraíba, a editora Patmos tem procurado trazer a história e a vida dos grandes vultos paraibanos através dos quadrinhos. No Rio de Janeiro, as Edições de Janeiro persegue a linha das biografias, publicando livros sobre pessoas que marcaram a cena artística e literária de uma época.

            É dentro desse novo matiz literário-biográfico que surgiu o bonito livro – “Carmen: a grande Pequena Notável” (Edições de Janeiro, 2014), das escritoras Heloísa Seixas e Júlia Romeu e que contou com bonitas ilustrações de Graça Lima. Este livro recebeu em 2015 dois prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – Melhor Livro Informativo e Melhor Projeto Editorial.

            O projeto gráfico e a capa são da designer e ilustradora Raquel Matsushita. Ela ilustrou o livro “Alfabeto Escalafobético”, de Cláudio Fragata, vencedor do Jabuti 2014 na categoria Didático/Paradidático. Estamos, portanto, diante de um time experiente de escritoras e ilustradoras. 

            A biografia de Carmen Miranda para o público infantojuvenil veio acrescida de informações sobre a Era do Rádio, os primeiros discos lançados no Brasil e o uso do salto plataforma, uma criação da cantora para aumentar a sua altura, ela tinha só 1,52.  

            A história de Carmen Miranda começa com a vinda da família para o Brasil. O ano era 1909, início do século XX. Os pais eram portugueses e saíram de sua terra para tentar uma nova vida.  A infância, adolescência e juventude foi toda passada no Rio de Janeiro. Dos seis aos 16 anos, Carmen morou no boêmio bairro da Lapa.  

O nome completo de Carmen era Maria do Carmo Miranda Cunha, o pai era barbeiro e a mãe lavadeira.  Aqui, no Brasil, nasceram outros filhos do casal – no final, eram quatro meninas e dois meninos. Para ajudar a família, a mãe, além de lavar roupas, começou a fornecer refeições para as pessoas que trabalhavam nas redondezas. E a menina Maria do Carmo crescia, ajudava a mãe nos afazeres domésticos e cantava nos corais da escola. Era alegre e estava sempre cantarolando.

   Aos 14 anos, teve que deixar os estudos para trabalhar.  O primeiro emprego foi em um ateliê de costura, depois trabalhou em uma fábrica de chapéus e juntou duas coisas que gostava de fazer – costurar e cantar.

A voz agradável da mocinha chamou a atenção de um dos fregueses da pensão da mãe de Carmen, ele organizava shows no Rio de Janeiro, era a época dos cassinos e do apogeu do rádio. O pensionista fez o convite para a moça se apresentar a um empresário da noite. O convite foi aceito e Carmen (nome artístico adotado por Maria do Carmo) começou a despontar no cenário musical do Rio de Janeiro.

Um dos episódios mais interessantes deste livro é sobre a origem da música “Taí”, de Joubert de Carvalho, cantada por Carmen Miranda.   O compositor entrou numa loja e ouviu um disco com a voz de Carmen, ficou impressionado, parecia que ela estava dentro da vitrola. Nesse momento, apareceu uma mulher na porta da loja, era a própria Carmen e o vendedor apontou para ela dizendo: “Taí a nova cantora!”. Joubert saiu da loja com aquela palavrinha na cabeça – “Taí” e compôs uma música para o Carnaval que fez o maior sucesso.

A música “O que é que a baiana tem” surgiu em um filme brasileiro de 1938, “Banana da terra”. Nesse filme, Carmen canta a música criada por Dorival Caymmi e se valeu da indumentária de baiana que iria usar em muitos outros musicais no Brasil e nos Estados Unidos.

 Com o tempo, ela se tornou não só a rainha do rádio, mas uma das cantoras mais bem pagas nos cassinos cariocas. O Cassino da Urca era muito luxuoso e serviu de palco para as apresentações da “pequena notável”. Seu modo de vestir e de cantar atraiu a atenção dos empresários americanos e veio a proposta para cantar nos Estados Unidos, na Broadway, e participar de filmes. O desejo de brilhar lá fora a atraiu e lá se foi a “pequena” para as terras de Tio Sam, difundindo a alegria da música brasileira com graça e brejeirice.      
 Para escrever esse livro, as autoras e as ilustradoras fizeram inúmeras pesquisas: leram o livro de Ruy Castro – “Carmen – Uma Biografia”, examinaram revistas, jornais e as ilustrações que apareciam nas revistas da época áurea dos cassinos e dos programas de rádio no Rio de Janeiro, consultaram revistas de moda e a indumentária dos anos 1920 e 1930 e o resultado foi um livro de leitura agradável, um projeto editorial primoroso e ilustrações originais que transportam o leitor para os anos 20 e 30 do século XX.  

            NOTAS LITERÁRIAS

Segue-se a relação dos livros premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil com a categoria de cada livro, título do livro, nome dos autores e da editora.  Tudo isso para facilitar a aquisição desses livros. Alguns dos livros premiados já foram comentados em nossa coluna e relembramos “Orie”, “Os três ratos de Chantilly”, “Como uma carta de amor”. A partir desta semana, sempre que possível, iremos apresentar alguns desses livros premiados e lembramos que livros que recebem prêmio da FNLIJ concorrem e, muitas vezes, conseguem o Prêmio Jabuti.

PRÊMIO FNLIJ 2015 – PRODUÇÃO 2014

Criança: Orie. Lúcia Hiratsuka. Ed. Pequena Zahar
Jovem Hors-Concours: Como uma carta de amor. Marina Colasanti. Global.
Jovem: Desequilibristas. Manu Maltez. Peirópolis
Informativo: Carmen: a Grande Pequena Notável. Heloísa Seixas e Julia Romeu. Il. Graça Lima. Edições de Janeiro.
Poesia: O bicho alfabeto. Paulo Leminski. Il. Ziraldo. Companhia das Letrinhas.
Livro Brinquedo. O livro com um buraco. Hervé Tuilet. Cosac Naify.
Teatro: Mania de explicação: peça em seis atos, um prólogo e um epílogo. Adriana Falcão e Luiz Estelita Lins. Salamandra.
Teórico: Ofício da palavra. Org. José Eduardo Gonçalves. Autêntica
Reconto: Minimaginário de Andersen. Apresentação de Katia Canton. Il. Salmo Dansa. Companhia das Letrinhas.
Literatura em Língua Portuguesa: A menina do mar. Sophia de Melo Andresen. Cosac Naify
Trad/Adapt/Criança: 4 Contos. E.E. Cummings. Il. Guazelli. Cosac Naify.
Trad/Adapt/Informativo: Todo dia é dia de Malala. Melhoramentos.
Trad/Adapt/Jovem: Stefano. Maria Teresa Andruetto. Global
Trad/Adapt/Reconto: Por que o Mar é salgado: contos populares da Noruega. Asbjomsen&Moe. Il. Cárcamo. Berlendis Vertecchia.
Melhor Ilustração: Os três ratos de Chantilly. Alexandre Camanho. Pulo do Gato.

Melhor Projeto Editorial: Carmen: a Grande Pequena Notável. Heloísa Seixas e Júlia Romeu. Il. Graça Lima. Edições de Janeiro. 



sábado, 9 de maio de 2015






























A prosa poética de Roseana Murray e Marina Colasanti
( Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            Matilde, nome de planta, pedra ou vinho,
            de que nasce da terra e que dura,
            palavra em cujo crescimento amanhece,
            em cujo estio estala a luz dos limões.
            (Pablo Neruda. Poema I. Vinte poemas de amor e uma canção desesperada).

            Dois livros recebidos no segundo semestre de 2014 me chamaram a atenção pela poeticidade da linguagem – “Exercícios de amor” (Ed. Lê), de Roseana Murray, e “Como uma carta de amor” (Ed. Global), de Marina Colasanti.
            São livros de contos destinados aos jovens e abordam as sutilezas do amor. Nos textos das duas escritoras, o amor aparece como a estrela guia que norteia caminhos.  
            “Exercícios de amor” reúne quinze contos e  trazem o título do protagonista – Maria, Pedro, Raquel... assim ocorre com todos os contos,  sempre com o título da personagem principal.   
             “Maria” é a história de amor entre uma adolescente brasileira e um jovem chileno. Tudo começa quando Maria recebe uma carta com selo do Chile, esse fato faz a personagem reviver o passado e “a doçura do nome esquecido no desvão da memória”.(p.9). Como um filme em flashback, ela recorda o primeiro encontro com Julian e o grande amor que vivenciaram quando jovens.  Julian voltou para o Chile e prometeu retornar o mais breve possível. Esse retorno foi adiado por muitos e muitos anos e se deu através desta carta.      
            Maria permanece com a carta nas mãos, segura-a carinhosamente como um filho muito querido, depois rasga com cuidado o envelope, tira a folha de papel e reconhece a caligrafia de Julian (não mudou), a letra continua miudinha como pequenas mariposas.
            Em poucas linhas, Julian relata o que foi a sua vida depois que desapareceu da vida de Maria - uma  sucessão de desastres – um casamento desfeito, depressão, dissabores.  Quer saber o que aconteceu com Maria.  Sua vida também não foi muito diferente – desencontros amorosos, desilusões, mas ainda guarda com muito zelo um poema de Pablo Neruda do livro “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”, presente de Julian em momento de muito enlevo. E  Maria resolveu responder a carta de Julian com esse apelo:
“Julian, venha, temos muitos anos para passar a limpo. A minha vida também foi uma sucessão de desastres. Ou uma espera. Mas os poemas de Neruda que você me ensinou a amar, sempre me acompanharam”. (p. 12)
Os outros contos são marcados por encontros, desencontros e reencontros, como este que foi apresentado, mas não pense o leitor que a repetição se torna enfadonha, cada um tem a sua singularidade.

“Como uma carta de amor”, de Marina Colasanti, reúne treze minicontos. O primeiro traz o título do livro e intertextualiza poemas narrativos do Romanceiro Português, textos recolhidos por Almeida Garrett.
O nome da protagonista não é revelado. Todos os dias, ela cumpre uma sina – vai até ao penhasco que fica perto de sua casa,  olha o horizonte, examina se há algum navio se dirigindo para a costa e espera a volta do ser amado.
A princípio, quando o homem partiu, prometeu voltar logo, e a moça  começou a contar o tempo marcando com um mínimo detalhe o tronco de uma castanheira. Tomava a faca, feria a casca e isso se tornou um ritual. Foram muitos cortes, os anos se passaram e o homem não veio, resolveu usar outra estratégia – quando ia ao penhasco, como costumava fazer todos os dias,  retirava um fio de seus cabelos negros e jogava ao mar.  Foram tantos fios que um dia eles se juntaram e formaram um longo fio  a partir da praia do penhasco até a linha do horizonte.    
Um dia a moça deixou cair o xale, descalçou as sandálias e de braços abertos, queixo erguido, apoiou o pé na linha fina e começou a percorrer o caminho que o levaria onde ela pensava que se encontrava o amado. Era lá que queria estar.
Várias passagens desse conto demonstram as afinidades com  textos do romanceiro português – há uma castanheira no quintal da casa, uma praia com penhascos, a mulher conduz um xale e a espera pelo homem que partiu em uma embarcação não se sabe para onde.  
  No conto de Marina Colasanti tudo está nebuloso, o homem viajou,  saiu pelo mar afora, a mulher  aguarda a sua volta. De maneira fantasiosa, pretende alcançá-lo por meio de um caminho formado com os fios de seus cabelos.
14 contos de Roseana Murray estão ainda guardados no livro e 13 de Marina aguardam a visita dos leitores. Eles estão à sua espera.

NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

LANÇAMENTO DE LIVRO

Foi lançado no dia 28 de abril, na livraria da Energisa Cultural, mais um livro da coletânea “Primeira Leitura” – “Pedro Américo em quadrinhos”, do escritor e historiador Bruno Gaudêncio. O livro recebeu ilustrações de Flaw Mendes. A empresa Energisa dá apoio cultural ao projeto “Primeira Leitura” que objetiva valorizar escritores, artistas plásticos, músicos, teatrólogos e aqueles que deixaram marcas na história da Paraíba. Os livros são publicados pela editora Patmos, de Carlos Roberto de Oliveira.  Na ocasião do lançamento do livro “Pedro Américo em quadrinhos”,  o superintendente  da Energisa na Paraíba, Dr. André Theobaldo,  lançou  o Concurso de Redação para alunos da 9ª série da rede pública do Estado da Paraíba. O artista plástico Dyógenes Chaves deu explicações sobre a realização desse concurso. Os livros que integram a coleção “Primeira Leitura” serão lidos por alunos e professores. As redações deverão ser feitas em letra manuscrita  a partir da leitura desses livros.  

  
LIVROS, LEITURA

“Uma escola, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A Educação é a única solução.”
   ( Malala Yousafzai. Paquistanesa. Ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, 2014)

VIAGEM ATRAVÉS DA LEITURA

“A minha viagem é aquela de uma volta ao dia em 80  mundos e não a volta ao mundo em 80 dias, como no filme. É uma viagem através dos livros, da leitura prazerosa. Essa é que é a viagem dos sonhos!”
Uma explicação de Sérgio – ele retomou o título do livro de Júlio Cortázar – “ A volta ao dia  em 80  mundos” para externar sua paixão pelos livros e pela leitura. Valeu. 

( Sérgio de Castro Pinto. Poeta, Escritor e Professor Paraibano.  Jornal “A União”. Confidências.  Coluna Goretti Zenaide)

domingo, 26 de abril de 2015

LIVROS&LITERATURA
(Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)


“MORADA DAS LEMBRANÇAS”: tristezas compartilhadas  

Oh! dias absurdamente antigos.  
Oh! rosas adubadas pelo sangue
dos ausentes.
Oh! fértil silêncio embalando
os campos ocultos da memória.
(Carlos Alberto Jales. Pelos campos ocultos da memória).  


Daniella Bauer já escreveu e publicou inúmeros contos infantis.  É psicóloga e desenvolve trabalhos terapêuticos com crianças e mulheres em hospitais de São Paulo. Na literatura, estreou com o romance juvenil “Moradas das lembranças” (Ed. Biruta, 2014).  
A história desse livro foi inspirada nas mulheres que deixaram seus países de origem para tentar uma nova vida munidas de esperanças nos primeiros anos do século XX.  Chegaram ao Brasil vindas de navios e se fixaram na região sul e sudeste, havia entre elas descendentes de judeus.  
A família da protagonista desta história, uma menina de sete anos, veio acompanhada da mãe, Mahena, e de um irmão de apenas um ano.  O pai fora assassinado durante a Revolução Russa de 1917, período de perseguição aos judeus na Rússia.  Viúva e com dois filhos pequenos, a solução encontrada por Mahena foi despedir-se de sua terra natal e procurar a mãe que estava morando no Brasil.
 É sob o ponto de vista de uma menina de sete anos que toda história é contada.  O seu nome não importa, é simplesmente Maria.
A viagem de navio na 3ª classe foi enfadonha e demorada. Viajaram na “classe dos enjeitados, fugitivos, desamparados, pobres”.  A chegada à casa da avó no Rio de Janeiro também não foi nada agradável – a avó era uma mulher “dura, cheia de exigências e urgências,” uma mulher sem afagos e pouca atenção deu à filha e aos netos.
E o que trouxeram na bagagem?  Poucas coisas – algumas mudas de roupa, uma camisa e o casaco do pai, roupinhas pequenas do irmão, saia e poncho da menina, fotos familiares, documentos pessoais e uma joia da família que a mãe conservava escondida em seu sutiã.
A casa que a avó morava com seu “marido” era grande, mas foram acomodados em um quarto no fundo do quintal. Não eram desejados nem esperados.  
No Rio de Janeiro, a menina foi estudar em uma escola que ficava a quinze minutos da casa da avó, e encontrou na professora que dominava o idioma francês,  uma pessoa muito carinhosa. Chamava-se Rosa e seu temperamento combinava com o nome, era suave como as pétalas de uma rosa.
É nessa casa desprovida de afetos que Mahena e os dois filhos passam a viver. Sentiam as dores da separação da terra natal, a indiferença da avó e  uma vida diferente em um país estranho.
 A morte da mãe, vítima de tuberculose, foi outro golpe para quem já vinha sentindo a falta do pai. Esse fato agravou a situação naquela casa sem alma. Na ausência da mãe, ficou encarregada da execução dos serviços domésticos.  Não tinha mais com quem dividir as tarefas diárias, estava só e desamparada, tinha apenas um teto para abrigar-se.   
No meio de tanto sofrimento, há passagens bem poéticas neste livro, como esta que fala sobre a morte.  
“Há um pouco de morrer em cada perda. Cada morte leva consigo um pequeno pedaço nosso e assim seguimos, às vezes esburacados, às vezes mais fortes. Será que, após cada morte, nasce algo que preencha momentaneamente nossos corações?” (p.143)
Os dias e os anos se passaram, o irmão cresceu e foi estudar no Colégio Militar, graças à interferência do coronel, “o marido” da avó, e Benji, este é o nome do irmão que, antes era muito ligado à irmã, vai pouco a pouco se afastando dos laços afetivos que os unia.
O rito de passagem de menina para moça foi doloroso, sem amigos, órfã de pai e mãe, sem a companhia do irmão e  a presença de uma avó que não demonstrava nenhuma simpatia pela neta. A mocinha entende que a vida é luta e aprendeu desde muito cedo que tem que lutar.
 Um livro de amarguras, de dores, de perdas, de lembranças amargas - lembranças do pai que foi morto pela polícia russa nos idos de 1917, da mãe que viajou para o Brasil depois que ficou viúva e aqui morreu de tuberculose, de uma avó insensível.    
A ilustração, com retalhos de panos coloridos, dá a impressão de uma história tecida como uma colcha de retalhos de várias cores.   Embora o colorido da colcha seja bonito representa um verdadeiro contraste com a vida da narradora.  
                             E o resto da história?  Está guardada no livro.

            ( Publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 11 a 18 de abril de 2015. Caderno B-2). 
Nota: O jornal "Contraponto" voltou a circular. Os textos aqui publicados podem ser também encontrados  na coluna "Livros&Literatura" - Contraponto. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Histórias brasileiras de cães

Histórias brasileiras de cães
            ( Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)


            O fato de o cão ser fiel ao homem não quer dizer que ele aprove as ações do dono.
            ( Carlos Drummond de Andrade. In: Histórias brasileiras de cães)


            Rogério Ramos, neto de Graciliano Ramos, sempre gostou de animais e organizou a antologia “Histórias brasileiras de cães” (Ed. Positivo, 2014). O livro recebeu bonitas e delicadas ilustrações de Lelis.

            Neste livro, encontram-se dezoito textos que compreendem   fragmentos de romances – “”Quincas Borba, o cão”, de Machado de Assis,  “Baleia”, de Graciliano Ramos,  contos “Firififi”, de Dalton Trevisan e a crônica saborosa de Rubem Braga – “Lembrança de Zig”.
   
O organizador da antologia afirma que é muito comum a publicação de bestiários nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil são encontrados apenas “esporádicas coletâneas genéricas de tema animal”.

A leitura desses textos demonstra que alguns cães, retratados de forma real ou ficcional, se tornaram verdadeiros personagens irresistíveis, como aconteceu com o cão Quincas Borba, de Machado de Assis, e Baleia, de Graciliano Ramos.  O retrato físico e psicológico desses animais é tão real que integram  a galeria de grandes personagens da literatura brasileira, ao lado de Capitu ( Machado de Assis) e Fabiano  (Graciliano Ramos).
 
Rogério Ramos selecionou o capítulo XXVII do romance “Quincas Borba”. Neste capítulo, Rubião trata o cachorro Quincas Borba ( nome do antigo dono) geralmente com rispidez, foi uma herança deixada pelo antigo dono.   O narrador analisa os sentimentos do cachorro nas situações de mau humor de Rubião, muitas vezes o cão é escorraçado com um tabefe e reconhece a sua insignificância.

Graciliano Ramos era considerado um homem amargo, taciturno, mas no romance “Vidas Secas”, no capítulo dedicado à Baleia,  apresenta-nos a cachorrinha como uma “criaturinha”  dotada de sentimentos humanos. Foi esse capítulo selecionado pelo organizador da antologia.

Baleia não compreende que está doente e deve morrer, vê apenas as pessoas que ama e não desconfia a proximidade de seu fim.  A descrição da doença de Baleia, os preparativos para sua execução, o temor dos filhos de Fabiano,  tudo é detalhado minuciosamente com grande dose de poeticidade.  Neste capítulo, vamos encontrar um narrador muito humano, excessivamente humano. 

 Dalton Trevisan presenteia os leitores com a história de “Firififi”, uma cadelinha “pequinesa” que acompanha a vida de uma  menina e faz mil estripulias na casa. A menina cresce, torna-se uma mocinha e Firififi está velhinha, agora tem onze anos e não deve durar muito. Os interesses da dona são outros – namorado, faculdade  e Firififi curte sua velhice esquecida em um canto da sala, aguardando a indesejada das gentes.

 Rubem Braga, o inesquecível cronista, comparece com a crônica “Lembrança de Zig”. Zig não era um cachorrinho pequeno, era um “cachorrão” e detestava pessoas com farda. O carteiro foi obrigado a deixar a correspondência na casa da vizinha, não podia vê-lo que corria para abocanhá-lo. Tinha um costume esquisito, gostava de frequentar a igreja, isso porque aos domingos a dona da casa ( a mãe do cronista)  ia à missa,  e bastava um pequeno descuido, portão aberto ou mal fechado,  e Zig aparecia na igreja inspirando medo às velhinhas com seu tamanho descomunal.
 
Ouvi, certa vez, a emocionante história de Tina, uma cadela da raça boxer que morreu com nove anos, idade considerada velha para essa raça.  Tina vivia presa no quintal. A dona dava comida e água todos os dias. Latia, com satisfação, quando via a menina,  abanava o rabo demonstrando alegria mas nunca entrou  dentro de casa, desconhecia os cômodos. Era uma casa grande com primeiro andar. Na parte térrea, ficavam as salas, cozinha, banheiro social; no pavimento superior, os quartos.

Um dia Tina adoeceu, a menina, agora uma mocinha de 16 anos, levou-a ao veterinário, estava com um caroço na perna e veio o diagnóstico: era um câncer. Tina foi operada, recuperou-se por uns tempos, mas o veterinário avisou – o câncer poderia voltar. Depois de seis meses, Tina começou a emagrecer, já não queria comer, beber água não podia, a dona voltou ao veterinário e veio a triste noticia – Tina estava com metástase, teria poucos dias de vida. E veio a pergunta: “Quer sacrificar a cadela?” “Não. Prefiro ficar com ela em casa até que a morte venha buscá-la.”

Certo dia, a moça ouviu passos arrastados na escada. Era manhã cedo e estava ainda deitada na cama. Teve uma surpresa quando viu Tina aos pés da sua cama, duas grossas lágrimas saíram dos seus olhos, deitou-se e ali, aos pés  de sua dona, deu o derradeiro suspiro.

Essas histórias de cães vêm mescladas com realidade e ficção. Quincas Borba, Baleia e Firififi não existiram, mas Zig e Tina participaram da vida do cronista Rubem Braga  e da vida da pessoense Talita.

NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

NOTÍCIAS DA FNLIJ

A escritora Marina Colasanti e a ilustradora Ciça Fittipaldi são candidatas ao Prêmio Hans Christian Andersen – 2016 . A primeira na categoria de escritora, a segunda como ilustradora. Lembramos que o Brasil já conquistou três prêmios Andersen ( Nobel da Literatura Infantil) com as escritoras – Lygia Bojunga Nunes (1982), Ana Maria Machado (2000). Em 2014,  Roger Mello foi o vencedor na categoria de ilustrador. Isso demonstra a grande importância da literatura infantil brasileira.  Dentro de trinta  anos,  três prêmios conquistados.  E registramos o desabafo de Ana Maria Machado – reclamam que os escritores brasileiros nunca conquistaram o Nobel de Literatura e se esquecem de que o  Andersen já foi atribuído a três brasileiros. É a velha história – literatura infantil é literatura para pequenos. Falso engano – a literatura infantil deve e tem que ser melhor do que a literatura escrita para adultos. É a literatura que forma leitores. Vejam que missão importante – formar leitores. Valorizemos a boa literatura feita para crianças e jovens.    


( Publicado no jornal “Contraponto”, Paraíba, 06 de março de 2015, B-2)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Tá pronto seu lobo? E outros poemas












Tá pronto seu lobo? E outras brincadeiras infantis 
( Neide Medeiros Santos - FNLIJ/PB) 


                        Se a poesia bater à porta,
                        abra como a um amigo.
                        Poesia é luz,
                        alimento e abrigo.
            (Eloí Bocheco. Abrindo a porta. In: Tá pronto seu lobo? E outros poemas).

            Quando pensamos no binômio criança/música, lembramo-nos das cantigas de roda e das brincadeiras infantis de rua. Qual foi o menino ou menina que não brincou de pega, chicote queimado, anel, Tá pronto seu lobo? E as cantigas de roda: Terezinha de Jesus, A canoa virou, Sapo cururu, Roda pião? Elas estão presentes na memória de quem brincou nas calçadas das pequenas cidades nas noites de lua cheia.  

 Se hoje não encontramos crianças brincando de roda nas calçadas, principalmente nas grandes cidades, nas escolas essas brincadeiras ainda têm um lugar reservado.  CDs e DVDs com cantigas de roda são publicados todos os anos pelas editoras brasileiras e os escritores revisitam essas cantigas através da poesia ou de textos memorialísticos. 

            Eloi Bocheco, no livro “Tá pronto seu lobo? E outros poemas” (Ed. Formato, 2014), retoma algumas dessas cantigas e brincadeiras infantis de forma criativa e prazerosa. Os poemas do livro podem ser agrupados em: cantigas de roda, brincadeiras infantis, parlendas e poemas independentes. O trabalho de recriação está presente em todas as modalidades.

            Em nota que aparece na última página do livro, a autora explica que “Os primeiros acordes de poesia vieram da boca dos contadores e declamadores” de sua infância e que foi uma grande “ouvidora poética” dos cantares e do cancioneiro oral.

            O livro “Tá pronto seu lobo? E outros poemas” nos levou ao encontro de “Cancioneiro da Paraíba”, coletânea organizada por Maria de Fátima Batista e Idelette Fonseca dos Santos que reúne um vasto repertório de cantigas de ninar, cantigas de roda, parlendas e outras cantigas que são encontradas em diferentes regiões da Paraíba, abrangendo o litoral, brejo, cariri e sertão.

            Chamamos a atenção do leitor para este aspecto: as organizadoras do “Cancioneiro da Paraíba”, publicado em 1993 pela editora Grafset, foram fiéis as transcrições dos textos coletados. Oitenta e seis informantes, de origem paraibana ou aqui radicados, apresentaram cantigas, parlendas, orações, tudo fruto da vivência com a cultura popular paraibana. Eloí Bocheco apelou para a memória e imaginação, deu “hora e vez” à sua veia poética. De forma lúdica, deixou transparecer o eu poético de maneira livre e descompromissada.

            Um confronto entre a cantiga “Alecrim” que aparece no “Cancioneiro da Paraíba” e no livro “Tá pronto seu lobo? E outros poemas” denota, por parte das pesquisadoras, a fidelidade ao texto cantado, enquanto que em Eloí aflora a poeticidade e liberdade poética.

            Alecrim,
            Alecrim dourado
            Que nasceu no campo
            Sem ser semeado.

            Ai! Meu amor
            Quem me disse assim
            Que a flor do campo
            É o alecrim.

(Alecrim do Campo. In: Cancioneiro da Paraíba. Idelette Fonseca dos Santos e Maria de Fátima B. de M. Batista (Organizadoras). João Pessoa: Grafset, 1993, p. 140 Cantado por Miriam M. Machado, Queimadas, PB).

            O poema de Eloí traz o título – “Alecrim” e apresenta três estrofes. Iremos fazer a transcrição apenas da 1ª estrofe e já podemos sentir as diferenças:
   
            Alecrim,
            alecrim dourado
            que nasceu do campo
            sem ser semeado.
Diga, alecrim,
se você é encantado
se veio do céu,
ou de outro lado.
(Alecrim. Eloí Bocheco. In: Tá pronto seu lobo? E outros poemas. Ed. Formato, 2014, p.31).

Os quatro primeiros versos são iguais nas duas cantigas, a partir do quinto verso observamos as diferenças, mas nas duas canções, a planta é tratada de forma personificada. Na segunda versão, o apelo para que o alecrim se manifeste - “se é encantado, se veio do céu ou de outro lado” - se verifica através do modo imperativo, um imperativo que pede uma resposta, porém sem as imposições que caracterizam esse modo verbal.
  
Os dois livros apresentam maneiras distintas de registrar as cantigas de roda. O “Cancioneiro da Paraíba” é um trabalho investigativo, uma pesquisa; o outro é um livro de poemas e não se prende ao registro fiel do que foi cantado, o poeta é livre para modificar, ampliar, externar seu eu poético como lhe apraz.

Lembramos que o livro “Cancioneiro Paraibano” foi ilustrado com bico de pena pelo artista plástico Domingos Sávio, natural da Paraíba, e traz o registro musical das cantigas, resultado também de pesquisas, de Maria Alix Nóbrega Ferreira de Melo. “Tá pronto seu lobo? E outros poemas” recebeu ilustrações de Suryara Bernardi que tem formação em Design Gráfico. As ilustrações são grandes, graciosas e vêm marcadas por um toque de charme aliado ao humor.
   
“Cancioneiro da Paraíba” nasceu em terras paraibanas, “Tá pronto seu lobo” veio de terras mais distantes – Santa Catarina. De um lado, a pesquisa, a coleta precisa dos dados, os registros orais, do outro, a junção do real com o imaginário, é a poesia abrindo a porta e pedindo alimento e abrigo.

LEITURA RECOMENDADA
            Os ratos amestrados fazem acrobacias ao amanhecer. Políbio Alves. João Pessoa: FUNESC, 2014.
            Ganhador do Prêmio Augusto dos Anjos – 2013, o livro de contos de Políbio Alves “Os ratos amestrados fazem acrobacias ao amanhecer”  apresenta sete contos que se caracterizam por uma linguagem entrecortada, “estilo soluçante” à moda de Samuel Rawett, isto é, um estilo marcado por pausas. Na literatura brasileira, além de Rawett, Graciliano Ramos também foi adepto desse estilo. E lembramos o conto “Gringuinho”, de Rawett, uma verdadeira aula de concisão. Políbio  aprimora-o. Há frases que exigem apenas uma palavra ou uma breve expressão,  como no conto “Meteorango dia”:
            Nada. E tudo. Coisas do cotidiano. Desaforadas. (p.9)
            Cabe ao leitor polibiano completar o que o contista apenas sugere.

( Texto publicado no jornal "Contraponto". Paraíba, 30/01 a 05 de fevereiro de 2015) 






Marcos Bagno: um escritor múltiplo

            Marcos Bagno: um escritor múltiplo

            Escrever sempre foi para mim um jeito de me conhecer mais a fundo, de refletir melhor sobre o que eu penso, quero e sei.
            (Marcos Bagno. In Murmúrio).  


             Marcos Bagno é escritor, professor, dicionarista e tradutor mineiro. Gosta de viajar e já morou em diversas cidades do Brasil. Nos anos 1990, morava em Recife no Poço da Panela, era aluno do Mestrado em Letras na UFPE e escrevia livros para o público infantil.   O gosto pela literatura infantil perdura até hoje, mesmo dedicando-se ultimamente ao magistério na UNB.

            O autor costuma dizer que só escreve porque lê. E quando as pessoas perguntam o que devem fazer para se tornar escritores, dá sempre essa resposta: “Leiam muito primeiro, porque quem não lê não escreve”. Fica a lição para aqueles que têm a pretensão de ser escritor.  

            Além de escrever livros voltados para a linguística, dicionários, temas ligados à leitura, Marcos Bagno sempre volta aos infantis. Escrever para crianças e jovens é uma das paixões desse escritor múltiplo. 

            Nos anos 1995/1996, encantei-me com dois livros escritos por Bagno – “O papel roxo da maçã” e “Um céu azul para Clementina”. O título deste primeiro livro foi inspirado em uma fala de Bartolomeu Campos de Queirós no Encontro do Prêmio Nestlé de Literatura (São Paulo - 1988). Falando sobre sua experiência com a literatura, Bartolomeu confessou que a sua primeira leitura fora o papel roxo da maçã que seu pai trazia das longas viagens (o pai de Bartolomeu era caminhoneiro). “Um céu azul para Clementina” é um livro de temática ecológica. O texto gera uma discussão em torno de problemas ligados à poluição.

            Os anos se passaram e Bagno continuou escrevendo para crianças. Pela editora Positivo (Curitiba), tem publicado vários livros para o público infantil. “Marcéu” (Positivo, 2013) recebeu prêmios nacionais, entre eles, o Prêmio Brasília de Literatura (categoria juvenil), o Prêmio Glória Pondé da Biblioteca Nacional e o selo Altamente Recomendável da FNLIJ (2013). Este livro é uma homenagem a seu irmão Marcelo, desaparecido nas águas de um rio após forte chuva. O fato é real e Bagno transformou o drama vivenciado pela família em ficção. Na internet, encontramos um vídeo em que o escritor lê trechos desse livro. É só conferir.
   
            Mais recentemente recebi o livro “Murmúrio” (Ed. Positivo, 2014) que guarda afinidades com histórias de encantamento e se caracteriza por uma linguagem poética. A leitura é tão cativante que não conseguimos parar no meio, nosso desejo é continuar a leitura até encontrar o ponto final.

            Aproveitando-se de uma antiga lenda sobre um sábio chinês que sonhava que era uma borboleta, Bagno escreveu uma história que envolve um encontro com uma borboleta, um sonho e a doença de um príncipe.
 
            O primeiro parágrafo do livro demonstra que estamos no mundo  encantado das palavras:  
            Num pequeno reino escondido entre as montanhas mais altas deste lado do mundo, a nove dias de viagem a pé dos muros de sua bela capital, morava em absoluta solidão um homem muito idoso, numa choupana às margens da grande estrada rasgada à sombra das vertiginosas vertentes. (p.7).

            E o que fazia esse homem solitário? Cultivava flores de várias qualidades, tamanhos e odores. Sua maior alegria era poder alegrar a vida das pessoas presenteando-as com flores.

            Um dia, cuidando do jardim, descobriu uma borboleta de indescritível beleza. O sábio jardineiro apaixonou-se pela borboleta, conversava com ela, tinha carinhos de pai. Agora não era apenas o jardim que exigia sua atenção, tinha outra tarefa a cumprir – cuidar da bela borboleta.

                Depois de alguns dias, observou que a borboleta escolhera uma folha, a maior de todas, e se escondeu sobre ela. O que estaria fazendo naquele esconderijo? Não quis espiar o que estava por trás da folha para não ser indiscreto. Saindo do seu recolhimento, a borboleta alçou voo, veio um pássaro vermelho apanhou a frágil borboleta e engoliu sem deixar vestígios. O jardineiro ficou desconsolado.

            E o narrador continua com sua prosa poética:
            Foi tudo tão veloz e tão triste que o jardineiro demorou alguns minutos até perceber que aquela história de amor, que mal tinha começado, já pertencia as páginas amareladas do livro da saudade. E por isso ele chorou uma única lágrima, pequena como a borboleta desaparecida, mas tão sincera quanto sua beleza. (p.13 -14).

             A história prossegue. O jardineiro ficou triste com o desaparecimento da borboleta, restava uma esperança – ela havia depositado alguma coisa naquela folha do jardim e daquele segredo poderia surgir uma nova vida.

             E vem o terceiro momento da história. Certo dia o velho sábio recebeu uma visita inesperada de três cavaleiros, eles disseram que eram médicos e estavam a caminho da capital para atender ao chamado do rei. O príncipe, um rapaz de dezoito anos, estava muito doente. O velho jardineiro resolveu enviar um presente para o príncipe – um pote de vidro e dentro do pote um ovo de borboleta. Se não tivesse o poder de curar o jovem príncipe, aquela lembrança  poderia proporcionar-lhe alguns momentos de satisfação, disse o velho jardineiro aos cavaleiros. 

            E o resto? O resto se não é silêncio, é apenas murmúrio. O velho sábio, o príncipe e a borboleta irão se encontrar em algum lugar.