domingo, 25 de setembro de 2011

Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável


Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O livro é uma extensão da memória e da imaginação.
(Jorge Luis Borges)

A Biblioteca Nacional, também chamada de Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, está localizada na Avenida Rio Branco, 219, Praça da Cinelândia. No dia 29 de outubro de 2010, completou 200 anos de existência. A história dessa biblioteca foi contada por Luciana Sandroni no livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” (Ed. Manati, 2011), que recebeu ilustrações de Eduardo Albini.
Luciana Sandroni já escreveu vários livros para crianças. “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” integra a série de livros de muito sucesso, destacando-se” Ludi vai à praia”, “Ludi na TV” e” Ludi na revolta da vacina”. Por este último livro, a autora recebeu o prêmio Carioquinha da Prefeitura do Rio de Janeiro e o prêmio O Melhor para Criança da FNLIJ. Com “Minhas memórias de Lobato”, conquistou o prêmio Jabuti.
O leitor deve estar curioso para saber como surgiu a Biblioteca Nacional. A história é longa, requer pesquisas, mas com o auxílio de Luciana Sandroni tudo se torna mais fácil. A história vai começar...
D. João I, rei de Portugal, e fundador da dinastia de Avis, foi o idealizador da primeira biblioteca ou “livraria” de Lisboa, denominação dada antigamente às bibliotecas em Portugal. Esse monarca era amante de obras raras e adquiriu muitos livros para o acervo da biblioteca. Em 1755, ocorreu em Lisboa um terremoto que destruiu grande parte dos livros da biblioteca. Alguns anos mais tarde, D. José I, outro rei de Portugal, procurou refazê-la adquirindo novas aquisições de obras raras.
Quando Napoleão Bonaparte invadiu Portugal, a família real se transferiu para o Brasil e, no sufoco da fuga, os livros da biblioteca que estavam encaixotados para embarque ficaram esquecidos no porto, somente dois anos depois chegaram ao Brasil.
A Biblioteca Nacional foi criada em 1810 por D. João VI e funcionou, inicialmente, no prédio da Ordem Terceira do Carmo, que ficava nas proximidades do Paço Municipal. Antes de se instalar definitivamente no prédio da Avenida Rio Branco (1910), a biblioteca passou por outros lugares. Chegou a hora de acompanhar a família Manso e visitar a atual Biblioteca Nacional.
A família Manso, criação da escritora Luciana Sandroni, é constituída pelo casal Marcos e Sandra, pelos filhos Ludi, Rafa e Chico, além de Margarida, auxiliar dos trabalhos domésticos, carinhosamente chamada de Marga.
Sábado foi o dia escolhido para visitar a Biblioteca Nacional. Enquanto tomavam café, Dona Sandra começou a falar sobre as relíquias guardadas na Biblioteca, todos ouviam com atenção, estavam curiosos. Os meninos já imaginavam que naquele prédio antigo devia habitar fantasmas e pensavam em aventuras com esses seres cheios de mistérios.
A visita tem início com a descrição da biblioteca – um prédio em estilo eclético, que é uma mistura de vários estilos da arquitetura – clássico, medieval, barroco. O guia da visita foi o senhor Botelho, “um senhor gordinho, de gravata borboleta, que parecia saído de um filme da década de 1940”. (p.37)
Depois da descrição do prédio, o que mais chamou a atenção dos visitantes foi o salão enorme, todo de mármore e cheio de colunas, uns lustres muito bonitos e uma escadaria coberta por tapete vermelho. É um prédio de quatro andares e no teto se avista um vitral todo colorido, vindo da França. A biblioteca parece um verdadeiro palácio.
No acervo da biblioteca, além de muitos e muitos livros há outras preciosidades que a família Manso vai descobrindo aos pouquinhos. Na Sala dos Periódicos, há várias estantes e aparelhos de microfilme. Lá se encontram jornais antigos e contemporâneos. São 9 mil jornais de todos os estados do Brasil. Eles estão microfilmados e alguns digitalizados. É possível ler o exemplar número 1 do “Jornal do Brasil” e também o número 1 do” Diário de Pernambuco” que traz a data de 1825, o jornal mais antigo da América Latina.
Na Sala de Iconografia, estão os livros que possuem mais imagem do que texto. Nesta sala se encontram, ainda, desenhos, caricaturas e gravuras de artistas famosos, como Debret e Rugendas. Há, também, fotos de Marc Ferrez e de muitos fotógrafos que registraram imagens do Brasil de um tempo passado.
Na sala 4, chamada Sala dos Manuscritos e Cartografia, há manuscritos importantíssimos, como o projeto da Lei Áurea, o processo criminal de Tiradentes, as cartas de D. Pedro I para a Marquesa de Santos e os preciosos manuscritos de Machado de Assis e Euclides da Cunha, além da partitura original de “O Guarani”, de Carlos Gomes. Todas essas preciosidades não podem ser manuseadas, só é possível conhecê-las na internet.
A visita é marcada pela presença de fantasmas de escritores, apagar de luzes, barulhos estranhos, muita coisa fruto das artimanhas da pequena Ludi que gosta de armar confusões.
A Biblioteca Nacional é uma das maiores do mundo. Se os argentinos se orgulham de Buenos Aires ter um elevado número de livrarias, os brasileiros se jactam, para usar um termo caro ao escritor Jorge Luis Borges, de ter a maior e melhor biblioteca da América Latina.
Para saber mais sobre a Biblioteca Nacional, indicamos a leitura do livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional”. É um livro divertido e muito informativo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

lima barreto para jovens

Lima Barreto para jovens
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
As glórias das letras só as têm quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega.
(Lima Barreto. Os Bruzudangas)
Clara dos Anjos e outros contos (Org. Ivan Marques. Ed. Scipione, 2011) reúne oito contos de Lima Barreto ilustrados por Marlette Menezes. O livro traz notas e textos críticos do professor de Literatura Brasileira da USP, Ivan Marques. Os textos do ensaísta vêm acompanhados de fotografias do Rio de Janeiro do início do século XX e tratam da questão racial do Brasil. A sua leitura permite uma compreensão mais aprofundada do pensamento e da obra de Lima Barreto.
Nos primeiros anos do século XX, os escritores mais prestigiados eram o romancista Coelho Neto e o poeta Olavo Bilac. Os dois cultivavam uma linguagem “castiça, empolada”. Lima Barreto repudiava este tipo de linguagem. O maior desejo do escritor era ser lido por pessoas simples e escrevia como o povo falava. Enquanto aqueles que procuravam a “literatura dos dicionários” são hoje esquecidos, a literatura de Lima Barreto permanece atual.
O Rio de Janeiro, principalmente a zona suburbana, foi o cenário escolhido para suas histórias. Os protagonistas de seus romances e contos são negros, mulatos e mestiços, aqueles que estavam à margem das classes dominantes.
Ivan Marques observa que a literatura combativa e forte do escritor é um instrumento afiado de ironia e senso crítico. Ele tudo questiona e a todos caricaturiza, especialmente os políticos, os burocratas e os literatos de seu tempo.
O conto de abertura da coletânea, “Clara dos Anjos”, foi publicado em 1904, é o embrião do futuro romance que recebeu o mesmo título do conto. É o texto que marca o início da carreira do escritor.
Clara dos Anjos, a protagonista, é uma pobre mulata suburbana. Seu pai era carteiro, gostava de música, tocava flauta e compunha valsas, tangos e acompanhamentos para modinhas. Acostumada às musicatas do pai, cresceu apaixonada pela “melancolia dos descantes e cantarolas”. Estava com dezessete anos quando conheceu Júlio Costa, um exímio cantor de modinhas. Quando ouviu o seresteiro cantar, o coração de Clara bateu mais forte, e Júlio só tinha olhos para “os seios empinados, volumosos e redondos” da moça.
Depois de algum tempo de namoro às escondidas, de encontros fortuitos no quarto da namorada durante a noite, a moça estava totalmente presa aos caprichos do ousado amante. O resultado era previsível. Clara dos Anjos engravida e o seresteiro Júlio desaparece de sua vida. A moça resolve procurar a mãe do rapaz e conta-lhe o que aconteceu entre os dois. A mãe de Júlio recebe-a rispidamente e manda-a embora afirmando que não tinha filho para casar-se com gente da laia de Clara.
Diante da recusa da mãe de Júlio em aceitá-la como nora, Clara reconhece seu estado de inferioridade. Quando vai ao encontro de sua mãe, chora e entre soluços diz:
“Mamãe, eu não sou nada nesta vida”. (p.29)
O sofrimento de Clara dos Anjos é um reflexo pungente das humilhações sofridas por todos os mulatos nos primeiros anos do século XX, no Brasil, incluindo-se, aqui, o próprio Lima Barreto.
O último conto da coletânea é “Miss Edith e seu tio”. O local escolhido para o desenvolvimento do enredo é a pensão “Boa Vista”, situada na praia do Flamengo. A pensão era administrada por Madame Barbosa, uma viúva de cerca de cinqüenta anos, auxiliada por Angélica, o braço direito da patroa. Angélica era cozinheira, copeira, arrumadeira, e lavadeira “Preta fiel” e submissa às ordens da patroa, cultivava uma gratidão ilimitada por Madame Barbosa.
Havia muitos hóspedes na pensão. Dona Sofia, viúva de um comerciante português; Dr. Magalhães, um bacharel habilidoso que tentava conquistar Dona Sofia; Melo, um empregado público; doutor Florentino que gostava de citar os Evangelhos. Viviam todos em harmonia. Para quebrar a monotonia da pensão, apareceram novos hóspedes – um casal de ingleses, melhor, um tio acompanhado de uma sobrinha. Pediram quartos separados e receberam toda a atenção de Madame Barbosa. Eram estrangeiros, gente muita fina, ingleses, surgindo até certo ciúme por parte dos hóspedes mais antigos.
Tio e sobrinha eram discretos, pouco se comunicavam com os hóspedes, mas é a astuta Angélica quem vai descobrir a farsa, e vem esta observação da sábia mulher:
“– Que pouca vergonha! Vá a gente a fiar-se nesses estrangeiros... Ele são gente como nós...” (p. 103)
O que Angélica presenciou entre o tio e a sobrinha só o leitor lendo o conto para saber.
Neste conto, Lima Barreto exerce a função crítica da literatura. Na opinião de Ivan Marques: “revela a força dos fracos, o talento dos negros, a beleza selvagem do Brasil”. (p.13)
E os outros seis contos? Estão à espera do leitor.

domingo, 28 de agosto de 2011

Memórias de um menino pescador


Memórias de um menino pescador
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Deixa-te levar pela criança que foste.
(José Saramago. Livro dos Conselhos)

A aldeia é Azinhaga, termo de origem árabe “as-zinaik” que significa “rua estreita”. O rio que banha a aldeia se chama Almonda. Foi aí que nasceu o escritor português José Saramago no ano de 1922.
Quando ainda não tinha dois anos, os pais migraram para Lisboa. A casa dos avós em Azinhaga não foi esquecida, era sempre visitada pelo menino, vinha passar férias na pequena cidade.
Em 2006, Saramago publicou “As pequenas memórias” (Companhia das Letras), um livro autobiográfico com retalhos de sua infância e parte da adolescência. Em 2011, a Companhia das Letrinhas lançou “O silêncio das águas”, com ilustrações de Manuel Estrada. Este último livro é um fragmento de “As pequenas memórias.”
Um dos divertimentos de Saramago quando ia visitar a avó, em Azinhaga, era pescar no rio Almonda. O livro “O silêncio das águas” narra a história de uma pescaria e as aventuras vivenciadas pelo menino.
A presença do rio é marcante na vida do escritor português. Saramago escreveu “Protopoema” que é uma homenagem ao rio de sua aldeia:
Do novelo emaranhado da memória, na escuridão de nós cegos, puxo um fio que me parece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
[...]
No livro “Viagem a Portugal”, o escritor lamenta que o Almonda seja, atualmente, um rio de águas mortas, envenenadas. Quando criança tomou muito banho em suas águas. Se não eram muito límpidas, não estavam contaminadas.
Vamos acompanhar Saramago e suas aventuras de menino pescador. Certa vez, munido dos apetrechos necessários saiu para pescar e ficou esperando que aparecesse algum peixe para ser fisgado. Nas horas de pescaria, gostava de ouvir o silêncio das águas.
De repente, sentiu um puxão muito forte, puxou, puxou e nada veio na linha. Anzol, boia, chumbada, tudo tinha desaparecido nas águas turvas do rio. Só podia ser um peixe muito grande o responsável por tamanho estrago. Surgiu, então, uma ideia, correu até a casa da avó, armou outra vez a vara de pescar e voltou para ajustar as contas definitivas com aquele peixe monstruoso.
Ao contar a avó o que lhe tinha acontecido e revelar que estava pronto para nova aventura, ela o alertou que seria difícil encontrar o peixe no mesmo local, mas o menino estava tão obstinado na operação de resgate que não ouviu, não podia ouvir e não queria ouvir o que avó lhe dizia.
Voltou ao rio, lançou o anzol e esperou. Foi nesse momento de grande expectativa que descobriu não existir no mundo “um silêncio mais profundo que o silêncio da água.”
Para saber se o menino conseguiu fisgar o peixe fujão, recomendamos a leitura de dois livros. Se for um leitor experiente, “As pequenas memórias”; se for leitor iniciante, irá gostar de ler “O silêncio das águas”.
Os vocábulos “experiente” e “iniciante” se referem às faixas etárias: fase juvenil, fase infantil.
Não poderia deixar de comentar as ilustrações de Manuel Estrada no livro “O silêncio das águas”. Para representar a expressão “boca do rio”, indicativo da foz do rio Almonda, Estrada desenhou uma boca enorme e uma enxurrada de água saindo pela boca.
As aves aquáticas, sempre espertas, ficam esperando algum peixe mais distraído, elas estão espalhadas em todas as páginas do livro. Muitas vezes se rivalizam com o pescador.
A avó retratada por Manuel Estrada é uma velhinha de óculos, avental, sentada em uma cadeira perto da janela fazendo crochê. Não falta um gato que brinca com um novelo de lã. As vovós modernas poderão reclamar do protótipo à moda antiga. Temos de retornar aos anos 30 e 40 do século XX, assim eram as nossas avós.
José Saramago é o único escritor de língua portuguesa que ganhou o Nobel de literatura. Com a publicação deste livro para crianças o escritor luso fica mais próximo do leitor infantil brasileiro.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola”


Livros, autores, leitores
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Tu escreves como o pássaro canta. Teu gorjeio?
Versos. Se não cantares, as manhãs seriam menos
vermelhas e os crepúsculos menos azuis.
(Tu Fu. Poeta chinês da dinastia de Thang. Trad. Cecília Meireles)

“Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola” é um dos últimos livros da coleção de crônicas para jovens da editora Objetiva. O autor é bem conhecido dos leitores brasileiros. As peças infantis “O Baile do Menino Deus”, “Bandeira de São João” e “Arlequim de Carnaval”, parceria com Assis Lima, já percorreram várias regiões do Brasil e tem agradado a todos, indistintamente.
Conheci Ronaldo nos idos de 1990, na apresentação do espetáculo “O Baile do Menino Deus”, no Teatro Guararapes, em Recife. Convidei-o, algum tempo depois, para uma conversa com os alunos de Literatura Infantil na UFPB. O escritor atendeu nosso pedido e veio a João Pessoa. A versatilidade do médico/escritor encantou os alunos e o livro “O Baile do Menino Deus” foi comprado por muitos. Alguns já eram professores e encenaram a peça nas suas escolas. Depois, encontrei o escritor no Seminário de Literatura Infantil na FAFIRE, Recife. Nos últimos tempos, os encontros foram com os livros – “Faca”, O pavão misterioso” (recriação), “Galileia”. Agora, nos chega um livro de crônicas.
O livro contém 41 crônicas de facetas diversas. Algumas se caracterizam por certa dose de humor, outras relembram fatos passados na infância. Destacamos aquelas que se voltam para livros, autores e leitores.
“O leitor e a bibliotecária” remete para a cidade de Crato, onde o autor passou parte da infância e adolescência. Havia uma biblioteca da diocese. Foi lá que o menino leu muitos livros, quase todos voltados para o Cristianismo. E segue esta observação: ‘Imagino que sou a única pessoa do mundo que leu a coleção Grandes Romances do Cristianismo, de que fazem parte títulos como Perseguidores e Mártires, Quo Vadis?, Otávio, Papai Falot, Ben-Hur, Os Últimos Dias de Pompeia, Os Noivos e por aí afora.” (p. 83).
Quando completou 14 anos, teve acesso à biblioteca da Faculdade de Filosofia de Crato e conheceu livros melhores. A bibliotecária descobriu que o adolescente gostava de ler e sempre avisava quando chegava um livro novo. Foi essa bibliotecária modesta, com seu fetiche pelo objeto livro e sua admiração pelo jovem leitor, que o seduziu para a leitura.
Convidado para a Festa Literária Internacional de Paraty, pediram-lhe que falasse sobre seu livro de cabeceira. E veio o dilema – se fosse para falar sobre os livros que se lê antes de dormir, os livros que estão na mesinha de cabeceira, nesse caso não existe nenhum, o escritor não costuma ler à noite e não conserva livros no quarto de dormir. Qual seria esse livro, o livro marcante que, embora distante da cabeceira, é sempre relido? E veio a confissão: “História Sagrada, que nada mais é do que uma seleta de textos da Bíblia hebraica, apresentada em dois subtítulos: Antigo Testamento e Novo Testamento”. (p. 32).
Embora não seja católico praticante, Ronaldo considera que a “Bíblia, livro possível de ser lido de muitas maneiras, é um legado de histórias a que podemos recorrer sem crença religiosa ou com fé de um crente. Inesgotável, possui as imagens dos sonhos, a épica, a tragédia, a poesia, a invenção, a genealogia, a retórica e os números.” (p. 33-34).
Uma das últimas crônicas - “Memória e bytes” está relacionada com uma conversa que teve com um amigo sobre poesia. O autor tentou se lembrar de um poema de Tu Fu, poeta chinês da dinastia de Thang, que foi traduzido no Brasil por Cecília Meireles. A memória o traiu, só se lembrava da primeira estrofe. Prometeu ao amigo que mandaria o poema por e-mail. Quando chegou em casa, conseguiu reaver o poema e enviou para o amigo, mas houve desconexão na hora da remessa e o poema extraviou-se. Desistiu de enviar o poema pelo correio eletrônico. Resultado: qualquer dia, quando encontrar o amigo, irá recitar as estrofes restantes.
Aqui vão as duas primeiras estrofes do poema de Tu Fu, citado na crônica “Memória e bytes”. O poema, como um todo, só o leitor consultando o livro “Poemas chineses Li Po e Tu Fu”, tradução de Cecília Meireles. Ed. Nova Fronteira.
“Vinde! Em redor de minha casa canta um riacho alegre como a primavera. Vereis talvez gaivotas, se o vento se levantar.”
A estrofe seguinte que foi esquecida:
“Como jamais recebo visitas, não mando varrer as aleias
do meu jardim. Pisareis num tapete de folhas.”
[...]
O poema prossegue. Fica a sugestão para a leitura completa.
A epígrafe do texto “Livros, autores, leitores” é a primeira estrofe de um poema de Tu Fu, pinçado do livro traduzido por Cecília Meireles.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Edgar Allan Poe: uma mente brilhante




Edgar Allan Poe: uma mente brilhante
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais

É só isto, e nada mais.”
(O corvo, primeira estrofe. Tradução Fernando Pessoa)

Jordi Sierra i Farra é catalão, nasceu em Barcelona, na Espanha. Amante da música foi, inicialmente, crítico musical. A partir de 1980, resolveu dedicar-se à literatura para jovens e já publicou cerca de 260 títulos. Em 2004, criou a Fundación Jordi Sierra i Fabra, na Espanha, e a Fundación Taller de Letras Jordi Sierra i Fabra para América Latina, na Colômbia. As duas fundações desenvolvem trabalhos sociais destinados aos jovens na área de promoção da leitura.
Jordi Sierra i Fabra vem publicando biografias romanceadas de grandes autores da literatura mundial. O livro Kafka e a boneca viajante (Ed. Martins Fontes, 2008) foi muito bem recebido pela crítica e ganhou o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil em 2007, concedido pelo Ministério de Cultura da Espanha. No Brasil, o livro foi traduzido por Rubia Prates Goldini e conseguiu o prêmio FNLIJ, 2009, como a Melhor Tradução para Jovem. Um comentário sobre este livro se encontra em “Livros à espera do leitor” (2009: 55-58).
Agora, o escritor catalão volta à temática da biografia romanceada e presenteia os leitores com o livro Poe: a vida brilhante e sombria de um gênio. José Rubens Siqueira foi responsável pela tradução e as ilustrações ficaram a cargo de Alberto Vásquez. O selo é da editora Ática, 2011.
Dividido em 10 capítulos, o leitor acompanha a trajetória de Poe, da infância aos últimos dias de sua vida, uma vida marcada por mortes prematuras de familiares, decepções amorosas e privações financeiras.
Edgar Allan Poe perdeu sua mãe quando contava apenas três anos. A mãe era uma artista de teatro e morreu aos 24 anos de tuberculose. O pai havia abandonado a família e Edgar, que era o segundo filho, foi adotado pelo casal John e Frances Allan. Com a adoção, o menino ganhou o nome de Edgar Allan Poe.
O menino Edgar, parafraseando a Bíblia, crescia em graça e sabedoria. Nas festas de aniversário, recitava A balada do último menestrel, obra do escritor Walter Scott. Era um poema muito popular na época. Todos olhavam encantados para aquela criança que revelava, desde muito cedo, pendores para a arte literária.
Quando estava com seis anos, a família dos pais adotivos viajou para a Escócia, terra do Sr. John Allan, e o menino acompanhou o casal. Durante os cinco anos de permanência na Escócia e em Londres, passou por três escolas e começou a escrever poemas. Como os negócios iam mal, John Allan resolveu voltar para os Estados Unidos.
Fixando-se em Richmond, Poe foi estudar na escola particular de Joseph Clarke, um professor irlandês irritadiço, mas amante do latim, língua utilizada em suas aulas. E foi a este professor que John Allan mostrou os primeiros poemas escritos pelo filho adotivo com o objetivo de saber se os poemas tinham algum valor e se podiam ser publicados. O professor desaconselhou a publicação dos poemas, alegando que o jovem poeta tinha apenas 11 anos, faltava-lhe amadurecimento literário.
Aos 14 anos, Poe apaixonou-se por Jane Stanard, uma senhora casada, 16 anos mais velha do que o futuro escritor. Foi um amor platônico que durou pouco. Jane Stanard gostava de conversar com o adolescente. Escutar a voz daquela mulher encantadora era algo fascinante. Conversavam sobre arte e literatura. Poe revelou certa vez:
“- Quero ser poeta, minha senhora”. (p.24)
Mas a vida de Edgar Allan Poe parecia marcada pelo fantasma da morte. Jane Stanard foi acometida de um tumor cerebral e, de repente, em apenas um ano, “Todas aquelas tardes de confissões, todos aqueles momentos mágicos, todos aqueles minutos, horas, dias...” (p.24) desapareceram para nunca mais. No túmulo de Jane Stanard, estava escrito na lápide: “Amada com devoção por seu esposo e filhos”. (p. 25) No silêncio, amargurado, triste com a partida da mulher amada, o jovem poeta repetiu baixinho: “E por Edgar Allan Poe”. (p.25)
O tempo tudo cura e Poe estava novamente apaixonado. A moça era uma vizinha, Elmira Royster, 15 anos, um ano mais velha do que Poe. Nova separação, desta vez por causa dos estudos. O pai resolveu colocar o filho para estudar em Charlottesville. Pouco tempo depois, morreu a mãe adotiva e Edgar estava novamente órfão. Órfão do carinho e das atenções de Frances Allan. Quando veio passar as férias em casa, outro golpe. Seu pai sentenciou:
“- Você não volta para a universidade”. (p. 28)
A partir desta data, começou a luta para conseguir emprego. Trabalha em jornais e revistas dos Estados Unidos, mas o que ganha é insuficiente para pensar em casamento. Mesmo assim, casa-se com a prima Sissy, esse fato não diminuiu as dificuldades financeiras. Em 1838, não era mais um desconhecido, era autor de alguns dos melhores contos publicados pela imprensa americana e um crítico muito ousado, mas nada parecia dar certo para aquele escritor inovador, iniciador de uma batalha contra o conservadorismo na literatura. A doença e morte da mulher, suas brigas constantes com os editores de jornais e revistas, tornou-o depressivo.
Edgar Allan Poe é considerado um mestre do conto, pai das narrativas psicológicas e de terror, precursor da literatura policial e da ficção científica, renovador do romance gótico e pioneiro da literatura americana. Sua influência se estende a escritores como Kafka, Borges, Lovecraft e Ray Bradbury. Foi uma mente brilhante.
Poe: a vida brilhante e sombria de um gênio traz ilustrações em preto e branco de corvos de tamanhos variados. Alguns tomam a página inteira, outros são minúsculos. Corpos de homens com cabeças de corvos promovem um encontro com o famoso poema de Edgar Allan Poe – The Raven.
O livro apresenta trechos do poema “O Corvo” (tradução de Fernando Pessoa), e trechos dos seguintes contos e poemas: “Manuscrito encontrado numa garrafa”, “A queda da casa de Usher”, “A máscara da Morte Escarlate”, “Ligeia”, “O coração denunciador”, “Os fatos no caso de monsieur Valdemar”
.

domingo, 7 de agosto de 2011

Histórias de Trem


Histórias de Trem
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Antigamente
via-se o trem
rasgando a paisagem verde
resfolegando cansado...
(Cláudio Limeira. Réquiem para Maria Fumaça)

Trem de histórias – Antologia de contos juvenis (Caki Books Editora, 2011) reúne textos de autores e ilustradores associados da AEILIJ – Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantojuvenil. Compreende contos, crônicas e poesias. O trem é o personagem fulcral dessas histórias.
Antônio Nunes (Tonton), um dos integrantes da antologia, é paraibano de João Pessoa, professor da UFPE e autor premiado de livros para o público infantil e juvenil. É coordenador regional da AEILIJ em Pernambuco.
Trem de histórias traz de volta as lembranças das viagens de trem pelo interior do Brasil. Algumas vêm revestidas de um tom nostálgico. “O trem que não se foi”, de Alessandra Pontes Roscoe, é um bom exemplo; “Um trem para as meninas”, de Antônio Nunes (Tonton), retrata o cotidiano de uma família e o presente dado à filha – um trenzinho todo artesanal feito de madeira. A antiga parada de trem “Estação Ponte D´Uchoa” é motivo para divagações; “Trem de infância”, de Cláudia Gomes, é um poema de sabor bem mineiro; o bonde, primo-irmão do trem, é destaque no texto de JP Veiga – “O trilho”.
São 20 histórias que transportam o leitor para paisagens que só podem ser desfrutadas em uma viagem de trem. Alguns textos remetem a conhecidos poemas: Manuel Bandeira – “Trem de ferro”; Ascenso Ferreira – “Trem de Alagoas”; Marcus Accioly – “do trem-de-ferro”; Joaquim Cardozo – “Última Visão do Trem Subindo ao Céu” e Cláudio Limeira – “Réquiem para Maria Fumaça”.
As bonitas ilustrações do livro começam com uma xilogravura de um trem Maria Fumaça na capa. Esta ilustração nos lembra o poema de Ascenso Ferreira – “Trem de Alagoas” – um trem deslizando nos trilhos, soltando fumaça. Compondo a paisagem, um cajueiro carregadinho de frutos. Em terceiro plano, avistam-se bueiros de antigos engenhos. É uma ilustração saudosista e muito poética.
Identifiquei-me com a crônica de Luiz Antônio Aguiar – “Esse trem que me falta na lembrança” (Trem de histórias, p.55). Como o escritor, não conheci o trem na minha infância. Nasci e passei os primeiros anos de vida em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte despovoada de trens e de trilhos. Sinto a nostalgia de não ter viajado de trem na fase da aurora da vida.
Quando ouve falar em trem, Luiz Antônio Aguiar confessa que escuta o tchu-tchu do seu coração e bate uma saudade muito grande. Ele se recorda das músicas de Milton Nascimento e das cidades históricas de Minas Gerais – Ouro Preto, o convento de Caraça, tudo ali parece parado no tempo.
“Minha primeira viagem de trem” é o conto de Rosana Rios. A viagem foi feita na adolescência com um grupo de amigos. O trem saiu da estação Júlio Prestes e rumou para Mairinque, corria a década de 70. E foi um passeio inesquecível. Na volta, arranjou um namorado, companheiro de viagem.
As viagens de trem foram responsáveis por muitos encontros e desencontros, lenços balançando ao vento nas despedidas, choro das pessoas que ficavam nas plataformas, saudades e coração partido naqueles que iam em busca de novas aventuras.
Simone Pedersen conta uma história do ponto de vista de um maquinista de trem, o título é “O condutor”. Um trem turístico parte da Estação da Luz e vai para Santos. A viagem é demorada, com paradas para apreciar a paisagem. O trem anda por trilhas sinuosas, invade a privacidade da mata, desnuda flores, plantas, árvores e quedas de água. Para o condutor, esta é a melhor viagem da semana. As pessoas vão para um passeio, transbordam felicidade, “vão salgar a alma na praia”.
Uma pesquisa sobre o trem na poesia brasileira, trabalho desenvolvido com os alunos de Literatura Infantil na UFPB, me levou a muitas descobertas e amenizou o vazio deixado por essa saudade esquisita e inexplicável do trem que não povoou a minha infância.
O livro “Trem de histórias” veio relembrar os poemas que deram margem à pesquisa e reviver um período que deixou boas lembranças, lembranças poéticas.
Nota: No jardim da sede UBE/PE, Rua Santana, bairro de Casa Forte, existe um vagão antigo de trem que funciona como biblioteca. O vagão está cheio de livros e de sonhos.

domingo, 31 de julho de 2011

O essencial de Kafka para jovens


O essencial de Kafka para jovens
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Tudo que não é literatura me aborrece.
(Franz Kafka)

“Essencial Franz Kafka”, seleção, introdução e tradução de Modesto Carone (Penguin Companhia, 2011) é um livro que introduz o leitor jovem no mundo enigmático e fantasmagórico de Kafka. Contos, parábolas, aforismos e a novela “Metamorfose” integram este instigante livro. Cada texto vem antecedido de um breve comentário do tradutor que é profundo conhecedor da obra de Kafka. Dos 13 contos selecionados, dois nos chamaram a atenção - “O cavaleiro do balde” e “Na galeria”.
“O cavaleiro do balde” foi escrito no inverno de 1916. Nessa época, Kafka morava em Praga, na Rua dos Alquimistas, mas o conto só foi publicado em 1921 em um suplemento de Natal, jornal Prager Press, no dia 25 de dezembro. O texto pode ser lido como conto de fadas à maneira kafkiana ou um conto de Natal.
O protagonista é um homem anônimo que está sem carvão. O frio é intenso, mesmo assim ele arrisca sair de casa e vai até a uma carvoaria para pedir um pouco de carvão. Está sem dinheiro e caminha pelas ruas duras de gelo conduzindo um balde. Diante da porta de uma carvoaria, ele pára e pede:
“- Por favor, carvoeiro, me dê um pouco de carvão. Meu balde já está tão vazio que posso cavalgar nele. Seja bom. Assim que puder eu pago.” (p.130)
O carvoeiro diz que não está ouvindo bem e pede ajuda da mulher para atender a um freguês antigo. Ele o reconhece pela fala e sente-se tocado por aquela voz aflita. A mulher finge não ouvir a súplica do homem e grava bem estas palavras: “pago tudo, mas não agora, não agora”.
As duas palavras “não agora”, parecem um som de sino e se misturam de forma perturbadora ao toque do anoitecer da igreja vizinha. Sabendo que não ia haver pagamento, a mulher desamarra o avental e enxota o pobre homem. Diante da recusa do pedido, o cavaleiro diz em tom de solilóquio:
“Meu balde tem todas as vantagens de um bom animal de corrida, mas não resistência; ele é leve demais; um avental de mulher tira-lhe as pernas do chão.” (p.131)
E o conto termina de forma poética e nostálgica, com destaque para o pensamento do protagonista:
“E com isso ascendo às regiões das montanhas geladas e me perco para nunca mais”. (p.131)
Quem visita a cidade de Praga encontra, em uma das principais praças do centro, uma estátua de bronze com um cavaleiro cavalgando um balde, homenagem ao famoso conto de Kafka.
“Na galeria” é outro texto que merece um olhar mais atento. O conto foi escrito depois que Kafka visitou uma exposição de quadros de Picasso numa galeria de Praga na companhia do amigo Gustav Janouch. Janouch comentou com Kafka que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas. Kafka não concordou com a opinião do amigo e deu esta interpretação: “Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”. E complementa: “A arte é um espelho que adianta como um relógio”.
Modesto Carone escreveu um longo ensaio sobre este minúsculo conto que foi publicado em “Novos Estudos CEBRAP”, 2008, com o título de “Na galeria, ou o realismo de Franz Kafka”.
Para Carone, Kafka estava “sugerindo que Picasso refletia algo que um dia se tornaria lugar-comum da percepção – não as formas, mas as deformidades”. (p.155)
Na percuciente análise deste conto, formado apenas por dois parágrafos, Carone discute aspectos do emprego verbal. No primeiro parágrafo, há predomínio do subjuntivo que em alemão, tanto quanto em português, designa a irrealidade, um estado de dúvida. No segundo parágrafo, a abundância de verbos no modo indicativo indica o espaço afirmativo da realidade.
Ainda é Carone quem assevera: “Tanto o primeiro parágrafo como o segundo têm o mesmo cenário e no fundo narram o mesmo acontecimento, embora as perspectivas sejam diferentes e a atmosfera dos dois não seja a mesma.” (p.157)
Os aforismos que se encontram neste livro foram reunidos a partir das conversas de Kafka com o poeta Gustav Janouch, autor do livro “Conversando com Kafka”, das anotações dos diários, escritos de 1909 a 1923-1924 e do período em que o pensador de Praga morou com a irmã Otla, em uma propriedade de Zürau.
Carone considera que este tipo de escrita testemunha a preocupação do escritor com a vida e a morte. Os aforismos também coincidem com o gosto de Kafka pela narrativa breve (contos, novelas, parábolas). 109 aforismos foram reunidos neste livro.
Apresentamos apenas uma parte mínima do rico universo kafkiano, o resto fica para o desvelamento dos leitores. Concluímos estas breves observações com este aforismo de Kafka:
“O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está situada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser trilhada”. (p. 189)